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Será que os portugueses ainda têm dinheiro para ir a todas as praias e fazer férias em Portugal? Vamos pegar no caso de dois cidadãos norte-americanos do chamado Rust Belt, cintura da ferrugem nos Estados Unidos, uma zona muito industrial na Pensilvânia. Anne tem 52 anos, Matt 55. Ele já está reformado, ela ainda trabalha remotamente pra indústria farmacêutica. Acontece que são ambos protagonistas de um artigo do New York Times, publicado ontem, com o título, vou traduzir, será qualquer coisa como isto: "Um T2 para um novo capítulo da vida em Setúbal. Será que 400 mil dólares chegam?" Pergunta o New York Times. A ideia da Anne e do Matt seria viver em Lisboa, mas a cidade já está demasiado cara para estes americanos, que conseguiram um apartamento T2 em Setúbal, um pouco abaixo dos 300 mil euros, e depois fizeram uma renovação profunda, portanto, aproximaram-se dos 400 mil. Estão muito felizes numa cidade portuária a cerca de uma hora de Lisboa, como descreve o jornal nova-iorquino. Este é um casal normal, com poder de compra acima da média de um casal normal português, que já está mesmo a anos-luz das muitas estrelas que já têm casa em Portugal ou pensam vir a ter. Esta longa introdução ainda vai continuar mais um pouco, não desesperem. Isto porque Meghan Markle e Harry decidiram voltar dos Estados Unidos para o Reino Unido e convém lembrar que compraram uma casa no exclusivo clube e empreendimento Costa Terra, na freguesia de Melides, em 2023, na zona da Comporta, ou o que vulgarmente chamamos zona da Comporta. E é sobre preços de casas, praias e férias que vamos falar neste explicador. Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França, e quem é a nossa convidada, Judite?

A Maria Ramos Silva, editora do lifestyle d'O Observador. Bem-vinda, Maria. Obrigada pela disponibilidade. Ainda no capítulo Meghan e Harry, a compra da casa na Comporta foi um primeiro indício de que estavam de regresso à Europa?

Nós hoje conseguimos perceber ou ficar com essa impressão que sim. Na verdade, nós hoje especulamos se com este regresso, de alguma forma, não irão explorar mais esta base em Portugal. Provavelmente sim, até porque estão bastante mais perto. Podem vir passar uns fins de semana extraordinários, com um pouco mais de sol do que encontrarão ali no countryside britânico, de certeza.

Até porque é rápido, não é?

É, tudo maravilhoso.

É um tirinho.

É um tirinho, como se costuma dizer. E a verdade é que olhando em retrospetiva, de facto, houve aqui um primeiro sinal. Em 2023, eles fazem esta aquisição, entram aqui neste grupo exclusivo de celebridades que têm esta tal base no litoral alentejano e vamos juntando estas peças e hoje, de facto, faz tudo um pouco mais sentido e podemos acreditar que gera uma espécie de lança neste regresso europeu pra testar um pouco também aqui das águas, ver o acolhimento.

E Maria, ele já não é príncipe ou ainda é príncipe, o Harry?

O Harry é.

Estou sempre perdido nessas coisas.

O tio, o André, que já não é, por outros motivos mais complicados.

Além do príncipe, há outras celebridades internacionais com casa em Portugal e na Sunny Beach portuguesa.

A começar por uma princesa também, uma das primas do Harry, a Princesa Eugenie, e o marido, que aliás se lançam nesta aventura até antes, ainda em 2021, é quando surgem as primeiras notícias de que a Eugenie, que está ligada ao mercado das artes, ela trabalhava e trabalha ainda numa galeria, mas consegue ter assim esta modalidade mais distendida. O marido é empresário, ia trabalhar no Costa Terra, conhece o dono do empreendimento, o Mike Madman.

Foi esse casal que teve o bebê.

Exatamente, e que já anunciou que teve a filha mais recente, a Adelaide. Tem, aliás, um nome de homenagem também a Portugal. Já em Portugal fez questão de referir isso, portanto, já não estamos a falar só de uma coisa que é, de repente, descoberta pela imprensa. Estas pessoas fazem questão de partilhar o mundo publicamente, que de facto há aqui uma série de decisões que envolvem Portugal, o nome de Portugal e do Alentejo e tudo mais. A própria Meghan Markle e o Príncipe Harry, nós sabemos que estiveram de férias em julho na Comporta, e também só soubemos porque fizeram questão de partilhar nas suas contas oficiais que assim o fizeram, porque senão nós também não saberíamos. Porque de facto é com enorme discrição que estas pessoas conseguem passar e movimentar-se.

Mas há outras grandes estrelas por cá, não é?

Há. Já anteriormente falava-se de George Clooney também, que estaria ligado, aliás, ao próprio investimento no empreendimento. Falar-se-ia também uns anos mais tarde Nicole Kidman, nunca se confirmou exatamente, mas enfim, especula-se que seja ali um grupo que possa fazer sentido passar por ali. O Max Verstappen, por exemplo, o piloto da Red Bull, que também passa regularmente, ainda há pouco tempo lá esteve. Portanto, estas pessoas vão também circulando lá, de uma forma que se vai sabendo, mas conseguindo garantir um grande anonimato, que é, na verdade, o condimento fundamental.

