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Explicador da Rádio Observador. Está quase a arrancar a Festa do Pontal, no Calçadão de Quarteira, no Algarve. Celebram-se os 50 anos da festa que marca a rentrée do PSD. Já houve futebol, o primeiro-ministro até marcou dois gols numa peladinha. Mais logo há discursos e UHF, e é nosso convidado, Cristóvão Norte, o líder da Distrital de Faro do PSD. Bem-vindo, Cristóvão Norte.

Obrigado. Boa tarde a todos.

Luís Neves não foi convocado para o jogo e para a festa. Foi convocado ou não?

Eu não fiz a convocatória da equipe do presidente do partido, portanto, bem ou mal, a sua ausência, positiva ou negativa, não me pode ser oponível. Mas diria o seguinte, respeitando a tradição da Festa do Pontal, em regra, e essa regra é quase sempre cumprida, a iniciativa é mais concebida para os militantes do Partido Social-Democrata. E portanto, não é caso raro, aliás, é muitíssimo comum, que por vezes aqueles que fazem parte do governo, mas que não têm filiação partidária, não se lhes opõe uma obrigação de estarem presentes nessas iniciativas de cariz partidário. E portanto, eu não sei se foi ou não convocado, nem sei se estará ou não na Festa do Pontal, mas não nasce, por força do exercício de uma missão governativa, qualquer obrigação de militância e que seja exigível a um ministro, secretário de Estado ou a qualquer outra figura, a presença na Festa do Pontal. Portanto, julgo que isso não tem importância de maior.

Mas Cristóvão Norte, nesta altura, este caso do ministro da Administração Interna é a maior pedra no sapato do governo ou não?

Obviamente que esta circunstância não é uma circunstância agradável. Está bem de ver. Agora, eu creio que este facto não ensombra nem a Festa do Pontal, por um lado, nem creio que seja o aspecto mais saliente da governação. Do meu ponto de vista, aquilo que é relevante é o Partido Social-Democrata afirmar-se como uma força de transformação estrutural do país, mostrar as medidas que está a empreender, os resultados que já conseguiu obter e, sobretudo, projetar o futuro, um futuro de mudança, com transformações estruturais que libertem as melhores energias da nossa sociedade. E desse ponto de vista, a Festa do Pontal tem se constituído ao longo de décadas como um local que permite aos líderes do partido, estejam eles primeiros-ministros ou estejam na oposição, afirmar os princípios fundamentais do Partido Social-Democrata e delinear as opções de política pública que marcam a ação política do PSD e, neste caso, obviamente, também do governo.

E este ano são os 50 anos da Festa do Pontal, não é?

Este ano são os 50 anos da Festa do Pontal. A Festa do Pontal é, porventura, com todo o respeito por outras iniciativas, eu não compararei a Festa do Pontal com a Festa do Avante!

Também faz 50 anos.

Sim, eu não compararei uma coisa com outra, nem compararei as forças políticas. Direi apenas que do ponto de vista político-midiático, a Festa do Pontal tem um significado, não obstante ter tido altos e baixos ao longo destes 50 anos, tem um impacto absolutamente extraordinário. E que eu diria que não há nenhuma outra iniciativa política em Portugal que se compare do ponto de vista da expectativa que é criada sobre os discursos que lá têm lugar e designadamente sobre as intervenções que ano após ano aqueles que são líderes do PSD realizam nessa festa, marcando o espaço político do PSD e delineando essas opções de política pública que o país ouve com atenção, escuta, e isso é o maior elogio que se pode fazer ao significado político da festa e ao relevo que ela tem no panorama político nacional.

E em que medida os presentes e os ausentes podem ajudar a perceber que PSD temos hoje?

Se nós olharmos para a Festa do Pontal, nós compreendemos que ela sofreu alterações profundíssimas no quadro de 50 anos. Ela foi concebida por Francisco Sá Carneiro para garantir a implantação do Partido Social-Democrata no Algarve, coisa que era fundamental à época, porque o PSD tinha uma representação parlamentar muito exígua, mas obviamente, com o passar dos anos, ela foi se transfigurando e ganhou, no período do cavaquismo, um significado político maior. Agora, o que se tem visto, designadamente nos últimos 15 anos, é que a Festa do Pontal tem se afirmado como um bastião da militância social-democrata Isso tem sido construído também.

Mas as presenças e as ausências permitem leituras sobre a forma como o partido está e quem está com a liderança ou não?

Claro, a leitura que se faz das presenças e das ausências é relevante, mas a maior relevância que eu creio poder exprimir, designadamente nos últimos anos, é que a Festa do Pontal, neste modelo que foi concebido com traços muito semelhantes à Festa do Pontal originária, um espaço aberto, qual arraial popular, de confraternização, de convívio, com discursos, música, etc., tem, ano após ano, tido muitíssimas mais presenças do que ausências. E sobretudo, mais importante do que isso, tem tido a presença dos militantes e simpatizantes do PSD. Independentemente, num caso ou noutro, de estar aquelas figuras que têm maior ou menor notoriedade, o facto indesmentível é que a Festa do Pontal tem assistido a presenças massivas.

