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Estamos no terceiro frente a frente entre os cabeças de lista às eleições europeias, todos os que têm assento parlamentar, menos o PS, que recusou participar nestes debates. Hoje temos Pedro Fidalgo Marques, número um da lista do PAN, que está aqui nos estúdios da Rádio Observador, e António Tanger Correia, cabeça de lista do Chega, que participa à distância. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Bem-vindos, Pedro Fidalgo Marques e António Tanger Correia.
Boa tarde, Sara. Muito obrigado pelo convite.
Obrigado pelo convite. Boa tarde, Pedro.
Boa tarde, Tanger.
Temos muitos temas para discutir nestes 20 minutos de debate e dois candidatos com visões muito diferentes da Europa, mas também do país. É por aí, pela atualidade nacional, que vamos começar, porque importa perceber também como se posicionam em relação a esses temas. Esta semana, aqui na Rádio Observador, a deputada do PS, Isabel Moreira, denunciou insultos e comentários racistas e misóginos de deputados do Chega a deputadas de outros partidos no Parlamento. António Tanger Correia, revê-se no comportamento de alguns deputados do Chega, segundo estes relatos?
Eu não sei se são verdade, se não. Eu não sou deputado, não estou no Parlamento. Não faço a mínima ideia se são verdade, se não.
Aconteceram, seguramente. Rita Matias, ontem aqui na Rádio Observador, contou que pediu desculpa de forma pessoal a Inês Sousa Real por comentários dirigidos por um colega de Rita Matias à deputada do PAN.
E várias deputadas o vieram afirmar publicamente, até na televisão, inclusive a Romualda, com comentários racistas.
De qualquer maneira, para responder à sua pergunta, eu tenho uma conduta diferente disso. Já devem ter percebido, do pouco que me conhecem, que eu sou uma pessoa educada, que respeita os outros, que nunca fui acusado de qualquer tipo de referência, se fosse machista, misógina ou qualquer outra.
Tanger, mas perdoe-me.
Se de fato aconteceu...
O Tanger espera eleger-se sozinho e ser independente ou vai representar o Chega e terá mais deputados consigo? Parece que às vezes fala como se não se revê-se no partido que representa. E este partido, no fundo, é contra muitos dos direitos das mulheres, da interrupção voluntária da gravidez, e que essa extrema-direita quer reverter esses direitos das mulheres.
Para já não é extrema-direita, alínea A. Alínea B, nós não consideramos ser um direito da mulher, porque o nascituro também tem direitos. Portanto, é uma coisa diferente. Em segundo lugar, claro que fui eleito pelo Chega, sou vice-presidente do partido.
Então confirma que é contra a interrupção voluntária da gravidez. Ou seja, neste caso, as mulheres não têm direito ao seu corpo.
Não é direito ao seu corpo, não, não têm direito a matar um ser que existe. É outro aspecto. Agora, relativamente a este caso concreto, não me deixo de rever. Eu nunca vi, nunca passou pela minha frente esse tipo de procedimentos.
Mas como vice-presidente, o partido devia pedir desculpa de forma institucional?
Eu condenaria. Não, mas ela está no Parlamento, eu não faço ideia.
Mas entende que o partido deveria, por exemplo, tentar perceber se isto de fato aconteceu e comprovando essas acusações, assumir consequências?
Isso com certeza. Com certeza, como tudo na vida, se aconteceu alguma coisa de negativo, que seja de alguma forma contundente às outras pessoas, ou agressivo, ou que ofenda, com certeza que temos que levar até as últimas consequências.
Vai levantar essa questão para o partido, na qualidade de vice-presidente?
Se conseguirmos ter uma reunião de direção até lá com esta campanha, sim.
Mas tem dificuldade em reunir o Chega.
Isto é mais a nível do grupo parlamentar do que a nível de direção do partido.
Pedro Fidalgo Marques, Rita Matias, nas mesmas declarações em que revelou que tinha pedido desculpa à Inês Sousa Real, disse que os deputados do Chega também ouvem insultos e também ouvem comentários misóginos às deputadas. Não há inocentes neste problema, o Chega também tem direito a um pedido de desculpas.
