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E terminou há pouco o prazo para a entrega de propostas para a privatização da TAP. Todas as ocasiões são perfeitas, mas para uma conversa com Alexandra Machado, editora de economia do Observador. Bem-vinda, Alexandra. Sabemos ainda muito pouco, mas sabemos quantas propostas foram entregues e quem as recebeu?

Quem recebeu foi a Parpública. E perfeito, era mesmo que soubéssemos já isso tudo.

Portanto, não sabemos.

O prazo terminou às 17h, para a entrega de propostas não vinculativas à TAP. A Air France KLM, logo de manhã, anunciou que tinha feito essa entrega da sua proposta não vinculativa. A Lufthansa demorou um pouco mais a anunciar que fez a proposta, foi agora à tarde que assumiu. E, neste momento, confirmada são essas duas pela voz das próprias. Haveria uma terceira possibilidade, que era a IAG, que é a dona da British Airways e da Ibéria, que nos últimos dias estava a ser noticiado a possibilidade da IAG ficar de fora e não entregar a sua proposta vinculativa. Sabendo nós que a IAG é uma empresa cotada e não tendo ainda feito qualquer comunicado ao mercado a anunciar essa entrega, estou eu a assumir que a IAG não deverá ter feito a proposta não vinculativa. Estamos à espera, no entanto, que a Parpública confirme o número de entidades que entregaram.

A avaliar pelo que conhecemos, poderão estar duas propostas entregues, a da Air France KLM e da Lufthansa. Há alguma destas propostas mais robusta ou mais forte do que a outra?

Nós não conhecemos o teor das propostas e nas propostas, além do valor, cada candidato tem de apresentar um plano estratégico para a TAP, para o transporte aéreo, mas também para a área de manutenção e engenharia. E tudo isto está envolto em segredo, obviamente, porque pode haver ainda uma fase de negociação e nenhuma delas quererá entregar ao concorrente os pontos.

Exato.

Obviamente que numa análise fria dos dois candidatos, há pontos mais fortes pra uns, há pontos mais fortes pra outros, mas eu, como não tenho a incumbência de avaliar as propostas, estou à vontade. Air France KLM são dois gigantes da aviação europeia, são duas companhias muito relevantes no setor da aviação. Em qualquer uma, a TAP conseguirá encontrar o seu caminho. A Lufthansa tem argumentado que o seu principal hub, e por hub queremos significar as plataformas da aviação que transportam, que fazem as ligações entre, nomeadamente, continentes ou entre localidades e outras, que permitem aos passageiros encontrar ali um ponto de ligação único. Isso é que se chama um hub, uma plataforma de distribuição de passageiros. O da Lufthansa é um bocadinho mais longe do que Lisboa, porque o da Lufthansa está em Frankfurt, o da Air France KLM, na realidade, são dois. Um está em Paris e o outro está em Amsterdã. Schiphol, que é um dos principais aeroportos europeus. Sendo que o de Frankfurt está um bocadinho mais longe, a Lufthansa tem uma capacidade de distribuição, uma capilaridade muito grande. Agora, na minha ótica, nenhuma empresa quererá comprar a TAP, não considerando o hub em Lisboa. E a TAP, nesse aspecto, o que é que dá a ambas as companhias? Um ponto importante de ligação ao Brasil.

À América do Sul e à América do Norte também, não é?

E à África.

E à África.

Que é um importante ponto de distribuição da TAP. Mas o Brasil é muito importante. Nem a Air France, nem a Lufthansa têm uma forte distribuição no Brasil. A América do Norte tornou-se muito importante para a distribuição da TAP. Portanto, é olhar para o outro lado do Atlântico que estas companhias estarão a ver. Agora, uma vantagem da Air France, isto é mais a nível de gestão, é saber como lidar com acionistas públicos. E as duas vão ter que lidar ainda com o acionista público.

Exatamente, porque também é importante explicar isso. Estamos a falar, nesta fase, de 49% da TAP.

49,9%, sendo que 5% vai ser para trabalhadores.

Exatamente.

Se os trabalhadores quiserem ir à tranche, senão fica reservada pro parceiro estratégico.

Ou seja, o parceiro estratégico não vai ter a maioria.

Não vai ter a maioria, mas haverá de ter um contrato parasocial com o acionista maioritário, que é o Estado, para ter poderes de gestão.

Ou seja, vai mandar.

Vai mandar.

Não é o ministro que vai mandar.

Esperamos nós que não seja o ministro que vá mandar. Obviamente que nem a Lufthansa, nem uma Air France KLM aceitaria ter uma posição minoritária sem qualquer palavra na gestão. A gestão vai ser delas. E é esse o objetivo da privatização: integrar a TAP num grande grupo internacional de aviação. Não faria sentido estar separada, estar no seu nichozinho, sozinha, sem a ligação à Lufthansa ou à Air France-KLM. O Estado vai manter-se maioritário para já, porque nós não sabemos o que é que vai acontecer aos governos.

Exato, mas não há um calendário.

Não há um calendário. O governo de Luís Montenegro já disse que nesta legislatura não deverá acontecer a segunda fase de privatização, que seria abdicar da maioria.

Há essa-

Há essa intenção

...intenção. Ia dizer uma promessa, mas a intenção de libertar o capital maioritário para avançar.

E quem ganhar agora nesta primeira fase terá direito de preferência.

Claro. E falavas aí na questão dos hubs e de Frankfurt e Paris, imagino que são as tais condições inquebrantáveis do negócio para vender, não deixar que Lisboa se transforme num apeadeiro.

Os governos, nisso acho que dizem todos a mesma coisa, é que não querem vender a alguém que destrua o tal hub em Lisboa da TAP. E isso é uma condição, manter presença forte em Portugal, até para podermos responder também a uma diáspora. E tanto a Air France como a Lufthansa, obviamente que estamos num processo concorrencial, vão dando os seus argumentos e piscando o olho para tentarem conquistar a sua dama, mas já disseram que manterão um hub em Lisboa. Aliás, no preço, na avaliação da TAP, está implícito esse hub. Seria pouco recomendável que se pagasse um prêmio para ter um hub em Lisboa e depois se destruísse o hub de Lisboa. Agora, obviamente que estas empresas são muito grandes e terão poder no futuro para retirar algum poder à TAP, digamos assim, poder poder, mas podem tirar aqui alguma força a TAP em algumas ligações até dentro da Europa. Poderá acontecer aqui alguma redução de ligações da TAP.

Podemos virar-nos mais para oeste e menos para leste.

Exato.

Obrigado, Alessandra, por ter estado cá. Alessandra Machado, editora de Economia do Observador. Estão entregues as propostas, ainda não sabemos bem quantas nem de quem, mas seguramente serão duas, para a privatização parcial da TAP.