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Esta semana assinala-se um ano de coronavírus em Portugal. Por essa razão, estamos a olhar para os últimos meses do país e a fazer o balanço de um ano de Covid-19. Esta manhã analisamos o impacto da pandemia nos lares. Uma em cada três mortes por coronavírus aconteceu nestas instituições. Assim, no Explicador de hoje, são nossos convidados a vice-presidente do Instituto de Segurança Social, Catarina Marcelino, Edmundo Martinho, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Bastonário da Ordem dos Advogados, Meneses Leitão. A moderação é da Carla Jorge de Carvalho. Muito bom dia, obrigada aos três pela presença no Explicador. Catarina Marcelino, começo por si, porque percebemos ao longo deste ano que a pandemia veio pôr a descoberto uma realidade que era pouco conhecida, mas que existia, dos lares ilegais, da falta de condições e também da falta de fiscalização. Pelo seu olhar, qual é que foi o principal gatilho que tornou os lares tão vulneráveis nesta pandemia?
Antes de mais, bom dia. Bom dia ao painel, bom dia a quem nos ouve. Nós temos que partir daquilo que é o grupo mais vulnerável a este vírus. E o grupo mais vulnerável a este vírus é a população idosa. Isto são dados que têm vindo a público. E nos lares, nós temos estas pessoas, as pessoas idosas, a viver em contexto coletivo. Portanto, não estão isoladas umas das outras, vivem num contexto coletivo onde o contágio tem maior risco de acontecer. E esta é a maior vulnerabilidade, portanto, é uma vulnerabilidade que tem a ver com a própria doença que afetou os lares. Mas parece-me que é muito importante nós termos consciência de que, apesar de tudo e tudo o que aconteceu nos lares de negativo, obviamente, nós temos que aprender com essa experiência e olhar para ela. Mas temos também que perceber que em 2500 lares em Portugal, com cerca de 100 mil utentes, o esforço que foi feito para, por um lado, prevenir e por outro lado, mitigar, foi um grande esforço. E a verdade é que olhando para os óbitos na população em geral, nós temos neste momento 27,7% de óbitos nos lares. E isto é um valor que se compararmos com o que está a acontecer na Europa, porque isto não é uma realidade exclusivamente portuguesa, o vírus também afeta os idosos dos outros países e também afeta as pessoas que estão em respostas e em equipamentos sociais nos outros países. No Reino Unido, esta percentagem é de 32,7%, em Espanha de 46% e em França de 40,7%.
Catarina Marcelino, está a dar esses exemplos que são objetivos, também é objetivo que a pandemia chegou mais tarde em Portugal e, portanto, a questão que lhe coloco é se poderíamos ter antecipado de alguma forma aquilo que aconteceu nesses países para que não tivesse acontecido também em Portugal?
Eu acho que nós acharmos que poderíamos ter impedido completamente a entrada do vírus nos lares, acho que isso não era de todo possível. Mas a mim parece-me que o que é importante é tudo o que nós fizemos em Portugal para tentar mitigar e prevenir essa entrada dos surtos nos lares. E foi feito muito trabalho. Nós, só para ter uma ideia, lançámos testes preventivos em larga escala aos profissionais dos lares, incluindo também os lares ilegais, entre maio e junho, e a partir de outubro estamos a fazer testagem preventiva nos lares todas as semanas, fazendo a testagem a 25% dos funcionários cada semana. Portanto, nós estamos aqui numa ação de grande escala. Nós distribuímos mais de um milhão de equipamentos de proteção social. Lançámos um programa de aquisição pelas instituições de equipamentos de proteção individual, com uma dotação de quase 20 milhões de euros. Temos uma linha a que as instituições podem recorrer, aliás, o doutor Edmundo Martinho é um dos parceiros, enquanto Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Já vamos falar com ele também.
Para as quais as pessoas podem telefonar. Tínhamos as brigadas de intervenção rápida para entrar nos lares. Só para terminar, para não continuar aqui a dar exemplos, mas os testes preventivos, só para terem uma ideia, estes testes preventivos que foram lançados a partir de outubro, detetaram em 830 lares funcionários positivos, o que pode ter impedido mais 830 surtos em lares e pode ter impedido muitas mortes. Portanto, nós impedirmos completamente as mortes e impedirmos completamente a entrada de surtos em lares, eu acho que isso não era possível pela natureza da doença. Não tem a ver com a nossa ação.
