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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, esta segunda-feira sobre a demissão de Rui Rocha e o futuro da Iniciativa Liberal. Uma conversa gravada este domingo à noite, do Paulo Ferreira e do Rui Pedro Antunes com o Bernardo Blanco.

Bernardo Blanco, bem-vindo. Obrigado por se juntar a nós neste Explicador. Já disse ao longo do domingo que não entra na corrida à liderança da Iniciativa Liberal. Por que não vai entrar?

Muito obrigado pelo convite. Não vou entrar porque acabei de sair do Parlamento, estou com três projetos profissionais no setor privado e por isso não é o meu tempo. Acho que há pessoas cujo tempo é agora e que são bastante capazes e por isso estou plenamente confiante de que a nova liderança terá bons resultados. Eu continuo disponível para colaborar com o partido, se assim entenderem que posso ser uma mais-valia agora para ajudar até nas próximas eleições, que se avizinham já nas autárquicas, mas não vou concorrer a nenhum cargo na comissão executiva.

Quais são as pessoas então para quem diz que é o tempo ideal agora?

Eu considero que, já agora uma opinião que só vincula a mim, obviamente, que o próximo presidente deve ser um deputado. Os deputados é o que é na política portuguesa, passa-se muito à volta da Assembleia da República e por isso há uma boa parte do mediatismo que vem da Assembleia e por isso parece-me que deve ser um deputado. Entre os deputados que nós temos, assumindo que o Carlos Guimarães Pinto e o João Cotrim Figueiredo também, que já agora é um deputado, mas europeu, que ambos não querem regressar à presidência, que até agora é o que têm demonstrado no passado, assumindo que essa vontade continua igual, eu acho que há duas pessoas que estão bem posicionadas. Uma é a Mariana Leitão, o outro é o Mário Amorim Lopes, e eu acho que são duas pessoas bastante capazes.

Bernardo, duas coisas. Uma é: parece que tanto o João Cotrim Figueiredo como o Carlos Guimarães Pinto, no caso o Carlos Guimarães Pinto tinha essa vantagem de estar no Parlamento Nacional e com essa exposição mediática, seria melhor do que esses dois que agora aponta.

Eu acho que são duas pessoas de enorme qualidade e com bastante mais notoriedade e por isso certamente, se tivéssemos uma análise puramente racional, eu tenderia a concordar com essa afirmação, mas obviamente que as pessoas têm a sua vida, têm a vontade própria e para ser presidente de partido também é preciso querer muito, porque isto implica muito sacrifício pessoal e familiar e por isso respeito também essa decisão de não quererem voltar a essa posição.

Bernardo, tem dito desde ontem também, ou nos últimos tempos, que tem afinal nesses dois candidatos que disse, que é o Mário Amorim Lopes e também a Mariana Leitão. Coincide, aliás, com o texto que o Observador também fez logo ainda no sábado à noite. Mas entre esses dois, não lhe parece que Mariana Leitão está mais bem posicionada no sentido em que já lançou a candidatura presidencial, tem uma eleição individual que será centrada na figura dela, chegou ao Parlamento há mais tempo do que Mário Amorim Lopes ou não consegue admitir isso, que ela está mais bem posicionada para assumir a liderança e ter uma certa continuidade de Rui Rocha do que propriamente o Mário Amorim Lopes?

Acho que a Mariana tem a óbvia vantagem de sendo líder parlamentar, teve bastante exposição neste ano e por isso eu tendo a concordar com essa análise. Agora parecem-me ambos, e eu conheço os dois há muito tempo, o Mário até há mais tempo, os dois bastante capazes e pessoas muito válidas. Agora de um ponto de vista até de política interna, tendo a concordar com essa análise, mas que não é obviamente garantia de que será essa a única hipótese. O que eu acho que faz sentido, já agora, e ontem também tive a oportunidade de dizer isso, é que haja uma candidatura, seja quem for quem encabece, mas que seja agregadora, que tente incluir pessoas também de outras sensibilidades e de outros grupos, que o partido precisa claramente de ter eleições rapidamente e de forma unida para nos concentrarmos e focarmos nas eleições autárquicas, onde esperamos eleger muitos vereadores.

Mas Bernardo Blanco, acha que é melhor uma candidatura agregadora do que uma disputa intensa pela liderança da IL?

Sinceramente, acho que o partido já está num nível de maturidade onde as pessoas conseguem sentar à mesa e falar, em vez de estarem a fazer como já aconteceu no passado, prejudicando a imagem do partido e por isso, obviamente, quem quiser concorrer, concorre à vontade, isso faz parte do processo democrático. Isto é a minha opinião.

Vamos agora olhar para a saída de Rui Rocha. Ficou surpreendido, pelo menos com o timing deste anúncio?