Perdão. Aqui o que temos que ser bem claros, e que ficou bem claro com a declaração de Tanger Correia, é que claramente na Europa o Chega vai aliar-se à identidade da democracia, que é a fação mais à direita, que é a extrema-direita no Parlamento, que é contra os direitos das mulheres e que é reverter os direitos adquiridos e as liberdades das mulheres. Isso é que tem que ser muito claro, tem que passar lá para casa.
Mas se isto for verdade, se é verdade que Rita Matias também ouve comentários, deve haver um pedido de desculpa e também uma responsabilização.
Eu tenho sido claro no meu discurso que o discurso de ódio mata. O discurso de ódio deve ser uma linha que não podemos atravessar.
Mas qual discurso de ódio? Onde é que está o discurso de ódio? O discurso de ódio é contra o Chega. Está toda gente contra o Chega, toda a gente contra o Chega. Eu qualquer dia respiro e sou acusado de respirar.
Não, como já disse, com toda a sua experiência, como diz, diplomática, fica mal essa vitimização. Continuando o que eu estava aqui a referir, o que temos que ser bem claros é que este tipo de discurso misógino, homofóbico, xenofóbico, não é admitível em qualquer caso, porque é isso que nós estamos a ver crescer na Europa e que não podemos deixar crescer. E daí esta questão, que ficou bem clara aqui de início, que não podemos permitir esta reversão nos direitos e liberdades, seja das mulheres, seja de qualquer minoria, pessoas racializadas, LGBTI. É isso que não podemos de todo permitir.
Vamos avançar para algumas das propostas que têm nos vossos programas nestas eleições europeias. No programa do PAN é defendida a proibição de práticas cruéis, como a caça de troféus ou os espetáculos tauromáquicos. Pedro Fidalgo Marques, no ano passado houve 166 espetáculos tauromáquicos distribuídos pela maioria dos distritos de Portugal continental. O PAN sugere ilegalizar uma parte substancial do país?
Temos de ser bem claros: tortura não é cultura. E temos de ser bem claros que essa atividade bárbara do século passado não pode continuar. Não podemos continuar a ter fundos da União Europeia a financiar as touradas, a financiar a tortura dos animais, não podemos continuar a ter animais a ser explorados no circo em condições deploráveis. Ainda há uns tempos, um tigre branco num circo, numa sala mais pequena que esta onde estamos a ver, esta sala deve ter talvez uns 10m², uma sala minúscula.
A tauromaquia é uma atividade regulada pelas atividades culturais.
A tauromaquia deve ser abolida, como disse. Esse dinheiro, por exemplo, os 16 milhões que vêm da União Europeia para a tauromaquia, para as touradas, deviam era ser investidos na verdadeira cultura, que é isso que não existe. Deviam ser financiados para atividades culturais, atividades performativas, para os artistas plásticos e visuais. Isso, sim, era de valor e nisso o PAN é intransigente e somos bem claros. Da parte do Chega não é claro, ou seja, o Chega continua a apoiar a barbárie, esta tortura animal, e para nós isso não é uma questão, somos bem claros no nosso programa.
O Chega não apoia a tortura animal, o Chega apoia o país rural.
Apoia as touradas, não apoia, Tanger.
Não, o Chega apoia o país rural que gosta de touradas. É assim, o Chega tem esta perspectiva: a maioria do Chega gosta efetivamente de touradas como gostam de futebol.
Vai dizer que os animais não sofrem? Ainda agora saiu um estudo que diz que 62% dos portugueses, diz que fala a maioria dos portugueses, mas 62% dos portugueses dizem-
Eu não estou a negar isso, atenção.
Está a torturar um animal.
O que eu estou a dizer é que o Chega é um partido que olha para as pessoas, que vê o que a sua base de apoio quer, o que é que a sua base de apoio pensa.
Ou seja, é populista, vai atrás do que dá mais votos e não do que é o real necessário para o país.