Que tinha nesse grupo da população um dos elos mais fracos. Vamos trazer à conversa Meneses Leitão, Bastonário da Ordem dos Advogados, que desde cedo defende uma estratégia nacional de proteção aos idosos na pandemia. Meneses Leitão, por que a Ordem dos Advogados considera importante avançar com esta iniciativa?
Em primeiro lugar, muito bom dia. Bom dia aos outros participantes no painel e também a quem nos está a assistir. Nós achamos que o que se passou nos lares foi uma situação absolutamente dramática no nosso país e que justificou que a Ordem tivesse intervindo, através da sua comissão de direitos humanos, averiguando e inclusivamente denunciando os casos mais graves que se tinham verificado. Deve-se dizer que o problema dos lares é um problema que envolve, designadamente devido às inúmeras vítimas que ocorreram, que não é propriamente adequado dizer-se que um terço das vítimas ocorre nos lares e não ver isto como um problema seríssimo neste quadro, porque nós estamos a falar de uma população que está encerrada nos lares. Na prática, inclusivamente até desde as primeiras medidas de confinamento, foi decretado que não deveriam sair. E precisamente por isso, tem que haver naturalmente toda a precaução para que o vírus não possa entrar nos lares. Uma vez que uma entrada nos lares desencadeia um surto, como aliás, conseguiu-se evitar a chegada do vírus às prisões com alguns casos esporádicos, mas nos lares não se conseguiu evitar de forma alguma. E o que se verificou também foi não ter havido, e isso é algo que nos preocupa muito, a assistência adequada relativamente aos idosos, sabendo-se que era uma população de elevadíssimo risco, porque isto foi designado no relatório da Ordem dos Médicos. Quando se verificou o caso de Reguengos, que se deve dizer, provocou um alarme social de tal ordem que até a fronteira com a Espanha do outro lado ameaçaram fechá-la, em consequência do que estava a passar, com origem no lar de Reguengos. E o que na altura foi denunciado pela Ordem dos Médicos, foi que todas as pessoas que sabem como é a situação deste vírus, sabem que há um período crítico após uma infecção pelo vírus entre o oitavo e o décimo dia, em que o doente ou tem então sintomas compatíveis com a sobrevivência ou se não é imediatamente assistido, morre, pura e simplesmente. E o que se verificou foi que não foi fornecida à grande parte dos doentes dos lares, a assistência necessária para ultrapassarem o tal período crítico entre o oitavo e o décimo dia, e daí terem-se verificado tantas mortes.
Mas, Menezes Leitão, era inevitável, diríamos, que houvesse surtos e o vírus entrasse em lares?
Sim, mas não era inevitável que houvesse tantas mortes como as que se verificaram.
Deixe-me só colocar, há pouco a vice-presidente do Instituto de Segurança Social, Catarina Marcelino, colocou indicadores que comparam a incidência nos lares em Portugal com outros países. Não estamos fora daquilo que é o quadro desses países que foram citados. Não considera que estivemos pior do que aquilo que era possível fazer?
Eu considero que, de facto, em termos de número de vítimas que nós estamos a verificar para a dimensão do nosso país e com os casos que verificamos numa série de lares, estivemos com certeza muito pior. Por outro lado, também, a esmagadora maioria dos países não tem o número de lares ilegais que nós temos, a que quase toda a gente fechou os olhos, porque não podemos esquecer que existe toda uma séria situação de lares ilegais. A própria Segurança Social veio dizer que detetou 788 lares ilegais em janeiro passado, ainda que a Associação dos Utentes dos Lares tenha falado que o número poderá andar até acima dos 3500 e teriam referido isso em abril. Em qualquer caso, já em abril, essa associação dos utentes dos lares avisava que havia 35 mil idosos em risco. E nada se fez relativamente a esta situação, a não ser após terem ocorrido os casos mais dramáticos, designadamente o Lar do Comércio, onde houve 24 mortos e o Lar de Reguengos, onde houve 18 mortos. E continuamos a assistir, ainda recentemente, tivemos o caso de um lar com 12 mortos, foi uma notícia que verifiquei. Ora bem, neste quadro, como é manifesto, as brigadas de intervenção rápida apareceram muito tarde, porque nós temos esta pandemia desde março. Quando se lembraram de intervir nos lares, já tinha ocorrido uma situação absolutamente dramática neste âmbito. E como se disse, é perfeitamente constrangedor, e isso preocupou muito a Ordem dos Advogados, porque nós estamos perante duas situações paralelas, as prisões e os lares. Quando existe uma situação de pessoas confinadas, e ocorre tanto nas prisões como nos lares, nós sabemos que a taxa de propagação do vírus pode atingir um para 200. Ora, quando existe uma situação dessas, é óbvio que é necessário, desde o início, tomar todas as medidas, primeiro para evitar que o vírus chegue e depois se chegar, para evitar todas as medidas que ocorram vítimas neste quadro.
