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A semana política foi abalada pelas manifestações no Porto, pelas confusões no Ministério da Administração Interna, mas fica sem dúvida marcada pela entrevista de Pedro Passos Coelho no domingo à noite, na SIC. O antigo primeiro-ministro assumiu claramente que está disponível para voltar e em que circunstâncias. Isto numa altura em que os estudos de opinião mostram um PSD em queda, em terceiro lugar nas intenções de voto. Vamos tendo vários barômetros, tracking polls, sondagens, enfim, cada uma com os seus resultados, mas não andam muito longe disto. E é sobre este momento político do PSD que vamos falar neste explicador. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França, que é o nosso convidado. Judite.

José Eduardo Martins foi por duas vezes secretário de Estado, foi deputado do PSD. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. Pedro Passos Coelho-

Obrigado vocês por convite

...admitiu voltar caso o PSD não tenha um resultado satisfatório. É uma boa notícia?

Posto nesses termos, Judite, é um bocadinho difícil, porque isso então presume que o PSD não terá um resultado satisfatório e eu, como eleitor do PSD, gostava que esse resultado satisfatório, tal como Pedro Passos Coelho acabou por dizer nessa entrevista, fosse verdade. Agora, há uma coisa que é fácil de perceber. Eu ainda tenho alguma expectativa sobre isso. O Pedro Passos Coelho não tem nenhuma, porque senão não teria dito essas coisas dessa maneira, como é evidente, isso é uma maneira educada de dizer: "Eu não acredito naquilo que o PSD está a fazer. É a mesma gestão prudente, os mesmos compromissos de curto prazo e o mesmo medo dos custos eleitorais que tem o Partido Socialista e, portanto, eu para isso não contem comigo." Foi o que ele quis dizer. Eu acho isso, de certa maneira, um bocadinho exagerado. Não me parece que essa equivalência entre António Costa e o PSD atual seja evidente. Acho que apesar de tudo há diferenças reais e até estranhas. Nós temos hoje a esquerda a carregar na redução dos impostos indiretos que tratam ricos e pobres da mesma maneira e o PSD a insistir nalguma progressividade da tributação, que é tradicionalmente um credo de esquerda, mas há ainda diferenças reais na fiscalidade, na relação com os privados, no código de trabalho, nas outras coisas todas. Agora, vamos lá ver uma coisa. É absolutamente legítimo que um político não se esconda, que tenha ambição, que diga ao que vem e que, no fundo, transporte, como Pedro Passos Coelho transporta consigo desde o tempo da troika, uma agenda liberal reformista de quem acha que, por exemplo, aquilo que estamos a assistir esta semana, de que vocês já falaram, que é independentemente de quem e como se manifesta a crise de habitação, é uma coisa absolutamente real. Um país que em três décadas o teve a ele a governar no tempo da troika com o memorando do estrangeiro, mas que fora disso teve sempre socialismo, é um país que tem 10% da habitação pública que existe na liberal Holanda do Norte. Portanto, Pedro Passos Coelho tem direito a sonhar, desde que isso tenha legitimidade democrática, como qualquer outro, a implementar uma política pública de agenda liberal. Fazê-lo com o Chega me parece uma coisa extraordinária, porque eu não vejo onde é que o Chega estaria alguma vez disponível para isso.

Já lá vamos. Já quero ir a essa parte, José Eduardo Martins.

Eu sei que quer, Ricardo.

Sim, mas queria primeiro também perceber como é que olhou para a resposta de Luís Montenegro com "espero sentado ou esperem sentados". O primeiro-ministro fez bem em responder publicamente depois da entrevista?

Não, eu acho que não, acho que foi um bocadinho too much e não era preciso. Justamente, acho que o primeiro-ministro se se queria preservar, não devia ter feito assim uns remoques tão diretos. Novamente, tal como ninguém ouviu Pedro Passos Coelho falar e acreditou que ele acreditasse no primeiro-ministro, embora não tenha essa responsabilidade e essas funções, toda a gente percebeu que todos os apartes que Luís Montenegro disse no dia a seguir sobre estarmos de bem com a vida ou de mal com a vida, as birras e a falta delas, não me parecem assim extraordinárias para a pronúncia de um primeiro-ministro. Mas oiça, os tempos são o que são, a gente vai vivendo com o que tem.

Acusou o toque, não é?

