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O caso de Luís Neves não tem fim à vista. O Chega avançou com uma comissão parlamentar de inquérito aos mandatos do ministro enquanto diretor da Polícia Judiciária. A Iniciativa Liberal também quer que seja convocada a Comissão Permanente da Assembleia da República, com caráter de urgência, para que o ministro dê esclarecimentos. E houve várias notícias nos últimos dias. Luís Neves não cumpriu obrigações declarativas no Constitucional desde 2018, a PJ não encontrou ordem para deslocar o atrelado encontrado na empresa do amigo e o Ministério Público não delegou a investigação na Judiciária. Esta semana, Luís Neves falou e prometeu esclarecimentos no momento certo. Eu sou a Inês André Figueiredo, este é o "Fora do Baralho" e esta semana tenho comigo os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar Conraria e Susana Peralta. Esta semana o Nuno Garoupa não pode estar na nossa companhia. Antes de avançarmos para os naipes, os ases fazem uma homenagem a Luís Represas, que morreu esta semana, vítima de doença. Vamos ouvir a "Travessa do Poço dos Negros", dos Trouxante, e o Jorge Fernandes vai recordar um dos artistas portugueses mais marcantes das últimas décadas.
Olá, Inês, olá a todos. Esta semana celebramos mais do que a morte, esta notícia trágica, a vida de Luís Represas. Para quem cresceu nos anos 80 e 90, como é o meu caso, esta voz era quase omnipresente. Em 76, ele formou o Trouxante com outras pessoas, que dispensam apresentações, fez da música popular com contornos jazzísticos e sofisticados, numa altura em que a geração da música de intervenção estava mais ou menos exangue depois de ter perdido o PREC, e estava naquela ressaca monumental, e a portugalidade não era alguma coisa cool entre a tribo que nos anos 80 iria vestir a gabardine com orgulho. Fez um sem número de álbuns muito marcantes e nesta despedida que vimos esta semana mostrou-nos que, de facto, era uma pessoa, eu nunca o conheci, mas aparentemente excecional, porque de facto juntou gente da esquerda à direita, de todos os quadrantes, e toda a gente foi mais ou menos unânime em reconhecer-lhe as qualidades humanas.
Ficamos então com esta homenagem dos nossos ases e avançamos agora para os naipes. Começamos com a Susana Peralta, que tem ouros para o Ministro da Educação. Este "Fora do Baralho" está a ser transmitido na sexta-feira, 24 de julho, o último dia da segunda fase dos exames, e por esta altura os estudantes fazem uma manifestação em Lisboa a pedir a demissão do ministro. Mas Susana, Fernando Alexandre parece ter conquistado uma vida extra nesta segunda fase dos exames nacionais. Está a ser demasiado protegido?
Não, os meus ouros para Fernando Alexandre é porque, de facto, ele tem aqui um toque de Midas. Fernando Alexandre pega uma parte do espaço mediático e do espaço político português, tem esta capacidade extraordinária, que é pegar na desgraça que foi, na incompetência monumental, no flop desta correção digital dos exames, e transformar em ouro. É por isso que eu dou ouros ao Fernando Alexandre, no sentido do toque de Midas. Há, de facto, eu tenho aqui algumas declarações, por exemplo, tenho o Diogo Feio, que numa altura disse algures nos meios de comunicação social, que isto realmente não estava a correr assim tão bem, mas que com outro ministro seria pior. Não faltam várias declarações, digamos, odos à competência de Fernando Alexandre. Eu devo dizer que eu até aqui há uns dias tive uma discussão com o outro Diogo, neste caso o Noivo, colega de carteira aqui do Observador, numa rede social, porque ele também fez uma grande declaração a dizer que realmente Fernando Alexandre era uma pessoa extremamente competente, que ele tinha-o conhecido em tempos, e que para ele continuava a ser competente. E eu disse: "Continua a ser competente, mas quando nós vemos esta desgraça, parece que isto é um sinal de impreparação, de algum voluntarismo e provavelmente de