Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Está aberto o Explicador da Rádio Observador para falar hoje deste caso Cristiano Ronaldo, mas vamos focar-nos nos próximos minutos numa perspectiva mais ligada à mentalidade deste craque, desta figura mundial. O que acontece na cabeça de um atleta destes, um atleta de elite, quando o corpo e o treinador lhe dizem que o tempo mudou? E o que acontece a uma equipe quando o capitão sai porta afora na véspera de um jogo? Judite França, quem é a nossa convidada?
Ana Ramires, especialista em psicologia do desporto, psicóloga de vários atletas de alta competição. Bem-vinda, obrigada pela disponibilidade. Para alguém que foi titular indiscutível durante 20 anos, o que significa ficar 90 minutos no banco? É uma questão de ataque à identidade?
Olá, muito boa tarde. Antes de mais, muito obrigada pelo convite para estar aqui convosco hoje. Sendo aqui um pouquinho do exemplo em particular, porque não tenho conhecimento específico, nem poderia comentá-lo, mesmo que tivesse. Na realidade, quando estamos a falar de pessoas que tiveram uma carreira fortemente vocacionada para uma área em particular, há, de facto, um cruzamento muito forte entre aquilo que eu produzo e a minha identidade. Aquilo que acontece é que muito frequentemente, é recomendado que os atletas, em particular, façam um processo de transição de carreira planeado e que passa por um planeamento a alguns anos, para que esta identidade possa começar a ser transposta para outros contextos de performance, onde possam vir a ter determinados tipos de atuação, onde possam ter novamente uma sensação de êxito e de serem bem-sucedidos.
E acha que isso não está a acontecer com o Cristiano Ronaldo?
Eu acho que nós não temos informação suficiente para sabermos isso. Nós não sabemos o enquadramento que aconteceu nesta situação em particular. Eu imagino que este atleta em particular, no dia em que se determinar a ter sucesso numa qualquer outra área, vai ter. Aliás, ele já o tem na área dos negócios. Agora, quando estamos a trabalhar em áreas onde a emoção fala mais alto, que é uma área de dedicação e de paixão, às vezes tendemos a ter uma capacidade de tomada de decisão um pouquinho mais comprometida.
Era sobre isso mesmo que lhe queria perguntar, porque Jorge Jesus disse que a gestão física tinha sido combinada com o jogador. Pode um atleta aceitar racionalmente a decisão e depois não a conseguir aceitar emocionalmente e, portanto, acabar por rebentar?
Sim. Novamente, eu acho que nós não sabemos os conteúdos das conversas. E a gestão, em particular de um atleta, ou seja, um qualquer selecionador, um qualquer treinador, tem que gerir a qualidade energética de um plantel inteiro e muitas vezes tem que tomar decisões, de facto, que não são populares. A forma como esta liderança é exercida, a forma como isto é articulado com toda a equipe, com cada atleta individualmente, é que de alguma forma, muitas vezes ajuda a que este processo de aceitação ocorra de uma forma mais facilitada.
Mas houve aqui algo problemático, porque estamos a falar de um jogador profissional, destacado mundialmente por esse profissionalismo que tem e que, depois de 23 anos de carreira ao serviço da Seleção Nacional, abandona um estágio a meio, em véspera de um jogo. Algo terá acontecido aqui, algo justifica esta tomada de decisão. Um atleta de elite, desta forma, com tudo aquilo que nós sabemos publicamente sobre Cristiano Ronaldo, não conhecendo o caso em concreto, não estivemos, naturalmente, nenhum de nós nessas reuniões e nestes treinos e na cabeça de Cristiano Ronaldo, mas tendo em conta o que sabemos, parece-lhe que há uma origem para este problema, algo que tem que explicar esta decisão.
Eu diria que tem que ter havido alguma coisa imensamente disruptiva para que um atleta tome uma decisão desta natureza. Não é uma decisão fácil, não é uma decisão sem consequências e os atletas sabem disso.
Exato.
