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Na terça-feira, aqui na Rádio Observador, falamos na possibilidade do gasóleo subir mais de €0,20 por litro, já na segunda-feira. Entretanto, os números foram sendo avançados e calibrados e as contas foram sendo feitas. O que é facto é que esta sexta-feira está a ser um dia de filas nos postos de abastecimento, com os portugueses a tentar poupar algum dinheiro perante este anúncio de aumentos severos no preço do gasóleo, sobretudo, da gasolina também, mas mais no gasóleo. É uma das consequências da guerra no Médio Oriente. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E connosco está a Mafalda Trigo, vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis. Bem-vinda, obrigada pela disponibilidade. A corrida aos postos de abastecimento já começou?
Boa tarde. Em primeiro lugar, queria agradecer à Rádio Observador o convite e desejar também uma boa tarde a todos os ouvintes. Quanto à corrida aos abastecimentos, efetivamente, já temos sentido desde o início da semana, essa procura que aumentou consideravelmente. E hoje, veio com o culminar do desfecho dos mercados em que está a aumentar cerca de €0,25 no gasóleo e de €0,08 na gasolina. Estes valores não se vão sentir exatamente assim, porque no que diz respeito ao gasóleo, o governo veio efetuar uma medida em que iria refletir o aumento, no caso do gasóleo, se o aumento fosse superior a €0,10, iria fazer refletir o aumento da receita por via do IVA na baixa proporcional do ISP, o que significa que neste momento vamos assistir a um preço no gasóleo de cerca de €0,195, €0,20. No caso da gasolina, como foi inferior aos €0,10, neste momento há uma previsão de subida de €0,08, que deve ficar já final, não irá ter qualquer apoio do governo.
Isto perante a corrida, posso aqui partilhar o meu caso, agora à hora de almoço tentei ir abastecer o carro aqui à volta de Alvalade, temos vários postos de abastecimento nas redondezas dos estúdios. O que é facto é que as filas já eram gigantes e eu acabei por desistir. Isto pode levar a uma rutura no abastecimento, por exemplo, do gasóleo?
Poderá levar a uma rutura num ou outro posto de combustível, que se deve não a falhas do produto, a nível geral, a nível do país, mas sim o estoque do posto em questão que pode ter terminado. E como não há capacidade de transporte para reabastecer os postos, significa que momentaneamente pode, num ou outro ponto, efetivamente deixar de ter o produto. A situação vai ser reposta no início da semana, assim que os transportes voltem a ficar libertos e possam entregar livremente.
Ou seja, se por acaso um posto hoje ficar sem gasóleo, só segunda ou terça-feira é que conseguirá repor, é isso?
Exatamente. O que não quer dizer que haja alguma falha ou perigo de falha nos abastecimentos, porque nós, Portugal, temos reservas para cerca de três meses. O que neste momento, devido à afluência, não foi possível assegurar que todos os postos ficassem com as necessidades supridas até ao início da semana.
Por que o gasóleo está a ter um aumento significativamente maior do que a gasolina?
O preço do gasóleo e da gasolina, embora sejam ambos derivados do petróleo, são produtos refinados, portanto, não são exatamente para as mesmas utilizações nem para os mesmos fins. Assim sendo, por exemplo, sendo a gasolina mais direcionada para veículos ligeiros e para uma utilização, por exemplo, de motosserras, dentro dessas utilizações, com um consumo bastante inferior. Neste momento está a ter uma procura mais baixa, mais reduzida e, portanto, acontece que o gasóleo acaba por ter um aumento muito superior. Não quer dizer que tenha sido sempre assim. Tem alturas em que realmente a gasolina acaba por ter um aumento superior ao do gasóleo. São produtos com a mesma base, mas produtos diferenciados, são produtos refinados e, portanto, acaba por ter um comportamento diferente.
Estamos agora na primeira semana de conflito. As lideranças dos países, nomeadamente dos Estados Unidos, dizem que em três ou quatro semanas esperam ter terminado esta ofensiva. É de esperar aumentos desta ordem semana a semana ou nessa altura é impossível prever isso?
É impossível prever mais do que uma semana. No entanto, penso que não será Praticamente possível que haja um aumento novamente desta ordem de grandezas. Pode voltar a subir, por exemplo, 0,05€, 0,06€ por litro, mas não me parece que possa haver, em duas semanas seguidas, um aumento em tal ordem de grandeza.
Este é um recorde no preço do gasóleo?
Enfim, quando iniciou a guerra da Ucrânia, de uma semana para a outra, houve um aumento de 0,25 €. Portanto, se por acaso o governo não tivesse apoiado na baixa do ISP, eventualmente seria um aumento com a mesma ordem de grandeza que aconteceu há quatro anos. Como, entretanto, o governo assumiu parte do desconto do ISP em favor do consumidor, já não é um preço na mesma ordem de grandeza. No entanto, nós não sabemos quanto tempo é que irá durar a guerra. Pode ser três ou quatro semanas, mas também, na altura, há quatro anos, quando iniciou a guerra na Ucrânia, também se falava que seriam três ou quatro semanas e já vão lá quatro anos e ainda não acabou.