Ora, esta procura por parte de pessoas com dinheiro, ou melhor, com muito dinheiro, faz disparar os preços para níveis que muitos dos nossos concidadãos não conseguem alcançar. Estamos a falar mais ou menos de que valores?

No Costa Terra, por exemplo, as indicações é que não é possível conseguir chegar lá por menos de 3 milhões, digamos assim, uma fasquia básica. Mas eu acho que nós entramos aqui num campeonato ainda mais exclusivo ou segmentado, porque não é só uma questão de dinheiro. Segundo se sabe, é também uma questão quase de convite. Ou seja, há ou haverá uma espécie de pré-seleção, porque estas pessoas têm também o poder enorme, acredito eu, de selecionar quem é que querem fazer parte deste clube privado.

Da vizinhança.

Exato, porque nós estamos a falar, de facto, de um circuito muito fechado, em que se consegue entrar e blindar tudo aquilo que se passa lá dentro de alguma forma, altamente controlado em termos de segurança, e em que as pessoas têm acesso a todas as valências. As pessoas entram, não precisam de sair dali, têm um acesso direto à sua praia, têm um centro de bem-estar, têm o campo de golfe, têm o sítio onde podem comer, deixar os miúdos. Portanto, tudo isto faz parte dessa experiência. Não é um simples teto.

Ou seja, se eu quiser comprar ali um T1 com terraço e depois convido e dizer: "Harry, anda aqui comer umas sardinhas, que eu vou fazer umas sardinhas assadas."

Primeiro tens de garantir que és aceite. Fazer essa triagem, passar no teste.

Eu tenho aqui uma aguapé de primeira qualidade.

Exato.

O mais provável é ser barrado. Não me vão aceitar.

Ou pelo menos haver uma lista de espera considerável. Parece que há ali, de facto, algumas exclusões à partida. Consta que, por exemplo, não estão propriamente interessados em acolher russos, árabes, chineses.

Não basta ter dinheiro, não é?

Não basta ter dinheiro, porque há, de facto, ali uma comunidade que deve obedecer a uma série de características e provavelmente regras não escritas, mas que se vai percebendo mais ou menos como é que eles são.

Mas isto também acaba por não ser exclusivo da Comporta.

Nem de Portugal. Para nós pode parecer uma novidade.

Mas para nós, nós pensamos agora ir de férias e conseguimos ir.

Estás a fazer contas e a compreender.

Conseguimos ir uma semaninha de férias para um T0 com três filhos, cinco pessoas. Toda a gente leva o farnel pra praia, porque já não se consegue comer a preços, não sei, eu acho que já não existe um sítio onde se possa comer bem e com preço moderado na praia. E muita gente também já faz o jantar em casa, porque no Algarve, Comporta, Costa da Caparica, enfim, pela costa, estou só a citar situações do sul.

Sim, é mais óbvio.

Mas os preços são impossíveis.

São, e nota-se, de facto, para quem frequenta, por exemplo, o Algarve, eu estive lá recentemente, nota-se que há uma alteração naquilo que eram as rotinas das pessoas. As pessoas muitas vezes faziam a famosa quinzena no Algarve, e isso, de alguma forma, foi encurtando. Hoje é a semana de férias. Provavelmente não vão comer fora tantas vezes quanto iam, pensam em soluções alternativas. Mas eu creio também que não é um contexto exclusivo de Portugal, porque, por exemplo, há uma tendência que, não sendo nova, disparou muito na altura da crise de 2008, que é o chamado staycation. E, por exemplo, em Itália, eu ainda há pouco tempo vi uma sondagem, uma coisa que até pareceu numa revista mais de lifestyle, em que metade dos italianos admitia ficar dentro de portas. Nem pensava ir para fora. Muitos deles até admitiam manter a sua casa como base e fazer umas espécies de escapadinhas durante a semana, com uns planos mais ousados, mas tudo muito restrito, muito contido. E parece-me que, de facto, não é normal, até porque estamos a falar, por exemplo, de um outro destino altamente saturado no verão, em que se paga também para aceder à praia. Ciclicamente há polémicas sobre o acesso à praia, o quanto é que pagas para estender a toalha, para te sentar numa esplanada. Todo o sul da Europa, de alguma forma, está a lidar muito com esta pressão. Claro, nós sentimos mais diretamente.

Mas voltando aqui ao casal de que falávamos no início.

Como é que vão de férias.

Aquele casal que foi viver para Setúbal, de americanos.

Essa história é absolutamente extraordinária.

E que já não têm dinheiro para viver em Lisboa, mas são americanos, têm algum poder.

Querem muito viver Portugal.

Têm algum poder de compra e acham que um T2 a 300 mil euros em Setúbal é um bom preço.

Já é uma bela... Exato.

É um apartamento até muito em conta.

