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Explicador da Rádio Observador, o Governo recusa suspender durante todo o verão a aplicação nos aeroportos do novo sistema europeu de controle de fronteiras, embora admita que a recolha de dados biométricos possa ser interrompida em períodos limitados, o que, de resto, já aconteceu até aqui. Este fim de semana voltou a ser pródigo em filas e filas de passageiros oriundos de países não Schengen, que esperam horas infindas em filas, quer para sair do aeroporto, nalguns casos, até para ir apanhar o avião. Questionado hoje pela Lusa, o Ministério da Administração Interna informou que Portugal mantém o compromisso de assegurar o funcionamento deste sistema em conformidade com as regras europeias. Ainda assim, o Governo admite esta suspensão do sistema em situações mais complicadas. Essa avaliação cabe à PSP em cada momento. Esta situação não é um exclusivo português, está a afetar outros países europeus, nomeadamente a Grécia, também na Alemanha, em Amesterdão. Lisboa estará, no entanto, entre os piores casos em toda a Europa, a avaliar pelas notícias mais recentes. Na Grécia, as autoridades também admitem suspensões temporárias do sistema. Os turistas britânicos estão entre os mais prejudicados na Grécia e Atenas admite esta suspensão temporária nalguns casos, mas não admite a suspensão total do sistema, ao contrário do que chegou a ser avançado. Entre uma péssima experiência de férias e voos de ligação perdidos, como vai ser este verão com este sistema que não está a dar conta do recado e está a provocar muitos problemas nos aeroportos europeus? Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.

E o nosso convidado Hélder Martins, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. Quão preocupado está com este problema nos aeroportos, em especial no aeroporto de Faro?

Boa tarde, eu é que agradeço e, de facto, todas as oportunidades que tivermos para poder tratar este tema são sempre importantes. O aeroporto de Faro vive aqui duas situações completamente díspares. Por exemplo, eu hoje estive no aeroporto de Faro cerca das 11h00 e o tempo de espera estava em 15 minutos, o que é ótimo, é mais que ótimo. Durante a manhã tinha havido um momento em que o tempo de espera superou uma hora. E, portanto, entre uma questão e outra, é evidente que o que nós gostaríamos era de dar uma estabilidade e que o turista, quando chega ao Algarve, soubesse que tinha um tempo de espera médio normal e não, por vezes acontece, um tempo de espera superior ao tempo que durou o voo. Ora, isto revela que, de facto, a estrutura que foi entretanto implementada ou o sistema informático que foi implementado para esta recolha de dados não está a funcionar. E quando não está a funcionar, é preciso corrigir. Portanto, nós não estamos a mudar para um novo sistema para piorar. E o que tem acontecido, sejamos realistas, não ao nível de Lisboa, porque, de facto, é evidente que a grande percentagem de turistas que aterram no aeroporto de Faro são de não Schengen, não só o Reino Unido, como agora também voos do Canadá e dos Estados Unidos, e de facto, esse é um problema crucial para o turismo. Se me perguntar se estamos a sentir nas unidades uma diminuição de reservas, se estamos a sentir uma revolta total dos clientes, não estamos, mas o que nós lutamos é para melhorar as condições e não para as deteriorar.

Hélder Martins, já vamos também perceber que consequências é que tudo isto está a ter nas reservas. Portanto, o que estava a explicar é que tudo isto depende muito de situações de pico, ou seja, quando há mais aviões a aterrar e se convergem aviões que vêm do Reino Unido e dos Estados Unidos e se tocam ali no tempo, a situação agrava-se em Faro, é isso?

É, exatamente. Há um período, que normalmente é de manhã, em que coincide com a chegada de mais de 10 aviões por hora, portanto, consequentemente, mais de 2 mil passageiros por hora, o sistema colapsa. E essa é uma questão que já temos vindo a acompanhar ao longo de algum tempo. E, portanto, como estes turistas vêm do seu destino e as companhias aéreas tentam começar os voos o mais cedo possível, é evidente que isso vai arrebentar por volta das 08h, 09h, 10h, 11h. Se nós formos nesse mesmo dia da parte da tarde ao aeroporto, as coisas estão a funcionar às mil maravilhas. Portanto, esse é o problema crucial.

Mas é uma espécie de lotaria para o passageiro, não é?