incompetência. Não podemos ver uma catástrofe destas com algo tão essencial como os exames nacionais." E o Diogo perguntou-me se isso eram tricas entre colegas. Eu queria dizer que eu não tenho nenhuma trica com o Fernando Alexandre, pelo contrário, custa-me imenso criticá-lo em público. Eu, de facto, tenho até uma grande simpatia pessoal por Fernando Alexandre e continuo a considerá-lo um economista de grande qualidade académica. Agora, eu acho é que como ministro, claramente, em todo o caso, o que esta crise mostra é que ele não esteve à altura. E hoje de manhã aqui no Observador, por exemplo, é só mais um exemplo, eu fiz questão de não começar pelo Observador, mas acho que também no Observador há essa espécie de transformar isto como se ser reformista fosse bom em si. Para já, ser reformista não é bom em si mesmo. Ser reformista é bom se as reformas produzirem bons resultados, e esta reforma tem, de facto, várias coisas positivas que poderá vir a produzir bons resultados, mas reformar em si não é um objetivo. E depois, não se pode, quanto a mim, elogiar um ímpeto reformista quando ele é feito sem respeitar quaisquer princípios de precaução. Não se fala do piloto, o ministro não viu o relatório, avançou sem o relatório, mas avançar sem o relatório é tão mau ou pior do que avançar com um mau relatório. Não viu o relatório, pedia o relatório, enfim, só há histórias mal contadas. E esta foi a semana em que nós tivemos passagens administrativas em quatro exames nacionais. Por causa das revisões das notas, acabou por ter que se definir um patamar mínimo para miúdos que já tinham decidido, porventura, não ir à segunda fase, para não ficarem excessivamente prejudicados com esta decisão. E, por exemplo, hoje na Aqui no Contra Corrente, que eu estive a ouvir de manhã, tivemos o José Manuel Fernandes a dizer que Fernando Alexandre deu sempre a cara, que disse várias vezes que o responsável era ele. Não vou repetir aqui a quantidade de vezes que o Fernando Alexandre tentou espalhar responsabilidades por toda a gente. Apareceu sempre, deu longuíssimas conferências e então diz que realmente ele até pode sair desta história como herói e até diz outra coisa, que o sistema funcionou. Portanto, na semana em que nós temos passagens administrativas a quatro exames nacionais, parece-me assim talvez um bocadinho exagerado dizer que o sistema funcionou. E pronto, ficaram aqui os meus "os".
Fernando Alexandre também dizia na grande entrevista que houve um alarmismo exagerado, se calhar, parte da opinião pública concorda com o ministro.
Duvido. Inês, vamos lá ver. Esta foi a semana em que nós sentámos miúdos a fazer a segunda fase sem saberem os resultados da primeira fase e sem conhecerem as condições de acesso à terceira fase. E de resto, há uma sondagem do Expresso que mostra que há uma avaliação bastante negativa desta barraca toda e deixa-me só dizer mais uma coisa: este é o gênero de crise que é interclassista. Toda a gente tem que fazer exames nacionais, exceto os jovens que fazem escolas internacionais. E, portanto, eu não tenho nada a certeza que a opinião pública esteja assim tão alinhada com este branqueamento. É como se todas as qualidades humanas que nós reconhecemos, e que eu certamente reconheço a Fernando Alexandre, e custa-me outra vez estar a criticá-lo desta forma na rádio, mas de facto nós não podemos é desvalorizar o sinal muito negativo que ele nos deu ao longo destas semanas, porque é como se então ele fosse competente para sempre. Não é competente para sempre. Continua, porém, a ser um homem muito sério e isso é importante.
Ainda na questão dos exames nacionais, mas noutro tema, o Luís Aguiar-Conraria traz espadas para as propostas da oposição relativas a este tema. Já tivemos Mariana Vieira da Silva a apelar à inclusão das notas da segunda época na primeira fase de acesso ao ensino superior, PCP e Bloco de Esquerda a exigirem o fim das taxas aplicadas aos pedidos de reapreciação. O foco está errado, Luís?