Para esse período crítico que falou dos oito a 10 dias após a primeira infecção, Menezes Leitão, já vamos continuar a conversar, mas trazemos também aqui para esta análise ao que aconteceu nos lares, o Provedor da Santa Casa, Edmundo Martinho. Bom dia, bem-vindo também. Estamos aqui a tentar perceber se podíamos ter evitado algumas das mortes que se registaram nos lares. Houve falhas na antecipação destas situações, Edmundo Martinho, o que lhe parece?
Muito bom dia. Naturalmente que visto a esta distância, nós somos capazes de reconhecer hoje que alguns passos eventualmente poderiam ter sido dados de outra forma e com outra antecipação. Mas eu gostava de recordar que nós partimos de uma circunstância em que somos confrontados subitamente com uma doença não apenas de grande intensidade na forma como se propaga, quer de intensidade na forma como afeta pessoas mais vulneráveis com outro tipo de situações patológicas. E portanto, nós vínhamos de uma situação, e eu recordo aqui que os nossos lares de uma forma geral, eram estruturas, todas elas vocacionadas, viradas e organizadas para a partilha, para o convívio, para a participação dos seus utilizadores em atividades comuns Portanto, quer os espaços físicos, quer os modelos de organização estavam vocacionados não para o isolamento, mas para o convívio e a partilha. Isso, naturalmente, na fase inicial, se traduziu em algumas dificuldades, por exemplo, na fixação e na determinação de espaços de contenção e de isolamento. Eu acho que nós, apesar disso tudo, fizemos um trabalho excepcional no país. Eu estava a ouvir o senhor bastonário dizer que nada se fez. E eu não posso estar de todo de acordo com essa afirmação, porque podemos sempre dizer que poderíamos ter feito mais ou de outra forma, e sobre isso não há nenhuma dúvida, todos nós hoje temos essa plena consciência. Mas desde a primeira hora fizeram-se iniciativas variadas em Lisboa, que é o caso que conheço melhor, naturalmente, mas um pouco por todo o país, e a doutora Catarina já fez referência a algumas dessas coisas. Tivemos aqui um percurso notável deste ponto de vista de adaptação, de adequação às circunstâncias, de prevenção. Não podemos esquecer que o senhor bastonário estava a fazer esta comparação com as prisões, mas isto está longe de ser uma comparação adequada, do meu ponto de vista, porque os nossos lares vivem do funcionamento e dos trabalhadores que incansavelmente deram tudo por tudo, mas também sabemos que em muitas circunstâncias os trabalhadores foram os primeiros afetados e que, em algumas circunstâncias, foram eles próprios os transmissores do vírus. E estes trabalhadores, pelo fato de terem ficado afetados pela doença, determinaram, por exemplo, uma falta muito grande de capacidade de recursos humanos e as brigadas rápidas, por exemplo, foram a esse propósito uma resposta excepcional. Funcionou muito bem.
Está a falar das brigadas rápidas e isso leva-nos mais uma vez ao encontro da vice-presidente do Instituto de Segurança Social, porque foi citado o caso do surto no lar de Reguengos de Monsaraz. Morreram 18 pessoas, teve um enorme impacto e estávamos no início do verão. As brigadas rápidas, Catarina Marcelino, surgem em outubro. Não se perdeu tempo até se conseguir criar esta articulação no terreno?
