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Começa agora o Explicador das manhãs 360º, esta sexta-feira sobre a corrida a Belém. São nossos convidados Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, mas aqui como apoiante de Golfe e Mello, e Luís Mira Amaral, economista, ex-ministro do Trabalho e da Indústria, mas aqui como apoiante de Marques Mendes. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
Muito bom dia, obrigado a ambos pela disponibilidade para estarem neste Explicador. À direita, o jogo continua em aberto sobre as candidaturas à Presidência da República. Cotrim de Figueiredo pode avançar, o que o Chega fará ainda é uma incógnita. E hoje o Observador noticia que poucos acreditam, no círculo próximo de Rui Moreira, que o ainda presidente da Câmara do Porto formalize a sua candidatura. Isaltino Morais, bom dia, começando por si.
Bom dia.
Bem-vindo. O que diz a sua sensibilidade? Com os dados que temos, acha que Rui Moreira deverá avançar ou não?
Se deverá ou não avançar, digamos que é uma decisão que ele tem que tomar. Que ele pode tomar. Aliás, como sabe, os partidos políticos tentam sempre condicionar as candidaturas presidenciais e essa foi a razão porque o PSD, em determinado momento, muito cedo, disse que apoiaria um candidato militante do PSD. Obviamente, estava a procurar condicionar e restringir o leque de possíveis candidatos. Estão a ouvir?
Sim, estamos a ouvir.
O Rui Moreira, acredito que pela sua própria natureza, ele gosta de desafios. E por outro lado, não sei o que vai no íntimo dele, mas como é uma decisão muito pessoal, eu julgo que ele sente que não foi muito bem tratado quando da questão das eleições europeias. E, portanto, às vezes a vontade está lá, mas pode faltar uma pequena picadela. E a picadela pode ter sido a questão das eleições europeias, ele não se ter sentido bem tratado.
Não se ter sentido bem tratado pelo PSD, quer dizer?
Sim, na altura. Estou a falar das europeias.
Exato.
Contar a história, ele foi convidado para número dois. Pode sentir que agora é uma oportunidade dele retorquir.
Então, nesse caso, uma candidatura do Rui Moreira seria uma candidatura a apontar ao eleitorado de Marques Mendes?
Sim, sem dúvida. Porque o Rui Moreira é uma pessoa que se nós pensarmos bem, a área do eleitorado dele é à direita. Podíamos dizer que até haverá alguns aspetos do discurso com algum receio liberal, até poderíamos dizer que o Rui Moreira estaria até muito bem na Iniciativa Liberal. Só que ele é um conservador. E portanto, dificulta a identificação total dele com a Iniciativa Liberal. Mas é indiscutível que quer o Rui Moreira, se avançar, ou o Cotrim de Figueiredo, vão afetar essencialmente o eleitorado do doutor Marques Mendes.
Já lá vamos a essas contas, Isaltino Morais. Já vamos ver como é que isso impacta numa e noutra candidatura. Deixe-nos para já trazer à conversa também o Luís Mira Amaral. Bom dia, bem-vindo também a este Explicador. No fundo, a mesma questão, com os dados que são públicos e que tem, Luís Mira Amaral, acha que Rui Moreira será tentado a formalizar uma candidatura ou não?
Bom dia, cumprimento o doutor Isaltino Morais. Bom dia a todos. Eu tinha ouvido dizer que Rui Moreira estaria a ponderar essa candidatura. Hoje já li a vossa notícia no Observador. Eu acho que ele tem uma vontade de se candidatar. Como disse o doutor Isaltino Morais, ele gosta de desafios desses, só que tem um problema: não tem o apoio de nenhuma estrutura partidária e certamente estará a ponderar que apoios é que consegue arranjar, porque uma figura como o doutor Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto durante três mandatos, é obviamente uma figura nacional. E para se candidatar e ter um resultado muito mau, obviamente que ele não gostaria de isso acontecer. Portanto, eu acho que ele, "bon quer valons", como diriam os franceses, gostaria de se lançar numa candidatura dessas, mas por outro lado, ter receio de não ter apoios e vir a ter um resultado que seja inferior à dimensão nacional que ele tem com três mandatos como presidente da Câmara do Porto, dá indiscutivelmente uma dimensão nacional. Agora, para mim é óbvio que é uma candidatura que está como o doutor Cotrim de Figueiredo, que vai disputar um espaço que é ocupado pelo PSD, CDS, agora chamam-se todos de AD, e também pela Iniciativa Liberal, portanto, são mais candidatos deste lado.