Deixa-me só aqui fazer uma ligeiríssima introdução. O facto de estar a dar espadas à oposição não altera, obviamente, o essencial, que é a responsabilidade de toda esta confusão não é da oposição. Portanto, evidentemente, não se confundam as coisas e não se interprete isto como um alijar de responsabilidades do ministro e equipa por toda esta situação. Agora, apesar de tudo, quando há grandes problemas, e aqui estou a falar de problemas que afetam centenas de milhares de estudantes, quer dizer, 160 mil estudantes, e então se falarmos depois das famílias, estamos a falar de centenas de milhares de pessoas que são afetadas por esta situação. Em determinada altura, a prioridade, mesmo a da oposição, tem de ser a de resolver o problema e não de estar a criar mais problemas. E aquilo que nós vemos com algumas destas propostas são completamente esparatadas. Nós temos desde o início, ou quase desde o início, que existe aquele pedido de que não se cobre pela reapreciação dos exames. Aliás, as pessoas no início nem percebiam, pensavam que se cobrava para ver o exame, não é? Isso aí não é o caso. Obviamente que se tem de cobrar pela reapreciação do exame, porque se não se cobrar por mandar o exame e pedir para subirem a nota, o que ia acontecer era haver dezenas de milhares de pessoas a pedir. Quer dizer, se não há nenhum custo e não há nada a perder, então tenta-se, atira-se o barro à parede. E claro que se isso fosse feito, obviamente o que se estava a fazer era minar completamente a possibilidade dos estudantes concorrerem à primeira fase da universidade no calendário previsto. Isto é independente de eu achar que o calendário devia ter sido alterado desde o início. Mas não foi alterado e isso é estar a minar essa possibilidade. Quer dizer, a proposta de Mariana Vieira da Silva, de que as notas da segunda fase contem para a primeira fase de acesso ao ensino superior, por amor de Deus, isso então era mais uma vez, se isto fosse aplicado, era verdadeiramente introduzir o caos aqui à entrada na primeira fase, era introduzir mais desigualdades, porque havia alunos que só tinham feito a primeira fase e havia outros alunos que fizeram a primeira e a segunda. Portanto, uns tinham tido duas oportunidades, outros apenas tinham tido uma, porque nem sequer tinham posto a hipótese da segunda, porque não imaginavam que a segunda pudesse contar para a primeira fase. Quer dizer, seria simplesmente aumentar a confusão. E quando há propostas destas, as propostas são para rebentar com isto. Aliás, já agora, também não acho piada nenhuma à ideia de, por exemplo, chamarem o ministro ao Parlamento no dia em que saem as notas, que era aquela sexta-feira, o dia que estava prazado, em que seria o grande sucesso ou o grande insucesso de Fernando Alexandre. Desculpem, nós sabemos que há essa parte política de agora vai se ver se corre tudo bem ou se corre tudo mal. Mas nós sabemos que se correr tudo mal ou se houvesse problemas sérios para resolver, o ministro tinha de estar disponível, não podia estar ali no Parlamento. Quer dizer, lamento, há momentos para tudo. E há momentos para deixar trabalhar e outros momentos para avaliar e fazer a avaliação política. E neste momento vejo que estão a tentar com que corra ainda pior e isso é mau.
Falta apenas o naipe do Jorge, que são paus, também sobre os exames para as declarações de Sebastião Bugalho em entrevista à Antena 1. O porta-voz do PSD disse que não ia usar a palavra, mas acabou por deixar a possibilidade no ar de falar em sabotagem. Como é que olhas para estas declarações, Jorge?