Eles têm argumentos tão válidos, porque nós somos um partido liberal, somos conservador, mas somos liberal. No sentido de eu posso não gostar, mas aceito que outros gostem. Ou seja, eu não fumo, mas aceito que outros fumem. Não sou radical. Esta é a atitude do Chega, ou seja, há uma parte muito importante e uma parte muito significativa do Chega que está ligada ao mundo rural, que apoia, que vive e que gosta de touradas. E nós não vamos dizer a esta nossa base de apoio: "Não gostem", porque vão gostar na mesma.
Mas Tanger Correia, no programa-
Não tem a ver com populismo, tem a ver com prioridades. Nós, por exemplo, há assuntos em que nós somos radicais, que é contra a pobreza, contra a incapacidade dos governos de governar este país, aí somos perfeitamente radicais. A subsidiariedade, os subsídios para isso, somos contra.
Mesmo na questão que está a falar das touradas, os apoios se fossem melhor direcionados, teríamos a apoiar muito melhor o mundo rural, teríamos a apoiar os pequenos e médios agricultores, a apoiar na cultura de precisão, na cultura orgânica, nesta cultura dos sistemas de costa.
Se tirasse, pois, a ideologia do gênero e outros tipos de iniciativas.
E está a voltar outra vez a falar, está a voltar à verdade, porque essa teoria, que foi da convenção do Chega, já se veio a provar que esses apoios que falam, de uso do gênero, estamos a falar de apoios, por exemplo, de combate à violência doméstica. Ou agora o Tanger também já defende que se deve retirar o apoio às mulheres e que não se devem criar gabinetes de apoio à violência doméstica, porque isso está em causa. Não tem que usar chavões para ir atrás das pessoas. Quando fala de ideologia de género.
Até o que vos ensinaram crianças nas escolas.
O quê? Que é igualdade e liberdades.
E que mais não sei o quê. O que é que isso tem a ver com violência doméstica? É evidente que nós somos completamente contra a violência doméstica.
Que igualdade de liberdade é um conceito que não devemos ensinar nas pessoas. Acabou de dizer, quer um partido liberal, que não se mete nas escolhas dos outros, mas depois está a dizer que não se pode ensinar às crianças no que somos todos iguais.
Nas nossas crianças. Atenção, não é dos outros, é das nossas crianças. Portanto, é uma coisa completamente diferente.
Essa questão de que fala sobre o que é ensinado nas escolas, António Tanger Correia, faz parte, aliás, do programa do Chega, do programa que foi apresentado para as legislativas. Não encontrei no programa para estas eleições europeias nenhuma referência aos movimentos ou à comunidade LGBTQ+, mas nesse programa das legislativas, o partido defendia que campanhas relacionadas com movimentos LGBTQ+ ou Black Lives Matter fossem restritas a audiências adultas e se mantivesse fora do ambiente escolar. Não é importante ensinar as crianças a respeitar qualquer pessoa da mesma forma, independentemente da cor da pele ou da orientação sexual?
Tem a ver com convencê-las, que é uma coisa completamente diferente, que é o que está a tentar fazer.
Isso é mentira.
E é a tal imposição das minorias às maiorias de que eu falo. Quer dizer, em democracia, quem manda são as maiorias.
Dê-me um exemplo em que a minoria se tenha imposto à maioria. Um exemplo concreto.
Os programas escolares, por exemplo.
O quê? De ensinar liberdade, de ensinar que há pessoas que são diferentes.
Mas qual liberdade? Isso não é liberdade, isso é libertinagem. Portanto, o que nós vamos fazer, então, se estiverem de acordo, fazemos um referendo sobre isso.
Um referendo a quê, exatamente?
Sobre essa matéria, sobre o ensino nas escolas, a crianças, sobre esses programas.
Ou seja, quer referendar os direitos das pessoas serem como são e de serem livres. Os direitos das mulheres, como já disse.
O referendo é a forma mais pura democracia.