Eu julgo que não se perdeu tempo. Obviamente que nós podemos sempre, é como dizia o doutor Edmundo Martinho, olhar com distância para as coisas, faz-nos sempre pensar o que poderíamos ter feito melhor, e com certeza que há sempre melhor a fazer em qualquer circunstância. Mas as brigadas de intervenção rápida, quando entrámos na segunda vaga, estavam no terreno. E as brigadas de intervenção rápida foram uma medida extraordinária, porque foram uma medida que permitiu, no momento em que os surtos entravam nos lares e havia, muitas vezes, trabalhadores em grande escala doentes que tinham que sair dos lares e não ficava ninguém para cuidar dos idosos, estas brigadas entravam, respondiam e organizavam. E posso-lhe dizer que no mês de janeiro chegaram a estar 500 pessoas no terreno a intervir. Juntando às brigadas de intervenção rápida, temos também o programa Marés, que é um programa do Instituto de Emprego e Formação Profissional que permitiu colocar um conjunto muito alargado de pessoas, cerca de 16.120 trabalhadores, colaboradores, em 1170 instituições em todo o país para reforçar as equipes que estão nos lares e muitas vezes que estavam depauperadas pelo fato de também os funcionários terem a doença. Portanto, as brigadas foram das medidas mais céleres, mas eu queria aproveitar também para dizer em relação ao que disse o senhor bastonário, que os números que eu aqui referi, os dados que eu referi comparativamente com a Europa, são dados objetivos. E também dizer que comparar, e o doutor Martinho já disse, mas eu quero reforçar, comparar lares de idosos com prisões não é adequado por mais que uma razão, mas uma é fundamental. Estamos a falar de população com um nível etário completamente diferente, e nós sabemos que uma das causas por que os lares de idosos foram mais afetados era a idade das pessoas que vivem nos lares de idosos e são também as doenças associadas que essas pessoas já têm e que as tornam mais frágeis perante o Covid-19. E também dizer que nos estabelecimentos prisionais, as pessoas estão mais isoladas do que estão nos lares de idosos. Como o doutor Martinho disse, havia uma tendência para o convívio e a relação das pessoas em espaços comuns. Portanto, parece-me que lares de idosos não são comparáveis por estas duas razões.
Catarina Marcelino, com a vacinação a avançar, os lares de idosos deixam de ser um problema, de alguma maneira, em termos de medidas. Que acompanhamento é que está a ser feito já nesta altura no terreno? Porque temos, e corrija-me se estiver errado, a população dos lares inteiramente vacinada, pelo menos com a primeira dose.
A população dos lares, neste momento, de fato, está praticamente toda vacinada. Não está toda, porque ainda há surtos, felizmente a diminuir rapidamente, mas ainda há alguns surtos, e conforme os surtos vão terminando, os lares vão terminando a vacinação, mas já é, posso dizer, relativamente à primeira dose, residual. Mas isso não implica que se baixe a guarda nos lares. Aliás, os epidemiologistas, os centros de investigação, têm referido amiúde esta questão. Temos que manter a prevenção, temos que manter os testes, e nós continuamos com a testagem nos lares. Temos que continuar a ter o cuidado relativamente aos EPIs, à utilização correta dos EPIs e as regras de As regras que temos de etiqueta respiratória, temos que continuar a ter cuidado, porque apesar das pessoas estarem vacinadas, sabemos que a vacina não é a 100% e, sobretudo, enquanto a segunda dose não estiver administrada em todas estas pessoas, nós temos que continuar a ter muito cuidado com os lares de idosos. Do ponto de vista daquilo que é a política pública e as medidas do Instituto de Segurança Social, nós continuamos a aplicar exatamente as mesmas medidas que estávamos a aplicar antes da vacinação. Mas evidentemente que a vacinação é uma medida de mitigação e uma medida de segurança que não tem paralelo nas medidas preventivas.
E é uma fase importante nesse processo de prevenção da doença. Edmundo Martinho, a lógica de funcionamento e de organização dos lares teve de mudar com a pandemia e vai continuar, como acabamos agora mesmo de ouvir pela Catarina Marcelino. Há condições físicas e humanas nestes espaços para que de fato estas normas possam continuar a ser respeitadas?
Eu diria que de uma forma geral, sim, e há hoje uma outra consciência por parte de todas as entidades, em particular as instituições que gerem lares em Portugal, para a importância do reforço das equipes, para a importância do reforço dos cuidados de saúde, de natureza preventiva e natureza curativa, chamemos assim, ou terapêutica. Eu diria que nós aprendemos muito com isto e não é por acaso que, por exemplo, se nós olharmos para aquilo que é o plano de recuperação e resiliência, vemos que há uma linha de trabalho significativa que tem a ver com a requalificação deste tipo de respostas, porque precisam, de fato, ser requalificadas. A pandemia confrontou-nos com fragilidades do ponto de vista da formação dos profissionais, dos próprios espaços físicos que não estão, em muitas circunstâncias, preparados para uma situação deste tipo. E temos todos essa consciência, como é óbvio.
A questão é se este sobressalto vai levar a mudanças práticas.