Extraordinárias estas declarações, absolutamente extraordinárias de Sebastião Bugalho. Eu acho que se a parte técnica na questão dos exames nacional tem tido falhas e tem tido algumas dificuldades que são conhecidas de todos, a parte política e a gestão política é também ela própria extraordinária. Curiosamente, as pessoas que estão em redor de Fernando Alexandre, estou a falar do primeiro-ministro, até de Sebastião Bugalho, sempre que intervieram sobre este tema, em minha opinião, ainda fizeram pior. O primeiro-ministro teve umas declarações absolutamente desastradas, mas Sebastião Bugalho aqui então entrou num paroxismo total. Bem, em primeiro lugar, alimentou aquela tese, que de resto já tem sido muito colussada pelas claques da AD na cloaca das redes sociais, de que no fundo haveria quase uma espécie de sabotagem na máquina pública, uma espécie de pessoa, aquela ideia do deep state, que é tão querida aos americanos, de que no fundo havia um conjunto de pessoas, todas elas, presumo eu, na cabeça dele, comunistas ou ligadas à FENPROF ou de esquerda, que de alguma maneira estariam a sabotar aquilo que Fernando Alexandre estaria a tentar fazer e seriam essas pessoas que no fundo teriam a culpa de isto ter corrido mal. Eu nem sequer vou comentar, porque isto roça o domínio. Quer dizer, só acredita nisto quem realmente estiver completamente obnubilado sobre o que é a realidade ou sobre a maneira como funciona o Estado. E além disso, depois vem a segunda parte, que é a parte ainda melhor, em que ele no fundo tenta consubstanciar isto dizendo: "bem, o problema, no fundo, é que, ao contrário do PS, que esteve muitos anos no poder, o PSD só está no poder há dois anos e não teve tempo ainda de colocar as suas pessoas no Estado." Portanto, o problema é que os boys do PSD não estão nos lugares-chave do Estado e é por causa disso. A falta de boys do PSD nos lugares-chave do estado impede ou permite, para ser mais exato, que estejam lá essas pessoas de esquerda, presume-se, e que possam, no fundo, sabotar Fernando Alexandre. Bem, isto é do domínio, estas teorias da conspiração são do domínio absolutamente do risível. Eu acho que não há outra maneira de categorizar isto. Eu vejo muitas pessoas a tecer loas a Sebastião Bugalho, que é um grande analista político. Eu nunca achei, nem acho que tenha particulares qualidades políticas, mas estas declarações pretendem única e simplesmente servir como algo para alimentar a matilha alinhada com a quadra, como seria a mesma coisa se fosse com o PS, atenção. Funciona exatamente da mesma maneira, mas para manter a claque animada e para tentar justificar o injustificável. Portanto, isto sob o ponto de vista político, é o grau zero da política e é exatamente aquilo que não deveria acontecer.
Fazemos agora uma curta pausa. Voltamos daqui a pouco para ouvir os nossos ases, desta vez na jogada da semana sobre o ministro da Administração Interna. Esta é a segunda parte do Fora do Baralho, esta semana com Jorge Fernandes, Luís Aguiar Correria e Susana Peralta. Nesta jogada da semana, regressamos ao caso de Luís Neves, porque continuam a sair notícias relacionadas com o ministro e porque nos últimos dias o ex-diretor da PJ falou, prometeu esclarecimentos e garantiu que tem condições para se manter no cargo. Na semana passada, o nosso ás, que hoje está ausente, Nuno Garoupa, dizia que o grande problema deste caso era a Polícia Judiciária, que poderia afetar a credibilidade da instituição. E esta semana, dois dias antes de anunciar uma comissão parlamentar de inquérito ao caso, André Ventura parecia ter mais ou menos a mesma opinião e justificou que este instrumento poderia fragilizar a Polícia Judiciária. Luís Aguiar Correria, começo agora por ti. O que achas desta CPI? Luís Neves reagiu, não pareceu muito incomodado e até disse: "Ainda bem."
Não sei muito bem o que penso. À partida, preocupar-me-ia, sim. Ficaria preocupado com uma CPI que envolvesse a Polícia Judiciária e, neste caso, um ex-diretor da Polícia Judiciária. Das coisas que se vão estar a investigar, grande parte delas ele fez quando era diretor da Polícia Judiciária. Portanto, necessariamente, a instituição vai estar a ser julgada ali. Aquilo é quase um julgamento, que é feito no Parlamento. E portanto, quase formalmente, as pessoas são obrigadas a ir se forem chamadas, têm que responder. A pena por mentir é semelhante à de se mentir em tribunal. É de facto quase como ter a instituição, não estará no banco dos réus, mas estará definitivamente em causa e, portanto, fico preocupado, sim. Mas olha, se o ministro diz ainda bem.