Então já agora uma pergunta: se essa é a forma mais pura democracia, por que não referendamos as touradas? O Chega estaria disponível para isso? Porque há uma maioria no país que diz que se está contra. Então está a dizer que o Chega estaria de acordo a um referendo às touradas.
A tudo o que quiser.
Só para ficar esse registo, para se depois amanhã for essa questão que surgir, fica aqui registado que o Tanger Correia, como vice-presidente do Chega, concorda com essa posição.
Com o referendo, claro, e depois vamos ver quem é que ganha.
António Tanger Correia, só para terminarmos este tema, o Chega não tem preocupações, nem medidas relacionadas com as comunidades LGBT, por isso é que não tem nenhuma referência no programa destas europeias, isso não é um tema que o preocupe?
Para nós, a preferência sexual é uma coisa pessoal, ninguém tem nada a ver com isso.
É preferência? Isso é um termo tão ofensivo.
Por quê? Essa agora eu respeito. Pedro, eu nasci numa comunidade e Muito homossexual, que é a comunidade dos artistas, porque a minha mãe fazia parte do mundo artístico. Nunca fui incomodado, nem nunca incomodei ninguém, nunca fui englobado por causa disso. Portanto, pra mim, era uma realidade normal. Eles faziam o que queriam fazer, onde queriam fazer. Nunca tive quaisquer problemas com isso, nem eles sequer tiveram quaisquer problemas comigo. E eu cresci normalmente, de uma forma normal, como qualquer outra criança, a saltar e aos pulos, a jogar à bola. A partir de um certo momento, em que querem transformar isso num ensinamento obrigatório, isso não, porque isso obviamente que começa a ficar torcido pra um lado.
Vamos avançar.
Eu não tenho problemas nenhuns e o Chega não tem problemas nenhuns. Não há partido nenhum que não tenha elementos homossexuais. Não há nenhum partido que não tenha. E nós nunca vimos o Chega contra isso. Pelo contrário, nós deixamos a liberdade às pessoas de elas serem o que quiserem. Agora, que não nos venham obrigar a termos regras que nós não queremos que existam. Isso é diferente, são coisas completamente diferentes.
Vamos avançar, vamos falar de imigração. Imigração tem sido um dos temas principais desta campanha nos vários países. Pedro Fidalgo Marques, o PAN tem críticas ao pacto das migrações e dá como exemplo de um problema o fato de na Europa ser possível alguém ser detido até cinco dias por sair à rua noutro país sem documentos, até se perceber exatamente quem é essa pessoa. Nós sabemos que algumas das pessoas que estão na Europa, que chegam à Europa ou que estão, mesmo sendo europeus, fazem parte de organizações criminosas e vêm para participar de atos terroristas. Qual é a alternativa? Não ter controle absolutamente nenhum?
Isso nunca ficou em causa. E aqui o que nós falamos da questão das detenções é a questão de se poder criar perfis racializados, perfis raciais, que podem pôr em causa inclusive a nossa liberdade na Europa.
Por que faz essa ligação? Tentar identificar uma pessoa que está noutro país sem documentos pra ter a certeza de quem ela é, por que isso implica necessariamente um perfil racializado?
Como vimos agora na Holanda, temos visto, por exemplo, que já estão a pôr em causa inclusive a limitação da livre circulação dentro de cidadãos da União Europeia. Foi algo que já foi posto em causa pelo futuro primeiro-ministro holandês, está a tomar posse agora. Mas o que temos que falar nesta questão da migração é na questão realmente perdão, da integração. E se calhar temos que dizer por que também estes migrantes estão a vir. E se calhar um tema que importa falar e trazendo aqui pra cima da mesa, que é das alterações climáticas. Muitos destes migrantes estão a fugir de guerras, estão a fugir de catástrofes naturais e de fenômenos climáticos extremos, estão a fugir de pobreza. E por isso nós o que se calhar temos que olhar, e temos mesmo que olhar pra esta questão, por exemplo, das alterações climáticas, de combater as alterações climáticas, de atingir neutralidade carbônica na Europa, de proteger a nossa biodiversidade, porque isso também irá ajudar a evitar maiores fluxos de migração.