Claro, acusou o toque, sim. Sabe, a circunstância de vocês fazerem o favor de me ouvirem e explicarem com toda a verdade que eu sou militante do PSD não deixa de me encontrar, apesar de tudo, naquela situação absolutamente livre de quem não tem nenhuma intenção, agenda ou vontade de fazer política mais do que pensar em voz alta. E portanto, isso permite-me dizer sim, claro que sim, evidentemente que nem um nem o outro neste momento têm admiração, pelo menos, se calhar respeito é uma palavra demasiado forte, pelas posições respetivas e são adversários. Mas olhe que nisso Pedro Passos Coelho consegue uma espécie de match, de bingo, porque eu não ouvi o Miguel Morgado ou o Miguel Poiares Maduro ou o Carlos Moedas, só para falar de gente que-

De relevo

...despontou para a política com o Pedro Passos Coelho. Eu não vi nenhum deles a pôr o braço no ar a dizer: "Pedro, vai em frente que tens aqui a tua gente."

Exato, isso leva-me a outra pergunta, José Eduardo Martins. Conhece muito bem o PSD, conhece muito bem o partido. Ora, para um eventual regresso de Pedro Passos Coelho Não bastam a que me têm disponível.

Não, isso no PSD não basta nunca.

É muito complicado, não é?

É como aquelas coisas das redes sociais. Passos Coelho e o PSD neste momento, de fato, parece-me complicado. É aquela coisa de uma relação é complicada. A relação Passos Coelho com o PSD neste momento é complicada. O PSD teve eleições, tem uma estrutura que eu acho que está mais ou menos aliada, contente com o poder, que é uma coisa que não tinha tido. E aliás, tudo isto é um bocadinho estranho. Não costuma haver challengers de primeiros-ministros no PSD. Isso não é uma tradição. O PSD tem uma tradição de saco de gatos, mas não é exatamente isto. É uma coisa um bocadinho diferente.

É preciso deixar cair o primeiro-ministro antes de avançar. No PSD é essa mais ou menos a tradição.

É mais ou menos essa a tradição, mas eu aqui também não vejo projetos.

Mas os tempos estão a mudar a olhos vistos, não é, José Eduardo Martins?

Os tempos são muito rápidos agora, especialmente com a inteligência artificial, tudo muito mais depressa do que era antes. Eu pessoalmente gosto de coisas feitas devagar, que sinto-me cada vez mais atrapalhado. Mas vamos falar um bocadinho de implementar uma agenda liberal com o Chega, que eu por acaso sobre isso tenho a maior das curiosidades, como é que era possível.

Como é que Passos Coelho defende um entendimento entre o Chega e a IL era uma boa solução para AD governar? O Chega seria um bom parceiro?

Impossível. Impossível por várias razões. Deixe-me explicar. E não é por causa da decadência das figuras que fazem, das estrambiqueirices. Não é por causa de nada disso. Pelo desapego à liberdade, à democracia. Não é por nada disso. Nós não precisamos de sair em nada daquilo que é uma agenda liberal reformadora pra perceber que ela é impossível de implementar com um partido que nas suas raízes é populista, nacionalista e protecionista. Vamos lá fazer até uma listinha de substância que ainda não se fez, eu acho, ao longo da semana, em que pontos é que pegaria. Pedro Passos Coelho deu logo alguns exemplos. A reforma da Segurança Social e do Código de Trabalho. Com o Chega? Impossível. O Chega quer baixar a idade da reforma e acha que basta que haja menos corrupção. O Chega é contra qualquer alteração ao Código de Trabalho que não tenha correspondência na Segurança Social. A privatização da TAP, que agora queremos a 100%. Como é que Passos Coelho fazia isso com o Chega? Não podia. O Chega não quer nenhuma dessas coisas. O Chega, na verdade, não pode querê-las por uma razão muito simples: porque há aqui uma ilusão neste raciocínio de base dessa grande coligação de direita, que é imaginar que aqueles 60% de votos correspondem à soma de um eleitorado de direita num país pobre. Isso é muito pouca coisa.

Há muito eleitorado descontente nesses 60%, é isso? Acha que é um voto de protesto.

Evidentemente, todas as análises do voto do Chega são voto de protesto. No dia em que o Chega sufragaça a agenda de Pedro Passos Coelho ir além da Troika ou qualquer coisa do gênero, as pessoas deixavam de passar da esquerda pra votar no Chega. Isso não existe. O Chega não é um partido que possa fazer ou apoiar, fazer nunca faria, porque pra isso é preciso estudos. Mas não é um partido que pudesse apoiar. Eu não consigo perceber, eu ainda hoje li no vosso jornal o artigo do Rui Ramos, com o qual concordo no fim. Acho que uma agenda reformista de rutura só pode ser protagonizada pelo Passos. A ideia de que convocar o Chega e a Iniciativa Liberal a assumir responsabilidades tinha resultado ou fazia uma maioria direita pra esta agenda reformista, parece-me uma temeridade, uma impossibilidade. Gosto particularmente da frase: "Confrontar o Chega com as suas responsabilidades." Boa sorte.