Mas estamos a banalizar este instrumento
Eu acho que banalizar este instrumento é logo banalizado quando o ministro diz: "Ainda bem", em primeiro lugar. Depois, em segundo, em algum momento o ministro tem de dar explicações e ainda não deu. Se for necessária uma CPI para ele dar explicações, nesse caso, eu acho que é bom que haja. Agora, o ideal, claro, era que ele desse explicações e que desse explicações claras e, portanto, se ele tiver uma boa justificação para as coisas que se passam e para até durante o tempo em que foi diretor da Polícia Judiciária, não ter cumprido aquelas obrigações, como declarações de rendimentos e por aí fora, não são só os políticos que têm essas obrigações. Se ele desse boas explicações, credíveis, tudo bem. Se não tem boas explicações para dar e como tal, se demitir do cargo ou ser demitido do cargo, tudo bem também. Agora, estar calado, como tem estado, e estar sempre a dizer que vai falar em sede própria, isso já não dá. E portanto, eu gostava muito que esta CPI fosse dispensável e fosse dispensada, mas acho que isto está mais na mão dele do que de qualquer outro.
Mas o que Luís Neves já falou duas vezes esta semana e disse aquilo que estavas a dizer, que irá prestar os esclarecimentos nos locais próprios. Para já, o que ele poderia fazer para tranquilizar esta que é uma situação que tem sido recorrente e tem saído notícias praticamente todos os dias?
Repara, eu não sei o que ele pode dizer para tranquilizar, porque eu não sei se ele fez tudo com a máxima lisura ou não, só ele é que sabe. Se ele fez tudo com a máxima lisura, o que tem de fazer é dizer a verdade e explicar. Se ele olhar ao espelho e vir que do outro lado está alguém que não fez tudo com a lisura necessária, em cargos destes onde não há desculpa, então a saída é demitir-se.
O silêncio também pode ser mal interpretado, não é?
A única razão razoável, a única explicação que eu tenho para o silêncio é as explicações não serem boas. Pronto, e nesse caso, demita-se. Se tiver boas explicações para dar, explique. Se quiser guardar o silêncio para guardar o seu direito de defesa, nesse caso, demita-se.
Susana, na semana passada deste ouro ao ministro da Administração Interna por haver histórias mal contadas. Vês alguma validade nesta comissão parlamentar de inquérito, tendo em conta principalmente a história do atrelado? É preciso haver uma investigação profunda dos mandatos de Luís Neves na PJ?
Este é o grande risco de não se respeitar a separação de poderes e de promover um diretor nacional da PJ em exercício, para mais. Ele podia ter sido diretor nacional da PJ há 20 anos, mas não, ele estava na PJ e passou diretamente para o governo.
Só um parêntese, uma parte. Ouçam, agora que a Susana estava a falar disto e já tivemos outro caso semelhante também com a Provedora da Justiça, que também foi para este cargo, diretamente da Provedoria. O que tanta gente, incluindo eu, disse sobre o Mário Centeno ir das Finanças para o Banco de Portugal e do Banco de Portugal para as Finanças? Isto é mais grave do que isso.
Sim, é muito mais grave, porque envolve o poder judiciário, exatamente, que é um pilar essencial da democracia. Ou seja, no fundo, o que nós vemos aqui? Vemos que esta pessoa ao expor-se politicamente e depois ao não ter um comportamento à altura, porque o ministro Luís Neves tem que vir rapidamente explicar isto, porque eu acho que todos nós percebemos o que aconteceu no caso da obra no Alentejo. Basicamente, há pagamentos não documentados, o que é péssimo. Há uma obra provavelmente privada que está a ser feita em nome de uma empresa unifamiliar da mulher, portanto, para tentar pagar menos impostos do que nós pagamos quando fazemos obras, o que também não é bom. Mas estamos no domínio da pequena matreirice, das chiques partices. Pronto, eu acho que é mau do ministro.
Uma empresa que também não está declarada.