Mas a complexidade de um tema como a da migração não implica que se olhe a montante, como diz, pras razões que levam tantas pessoas a saírem dos seus países, mas também a jusante para o que fazemos quando essas pessoas chegam à Europa?
Mas isso já existe.
Então pergunto de novo, qual é a alternativa? A não ter controle nenhum?
Essas questões já estão reguladas.
Se se encontrar uma pessoa em Portugal que não se sabe quem é, que não tem documentos, não é legítimo que as autoridades portuguesas tentem perceber exatamente quem é essa pessoa e por que está aqui?
Isso é diferente, Sara, de nós estarmos a querer deter cinco dias uma pessoa para tentar identificá-la. É diferente de estar a deter crianças sozinhas à entrada da Europa. É diferente de denunciar os barcos.
As crianças não estão incluídas nessa regra dos cinco dias.
Mas eu agora transitei para outro problema da migração, dei aqui este salto, que o pacto de migrações quando falamos, falamos de deter crianças à entrada, de denunciar os barcos que estão no Mediterrâneo às entidades de onde elas estão a fugir. E aqui o que se tem que falar é: o PAN nunca disse que nós vamos ter as portas escancaradas, que é o que às vezes querem fazer passar, ou que não temos regras. Elas já existem. Em Portugal, há um visto de seis meses pra quem quer vir procurar trabalho. Não deve vir só porque sim.
Mas isso não ignora as redes de imigração ilegal?
Não, porque nós temos é que realmente combater e fiscalizar as questões. E o PAN não diz que é contra a polícia, como estava a dizer, e para desmitificar isso, ir dizer que não pode perceber quem é a pessoa. Somos contra é regras que podem permitir perfis racializados. E voltamos ao mesmo, que é esta cultura do ódio, esta cultura da discriminação, que vai atrás da igualdade de gênero, no caso das mulheres, das minorias, mas que não vai a montante ver, por exemplo, qual é que é estas questões que estão a montante, que muitas vezes ficam pra segundo plano, como esta questão, por exemplo, das alterações climáticas.
Eu posso dizer alguma coisa? É o seguinte: pra já, as emissões carbônicas na Europa, dos 27 países da União Europeia, são inferiores às da Indonésia, só. Ou seja, os países que fazem emissões de carbono pra atmosfera, os principais, são todos fora da Europa Comunitária. É a Rússia, é a China, é os Estados Unidos, é a Indonésia, é as Filipinas, é por aí fora. Nós somos o espaço mundial onde há menos emissões de carbono. Alínea A.
É o terceiro bloco mundial com mais emissões.
Não, não é. Bloco. Eu estou dizendo em termos de países, se for contar as populações per capita, nós estamos muito embaixo. E depois, tem outra coisa, que é: estas coisas de migrações. Já experimentaram algum português ir trabalhar pra o Bangladesh? O que eles requerem? Não experimentaram, pois não? Existe uma coisa a nível internacional que é fundamental Que é a reciprocidade. Ou seja, nós estamos com leis muito mais permissivas do que esses países que vêm pra cá. E vou lhes dar outro exemplo. No dia 11 de maio, em Lisboa, organizou-se uma cimeira de dois partidos islâmicos do Bangladesh, proibidos no Bangladesh, e que realizaram a cimeira aqui. São esses tais que querem islamizar a Europa. E foi essa cimeira que aconteceu em Lisboa.
O Tanjor acredita na teoria da conspiração. No fundo, é isso que a extrema-direita é, teoria da conspiração, demônios climáticos.
Mas qual teoria da conspiração, se é uma realidade, de facto? Vá perguntar ao SIS, não é verdade. Quer dizer, antes de dizer, vá perguntar ao SIS. Eu dou visto há 40 anos. Nós temos um sistema, que é o sistema de Schengen, que nós somos parte.
Estamos conseguindo ver esse relatório.
