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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. Ao longo dos últimos 14 meses, o Observador e a Universidade Nova de Lisboa têm estado juntos todas as semanas numa parceria para analisar a evolução da pandemia em Portugal. O programa chega hoje ao fim e por isso a reunião tem mesmo de ser ainda mais especial. Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública e Pedro Pita Barros, professor da Faculdade de Economia da Universidade Nova. Bem-vindos. Vamos à ordem de trabalhos. Vamos então, e não podíamos começar sem o número da semana. Sónia, qual é o seu? Boa tarde.
Olá, boa tarde, Carla. De facto, não podia deixar de ser o 62, que no fundo são 62 programas que foram realizados no Gabinete de Crise e que corresponde também ao número de semanas durante as quais o programa foi acompanhando a evolução da pandemia nas suas diferentes vertentes e cobrindo os mais diversos temas em cada período, muitos deles emergentes naquela altura e com queridos convidados em cada uma das temáticas abordadas. Diria assim, desde o programa inicial intitulado "Se aprendemos com os erros dos outros países", em que já sabíamos naquela altura que afinal não era apenas uma doença da China, mas pelo contrário, que esta pandemia era real e podia ser grave, pelos exemplos até dos nossos países vizinhos, até ao programa que chamámos "O ano de pandemia, o ano da montanha-russa", passando depois pelas situações dos lares, saúde mental, a crise da saúde global e todos os efeitos que teve e que ainda tem, e muitos deles muito negativos na vida e na saúde de muitas pessoas.
Que belo resumo e que bela viagem, Sónia. Pedro, que número é que escolheu para o último gabinete de crise?
Olha, para hoje foi também algo semelhante, não o número de programas, mas quase uma viagem também ao passado. E o meu número é o 36%. E fui olhar para o que se passou esta semana em comparação com o que se passou exatamente um ano atrás, na mesma semana. E esta semana tivemos 36% menos internados com Covid-19, quando comparamos com o que se passou nesta altura no ano passado. Tivemos esta semana em média 228 internados e eram 636 há um ano. Estamos também com muito menos óbitos, cerca de 15% do que era na altura, e estamos com 400 casos diários em média hoje, que são bastante mais do que os quase 230 que tínhamos há um ano atrás. E portanto, temos mais casos positivos com menos consequências negativas, o que resume também muito do que tem sido a nossa caminhada durante esta montanha-russa, como a Sónia falou, durante todo este ano que passou. Esperemos agora que seja, de facto, o caminhar para o fim deste tempo de exceção.
Ora, estes números lançam bem a conversa que vamos ter. Convidámos para este programa dois repetentes, se me permitem, o ex-ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e o antigo diretor-geral da Saúde, Constantino Sakellarides, e há também um outro convidado, um passarinho que nos está aqui a animar e também é muito bem-vindo. Boa tarde aos dois.
Boa tarde.
Obrigada por estarem aqui conosco e antes de mais, e até pelo tom que a Sónia e o Pedro já aqui deixaram, precisamos de vos colocar uma primeira questão. Adalberto Campos Fernandes, fazemos bem em terminar um programa que tem como objeto a evolução da pandemia? Não há o risco de voltarmos atrás?
Em primeiro lugar, os meus cumprimentos aos colegas de painel e também à Carla. Quero dizer que todas as tarefas têm um início, têm um desenvolvimento e um fim. E a virtude das boas tarefas e das tarefas bem executadas é nós sabermos exatamente quando a devemos concluir. Portanto, eu queria cumprimentar, foi uma viagem fantástica e o Pedro, a Sónia e a Rádio Observador fizeram um magnífico trabalho. Mas como dizem os orientais, uma das palavras que se aproxima de crise ou que de alguma maneira tem um duplo significado, é oportunidade. Por que não lançar agora um gabinete que se chama um gabinete de oportunidades? Porque eu creio sinceramente que nós estamos, felizmente, como dizia o Pedro, apesar de muito mais casos, com muito menos morbilidade e mortalidade. Isto saúda e consagra o efeito absolutamente extraordinário das vacinas. E portanto, abre-se um tempo novo e temos que nos preparar agora para outros desafios lá mais à frente e esperemos que não seja necessário um gabinete de crise tão cedo no Observador e que possamos ter antes um gabinete de oportunidades.
É certo que seja então um gabinete de oportunidade. Constantino Sakellarides, bem-vindo também. Podemos com alguma segurança afirmar que estamos definitivamente num outro tempo, numa nova fase da pandemia menos agressiva?