Sobre isso não tenho dúvida nenhuma. Já estamos, aliás, a assistir algumas mudanças práticas e não tenho nenhuma dúvida que isto significou, para nós todos, um grande sobressalto relativamente ao modo como organizamos este espaço de vida das pessoas mais velhas e, sobretudo, a importância que temos que dar à integração de cuidados, não apenas os cuidados de natureza social, mas os cuidados de saúde, que têm que ser reforçados. E esse é o caminho que está a ser seguido. Basta olhar, como insisto, para o que está previsto no famoso PRR, para se perceber que esta é uma prioridade de primeiro plano. E todos nós temos hoje essa consciência de que a pandemia deixou à vista algumas das zonas de maior fragilidade do nosso trabalho. Sobre isso, eu creio que não há nenhuma dúvida, mas isso não deve levar-nos a achar que não se fez nada, por um lado, e, por outro lado, no que diz respeito à comparação internacional, que eu acho que é sempre importante, obviamente, não diminui a dor daquilo que aconteceu em Portugal. Mas tudo somado, se reparar, isso significa que o nosso sistema, apesar de tudo, com todas as suas fragilidades, resistiu e respondeu melhor que praticamente todos os outros restantes países no que diz respeito à proteção dos idosos em lares. Isto obviamente não nos gratifica de forma nenhuma, por favor. Mas é um sinal que apesar de tudo, fomos capazes de reagir rapidamente e ainda assim introduzir alterações nos nossos modos de funcionamento.
No funcionamento.
Sim.
Meneses Leitão, voltando a trazê-lo à conversa, a Ordem dos Advogados tem acompanhado, como já vimos há pouco, o tema dos lares de uma forma muito próxima, nomeadamente o de Requeijos, de Monsaraz. Não sei se tem conhecimento da forma como estão os inquéritos abertos sobre aquilo que se passou em Requeijos. E também colocar-lhe a questão muito clara: se o Estado pode e se faz sentido ser responsabilizado juridicamente, obviamente, por estas mortes ou algumas destas mortes, e não só ali, como outras que se seguiram noutros locais.
A meu ver, claro que sim, e deve dizer-se que, discordando de tudo o que foi dito pelos meus colegas, com todo o respeito, a verdade é esta: nós não podemos dizer que houve uma intervenção rápida quando só tivemos intervenções nos lares em outubro, quando temos a pandemia desde março, através das tais brigadas de intervenção rápida. E, por outro lado, também reitero que as comparações internacionais fazem pouco sentido quando o próprio país, até há dias, era o pior país do mundo em termos de pandemia. Portanto, neste quadro, é muito fácil estabelecer as comparações em termos de percentagem, mas depois não vermos a questão que colocamos neste âmbito. De fato, nos lares, há uma situação que me pareceu que deve dizer-se. Em primeiro lugar, verificou-se uma omissão grave, e isso parece-me importante, relativamente a todas as intervenções que eram necessárias fazer quanto à questão dos idosos. E é preciso perceber, e é algo que às vezes não é referido, é que muitos familiares retiraram os idosos dos lares, em consequência desta situação de pandemia. Eu conheço muitos casos, até de advogados, que têm neste momento os seus idosos em casa, porque receiam que eles estejam nos lares em consequência desta situação. E isto demonstra bem, de fato, que houve, no âmbito da opinião pública, uma grande descredibilização relativamente aos lares e até situações de verdadeiro pânico. Nós tivemos casos de pessoas que, nos casos de surtos nos lares, não sabiam se os seus entes queridos estavam vivos ou mortos, porque ninguém lhes dava esse tipo de informação. Havia um fecho total e diziam que não era possível responder, que havia as doenças dos tais trabalhadores, e isso é absolutamente insustentável quando alguém que está no lar, mesmo que é um familiar, possa saber se a pessoa ainda está viva ou faleceu. Por outro lado, também há a questão que existe: a existência de lares ilegais é responsabilidade do Estado controlar. Nós não podemos ter situações em que existe uma obrigação de obter licença e depois completamente fechar os olhos perante as situações dos lares ilegais, conforme se verificou. Qualquer lar ilegal já deveria ter sido encerrado. Por isso, quanto à responsabilidade do Estado, a mim parece-me óbvia, até por várias questões. Primeiro, desde logo, a falha, no caso dos lares públicos, dos cuidados que eram necessários, e segundo, a situação da própria proteção do direito do consumidor, porque