Mas claro, quando nós estamos a falar de um preço médio de um metro quadrado em Lisboa, eu penso que chega aos 5 mil euros. De facto, é extraordinário e parece-me que essas pessoas vêm muito encantadas, e nota-se que há esse encanto lá fora, que continua a haver muito sobre Portugal. Portugal está realmente na moda. Todas as semanas nós abrimos sites de viagens, da Condé Nast, multiplicam-se os artigos em que Portugal é encantador.

Está no top.

Está no top. E é, de facto, eu acho Portugal encantador. E acho que Portugal, de facto, às vezes não é tão conhecido pelos portugueses. Eu acho que isso também pode ser uma boa oportunidade para uma série de destinos no país que costumam ocupar uma posição mais invisível. Precisamente, nós temos coisas absolutamente fascinantes que escapam ao radar, porque também estamos habituados, por uma questão também natural de habituação, de tradição, de ir para os sítios A, B e D. Depois, na verdade, temos um país extraordinário, com uma série de propostas de segunda linha, muito em conta, no Alentejo, no Norte, no interior, que de facto, se calhar, vai obrigar os próprios veraneantes a procurarem essas alternativas.

Voltando aqui ao casal Harry e Meghan Markle, este regresso pode trazer problemas no reino?

Eu penso que já estará a dar. Eu não quero imaginar aquelas férias, neste momento, em Balmoral, na Escócia. Um cenário tão idílico, mas depois a família. E férias em família já é sempre um desafio, como sabemos, mesmo que seja num castelo.

Eles não ficam num T0.

Há espaço para fazerem as suas birras, irem chorar pro quarto, desesperados.

E podem caçar também.

Também. Há ali imensos vales, mas de facto, parece que já ali Uma transformação, uma espécie de cimeira familiar, como lhes chamam, já a pensar no embate que se prevê nos próximos tempos. A notícia, de facto, chega com algum, para não dizer bastante, choque e especula-se que não fica por aqui, vai ter próximos capítulos. Isto promete ser um folhetim a partir de setembro, quando chegarem, quando começarmos a perceber onde é que vão ficar instalados. Provavelmente, em mais uma zona que vai viver também ela de uma forma muito fervilhante a chegada destas pessoas, com efeitos também no mercado imobiliário, calculo eu, porque de repente é que vai ser ali toda uma grande efervescência à volta do casal. Portanto, vamos ver.

Mas não se antevê que já tenham feito as pazes todos, não é?

Não. De todo.

Eles estão todos meio zangados, não é?

Ainda estão.

O que sabemos é que há aqui um esforço diplomático, digamos assim, que foi encetado já há mais de um ano, através sobretudo do secretário particular do Rei, do Carlos III, que de facto meteu na cabeça: „estas pessoas têm que se entender e têm que fazer as pazes“. Mas há aqui, para além desta aproximação, um cenário ainda muito complicado de resolver, que é nomeadamente a relação dos dois irmãos, que é pública, que estão de costas voltadas desde o funeral da Rainha, portanto, não se dão, não há qualquer tipo de ligação. E eu penso que essa continuará a ser a grande pedra no sapato para resolver. E vamos ver o que é que poderá vir para a frente. Mas não, agora, de facto, nós podemos é esperar que esta base em Portugal seja mais ativada nos próximos tempos e quem sabe se não os teremos aqui. Pois é, mas de uma forma mais regular em Portugal.

Ainda podem vir viver para cá também umas temporadas.

Setúbal, por exemplo.

Por exemplo.

Há chocofrito, há caracóis.

Mas repara, Portugal é sempre um bom plano de fuga para o caso de tudo falhar mal neste regresso ao reino. Eu acho que esta decisão também não é despropositada. Terá essa preocupação em mente.

Porque além do sol, e regressando aqui um bocadinho ao início da nossa conversa, para além do sol e da discrição que permite.

E da segurança, Ricardo.

É a segurança, não é?

Pois, é que nós esquecemos muito disto enquanto portugueses. Nós não damos valor a esta coisa extraordinária de viver num país que, apesar de tudo, e nós temos notícias e vamos sendo muito confrontados com isto e às vezes ficamos um pouco em modo alerta e também é natural que fiquemos, mas vivemos num país genericamente seguro, em que pessoas como estas, príncipes e princesas, saem à rua, vão ao supermercado, ninguém os chateia, a imprensa não é violenta, não ataca estas pessoas, não anda com máquinas em cima deles, eles conseguem não ser assaltados, não levar um tiro. Quer dizer, isto não é um detalhe.

Sim, estou a imaginar a Meghan a dizer: „Oh Harry, vai lá.

Comprar um bocadinho de salsa.

E traz um bocadinho de farinha que eu hoje quero fazer um bolo, se faz favor. Quero fazer um bolo de laranja e não tenho farinha." E lá vai ele.

E lá vai ele.

Ao supermercado.

Ora bem.

Comprar. Obrigado, Maria.

Obrigada.

Obrigada.

Maria Ramos Silva, editora de Lifestyle do Observador.