Sim, temos o ministro, sendo ele o ministro da Administração Interna, vindo do poder judiciário, é mau. Agora, esta história do atrelado é que já começa realmente a ter contornos de caso de polícia sério, porque se aquilo era um atrelado com componentes para produzir drogas e que aparece no quintal de um amigo do ministro, a não sei quantas centenas de quilômetros do local onde devia estar, isso é realmente muito problemático. Peço desculpa, estou a ter aqui o meu momento José Manuel Fernandes, porque o meu cão está a ladrar. E portanto, ele tem que se explicar, isto não é possível. Ou realmente há uma coisa muito recambulesca, mas plausível, que explica o desvio deste atrelado, ou então isto é, de facto, um caso gravíssimo. Agora, eu sou como o Luís, que eu sou muito cética, eu não quero ver a Polícia Judiciária a ser escalpelizada no Parlamento, ainda por cima no âmbito de uma comissão parlamentar de inquérito motivada não por dúvidas razoáveis e substanciais relativamente a esta força da Polícia Judiciária, mas relativamente a um escândalo político que eu considero grave, eu acho que Luís Neves tem que vir prestar declarações. Ou como disse o Luís, ou ele não quer prestar declarações e que se demita, tudo bem, e vá a vida dele civil, está no seu direito. Depois disso, poderá haver um caso judicial atrás dele, mas até lá, politicamente, ele tem que nos explicar o que aconteceu. Mas de facto, o problema é que esta comissão parlamentar de inquérito não é uma comissão parlamentar de inquérito à PJ, é uma comissão parlamentar de inquérito que visa no fundo queimar em lumbrando o ministro e não há, até ver, nada de suspeito. Não houve um megascândalo na PJ, uma coisa realmente gravíssima que justificasse isto. Portanto, eu sou muito cética desta comissão parlamentar de inquérito e tenho muita pena que o primeiro-ministro faça alguma coisa, que demita o ministro se ele não se demitir, e o Presidente da República é que faça uns telefonemas e que nos tire desta embrulhada, porque eu não quero que esta comissão parlamentar de inquérito aconteça. Agora, também percebo que um partido da oposição, seja o Chega ou seja o qual for, em face desta teimosia do ministro e até de uma certa magnaminidade, não está a sair bem, peço desculpa, tipo: "Quem sou eu pra agora vir falar disto? Está tudo bem", que ele puxe pela carta que tem. E nem sequer estou a falar do efeito André Ventura. Se calhar fazia o mesmo no lugar dele, porque olha, amigo, ou nos vens dizer a bem ou nos vens dizer a mal. Que coisa é esta de um caminhão de droga.
Jorge, faço-te a mesma pergunta, esta CPI faz ou não faz sentido na fase em que André Ventura decidiu avançar com ela? É importante haver um escrutínio mais específico ao ministro na altura em que era diretor da PJ?
Bem, no momento, Ângelo Correia, três pontos. Em primeiro lugar, é evidente que faz todo o sentido, do ponto de vista abstrato, é impensável para mim, eu via as declarações do ministro esta semana, é impensável o ministro pensar que é a ele que cabe determinar o calendário dos esclarecimentos. Aquilo que nós já sabemos neste momento é demasiado grave, demasiado complexo e lança demasiadas dúvidas para ele achar que pode ter o luxo de vir dizer ou não, responder às perguntas quando ele bem entender. Portanto, o ministro está perfeitamente fora da praxis política que deveria ter, mas eu acho que sei porque é que isso vai acontecer, mas já vou dizer a seguir. Em segundo lugar, André Ventura vê uma oportunidade, que é uma oportunidade evidente, e especialmente, e aqui eu acho que isto é especialmente importante para André Ventura, porque há um quid pro quo claro entre André Ventura e este ministro, que já vem de trás, quando André Ventura estava, lembram-se todos, certamente, quando André Ventura estava a surfar aquela onda das perceções e andámos todos a discutir as perceções versus a criminalidade, e André Ventura estava a surfar a onda das perceções de um aumento de crime ligado à imigração e na altura, o então diretor da Polícia Judiciária, Luís