Mas isso não seria uma boa estratégia por parte do PSD, pelo menos com António Costa à esquerda, resultou a favor de António Costa.

Mas vamos lá ver, estamos pela substância ou pela tática casuística? É que se o propósito de fazer diferente é mesmo, e atenção, eu não me ponho contra o fazer diferente e não acho que ninguém o protagonizasse melhor que o Pedro Passos Coelho, e acho que é um homem com uma grávidas acima de muito do que se passa. Quase tudo. Mesmo tudo. Agora, a ideia de que conseguíamos mudar o país com o Chega na mochila? Não. O Chega é mesmo um fator de retrocesso. É claro que há muita gente no PSD que tem esta ideia farisaica, os mais à direita que sufragam essa tese, que diz: "Isto é uma gente que fala, mas na verdade só quer estar no poder e dá-se-lhes um postigo e ficam todos contentes e o resto somos nós que lideramos e fazemos." É isto que pensam algumas pessoas próximas de Pedro Passos Coelho. No fundo, eu percebo esta desvalorização do Chega. Olho pra eles e também não vejo ali grandes convicções. Agora, há uma coisa que eu sei, é que as convicções deles dependem de continuar a ter votos, continuar a ter votos depende de fazer o contrário do que Pedro Passos Coelho quer fazer ao país.

José Eduardo Martins, Luís Montenegro tinha margem pra chegar a um entendimento com André Ventura depois de ter baseado a campanha no não é não?

Evidente que não. Se ele ganhou por uma unha negra, depois de ter dito que não era pra-- e vamos ver uma coisa. Sinceramente, eu acho que a maior parte das pessoas do PSD, pelas mais diversas razões Tem muita dificuldade em identificar o Chega ou os seus como parceiro. Até pode ser o porto de abrigo das pessoas que não tiveram sucesso no PSD, mas isso não faz daquilo uma coisa parecida ou próxima do PSD, mas sobretudo, faz daquilo uma coisa muito pouco parecida com o que eu acho que Pedro Passos Coelho quer e sente que deve fazer. É isso que me perturba, é isso que me causa estranheza. Uma pessoa olhar para a demagogia constante, cotidiana, que se atrapalha a si própria de André Ventura, e esperar ter aqui um parceiro para fazer as reformas com dureza que o país precisa para se preparar para um tempo que já não volta atrás e que vai ser de conflito e de escassez, como temos visto nessas manifestações e no agravar da desigualdade na Europa.

E acha que o Pedro Passos Coelho foi demasiado brando na entrevista quando falou de André Ventura?

Não, eu acho que ele foi absolutamente rigoroso. Ele não disse que ele era um homem inteligente, genial ou com uma política adequada para o país. Disse que era uma pessoa com mérito, que colocava questões. Ou seja, disse por outras palavras, conseguiu, ao contrário do individualismo liberal woke do Bloco de Esquerda, que fez com que o partido desaparecesse, este conseguiu, com o populismo, fazer o partido passar a 30% e a efetiva força política em meia dúzia de anos. Isso tem mérito? Claro, tem mérito eleitoral e, portanto, eu acho que é um bocadinho isso que Pedro Passos Coelho diz, na esperança de que aquele eleitorado seja uma mola útil para a transformação que ele quer. É aí que nos distinguimos. Eu acho que eles não estão lá para isso.

O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, disse em entrevista ao Expresso hoje que não se pode exigir a Luís Montenegro seguir a estratégia de Passos Coelho.

Sim, pelo menos.

Concorda com isso?

Claro.

Deixe-me aproveitar então-

Mas vamos lá ver, mas o Miguel Pinto Luz é ministro desse governo, portanto presumo que seja a estratégia de todos.

E como é que a estratégia de Passos Coelho se pode materializar? Há muita gente que anda a fazer contas.

Por outras palavras, como é que Pedro Passos Coelho pode ser primeiro-ministro?

Exatamente.

Ganhando eleições.

Mas afrontando Luís Montenegro pela liderança do PSD?