Que nós somos parte. Peça ao SIS que lhe dá. Nós somos parte desse acordo. Aliás, o acordo de Schengen é a legislação interna portuguesa. Está lá tudo estatuído. E nós, pura e simplesmente, assobiamos pro lado e não damos importância.
Não foi isso que Bruxelas disse hoje.
Disse hoje o quê, Bruxelas?
Houve essa ameaça que iriam suspender Schengen. E o que foi dito é que se nós não cumpríssemos Schengen, estaríamos provavelmente em risco de ser suspensos. Voltamos ao mesmo, que é este instituir do medo, esta questão que existe de querer negar as alterações climáticas, simplesmente porque os outros poluem, nós não podemos poluir. Errado, nós temos que estabelecer metas.
Por que não vão pro continente africano, que está subpopulado? Por que é que hão de vir pra Europa?
Porque estão a mandar em mim, estão a me mandar ir pra África?
Enquanto houver sim pra África, que tem a África Subsaariana.
Ainda vai tentar mandar portugueses pra fora?
Não, não é portugueses, não é pra África. Estou só a dizer, aqueles que querem vir pra Europa por razões climáticas, podem ir pra outros sítios, não têm que vir pra Europa, porque nós primeiro temos que cuidar dos que cá estão. E volto a dizer, nós temos uma taxa de 40%, 20 mais 20, de pobreza em Portugal. Enquanto não resolvermos isso, nós não podemos ter ideias de receber mais gente. Mais, as pessoas que estão aí, 400 mil, mais as 800 mil que já cá estão. Portanto, 1 milhão e 200 mil num país de 10 milhões de habitantes e 400 mil às pés de registro. Isto é brutal pra um país como Portugal, ainda por cima acabam com o SEF, que eram os únicos funcionários que tinham prática nesta área, criam uma nova agência perfeitamente imberbe para lidar com este problema. É evidente que a agência, mesmo que tivesse pessoas de alto coturno profissional e intelectual, não iria conseguir dar vazão a este problema.
O programa eleitoral que representa, e peço-lhe uma resposta muito curta para ainda irmos a um outro tema, escreve que a esmagadora dimensão dos fluxos migratórios sem regras coloca em causa a identidade e a segurança dos Estados. Por aquilo que estava a dizer há pouco, pelo que diz este programa eleitoral do Chega, estamos perante uma grande substituição na Europa, uma substituição demográfica ou populacional, como André Ventura chegou a dizer?
Já me vai acusar da teoria da conspiração. Agora, se é substituição ou não, não lhe posso dizer.
André Ventura chegou a falar em substituição demográfica ou populacional.
Sim, tudo bem, mas mesmo que não cheguemos a esse ponto.
Mas concorda com essa visão?
Não, isso é o ponto extremo.
Mas estamos perante uma grande substituição ou não?
Antes de lá chegar, nós temos todo um processo da alteração da própria sociedade.
Portanto, acha que ainda não está a acontecer?
Não, não está a acontecer.
André Ventura estava a ver isto mal, não estamos perante isso?
Não, o problema é a evolução. Se nós conseguirmos integrar os que cá estão, que não estamos a conseguir neste momento, nós e os outros países europeus, isso não vai acontecer. Agora temos que fazer um esforço pra essa integração. Há muitas coisas que eu até posso ser de acordo com o PAN, nomeadamente a defesa do reino animal, eu pessoalmente estou bastante de acordo, até assinei aquela petição que eles puseram a correr sobre o lince ibérico. Agora, isso é uma coisa. Outra coisa completamente diferente é que o nosso país fez hoje 849 anos, acho eu, de independência, e nós temos que preservar aquilo que foi construído e temos que preservar os direitos dos portugueses. Porque se nós não preservarmos os direitos dos portugueses, como é que nós vamos dar direitos a quem não é português?