Neves, foi precisamente ao Parlamento e prestou declarações que foram muito contundentes dizendo que não havia nenhum aumento da criminalidade. E portanto, desde então, André Ventura tem, digamos, um quid pro quo com Luís Neves, que agora certamente, como se costuma dizer, não ajuda certamente o caso de Luís Neves, a André Ventura dar-lhe sequer o benefício da dúvida, que não daria de qualquer maneira. Mas enfim, é um caso muito especial. Dito tudo isto, na minha opinião, eu acho que já é absolutamente claro, lendo tudo o que Luís Neves tem dito e o que o primeiro-ministro tem dito, etc, eu acho que é absolutamente claro para Luís Neves que ele está com os dias contados no governo e que de facto os esclarecimentos, tal como nós os estamos a entender, nunca chegarão cabalmente, porque não terão que chegar, porque ele vai sair. Eu acho que é uma questão de tempo e, na minha opinião, o que está na cabeça dele e de Luís Montenegro, no fundo, é fazer época de fogos com Luís Neves, esperar até final de agosto, início de setembro. No fundo, para Luís Montenegro é ótimo, porque vai queimar, enfim, passa aqui o mau gosto, o seu ministro da Administração Interna, numa época que vai ser muito difícil pra todos os governos e para quem está na administração interna. E já que ele tem que sair e tem, faz os incêndios, pagará o preço político. Esperemos que não haja nenhum problema de incêndios maiores este ano. Enfim, Luís Neves estará no poder enquanto durante o momento de incêndio, pagará os custos políticos associados à gestão dos incêndios, como habitualmente, e depois acaba a época de incêndios, Luís Neves apresentará a sua demissão ou será demitido. O primeiro-ministro arranjará um novo ministro da Administração Interna e resolve dois problemas ao mesmo tempo. Uma cara nova na administração interna, que já não terá custos a pagar por uma sessão de incêndios, e ao mesmo tempo, Luís Neves não terá que explicar. Até porque eu acho, a minha interpretação, é que haverá aqui coisas que ele provavelmente não está disposto a explicar, porque envolveria muitas situações que eu acho que ele preferirá manter discretas, tal como certas organizações que são discretas, todos sabemos que existem e que certamente estarão também por trás de muitas coisas, mas organizações discretas, e ele preferirá que muitas coisas permaneçam discretas.
Susana, concordas que Luís Neves está a ficar com menos condições para estar no cargo? E também gostava de te perguntar, falaste há pouco do Presidente da República. Faz ou não sentido manter este silêncio? Já passaram seis dias desde que António José Seguro disse que está sempre muito atento a tudo o que se passa, mas que só fala no momento certo.
Eu não sei qual é o momento certo para o presidente da República falar, mas eu acho que aqui o risco da CPI assusta-me imenso. Há aqui, de facto, neste momento, um risco grande para o regular funcionamento das instituições, para a separação de poderes, para a credibilidade de uma instituição essencial no combate ao crime. Estamos a falar de crime de colarinho branco, de grandes casos de corrupção, de crime violento, de crime internacional, transnacional, tráfico de droga, etc. Estamos a falar de coisas graves. Portanto, por favor, senhor presidente, proteja a Polícia Judiciária. Neste momento, é o que eu estou a pedir. Se o Chega está a ameaçar com uma comissão parlamentar de inquérito, ou o ministro vem rapidamente fazer declarações que esvaziem este balão que se inchou a partir da história do caminhão, do atrelado, ou então realmente eu acho que o presidente da República tem mesmo que intervir rapidamente. Não pode deixar isto avançar.
Seguro devia ou não usar o poder da palavra, Jorge?
Certamente que sim. Aliás, na crise dos exames, eu inicialmente até pensava que ele tinha falado, mas depois verifiquei que ele de facto tinha falado. E eu percebo que Seguro está a tentar não cair no erro.
E aí até enviou uma nota que colocou no site da presidência. Tem sido completamente diferente a forma de gerir os dois casos.