Peço desculpa por interromper, Cristóvão Norte.

Diga.

A festa tem servido a Luís Montenegro também para fazer alguns anúncios. O que é que antecipa que logo possa surgir no discurso do líder do PSD e primeiro-ministro?

Eu não me atrevo a antecipar o que é que o senhor primeiro-ministro dirá hoje. Para mim, tão importante como os anúncios que possam ser feitos em cada momento, é a circunstância de prestar contas sobre a governação e sobre o caminho que se deseja percorrer. E a Festa do Pontal oferece essa oportunidade de fazer uma avaliação de como é que está a economia portuguesa, da criação de emprego, das matérias fundamentais em áreas fulcrais da satisfação de necessidades básicas dos cidadãos. E isso, para mim, é mais importante do que propriamente o anúncio A, B ou C, que tem obviamente significado quando se dirige a matérias fundamentais para os cidadãos, mas mais importante do que isso é a confiança, a consistência da governação, a certeza no caminho, a convicção nas palavras e a força mobilizadora que a Festa do Pontal pode emprestar ao Partido Social-Democrata.

Continuamos naquela situação um pouco paradoxal que há números da economia a dar bons sinais. No entanto, as pessoas, olhando para a carteira, continuam com grandes dificuldades na hora de abastecer o carro, de ir uma semana de férias aí para o Algarve, onde se praticam às vezes preços a níveis da Riviera Francesa. As pessoas vão uma semaninha de férias e não conseguem ir mais. E há esta situação um pouco paradoxal, ou não?

Nenhum governo escolhe o tempo em que governa. E isso, em cada momento, exige a cada um que faça o melhor possível perante essas circunstâncias. É isso que se avalia de um primeiro-ministro e de um governo. E portanto, eu não escondo que num cenário internacional como aquele que temos testemunhado ao longo dos últimos três anos, com a circunstância que se abateu sobre a Europa de aumentos de preços, com a crise da habitação que se tem vindo a fazer sentir, com um conjunto de problemas, uns de caráter mais nacional, outros de caráter internacional, isso causa óbvia turbulência. Mas ainda que essa turbulência exista, aquilo que se deve medir em cada momento é se perante as circunstâncias, que muitas vezes são circunstâncias exógenas. Tratava aqui da questão de abastecer. Nós registamos aumentos de preços por força da crise internacional que não têm paralelo nos últimos anos. E isso, obviamente, é inoponível ao governo. Não há nenhum governo no mundo que não tenha registado um aumento de preço brutal nos combustíveis, que obviamente, em larga medida, ainda que haja princípios de neutralidade fiscal como o governo português aplica, não há hipótese de isso não se fazer sentir nos cidadãos e não prejudicar o seu poder de compra. Dito isto, o que se deve medir em cada circunstância, reitero, é se perante esses dados, quais é que são as políticas públicas que melhor respondem aos desafios de cada tempo. E eu creio que aí, em matérias fundamentais, o governo tem respondido bem. Não direi que faz tudo bem, nenhum governo faz tudo bem, com certeza. Mas em matérias fundamentais, eu diria que o governo tem tomado medidas que são importantes para o país e que eu creio que darão resultados positivos para os portugueses.

E apesar de tudo, a festa deste ano não deverá levantar tanta polêmica como a do ano passado. É isso que espera, até pela circunstância em que estamos agora, sem incêndios graves.

Com todo o respeito, eu compreendendo o sentimento dos cidadãos, a Festa do Pontal realiza-se todos os anos. O fato de o senhor primeiro-ministro estar presente não significa que o governo não esteja atuante no combate aos incêndios. Há, infelizmente, todos os dias cataclismos de diversa natureza. Isso deve-nos fazer respeitar, considerar, ser prudentes nas palavras e contidos nas nossas participações cívicas, mas não deve inibir-nos de continuarmos a assumir as nossas posições políticas, que a designação festa por vezes prejudica o entendimento das pessoas em relação a esta matéria. E eu diria que a Festa do Pontal é mais do que uma festa, é um momento de encontro, de confraternização e definição do que é o ano político do PSD. E, portanto, com todo o respeito por opiniões diversas, eu diria que seria indesejável que esta tradição não tivesse lugar e que o presidente do partido não assumisse as suas responsabilidades e não transmitisse aos portugueses aquilo que deseja transmitir.

Cristóvão Norte, muito obrigado pela sua disponibilidade, o líder da distrital do PSD do Algarve, o anfitrião da Festa do Pontal, que vai começar já daqui a pouco no Calçadão de Quarteira, marca rentrée social-democrata, se bem que a política praticamente não parou nas últimas semanas.