E, portanto, alguma coisa terá que ter acontecido que cause esta disrupção e esta vontade de sair. O que foi? O tema é este. O gatilho é que é difícil de apurar, é difícil de aferirmos. Seja qual for o gatilho, também importa aqui dizer, muitas vezes é pessoal. Ou seja, aquilo que eu valorizo e aquilo que outra pessoa valoriza tem impactos e dimensões completamente diferentes. Aquilo que sabemos neste momento e aquilo que se observa do ponto de vista comportamental é que alguma coisa terá sido suficientemente valorizada pelo atleta para não se sentir confortável no contexto onde estava e ter optado por sair.
Na alta performance-
Já agora deixo-lhe uma nota.
Desculpe.
Sendo que, em última análise, vou atirar hipóteses pro ar. Pode até ter sido algum comportamento de proteção do grupo, ou seja, de perceber que alguma coisa que não estava bem ia se manter e para não prejudicar o impacto no grupo, saiu fora. Ou seja, há múltiplas coisas que possam estar a acontecer e, portanto, é muito difícil que consigamos, de facto, avaliar.
Na alta performance, onde é que fica a fronteira entre a ambição e a incapacidade de aceitar limites? É muito difícil lidar com isso.
Eu diria a vontade de superação e a capacidade de reconhecer limites Não, a competição não são propriamente duas coisas que caminhem par a par em qualquer modalidade. Porque o desporto em si próprio e principalmente no alto rendimento, parte deste pressuposto de superação e muitas vezes na negociação sobre aquilo que é aceitável para o meu próprio corpo e para a minha própria parte até de saúde mental, que já tem sido muito falado nos últimos anos. Portanto, este limiar é de facto muito ténue. É muito cinzento e se não está claro, seja para atleta, seja para as pessoas que estão à volta deste atleta, necessariamente isto depois resulta em processos de transição de carreira que não terminam tão bem, porque são extemporâneos e eu já deveria ter feito este processo de transição e não o faço. Principalmente se nós estivermos a falar de atletas que têm uma representação de sucesso, de serem bem-sucedidos na superação de limites, isto ainda se pode agravar mais, naturalmente.
Ana Ramires, como já referimos, especializada em psicologia do desporto. Já trabalhou com vários atletas de alta competição. Nem se justifica estar aqui a colocar nomes desses atletas, mas trabalhou com vários atletas de alta competição. Eu gostaria de perceber se alguma vez teve de lidar com uma situação destas, de um jogador em fim de carreira e ter de lidar com esse processo de fim de carreira, porque acredito que seja uma problemática muito específica. Estamos aqui a falar de alguém que dedicou uma vida toda ao desporto e que chega aos 35, neste caso já 41, mas entre os 35 e os 40, normalmente costuma ser essa idade, em que de repente vai ter de mudar de vida e deixar de fazer aquilo que fez durante toda a vida. Alguma vez teve de lidar com uma situação destas e como é que se lida com este tipo de situação?
Isto é muito frequente. É mesmo muito frequente, principalmente quando nós acompanhamos atletas maduros e atletas seniores que tiveram uma carreira bastante bem sucedida naquilo que é a sua performance desportiva. Eu não diria que é o que está a acontecer aqui. O que pode estar em jogo aqui, só para fazer este parêntesis, é a presença ou não deste atleta em futuros processos de seleção e não o final da sua carreira, porque isto é uma outra decisão que este atleta terá que tomar a seu tempo e quando considerar que é importante. Aquilo que nós sabemos do ponto de vista científico é que normalmente atletas de exceção e atletas que trabalham muito em contextos de alto rendimento, bem aconselhados e bem acompanhados, tendem a fazer um processo muito interessante de transferir as suas competências de alta performance do contexto desportivo para outras áreas, nomeadamente áreas de negócios, de ser empreendedor, seja o que for. E normalmente quando fazem este processo de transição de forma fluida, acabam por ser extraordinariamente bem-sucedidos também nas áreas a que se liguem.