Exatamente. Mas como citaram anteriormente, é evidente que temos informação que hoje a força policial que controla o aeroporto tem autonomia para, num determinado momento, poder desligar o sistema, se me permito a afirmação. O que achamos é que isto não deve ficar ao critério de um qualquer responsável policial, mas deve ser um sistema que funcione por norma. E por isso nós fizemos há algumas semanas uma carta ao primeiro-ministro, ao ministro da Administração Interna e ao secretário de Estado do Turismo a pedir que até outubro fosse suspenso esse sistema, como já aconteceu anteriormente, por exemplo, em Lisboa, até que tudo isto afinasse, porque é uma imagem má que estamos a transmitir do destino.

Percebo esta questão. Pergunto-lhe: como é que é em termos de segurança?

É evidente que, em termos de segurança, todos nós queremos a máxima segurança. Mas é verdade que se existe hoje, e isso é mais ou menos assumido, a possibilidade de se deixar de recolher esses dados biométricos durante períodos de pico, para que não rebente completamente o sistema pelas costuras, o problema de segurança está aí também. Já tivemos uma perspectiva de aumentar o número de efetivos que lá existem. A própria GNR já veio reforçar. Tivemos mais postos e o problema é que, por exemplo, e isso é que me preocupa, este fim de semana numa reportagem de uma televisão, um turista dizer que não estavam naquele momento a recolher os dados biométricos, mas que o sistema estava a emperrar também, porque o que se verifica, ainda hoje vimos isso também em reportagens, é que o próprio sistema de recolha, por vezes, não lê a fotografia, não lê a indicação do polegar. Ou seja, o sistema não está perfeito. E quando um sistema não está perfeito, temos que aperfeiçoá-lo, porque é agora, crucialmente para o Algarve, que começa o pico do movimento. O aeroporto de Faro hoje estava cheio de gente, as unidades hoteleiras estão a trabalhar bem, o tempo está a ajudar e não é agora que nós vamos emperrar todo o sistema, porque depois no inverno temos tempo de afinar todos esses sistemas. Achamos que é um mau serviço que se presta ao turismo, todo este processo que se passa hoje nos aeroportos.

Então, como diz, faria sentido para si a suspensão deste sistema para aí até outubro ou novembro?

Sim, até outubro. Nós vivemos do turismo, o Algarve vive essencialmente do turismo e a partir de maio ou a partir de abril, digamos, a partir da Páscoa, consoante ela se posiciona no calendário, nós começamos a ter um afluxo muito grande. Infelizmente, temos uma sazonalidade e durante o resto do ano as coisas funcionam calmamente. E, portanto, hoje apercebi-me de uma questão que eu lhe trago aqui. O problema não é só do hotel, eu represento hotéis, mas imagina uma empresa que se dedica a transportar turistas de e para o aeroporto de Faro, que tem o agendamento de um turista, por exemplo, às 9h00, e o turista sai do aeroporto às 11h00. Ora, esta empresa, durante a manhã já não faz mais nenhum transfer. Portanto, isto está a complicar a vida de muitas empresas.

E atrasa outros, não é? Portanto, pode pôr em causa outras marcações.

E têm havido turistas a chegar ao aeroporto em que já não está lá ninguém à espera dele. Estamos a prejudicar a imagem, que é uma imagem de credibilidade, de bem receber, que o Algarve apresenta. E ainda por cima, o aeroporto de Faro tem uma situação que é vantajosa para quem quer usar estas imagens, que é a escada em que se desce para a zona de controle, que dá uma imagem que vemos centenas largas de pessoas que estão ali à espera e que desesperam. Portanto, este é um problema. Eu sei que o problema de segurança é extremamente importante nesta questão, mas o que é fato é que nós já sabíamos há algum tempo que este sistema ia estar em implementação total e aquilo que se verificou hoje é que o sistema não recebe, demora o triplo ou o quádruplo do tempo a verificar cada passageiro e isso, depois, não há milagres.

Sendo o Algarve um destino de eleição para os turistas britânicos, faria sentido um corredor exclusivo para este tipo de passaporte?