E este alívio no ISP é de alguma forma suficiente? Mafalda Trigo, talvez a chamada tenha caído. Estávamos a falar com a vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis. Isto numa altura em que se registam já grandes filas nos postos de abastecimento. Perdemos o contacto com Mafalda Trigo, que é vice-presidente da ANAREC. Estamos a tentar recuperar a ligação, até porque seria interessante perceber, do lado dos revendedores de combustíveis, se é possível ou não também uma baixa de preço, uma vez que muitos têm políticas de promoções que envolvem cartões e recompensas, o que leva muitas vezes as pessoas a usar sempre o mesmo posto de combustível numa lógica comercial, e saber se por aí também é possível ou não baixar ou controlar os preços. Já temos de novo a Mafalda Trigo em linha conosco e, Judite, estavas a fazer uma pergunta.
Estava a perguntar à Mafalda Trigo se este alívio no ISP de alguma forma é suficiente ou se era preciso mais.
Enfim, mesmo com este alívio, estamos a falar num aumento de 0,195 €, o que no nosso entender é muito penalizante para os consumidores, sejam eles particulares ou empresariais. Nesta altura, o que o governo poderia fazer era abdicar uma parte da receita fiscal. Receita essa que também já tem sido aumentada desde o início do ano, com pequenos aumentos de 0,02€, 0,03€ uma semana, depois uma semana outra vez mais 0,02€. Ao fim destas semanas, desde o início do ano, acabou por já arrecadar, se calhar, um aumento superior de mais de 0,10 € também. Portanto, significava que podia abdicar de alguma margem adicional nos impostos para que se sentisse realmente uma estabilidade em termos do preço do combustível.
Recorde-nos, por favor, num litro de gasolina, qual é a percentagem de impostos.
Tanto num litro de gasolina, como num litro de gasóleo, 60%, sensivelmente, entre impostos de IVA, da taxa de carbono e de ISP, são impostos. Portanto, 60% do preço são impostos.
Sim, conclua, por favor.
E portanto, tendo em conta que grande fatia do preço é constituído por impostos, se o governo fizesse aqui um esforço orçamental no sentido de controlar o preço do produto, era bom para que todos os consumidores e a própria economia do país ficasse menos milimbrada.
Mafalda Trigo representa os postos de abastecimento, mas também sabemos que há políticas comerciais muito agressivas e que passam pelos descontos. Quase todas as marcas de combustíveis têm descontos associados com este ou com outro cartão. Nesta altura, também seria possível, por parte das petrolíferas e por parte dos revendedores de combustíveis, cortar ou fazer alguns descontos mais definitivos, sem a necessidade de recorrer a esse tipo de promoção?
Enfim, relativamente às condições das companhias petrolíferas, eu não tenho conhecimentos para saber se realmente poderiam, de alguma maneira, apoiar o preço final.
E em relação aos revendedores?
Relativamente aos revendedores, infelizmente, é completamente impossível abdicarem de margem para passar para o consumidor final, até porque não é como o Estado. O Estado recebe percentagens conforme o preço e os revendedores recebem cêntimos por litro. Ou seja, para o revendedor, quer o preço esteja a 1 € ou esteja a 2 € A sua margem é a mesma. Não há aqui uma receita adicional se o produto aumentar para que o revendedor possa abdicar de margem, porque a margem é fixa, independentemente do preço do produto. E neste momento já muitas vezes é difícil pagar os custos fixos com a margem. Infelizmente, o revendedor não consegue, de forma nenhuma, suportar algum deste aumento.
Mafalda Trigo, só para explicar ou talvez para compreendermos isto um pouco melhor. Presumo que a Mafalda Trigo tenha um posto de abastecimento, pertence à Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis, mas no fundo é franchising. Vamos imaginar que é a marca A ou B, que é a petrolífera que tem uma determinada bomba de gasolina num determinado local, mas o proprietário dessa bomba de gasolina tem essa margem fixa por litro e não consegue mexer.
Exatamente. A empresa onde eu trabalho tem uma rede de postos de abastecimento, que não são nossos, são da companhia. E com base nisso, nós temos margens que são pré-definidas, imaginemos cinco cêntimos, e esses cinco cêntimos são para se o combustível estiver a €1 por litro, ou são os mesmos cinco cêntimos se o produto estiver a €2 por litro. Isto significa que em termos percentuais, quanto mais alto estiver o produto, mais baixa é a nossa percentagem, porque não tratamos com percentagens, tratamos com descontos de cêntimos por litro.
Mafalda Trigo, muito obrigado por ter estado aqui em direto na Rádio Observador, neste explicador. Por certo, haverá muitos automobilistas a esta hora nas filas a ouvir-nos enquanto esperam para tentar atestar o depósito. Muito obrigado por ter estado aqui em direto.
Obrigada nós. Muito obrigada e uma boa tarde.