Fiquei surpreendido no sentido em que não estava à espera desta saída, mas não posso dizer que não tenha considerado uma opção correta. O Rui é uma pessoa séria, neste mandato sempre ajudou de forma profissional. Eu acho que ele faz uma análise correta, sabe que isto é um partido exigente, ao contrário de outros. O Bloco de Esquerda cai desastrosamente com um deputado e a líder mantém-se, a Iniciativa Liberal até cresce em deputados, mas o líder sabe que as expectativas eram muito maiores, que a exigência do partido é maior e que por isso dá lugar a outro. Eu acho que isto é pouco comum em Portugal.

Quer mesmo comparar-se com o Bloco, Bernardo? Quer mesmo comparar-se com o Bloco? A IL é hoje o quarto partido de forma destacada.

É, e o Bloco de Esquerda, se eu bem me lembro, já teve mais que 10%. E a questão está mesmo aí, como é que um partido que chegava aos dois dígitos e como é que um partido pode não cair desses dois dígitos para baixo.

É que, por exemplo, o Chega, que apareceu no Parlamento ao mesmo tempo do que a Iniciativa Liberal, tem tido uma taxa de crescimento que digamos assim, seria muito mais apreciada por quem é neoliberal ou liberal, por assim dizer. Também pode olhar por essa perspectiva.

Quando a Iniciativa Liberal quiser entrar numa veia seguidista, populista, de mentiras, de votos e afins, de tudo o que for possível para crescer, eu acho que deixa de ser a Iniciativa Liberal. E por isso o partido deixava de ter a sua essência, não faria sentido continuar. E por isso tem sido um crescimento sustentado. Nós gostaríamos que fosse mais rápido? Obviamente gostaríamos, e daí tirarmos consequências sobre isso, ao contrário do que é habitual na política portuguesa. Aliás, eu desafio-os a fazer o exercício de um partido que tenha aumentado o resultado eleitoral e o líder se tenha demitido. Acho sinceramente que não vão encontrar nestes 50 anos de democracia.

É verdade, Bernardo, mas deixe-me dizer uma coisa, tem toda a razão relativamente às últimas legislativas, mas todos nós conhecemos, porque fomos às convenções da Iniciativa Liberal, o Bernardo, naturalmente como militante ou como membro da IL, e nós como jornalistas, que há sempre um cartaz que foi sempre a subir. E naturalmente desta vez das europeias para as legislativas não foi a subir e, portanto, o comparativo com as legislativas de fato há um aumento, mas não relativamente às europeias. Portanto, também é a primeira vez que a Iniciativa Liberal não sobe.

É verdade, estou totalmente de acordo e é por isso que eu disse que esta decisão era cool, que esta análise e esta decisão eram corretas. Eu acho que a Iniciativa Liberal tende a apontar para os dois dígitos. Nestas eleições europeias há um ano, praticamente tivemos 10% e é aí que nós temos de estar.

O Rui Rocha-

E tudo ponderado, faz um balanço positivo ou negativo da liderança do Rui Rocha?

Tudo ponderado, faço um balanço positivo, foi um mandato muito complicado, que começou obviamente com uma disputa eleitoral difícil, que foi seguida de uma presidência do João Cotrim Figueiredo muito forte, que teve eleições nacionais e regionais várias, antecipadas em apenas dois anos e meio. Eleições que tendem a acontecer se calhar em oito anos, aconteceram em dois anos e meio. E ninguém conhecia o Rui no país. E por isso em dois anos e meio, uma pessoa vir da sociedade civil e enfrentar isto tudo, eu acho que foi um bom mandato. Nós obviamente queremos mais e eu por isso saúdo esta decisão do Rui.

Não é estranho o timing, porque quando a delegação da IL foi a Belém, o presidente da República ontem dizia isso, quando foi confrontado com a demissão. Apresentou-se como uma espécie de um protagonista a liderar uma proposta de revisão constitucional e de repente sai. O que mudou numa semana? É que os factos já eram os mesmos. Essa parte não lhe causa estranheza?

Eu não estando na comissão executiva, não sei o que levou a essa decisão inicial de apresentar essa ideia de revisão constitucional, que depois obviamente, tendo em conta esta decisão, não tem grande lógica. E por isso percebo o comentário do presidente da República, mas em relação ao timing, acho que é um bom timing no sentido em que mais vale ser já agora, de uma forma pós-eleitoral, antes da legislatura começar, do que ser só depois, se calhar, a meio da legislatura. Assim damos tempo a uma nova liderança de começar já desde o início do mandato desta nova legislatura, que tomará posse muito em breve, de fazer o seu caminho desde o início.

E Bernardo Blanco, acha que a nova direção da IL deve manter ou recuperar este projeto de revisão da Constituição?

Importa só repetir a parte final, Paulo.

Se acha que a nova direção deve manter, recuperar, quando estiver devidamente empossada, este projeto de revisão da Constituição.

Acho que tem de ser algo que o grupo parlamentar, eu agora acabei de sair do Parlamento e por isso não me quero estar a intrometer nisso, que será a nova decisão do grupo parlamentar. Acho que obviamente há uma nova composição no Parlamento e a Iniciativa Liberal, tendo aí pesos, tem de assumir as suas responsabilidades, mas também tem de o fazer de forma ponderada e já agora ouvindo os órgãos, quer a comissão executiva, quer o Conselho Nacional, porque um projeto de revisão constitucional não é propriamente brincadeira, entre aspas. E no passado nós já o fizemos. Nessas propostas importantes, ouvimos também o Conselho Nacional e acho que é isso que deve acontecer de uma forma mais calma e não tão impulsiva. Trabalharmos aqui todos em conjunto.