se uma pessoa tem direito, nos termos da lei, à proteção da sua saúde e segurança quando está numa instituição em que lhes prestam serviços. Não vai lá precisamente para morrer. E precisamente neste quadro, como te disse, podem contestar a comparação com as prisões, mas devo dizer, as prisões também têm uma população envelhecida e uma população com morbilidade elevada. E nada se passou semelhante. Por outro lado, vir dizer: "Não, aqui faz-se habitualmente convívio e nós temos que manter a situação." Enfim, é óbvio que no quadro de uma pandemia, tudo isso tinha que ser alterado. Como se disse, eu o vi falar que tinha havido muitas medidas terem sido apresentadas, não vi exemplos concretos. A medida que existiu foi, de facto, as brigadas de intervenção rápida, mas apareceu em outubro e depois de uma polêmica gigantesca, que devo dizer, a meu ver, bastante incorreta, quanto à intervenção que a Ordem dos Médicos tinha feito quanto ao Lar de Reguengos de Monsaraz, que de facto demonstrou isso. E deve dizer-se, estas questões estão neste momento sob investigação do Ministério Público. Espero que faça o seu trabalho, porque, a nosso ver, o que se passou teve enorme gravidade e os cidadãos têm que ser defendidos, neste caso, especialmente quando são os mais vulneráveis. Eu não concebo que num lar de idosos possa ocorrer um surto e não haja imediatamente medidas a tomar. É preciso não esquecer esta situação. Houve casos até que um lar teve que ser evacuado e desinfectado pelo exército. Chegamos a esse ponto nesta situação. Eu acho que não podemos ter um discurso de minimização do que se passou, nem de autoelogio relativamente à nossa intervenção, porque eu acho que Portugal neste quadro falhou muito. E devo dizer, não me parece que a comparação com outros países seja adequada, até pelos últimos dados que tivemos, que agora melhoraram graças a um confinamento, mas que praticamente colocou todas as pessoas em casa, no quadro desta pandemia.
E essa posição ficou clara, ou melhor, as duas posições ficaram claras. Há esta questão obrigatória dos lares ilegais, que pode ajudar a explicar muitas situações, não todas, seguramente, porque houve também surtos em lares considerados de luxo. A última questão ia precisamente nesse sentido, Catarina Marcelino. Já sabemos quantos lares ilegais existem no país e se há um calendário para que essas situações possam ser regularizadas?
Para terminar, penso eu que estamos em cima da hora.
Estamos mesmo no fim.
Dizer o seguinte: as intervenções não começaram em outubro. Só para ter uma ideia e muito rapidamente, entre maio e junho fizeram 117 mil testes a trabalhadores dos lares, incluindo os lares ilegais, e a partir de outubro já foram feitos mais 133 mil testes. Só para dar um exemplo, podia dar outros. Os EPIs começaram a ser distribuídos logo no início da pandemia. As ações não começaram só em outubro e concretamente, eu já dei aqui vários exemplos, não foram só as brigadas, só para esclarecer. Dizer o seguinte: relativamente aos lares ilegais, nós temos um levantamento que vai sendo feito e consolidado permanentemente. Neste momento, posso-lhe dizer, temos cerca de 797 lares identificados, mas também é importante dizer que a fiscalização da Segurança Social, apesar da situação do Covid, nunca parou o seu trabalho e que o ano passado, em 2020, foram encerrados compulsivamente 24 lares ilegais e que estamos a acompanhar todos estes lares que estão referenciados e estamos a fechar e a fazer autos para encerramento a muitos deles. Os lares ilegais são um problema grave, nós temo-los identificados. Neste momento, a intervenção relativamente à parte do cuidar das pessoas, a parte sanitária e humanitária, nós nunca descartamos as pessoas dos lares ilegais, isso é muito importante. Estamos a trabalhar ativamente, até através também do PRR, com medidas concretas para tentar legalizar o que é possível legalizar e fechar mais rapidamente aquilo que tem que ser fechado, porque os lares ilegais são uma das nossas principais preocupações.
Catarina Marcelino, muito obrigada pelos esclarecimentos que aqui deixou. Vice-presidente do Instituto de Segurança Social. Agradeço também a participação do Provedor da Santa Casa, Edmundo Martinho e do Bastonário da Ordem dos Advogados, Meneses Leitão. Resta-me dizer que convidámos também para este explicador o Bastonário da Ordem dos Médicos, que não pode estar presente. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.