Sim. No caso dos exames, ele deixou bastante claro que não seria aceitável continuarmos nisto, na segunda fase, etc. Mas lá está, a questão dos exames, sendo um problema altamente complexo e com implicações muito importantes para a vida de muitos jovens e de muitas famílias, eu vou tentar que isto seja claro, é uma questão menos delicada do que a questão da Polícia Judiciária, até porque, e eu digo isto com toda a clareza, no caso de Fernando Alexandre, ele é uma pessoa que eu ponho as mãos no fogo por ele. É uma pessoa eticamente a toda a prova e, portanto, houve aqui um problema de gestão de um processo político, etc. Mas não há nenhum problema no Ministério da Educação. Aqui, no caso do Ministério da Administração Interna, há eventualmente problemas éticos muito complexos e problemas éticos que se estenderão à Polícia Judiciária, que não é só ser a Polícia Judiciária. A Polícia Judiciária tem um papel central na investigação criminal, em imensos casos que estão a decorrer neste momento em Portugal, que alguns deles estão já em tribunal, outros que estão em fase de investigação. Portanto, uma pessoa que dirigiu a Polícia Judiciária tem acesso a um manancial e teve acesso a um manancial de informação ao longo dos anos que torna tudo isto altamente delicado. Portanto, António José Seguro tem que tratar isto com pinças, mas ao mesmo tempo, não pode ser. Eu percebo que ele não queira ser Marcelo Rebelo de Sousa, mas há o oito e há o 80. Uma coisa é não querer comentar diariamente o que se passa desde a mais pequena política até aos casos mais importantes, mas a dada altura tem que intervir, tem que dizer alguma coisa, o ministro tem que falar. E todos sabemos que uma frase, e é aí que eu acho que o perfil que António José Seguro é um perfil bom, isto é, o facto de ele estar a falar pouco, quando fala, é ouvido, porque a dada altura Marcelo falava de tal maneira, era de tal maneira prolixo sobre tudo e mais alguma coisa, que já havia muita coisa que já ninguém sabia exatamente quando era importante ou quando não era importante. Mas António José Seguro tem falado tão pouco que quando fala, certamente será ouvido e, portanto, eu acho que está na hora de ele vir dar uma palavra em público a dizer: "Senhor ministro, não é o senhor ministro que decide quando é que deve falar ou deixar de falar, tem que falar e tem que falar muito rapidamente."
Luís, só para terminar toda esta sequência de notícias, dá ao ministro menos condições para estar no cargo ou concordas com Luís Neves quando ele diz que ainda tem todas as condições para se manter? Falou pouco, mas deixou esta nota.
Eu vou fazer aqui uma adivinhação. Acho que se ele tivesse uma boa explicação para dar, já tinha dado. E portanto, acho que neste momento, se calhar, no governo já sabe que ele vai cair. E o Jorge há bocado estava-se a meter na cabeça do primeiro-ministro a tentar adivinhar ao que ele está à espera, que ele se queime. Passe aqui o mau gosto da imagem, que ele se queime com os incêndios para depois o demitir. E agora enquanto o Jorge estava a falar, estava a pensar noutra alternativa, que é: ele está à espera para ver o que acontece com os exames da segunda fase e como é que decorrem as entradas da universidade, para saber se Fernando Alexandre vai ter condições para continuar como ministro da Educação ou não. E assim, se não tiver condições para continuar, assim depois faz uma remodelação dos dois ministros de uma vez, dois ou três, vamos ver o que se passa com Miguel Pinto Luz. E portanto, faz tudo de uma vez, em vez de estar agora a trocar um ministro e daqui a umas semanas arriscar-se a ter que trocar outro. Portanto, isto sou eu a pôr-me na cabeça de Montenegro. Posso estar enganado, claro.
Esta semana ficamos por aqui. Recordo os ouvintes do "Fora do Baralho" que podem enviar perguntas para os nossos ases através do e-mail foradobaralho@observador.pt. E esta semana é a Susana Peralta a responder. Eu sou a Inês André Figueiredo, este é o "Fora do Baralho" e pode ser ouvido aqui na Rádio Observador e sempre em podcast nas plataformas habituais.