Deixe-me avançar. Vou pedir a ambos uma participação muito curta sobre esta matéria, sobre esta dialética entre o modo de vida rural, os agricultores e o ambiente. Já falámos um bocadinho nisto, mas queria perceber. António Tanjor Correia, o seu programa fala em despolitização da agenda verde europeia, combatendo todas as formas de limitação de liberdades individuais. Um agricultor devia ser livre de fazer queimadas numa semana quente e seca de verão, porque é a sua liberdade individual, ou devia continuar a usar os mesmos métodos que sempre usou pra criar gado ou galinhas, por exemplo, mesmo que isso ponha em causa o bem-estar animal, porque faz parte da sua liberdade individual?
Pelo contrário, o agricultor tem que ter direito a plantar aquilo que acha que deve plantar.
Com os animais é diferente?
E a criar aquilo que acha que deve criar. Não estamos a falar de queimadas, não estamos a falar de ações negativas, estamos a falar de uma evolução positiva.
Mas a liberdade individual só se aplica às questões positivas, às ações positivas, às negativas, não?
Com certeza, porque é evidente as ações negativas. Nós sabemos perfeitamente quais são as consequências de queimadas. Nós somos contra as queimadas. Aliás, isso está hoje em dia bastante bem regulamentado. Nós somos contra as queimadas selvagens, nós somos contra esse tipo de atuação, que aliás não leva a lado nenhum. Agora, o que nós somos a favor é de uma agricultura mais moderna, mais eficiente e que se dê aos agricultores a capacidade técnica e humana de andar pra frente, em vez de estar sempre no mesmo ramerrame e cada vez mais sufocados por impostos, etc.
Pedro Fidalgo Marques, para terminarmos, há aqui, de facto, um problema. É possível respeitar o modo de vida rural dos agricultores e ainda assim aplicar as regras dos pactos ecológicos e de uma visão ambiental?
Não há problema nenhum O problema é quem o cria, é a extrema-direita com o negacionismo climático.
Alguns agricultores acham que sim, acham que há um problema.
E que vai levar a esta desinformação, porque o que o PAN tem proposto, inclusive, vai melhorar a vida dos agricultores. Estamos a falar de mudar a política agrícola comum para uma política alimentar comum, que garante a autonomia alimentar, que vai privilegiar, em vez de como é agora, que só privilegia as grandes superfícies de agricultura, vai apoiar os pequenos e médios agricultores, privilegiando as boas práticas e ligando isto à preservação da biodiversidade. Os agricultores podem ser uns grandes aliados, e têm sido, de conservação de espécies como a abetarda, como o lince ibérico. Por isso nós temos que desconstruir este mito e perceber que esta transição verde, esta transição até para, por exemplo, na questão do transporte de animais vivos, não faz sentido. Esses animais às vezes morrem à sede, muitas vezes à sede e à fome, no meio do oceano. Chegam doentes, chegam com problemas de saúde. Isso vai até afetar a nossa saúde humana e a nossa qualidade, além do meio ambiente, a nossa qualidade enquanto pessoas. Por isso, nós temos que olhar para uma visão integrada da política, esta visão ecocêntrica, que equilibra o pilar das pessoas, dos animais e da natureza. E a resposta que o PAN oferece em termos de transição verde vai ser benéfica e vai ajudar os agricultores até a produzirem mais. Quando nós falamos de produzir mais proteína vegetal, estamos a falar das leguminosas, que em Portugal têm todo um potencial de poder crescer. Investimos 2% e todos os estudos económicos dizem-nos que esta agricultura é uma agricultura que será muito mais rentável do que outras que estão a ser aplicadas, incluindo a pecuária. Por isso nós temos é que apostar nisto. E não sou eu que digo, o Banco Central Europeu diz que a transição climática, quanto mais atrasarmos, pior será para as pessoas, para estes agricultores, para todos nós, para os bancos e para a economia. Por isso, temos que mudar o nosso paradigma e pensar que a transição verde, esta transição para uma agricultura mais sustentável e orgânica, esta transição da política agrícola comum para uma política alimentar comum de autonomia alimentar, será benéfica para todos e irá, inclusive, ser boa para os agricultores.
Temos de terminar, António Tanger Correia, Pedro Fidalgo Marques, obrigada a ambos.
Muito obrigado, Sara.
Muito obrigado, boa tarde.