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Até aos fins de semana estamos fora do baralho, mas há vez. Esta semana é o Arj Nuno Garoupa o convocado para responder aos ouvintes que nos escrevem para foradobaralho@observador.pt. Vamos lá, Nuno?
Vamos a isso.
Começamos com o Luís Matos Chaves, este ouvinte, ainda a propósito das presidenciais e das ilações que podemos tirar, até por comparação com as últimas legislativas, e sobre o espaço que afinal de contas o Chega ocupa no espectro político, escreve este ouvinte que as propostas econômicas do partido André Ventura são claramente estatistas, mais de centro-esquerda do que de direita, e uma tentativa de capturar o eleitorado, por exemplo, os reformados, a classe média baixa, que coincide até mais com o PS do que com o PSD. Este processo de competição pelo mesmo eleitorado levou a um dos piores resultados da história do PS nas últimas legislativas, e ele gostava de perguntar se sentes que essas premissas mudaram devido a esta eleição presidencial e por quê, mais até a julgar pela primeira volta do que pela segunda, porque depois André Ventura teve uma grande taxa de rejeição.
Eu acho que é complicado usar as presidenciais para tentar prever as próximas legislativas, mas acho que há duas ou três coisas que podemos dizer. A primeira é que, fundamentalmente, o Partido Socialista nas legislativas teve um resultado muito baixo e que não é provável que venha a repetir um resultado tão baixo. Depois, tal como eu disse várias vezes no nosso programa e no debate, eu acho que o problema de André Ventura era segurar nestas presidenciais uma margem relativamente alta do eleitorado mais à direita para reforçar-se para as legislativas. E na altura, eu mencionei o número dois milhões de votos. Não é dois milhões de votos por acaso. É que se nós somarmos as forças à direita do Partido Socialista, elas neste momento somam qualquer coisa como três milhões e meio de votos, 3,8 nas últimas legislativas, 3,2 nas legislativas anteriores. Se somarmos todos os candidatos à direita de António José Seguro, voltam a somar três milhões e meio. Portanto, estamos a falar desse número, três milhões e meio. Eu acho que se André Ventura tivesse tido dois milhões, claramente, neste momento, tinha uma maioria desse eleitorado. Como não teve esses dois milhões, teve 1,7, 1,8, significa que tudo está em aberto, na minha opinião, para as próximas legislativas. Agora, há uma vantagem: é que o outro bloco da direita tem dois partidos que não vão concorrer juntos e, portanto, o outro lado vai se dividir entre a AD e a Iniciativa Liberal, e nós não sabemos exatamente como é que essas cotas se vão cozer. Portanto, eu diria, André Ventura tem uma vantagem, no método onde e na forma como foi eleito os deputados em Portugal, ter uma lista do Chega a concorrer com uma lista da AD e uma lista da IL, em princípio, favorece André Ventura em termos meramente aritméticos na eleição de deputados.
Este ouvinte até dá o exemplo da Iniciativa Liberal, se não é credível pensar que em um contexto diferente pode regressar a valores abaixo dos 10%.
Eu penso que a Iniciativa Liberal dificilmente neste momento tem mais de 5%. As sondagens indicam valores abaixo disso. Sinceramente, depende. Nós estamos muito longe ainda de saber como é que vai ser o cenário das legislativas, mas eu não acho impossível que a Iniciativa Liberal seja reduzida a 3%. E, portanto, nessa altura, claramente há um voto útil na AD. Mas dada a evolução também dentro da AD, nós não sabemos exatamente que AD nós estamos a falar nas próximas legislativas. Portanto, eu acho que sinceramente está tudo em aberto. Diria apenas uma coisa que é importante. É que a soma dessas forças políticas todas está em 3,5 milhões de votos, mais ou menos. Isso sim mostra que houve eleitorado de esquerda que passou para esse bloco, porque mesmo com Passos Coelho e Portas, quando tiveram os tais 51%, isso eram 2 milhões e 700 mil votos. Cavaco Silva, nas presidenciais, na primeira vez, teve 2,8 milhões de votos, o que significa que há aqui claramente 700 mil votos que vieram da abstenção e de partidos de esquerda para este bloco Chega AD e IL, que não estavam lá antes deste fenômeno.