Sim, claro. Nós chegamos, inclusivamente, a propor e em conversas com o aeroporto e com a ANA e com o próprio Ministério da Administração Interna, que houvesse aqui uma fórmula de tratamento especial do cliente inglês. Eu dou-lhe dois ou três exemplos. Nós temos clientes que vêm cá N vezes por ano. Quando chega a altura dos saldos das companhias aéreas, assim podemos dizer, compram vários voos para vir ao Algarve. Essas pessoas, que têm casa no Algarve, são pessoas com poder económico grande, que mesmo fora da época alta, porque esses clientes não vêm na época alta, são os clientes que alimentam os bons restaurantes, que alimentam uma série de negócios no Algarve. Esses clientes hoje não vêm porque dizem que não estão disponíveis para, com a tal lotaria que falámos há pouco, estar à espera de ou ter um dia bom ou ter um dia mau na chegada. Portanto, nós estamos a afastar aqueles clientes que são preferenciais do destino, que adoram o destino, a dizer-lhes que se calhar vão pro outro lado, no outro lado são se calhar melhor recebidos. Nós não podemos conceber isto, porque a nossa atividade depende essencialmente, e mais de 50% dos turistas que aterram no aeroporto de Faro vêm do Reino Unido. Mas deixe-me pôr outra questão. Conquistámos recentemente o mercado canadiano, que tem voos diretos para o Algarve. E o ano passado conquistámos um voo direto para os Estados Unidos, que é o cliente que todos andamos à procura, cujas unidades de qualidade superior hoje já têm o mercado americano como primeira nacionalidade. Ora, o mercado americano vai chegar ali exatamente igual nesta fila, como o mercado do Reino Unido e como o mercado do Canadá. Portanto, queremos diversificar, mas depois esbarramos em questões deste género, que é que mata qualquer publicidade que o destino faça.

Mas está a ser um problema também europeu. Não é só Portugal, afeta os aeroportos espanhóis, gregos, enfim, todos os aeroportos. Há pouco falava, dizia que não tinha ainda notícia de cancelamentos, ou seja, não há uma consequência prática deste ponto, já quero ir a outro, deste ponto concreto não está para já a ter uma consequência prática nas reservas.

Não, não está. O que está a acontecer agora, e tem a ver com outro, se calhar, é esse ponto que vai tocar a seguir. Tem a ver com esta questão que se levantou da possibilidade de não haver combustível para os aviões.

Exatamente, e do cancelamento dos voos.

Exato. Os clientes a perguntarem-nos: "Se for cancelado o meu voo, se me devolvem ou não me devolvem o dinheiro". O que é que isto está a trazer? Isto está a trazer uma política de reservas de última hora, em que o cliente reserva quanto mais tarde melhor, para perceber se há estabilidade ou não há estabilidade. Neste caso concreto, nós vemos sair passageiros do aeroporto agoniados quando estiveram lá muito tempo, mas percebem isso que exatamente me estava a dizer, isto está a acontecer noutros sítios. O que eu penso, não terei absoluta certeza, é que quer os gregos, quer os espanhóis, estão a desligar muito mais vezes o sistema do que nós estamosChegou-se a falar, inclusivamente, na questão da Grécia, de pura e simplesmente suspender.

Já foi desmentido.

Dizem-nos que é ilegal. Agora, têm esta premissa de poder desligar o sistema temporariamente quando estiver a rebentar. E eu creio que estão a utilizar muito mais do que nós, mas não temos, e respondendo à sua pergunta, não temos neste momento um feedback de clientes. O cliente à saída do aeroporto diz muito aquela frase: "Eu não volto cá", publica a fotografia quando está na fila, mas depois acreditamos que o bom senso pesa e ele volta.

Depois, quando come o peixe grelhado, passa.

Exatamente.

Mas em relação à política de cancelamento, essa é uma pergunta importante, porque também há muitos portugueses a fazer essa pergunta agora, certamente, e a planear as férias. Nesses casos, há uma devolução do dinheiro, das reservas ou nem sequer está previsto?

Não, a própria União Europeia já fez sair uma informação sobre essa matéria, a dizer que não estão previstas devoluções no caso de não haver o voo por eventual falta de combustível. A informação que temos é aquela que todos os dias sai nos jornais, é que isso, em princípio, não acontecerá, poderá não acontecer. Houve companhias que quiseram cancelar alguns voos, que eu acredito que seriam voos com menos ocupação e aproveitaram para os cancelar, mas não tem, e deixe-me dizer-lhe também, expressão muito grande esta pergunta. Há, de facto, um ou outro cliente a perguntar ao hotel, que quer fazer uma reserva directa agora para aproveitar um preço melhor e diz: "Bom, e se eu não tiver voo, vocês devolvem-me o dinheiro". Mas não tem expressão ainda no Algarve, não há nenhum alarme sobre essa matéria.

Não sei se é cedo ainda para lhe fazer esta pergunta ou se já consegue antever como é que vai ser o verão, ou seja, se há alguma quebra na procura.