A IL tem oito anos, vai agora para o quinto líder. Isto fazendo aqui um rácio, dá uma média de um ano e meio a dois anos por líder. Não é demasiada instabilidade para um partido que diz que defende a estabilidade no país?

Eu acho que sim, acho que é uma pluralidade saudável e mostra que o partido realmente está cá pelas ideias e pelo projeto cultural e por esta transformação cultural, mas tendo a concordar que isto não é um think tank, é um partido político. Acho que até já disse esta frase uma vez na Rádio Observador, e eu estou convicto disso. Quer dizer, um think tank é um think tank, isto é um partido político, quer votos para implementar as suas propostas, para influenciar a governação, e por isso obviamente que seria desejável que as lideranças fossem mais estáveis, que nós quando investimos dois anos a tornar uma pessoa conhecida do país, depois não começássemos do zero com outra, que houvesse longevidade. E acho que obviamente, termos lideranças tão curtas tem afetado esse crescimento, porque estamos muitas vezes a começar do zero com outra pessoa e por isso o meu desejo para as próximas lideranças, sejam quem forem, é que obviamente fazendo um bom trabalho, fiquem mais tempo do que aquilo que até agora os anteriores líderes ficaram.

Se for a Mariana Leitão, já não precisam de perder tempo a tirar os óculos, que só para isso foram os mesitos, para fazerem o makeover da imagem. Mas a IL precisa também, e há aqui uma oportunidade de reflexão interna para se reposicionar ideologicamente. E aproveito para dobrar aqui a pergunta no sentido: e em que direção? O Bernardo é daqueles que olha para o Milei até como uma inspiração, pelo menos na parte econômica. O partido deve ir para aí ou não?

O que eu acho genuinamente é que o partido ou vai coligado ou não vai coligado. E depende das situações e agora nas autárquicas, obviamente dependerá dos conselhos. Mas quando o partido decide não ir coligado, como foi nestas eleições, o partido tem que se diferenciar. Não pode haver uma colagem excessiva à AD, porque se isso acontecer, se as propostas forem muito moderadas, muito parecidas com as da AD, as pessoas vão preferir o original à cópia. E a nossa intenção não é que tudo fique como está, é obviamente puxar a janela cultural deste país para que haja uma sociedade civil mais forte, para que haja menos presença do Estado, para que haja menos políticos a decidir a vida das pessoas em licenciamentos, burocracias e afins. E se não formos nós a dizê-lo, nenhum outro partido dirá. A Iniciativa Liberal nasceu exatamente para isso. E por isso essa diferenciação para mim é essencial e é o que faz com que a Iniciativa Liberal possa crescer. Eu tenho dito isto internamente e acho que vou começar a dizer de forma mais ativa publicamente, que é: de nada serve ser o melhor amigo do país inteiro. Nós não temos de agradar a tudo e a todos. Ser a segunda escolha do país inteiro não serve de nada. Nós temos de ser a primeira escolha de uma minoria, minoria essa cada vez maior, para que o partido possa crescer. E por isso, a meu ver, isto foi um erro desta campanha, só para terminar muito rápido, que foi não indo coligado, nós temos de nos diferenciar e eu acho que houve uma excessiva colagem à AD.

Já ouvimos essa crítica também na Cinquentenias e no "Não!". Não temos muito tempo para explorá-la, mas eu queria que ir a um outro ponto, que é se houver convenção e novas eleições para os órgãos, o Bernardo avança de novo com uma lista ao Conselho Nacional, já que a sua lista foi a vencedora da última?

Isso é uma ótima questão, que ainda não tinha sido colocada. E muito provavelmente sim, porque acho que não mudou nada de substancial nos últimos meses, pelo contrário, como se viu pela pequena crítica que eu acabei de fazer e, por isso, sim, voltarei a encabeçar uma lista ao Conselho Nacional.

E durante esta legislatura que agora começa, Bernardo Blanco, isto para fechar, os nove deputados da IL não têm nenhuma influência na constituição de uma maioria parlamentar. Qual deve ser a atitude da IL?

Eu acho que a atitude da IL deve ser uma oposição construtiva, uma oposição no sentido em que nós não somos governo e por isso não somos responsáveis nem pelos sucessos, nem pelos erros desta governação, mas sempre construtiva, porque nós não nos vamos distinguir por ser mais negativos e bota abaixo do que os senhores do CHEGA e por isso temos é de apresentar as soluções para dar resposta aos problemas dos portugueses, que acho que é aí com a nossa competência e com as pessoas capazes que temos no partido, que podemos ser uma mais-valia para o país.

Boa tarde, Blanco. Obrigado pelo testemunho.

Muito obrigado.