E não acha possível, por exemplo, Rui Moreira avançar com o apoio do CDS e da Iniciativa Liberal, por exemplo?
Bem, a Iniciativa Liberal, o doutor Cotrim de Figueiredo disse que estaria disposto a avançar.
Ainda não está confirmado.
Sim, mas é uma hipótese forte que se tem que considerar. Obviamente, se o doutor Cotrim de Figueiredo avançasse, a Iniciativa Liberal tinha o seu candidato natural e portanto não me parece que ele
Tivesse grande margem na Iniciativa Liberal. Portanto, eu acho que ele está a ponderar tudo isso. Também não sabe se o doutor Cotrim de Figueiredo avança ou não e portanto também não se quer já atrasar. A sua pergunta é pertinente. Agora, isso depende se, de facto, o doutor Cotrim de Figueiredo vai avançar ou não, porque há aqui várias incógnitas que não lhe permitem, a meu ver, a ele, doutor Rui Moreira, dizer já claramente que vai avançar.
Há aqui uma marcação quase homem a homem. Altino Morais, vamos então agora fazer essa leitura. Havendo aqui uma pulverização de candidaturas à direita, o que tem sido raro nas últimas eleições. Altino Morais é apoiante de Gouveia e Melo, há pouco estava a dizer que um eventual avanço de Rui Moreira entra sobretudo no espaço da candidatura de Marques Mendes. Por que acha isso?
Não é apenas a candidatura de Marques Mendes. Repare, as motivações que estão por trás de uma decisão de apresentar a candidatura, muitas vezes não têm nada a ver com qualquer aspiração a ganhar a eleição.
É para atrapalhar os outros, às vezes?
Não é só para atrapalhar. O Rui Moreira poderá ser candidato, mas a aspiração dele não é ser presidente da República, como o Cotrim de Figueiredo. Ora repare, por exemplo, no caso do Rui Moreira, eu não vou aqui explorar as motivações que estarão por trás, não vou fazer aqui análises de psicologia. Mas no caso do Cotrim de Figueiredo, eu compreendo uma candidatura da Iniciativa Liberal. Porque repare, a Iniciativa Liberal, digamos, de apresentar um candidato e o Cotrim de Figueiredo se disponibilizar para ser candidato, porque há razões políticas que podem determinar que assim seja. Porque repare, a Iniciativa Liberal está a passar por uma crise significativa. Houve uma fase em que parecia que tinha muita gente, candidatos a líderes e líderes habilitados, que traziam ideias novas, com vontade, com garra, mas de repente parece que ficou desfalcado e parece que está em leilão quem quer ser presidente da Iniciativa Liberal. Ora, não tendo atingido os seus objetivos eleitorais nas últimas eleições, a Iniciativa Liberal está legitimamente com receio de continuar em perda e, portanto, nas próximas eleições legislativas não sabe o que é que vai acontecer. Ora bem, as eleições presidenciais podem ser um momento de manutenção.
De tentar preservar o território já conquistado.
Exatamente, de segurança pro eleitorado da Iniciativa Liberal para não entrar em maior descalabro. Portanto, eu acho que essa é a única razão porque o Cotrim de Figueiredo pode vir a sacrificar-se para ser candidato.
Mas no caso de Rui Moreira avançando com a candidatura, quem é que sairia a perder?
Esses candidatos só podem prejudicar o doutor Marques Mendes, porque repare, quem se posicionou à direita foi o PSD e o Marques Mendes. Quer dizer, desde o início que o Marques Mendes pretende ser o candidato da direita. Porque pensava que havia um candidato à direita e outros à esquerda. Por outro lado, as coisas às vezes, sem querer, são aceleradas. Repare, o doutor Marques Mendes foi o primeiro candidato a aparecer, mas o PSD também foi o primeiro partido a dizer que só apoiaria um candidato do PSD. Repare, o almirante, durante algum tempo depois que apareceu, várias forças tentaram posicioná-lo à direita, até diziam que ele ia ser apoiado por um CHEGA. Ora, o almirante Gouveia e Melo teve o cuidado de dizer: "Não é, eu sou do centro, eu até sou da área da social-democracia." Portanto, isso está definido. Há um candidato à direita, que é o Marques Mendes, há um candidato ao centro, que é o almirante Gouveia e Melo, e haverá um candidato à esquerda que poderá vir a ser o Zé Seguro ou outro. Em princípio, será o Zé Seguro, não parece que apareça outro que possa ser capaz de fazer frente ao Zé Seguro. Aparecerão as candidaturas folclóricas, naturalmente. Algumas até já estão. Não há candidatura ainda do Bloco de Esquerda, do Livre.