Este ouvinte também pergunta aqui se Luís Montenegro não sai fragilizado das presidenciais, tendo em conta que os dois principais blocos à direita e à esquerda se mantêm como estavam. Portanto, não há aqui uma perda de legitimidade, digamos.
Claro, aqui há um problema que é o que significa fragilizado, porque legitimidade formal e constitucional continua a ter, porque enquanto tiver a confiança do Presidente da República e a confiança da Assembleia da República, ele formalmente é primeiro-ministro de um governo que tem toda a legitimidade democrática.
E como dizia, as presidenciais não são legislativas também.
Exatamente. Agora, é evidente que ele neste momento tem um problema, porque a estratégia da AD era baseada na expansão desse bloco de centro, digamos assim, indo colhendo votos ao PS e votos no Chega. Ora, o que aconteceu nessas presidenciais foi o contrário, porque o candidato dele teve 11%. Portanto, a partir desse momento, não é claro que neste momento a estratégia ou até mais a tática que Luís Montenegro teve nos últimos seis meses realmente esteja a render em termos de popularidade e de apoio e legitimidade para as próximas legislativas. Mas isso estamos também a especular, vamos ver o que acontece até lá.
Portanto, ficam aqui as respostas às perguntas do ouvinte Luís Matos Chaves, que nos escreveu para o nosso e-mail. Temos também uma pergunta da Maria Bastos. Lembra que tens referido programa atrás de programa, o sucessivo adiamento das eleições para o Tribunal Constitucional e para outros órgãos de soberania. Agora há mais um adiamento, até já fomos perdendo a conta, já são três ou quatro, não é? A justificação dada pelo Parlamento faz algum sentido, Nuno?
Não, a justificação formal não faz nenhum sentido, porque como a ouvinte está a dizer, nós estamos a adiar isto há oito meses. Portanto, não é possível que ao fim desses oito meses, os partidos continuam a não ter nomes e peçam mais quatro dias para encontrar nomes. Eu acho é que nós temos que distinguir as duas fases. Nós tivemos uma fase longa Até às presidenciais, como dissemos no programa, simplesmente a AD não queria mostrar com quem é que se ia entender e, portanto, não queria mostrar as cartas. Passadas as presidenciais, parece-me claro que a AD se vai entender com o Partido Socialista. Agora, o problema é que a AD quer que seja o Chega a romper, não quer ser a AD a romper com o Chega, porque aqui há um problema, como sabemos, da política portuguesa de vitimização. Todos se querem vitimizar para ser os coitadinhos e os traídos. Ora, o problema é que a AD está a querer forçar o Chega a ser quem denuncia isto, e o Chega, por outro lado, quer que seja a AD a fechar a porta ao Chega. Portanto, este jogo entre a AD e o Chega, este divórcio, que vai ser um divórcio pouco amigável, é o que está agora a atrasar este processo, porque da parte do Partido Socialista já está claro que o Partido Socialista está pronto para entender-se com a AD e, evidentemente, será um acordo que terá que ter o Livre e ele, que penso que não é nada de difícil. Portanto, neste momento, do meu ponto de vista, essa questão estaria mais ou menos encerrada. Aqui o problema é o divórcio entre o Chega e a AD, que é um divórcio complicado, porque eles querem divorciar-se, mas querem que seja o outro lado a pedir o divórcio, e é isso que está complicado.
E estarão à espera, também é a pergunta que a Maria faz, que António José Seguro tome posse, até porque também há eleições para a composição do Conselho de Estado?
Eu penso que sim, mas aqui volta a haver uma coisa. Na questão do Conselho de Estado, o Chega essencialmente terá direito a dois lugares numa lista conjunta. Pode haver algum problema com os nomes exatos que vão propor, mas não parece que o problema seja exatamente na eleição para o Conselho de Estado, porque essa é a única que me parece bastante clarificada de como é que tem que ocorrer.
Estão dadas as respostas de Nuno Garoupa aos ouvintes que nos escrevem para foradobaralho@observador.pt. Obrigada, Nuno. Os Quatro Ases estão de volta na próxima sexta-feira, depois das 19h, na Rádio Observador. Estamos também sempre em podcast. Escreva-nos para foradobaralho@observador.pt ou envie um áudio ou mensagem texto para 910024185. Eu sou Vanessa Cruz, boa semana.