Já agora vamos olhar para o resto do grupo. O que acontece a um grupo quando o líder sai na véspera do jogo? E até estou a pensar nos jogadores mais novos que cresceram a ver Ronaldo como uma referência.
Todas as circunstâncias que possam ser disruptivas, e isto pode ser uma disrupção positiva ou negativa, até podia ter sido, imaginem num jogo anterior, uma vitória estrondosa, tendem a trazer sempre alterações nas dinâmicas do grupo. E aquilo que se assiste, nomeadamente quando acontece uma circunstância destas em que algum elemento do grupo se afasta, seja por lesão, seja como este caso em particular, é que há uma natural reorganização daquilo que é a dinâmica interna da equipa. Aquilo que seria expectável numa equipa com as características da seleção, é que os atletas, por serem de elite, que tenham reunidas em si, do ponto de vista individual, as competências necessárias para fazer esta reorganização de forma rápida. O que me parece que é importante e pertinente é que toda a estrutura que está à volta destes atletas, e acredito que seja o que esteja já a ser feito, imagino eu, ajudem este processo de reorganização, atendendo a que há um jogo daqui a algumas horas. A equipa naturalmente tem esta capacidade de reorganização, onde há atletas que acabam por ganhar mais evidência, há atletas que acabam por ganhar outro nível de responsabilidade. Isto acontece de forma natural num processo em que tem que se apresentar resultado e desempenho imediatamente a seguir, é importante que seja favorecido e facilitado não só pela equipa técnica, mas por toda a estrutura que dá suporte.
Nós estamos sempre aqui a falar de um atleta, mas há muito mais em Cristiano Ronaldo para além dessa vertente. E há toda esta questão do ego que temos falado ao longo das últimas horas, porque Ronaldo não é só um jogador, é também já uma marca, nós podemos dizer isso. É um símbolo nacional e isso mostra também este posicionamento já de primeiro-ministro, que fez saber que falou com o capitão da seleção nacional, falou com o treinador e com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Como é que esta carga, todo este peso que cai também sobre os ombros desta pessoa, Cristiano Ronaldo, tem impacto também nisto que são as decisões de um atleta, de um representante da seleção nacional de futebol?
Eu não sei se percebi bem a pergunta. Pode repetir, se for?
Estava a tentar perceber se o facto de ter todo este peso acaba também por levar a decisões que, no caso de outros atletas, não pesam da mesma forma, não têm o mesmo peso, não têm o mesmo simbolismo.
Sim, eu diria que é muito importante neste momento blindar o grupo a qualquer tipo de interferência externa, nomeadamente este tipo de circunstâncias que nós estamos a falar. Esse tipo de intervenção que me está a caracterizar, mesmo que tenha partido num princípio de ajuda, de colaboração, de tentativa de resolução, não deixa de ser uma interferência externa. Portanto, tudo o que possam ser interferências externas vão ou podem ter um impacto de ter uma qualquer consequência no grupo. E o grupo deve ser blindado a isto. Ou seja, e os atletas devem ser protegidos disto e devem ser atribuídas novas responsabilidades, novas funções, para que eles estejam, de facto, funcionais daqui a um par de horas. Isto neste momento é o que importa. Em alta competição, é isto que importa. É neste momento colocar este tema o mais afastado possível deste grupo de trabalho e organizá-los para a tarefa, que é resolver o jogo que têm dentro de um par de horas.
Isso era o que faria se fosse psicóloga da seleção? Era o que faria com este grupo?
Isso é o que é necessário fazer, independentemente de haver um psicólogo no contexto ou não. Isso é aquilo que é urgente fazer, sim. É sempre organizar as equipas para a tarefa que têm que dar resposta a seguir.
Muito obrigado por esta presença na Rádio Observador. Estivemos a discutir a mentalidade de Cristiano Ronaldo e esta ligação também ao aspecto psicológico de todo este caso com Ana Ramires, especializada em psicologia do desporto, que já trabalhou com vários atletas de alta competição.