E vamos ver se entretanto surgem. Luís Mira Amaral, podemos ter uma dispersão de candidaturas à direita. Isso poderá comprometer acima de tudo as ambições de Marques Mendes ou uma candidatura do Rui Moreira também poderá ser prejudicial a Gouveia e Melo?
Eu não percebo por que a candidatura do Rui Moreira só vai beliscar a candidatura de Marques Mendes. Repare, Marques Mendes, bem ou mal, é candidato e apoiado pelo PSD, portanto, em princípio, tem de certa forma mais seguro o eleitorado do PSD. O senhor almirante Gouveia e Melo é que não tem um partido a apoiá-lo e, portanto, não pode ter tanta segurança de ter apoio de militantes ou simpatizantes do PSD. Portanto, eu acho que uma candidatura do Rui Moreira, não aparecendo claramente com uma filiação partidária, vai mais, a meu ver, afetar uma candidatura do almirante Henrique Gouveia e Melo do que provavelmente o doutor Luís Marques Mendes, que aparece com suporte partidário por trás.
Mas Rui Moreira não apela precisamente a um eleitorado tipicamente associado ao PSD?
Mas eu acho que o almirante Henrique Gouveia e Melo também apela a esse eleitorado e, portanto, os dois não parecem apoiados pelo PSD e eu acho que, a meu ver, contrariamente ao que diz o doutor José Alfim Moreira, acho que a candidatura do doutor Rui Moreira até pode afetar mais a candidatura do almirante do que do doutor Marques Mendes. Agora deixe-me dizer outra coisa. Quando uma pessoa se candidata, há três motivações. A primeira, obviamente, é poder ganhar e ser Presidente da República, mas há candidaturas que não têm essa motivação
Elas têm uma motivação, muitas vezes, de reassegurar um espaço político ou aproveitar o tempo de antena para fazer propaganda desse espaço. É claramente, a meu ver, uma motivação para o doutor Rui Figueiredo avançar, que é como disse e concordo com o doutor Isaltino Morais, tentar assegurar o eleitorado da IL e ter tempo de antena para essas ideias liberais. Eu acho que o doutor Rui Figueiredo aparece claramente com essa motivação se avançar.
Seria uma candidatura de sacrifício pelo partido?
Não digo sacrifício, porque eu acho que ele gosta de discussão política, como já mostrou de forma exuberante nas eleições europeias. Portanto, não é de sacrifício para ele. A palavra sacrifício não parece o mais correcto. Seria uma candidatura solidária com a IL para assegurar a IL e aproveitar o tempo de antena para divulgar as ideias liberais. Não seria sacrifício, porque eu acho que ele iria fazê-lo com gosto. Agora, para mim, houve outros dois candidatos independentes que disputam o mesmo espaço, é o Almeida Gouveia e Melo e o doutor Rui Moreira, sem serem apoiados por partidos. E acho que isto é mais, de facto, do espaço de centro-direita, porque o espaço da esquerda ainda está retidos a ver se arranjam um candidato alternativo ao António José Seguro.
E se esse candidato à esquerda não aparecer, Isaltino Morais, as contas que se fazem neste momento, no fundo, isto dificilmente será uma eleição que vai ser ganha por alguém à primeira volta, parece-nos. Portanto, com 50% mais um voto, o primeiro grande objectivo de todos os candidatos é serem um dos dois a passar à segunda volta, isto é, ficar em primeiro ou segundo. Essas contas não estarão mais difíceis à direita neste momento do que à esquerda? Partindo do princípio, obviamente, que António José Seguro vai agregar ali todo o PS, não aparecendo mais nenhuma candidatura. Ou seja, mantendo-se a esquerda como está, António José Seguro poderá passar à segunda volta e a grande disputa sobre a outra pessoa a passar não será à direita.