A nossa resposta para isso é: nós vivemos neste momento um otimismo moderado. Nós, em relação aos dados que temos hoje na maior parte das empresas, estamos otimistas quanto ao verão. Nós temos mais reservas entradas e temos cada vez mais reservas de última hora. Foi assim na Páscoa, em que fizemos uma Páscoa com uma excelente ocupação, porque graças a Deus São Pedro presenteou-nos com bom tempo. Na segunda-feira choveu, mas tivemos, de facto, muito boa ocupação e a perspectiva que há até ao verão, até ao pico, é boa. Agora, tudo isto hoje é muito sujeito ao que vai acontecer amanhã, porque se houver um problema maior na guerra, se houver um problema maior que de repente aparece, hoje as reservas são muito voláteis, porque eu posso ter o hotel cheio hoje, mas amanhã não ter, porque a maior parte das reservas que são feitas online, como sabe, têm uma perspectiva de poder cancelar até X horas antes da ocupação. Mas a nossa perspectiva hoje é positiva para a época alta, até outubro. O Algarve trabalha bem até outubro e essa perspectiva está em cima da mesa de poder voltar a acontecer como aconteceu no ano passado.

Helder Martins, não resisto aqui a fazer-lhe uma provocação, porque tudo isso pode ou não fazer baixar um pouco os preços no Algarve, tornando de novo o Algarve acessível aos portugueses. De certeza que já ouviu aquela frase: "É mais barato ir para fora do que fazer férias no Algarve".

Sim, todos os anos eu ouço essa frase e todos os anos, essencialmente no final de julho, eu sou bombardeado com perguntas sobre essa matéria. Nós, no ano passado, fizemos um estudo na AHETA que, com alguns meses de antecedência, fomos encontrar que 25% da oferta que estava disponível em plataformas online, nomeadamente na Booking, para o pico do verão, tinha um quarto duplo com pequeno-almoço entre 25 e 50 €. E depois, mais em cima da hora, essa mesma pesquisa encontrou também uma percentagem significativa de quartos disponíveis entre 50 e 100 € por dia. Eu pergunto-lhe, no pico da época, com a tentativa de toda a gente querer vir para o Algarve fazer férias nessa altura. Com os preços que nós pagamos hoje de tudo, com os aumentos salariais, com os preços dos combustíveis, com tudo, alugar um quarto no pico para uma unidade de quatro estrelas por 50 € é, de facto, perder dinheiro. Depois fizemos também uma comparação, e isto porque, como diz, o tema é um tema recorrente, fizemos uma comparação dos melhores hotéis do Algarve comparados com os melhores hotéis de outras regiões, até aqui bem próximas, por exemplo, o Sul de Espanha. E o preço do Algarve era significativamente mais barato. É evidente que o problema que está aqui é um problema da bolsa dos portugueses. Nós temos quartos com preços excelentes em julho, temos quartos com preços excelentes em setembro, mas, de facto, no mês de agosto é a altura em que as empresas todas aproveitam para ter um preço, que tem que ser justo, porque se não for, o cliente não reserva, e eu, como sabe, um quarto de hotel que eu não venda hoje, não vendo amanhã. Se eu tiver um restaurante, se eu não vender uma garrafa de vinho hoje.

Acha um pouco injusta esta ideia.

Sim, acho e tenho demonstrado por isso. Repare que o ano passado houve esta questão, em julho os portugueses baixaram ligeiramente no Algarve e dizia-se que os portugueses abandonaram o Algarve e em agosto aumentaram a sua ocupação. Há unidades, aliás, até de grande qualidade, que trabalham essencialmente com o mercado nacional. Portanto, eu acho que o Algarve tem capacidade de servir todas as bolsas, é preciso escolher e eu não posso querer ir. E muitas vezes também o desafio que faço é comparar a oferta que têm no Algarve com essa oferta que têm no Sul de Espanha. É evidente que jogam muito com uma oferta que felizmente o Algarve não tem, que é o tudo incluído, e aí consegue-se fazer um pacote muito mais barato. O Algarve não seguiu esse caminho e eu espero sinceramente que não o siga. Tem algumas unidades nesse sentido, porque como sabe, quando seguimos esse caminho, deixe-me só dizer-lhe isto, depois matamos nomeadamente a indústria da restauração ou dos bares, porque a pessoa não sai do hotel.

Exatamente. Helder Martins, muito obrigado pela sua disponibilidade, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve. Muito obrigado pela sua presença aqui no "Escaleira".

Eu é que agradeço. Obrigado.