Isso estou como o Miguel Moura estava, nunca vai acontecer. Eu acho que Pedro não é disso. Não creio. Não sei, não estou na cabeça dele, não lhe telefonei a perguntar, mas não creio. Não o estou a ver candidatar-se a eleições no PSD. Se for o caso, até se ganhava com a clareza, como lhe digo. Nem é tanto. Eu há bocadinho disse assim: acho difícil que ele ganhasse as eleições no PSD se candidatasse, tendo a certeza que não é por esse cálculo de ganhar ou perder que ele se candidata ou deixa de se candidatar. É mesmo porque eu acho que ele se acha um bocadinho acima dessas coisas e se calhar tem razão.

E Pedro Passos Coelho, daquilo que conhece, nunca aceitaria desfiar um governo sem eleições.

Não, isso é o doutor Centeno que se quer comparar a ele. Isso era o doutor Centeno que estava todo lampeiro a aproveitar o que de outra maneira nunca conseguiria. A comparação entre os dois só ocorrerá mesmo ao doutor Centeno, caramba, acho eu. Não sei.

José Eduardo Martins, mas que avaliação é que faz do governo nesta altura? Olhando para os tracking polls, para os barómetros, para as estudos de opinião, PSD a surgir em terceiro, que avaliação é que faz?

Que governar é difícil.

E isso é o peso de estar a governar, é isso?

Eu acho que é, sinceramente. E depois também houve um conjunto de coisas que não correram bem ao governo.

Luís Neves, por exemplo?

Para não ir mais longe, sim. Mas repare, eu olho para isso com um sorriso meio cínico, não leva a mal. Eu acho que o Luís Neves foi muito amigo dos outros ministros todos. Eu não vi ninguém falar de problemas de saúde no Algarve, de problemas de resíduos no centro, de problemas nenhuns a não ser dos problemas de Luís Neves. E portanto acho que isso de certa maneira correu mal pelas razões que todos já vimos. Mas se calhar é um bocadito injusto para o ministro da Administração Interna e para o Ministério da Administração Interna. Acho que as coisas correram muito bem com a TAP, têm estado em geral a correr bem. Apesar dos reveses, há um ar de mudança positiva na educação, há várias coisas positivas. O resto é assim, governar é difícil.

E esta carga policial na Praça Dom João I faz parte da governação difícil? Ou pode ser algo pior?

Esta carga policial na Praça Dom João I não imagino que tenha sido decidida por um ministro. Vamos lá ver, a gente tem que esperar o mínimo de normalidade do país. Há uma manifestação, é a polícia que intervém. Eu ainda estou muito distante de perceber, porque leio relatos muito diferentes e muito contraditórios sobre se houve ou não provocação no tema das tendas, se a força foi ou não foi excessiva. Claro que, seja o que for, se alguém tivesse decidido fazer isto, não leva a mal, era estúpido, porque evidentemente ontem as pessoas que se manifestavam eram 50 vezes mais do que na véspera, naturalmente, porque aquilo provocou essa reação. E mais, as pessoas em casa, eu só tenho um bocadinho de medo nestas manifestações, novamente vocês percebem que poucas coisas me motivam como tentar fazer com que as pessoas percebam que do populismo não vem solução nenhuma e desta direita extrema que nós temos não vem solução nenhuma. Se lembram-se o que aconteceu em 68? Lembram-se, quer dizer, acho que ninguém se lembra, eu não era nascido, como é evidente. Eu nasci no ano a seguir.

Nenhum dos três se lembra muito bem .

Mas ouça. Mas ninguém se lembra muito bem, mas sabemos que morreu Daniel Carneiro e outros filhos. Ok?

Claro.

Então o que é que aconteceu a seguir? O senhor de Gaulle convocou as eleições, os estudantes foram fantásticos, mas a direita teve a maior maioria de sempre a seguir. Claro que não era uma extrema-direita, mas a reação das pessoas em casa, mesmo como sentem quando eu sinto o problema da habitação na pele dos filhos e o problema da habitação como real e legítimo, quando veem a omnicausa que vai da Palestina à habitação na rua, só têm respeito por uma manifestação de verdade como a de ontem. E depois, eleitoralmente, normalmente não permeiam esse tipo de coisas. E o que eu achei foi que boa parte da manifestação do Porto, ao contrário dos estudantes de França, que até chegarem os grupos extremistas às manifestações conseguiram distanciar-se do Mélenchon, aquilo parecia uma manifestação do Bloco de Esquerda, para ser muito sincero. E portanto, a de ontem não era. A de ontem seguramente não era.

José Eduardo Martins.

A das tendas era.

Muito obrigado pela sua disponibilidade e por ter estado aqui à conversa conosco neste Explicador da política. Obrigado.

Bom fim de semana para vocês. Obrigado.