Claro que nós podemos fazer imensas suposições. O meu querido amigo Engenheiro Mira Amaral referiu o apoio do PSD ao doutor Marques Mendes e disse bem, o PSD, os votantes, os eleitores do PSD, aliás, do próprio partido, os próprios militantes do PSD, e ele conhece o PSD tão bem ou melhor do que eu, sabe como não há uma galvanização. Nunca houve uma grande galvanização à volta da candidatura do doutor Marques Mendes. Portanto, não é líquido que ele consiga fazer nem o semipleno, quanto mais o pleno do eleitorado do PSD. Agora, eu estou convencido que com esta dispersão à direita, eu ainda continuo a acreditar que isto está um bocadinho calmo, porque as candidaturas presidenciais apareceram cedo demais. Nós nunca tivemos uma campanha presidencial como esta, que a um ano e meio de antecedência, praticamente, já havia candidatos.
Por que isso aconteceu, na sua opinião, Isaltino Morais?
Eu acho que aconteceu porque houve uma precipitação do PSD, talvez porque a questão ainda não estava bem consolidada no PSD. O doutor Montenegro, neste momento, é capaz de ter arrependido de ter tomado essa atitude, mas a verdade é que ele arriscou na altura dizer: "Nós queremos um candidato à presidencial que seja militante do PSD." E portanto, isso precipitou tudo, porque o doutor Marques Mendes estava ansioso e não conteve a ansiedade e portanto avançou. Ora, acontece que agora estamos nas eleições autárquicas e o que é que se verifica? A própria comunicação social não sei se está a ver. Nós estamos aqui próximos das autárquicas há dois meses e estamos a falar de presidenciais. Por quê? Porque é este o assunto. E se os candidatos presidenciais não dão sinal de vida durante esse período, naturalmente são logo acusados que estão a perder gás, etc. Quando realmente eles deviam estar a preparar, e estão com certeza, as suas estratégias para que logo a seguir às eleições autárquicas a campanha presidencial avance a todo o gás. Ora, portanto, tendo havido esta precipitação, naturalmente que o quadro das candidaturas presidenciais realmente só vai ficar claro em outubro.
Depois das autárquicas.
Sim, porque repare, quem nos diz que o Centeno não avança também? O Centeno, depois desta situação, também pode arranjar alguma confusão.
Deixe-me perguntar então e para concluirmos, Luís Mira Amaral, se acredita que à esquerda vão surgir ainda outras candidaturas, como por exemplo, de Mário Centeno, Sampaio da Nova, ou se António José Seguro vai ser o único candidato desse espaço político?
Eu acho que nesse espaço político e a ala esquerda do PS não está quieta, não vai desistir e vai tentar tudo para arranjar um candidato alternativo ao António José Seguro. E portanto, eu admito a hipótese do professor Mário Centeno ou outro candidato aparecer ainda na ala esquerda, porque, de facto, não vejo as pessoas da ala esquerda do PS tranquilas sobre o avanço do António José Seguro. Agora deixe-me dizer, do lado direito, a meu ver, por que isso se precipitou e esses anúncios muito cedo das candidaturas presidenciais? Não foi o doutor Marques Mendes, talvez tenha querido, mas não foi ele que começou. Repare, o Almeida Henrique Oiveira e Melo apareceu depois da campanha da vacinação, apareceu com boa imagem junto à população e apareceu com pré-sondagens que configuravam uma possibilidade de ele poder ser candidato e depois poder ser eleito.
Esse foi o fator determinante para anunciar aí.
E depois o doutor Marques Mendes quis ser candidato, não se conteve e avançou também logo a seguir. Portanto, eu acho que quem detonou isto tudo foi o Almeida Henrique Oliveira e Melo, não foi o doutor Marques Mendes, nem o doutor Montenegro, nem o PSD. Agora, continuo a dizer também, utilizando a linguagem do doutor Isaltino Morais, também não vejo que o Almeida Henrique Oliveira e Melo, pessoa por que eu tenho apreço e consideração, desperte uma onda de entusiasmo no PSD que ultrapasse o doutor Marques Mendes. Ainda não vejo.
Ainda falta muito tempo para as presidenciais, mas vão marcar também ainda.
E há uma questão que para mim é determinante. O Almeida Henrique Oliveira e Melo, que obviamente fez a sua carreira militar e é prestigiada, mas agora é uma incógnita. A grande incógnita que eu tenho sobre ele é como é que ele se comporta nos debates eleitorais com pessoas que têm uma vida política e uma experiência política muito superior à dele.
Essa resposta só teremos mais para a frente.
Essa é a minha grande incógnita, é o grande teste político ao Almeida Henrique Oliveira e Melo.
Luís Mira Amaral, Isaltino Morais, muito obrigado pela participação no Explicador. Explicador que está de regresso mais logo na tarde política da Rádio Observador.
Muito obrigado