Muito boa tarde também, cumprimentar também os meus colegas de painel, quer os residentes, como a Sónia e o Pedro, como o meu colega e amigo Adalberto Campos Fernandes. De facto, há um momento crítico na evolução desta pandemia, e este momento chama-se vacina. Desde que conseguimos ter disponível uma vacina eficaz e segura, e conseguimos que essa vacina comece a chegar em números substanciais à população portuguesa e de outros países, nós entramos numa nova fase. Numa fase em que sabemos que os vacinados, apesar de não estarem completamente protegidos em relação à infecção e à transmissão, estão bastante bem protegidos em relação à gravidade da doença e à mortalidade. E, portanto, isto muda drasticamente a evolução desta situação. E, portanto, de facto, podemos dizer com alguma segurança que há um tempo pré-vacina e um tempo pós-vacina.
E este é o momento crítico.
O pós-vacina é um tempo de expectativas. E, portanto, acho que era interessante, um pouco respondendo à sugestão que o professor Adalberto fez há pouco, que seja possível agora explicitar expectativas e seguir para saber se essas expectativas se realizam
Se sim, porquê? Se não, porquê também. E as expectativas neste momento são importantes, porque os assuntos em cima da mesa ainda são substancialmente sérios para o futuro.
E vamos olhar para eles, mas para já temos esta validação dos especialistas. Sónia, nas últimas semanas, e mesmo sem querer ou sem uma intenção consciente, fomos mudando um pouco o tom do programa e os balanços têm sido mais encorajadores. Mas fazendo o filtro destes 14 meses, o que nos deve fazer tirar lições?
Sim, de facto, foi para nós que tínhamos os alertas e as notas de esperança, foram cada vez mais fáceis as notas de esperança e cada vez mais difíceis encontrar os alertas e os riscos que estávamos a cometer. Mas, de facto, em termos de lições, e daria talvez aqui uma ótica positiva, dizendo que as aprendizagens foram muitas. Realçaria, por exemplo, também as surpresas positivas de como fomos capazes de nos adaptar a uma situação completamente nova, imprevisível, ameaçadora, diria eu, e a capacidade de agregar esforços, provavelmente como nunca antes tínhamos feito, e a forma como articulamos o poder central, local, social, academia, a sociedade civil, na verdade, todos. E, portanto, claro que há, até aqui, muitas lições a retirar, porque nas aprendizagens fomos vendo também algumas das fragilidades e algumas dessas fragilidades que já existiam ficaram, de facto, mais visíveis. Algumas delas, até diria, de forma muito cruel, como por exemplo, e não posso deixar de salientar, a forma como enquanto sociedade estamos a tratar os nossos pais, avós e tios. E, portanto, vai ser necessário pensar exatamente nestas questões, mas também, e mais do ponto de vista de onde eu me situo, as mudanças no próprio serviço e sistema de saúde, desde a tónica da saúde pública, que ganhou uma enorme visibilidade e consciência da sua relevância na comunidade em geral, e também os profissionais de saúde e claramente a certeza da importância de continuar na aposta de formação da força de trabalho em saúde. E, portanto, estes aspectos vistos de uma forma mais positiva, têm aqui inerentes algumas fragilidades que eu penso que também é o momento agora de ponderar, refletir e ver como as podemos fortalecer.
Pedro Pita Barros, neste exercício de olhar para o passado com o conhecimento do presente, este exercício tão confortável, há algum erro que não podemos voltar a repetir?
Não há assim nada de muito fundamental. O ponto essencial é nós pensarmos, se eu tentasse focar aqui numa palavra, como às vezes tenho feito, eu tentava aqui na palavra de mudança. No sentido em que muitas coisas mudavam frequentemente, de semana para semana, algumas mudanças de curto prazo, algumas mudanças que terão que ficar para longo prazo, mudanças que teremos que acompanhar, mudanças que teremos que preparar, mudanças que ocorreram com as quais podemos aprender. Cometemos erros, certamente, ao longo do processo. Talvez o erro coletivo maior tenha sido alguma euforia que aconteceu na altura do Natal e Ano Novo, depois com o mau resultado, que nos obrigou a um travão muito forte. E talvez até seja bom relembrar esse período há quatro meses atrás para o momento presente, em que estamos todos a entrar um pouco outra vez num otimismo e devemos pensar que isto só estará acabado quando estiver mesmo acabado. E estou a retomar isto a propósito até dos efeitos dos festejos do Sporting, que é uma coisa curiosa e nós podemos começar agora a olhar um pouco para trás, até um pouco mais para trás do que foram esses festejos. Quando começámos a 3 de maio a reabertura, nós vimos que os casos começaram a subir um bocadinho devagar. Curiosamente, na última semana, desde o início desta semana, os casos na zona de Lisboa e Vale do Tejo têm crescido de forma mais acelerada, no resto do país estabilizaram. Eu não sei se nós podemos com isto dizer que é apenas um efeito temporário, que Lisboa e Vale do Tejo está a ser um bocadinho diferente, ou se devemos estar preparados para a mudança permanente que é: cada vez que nós julgamos que temos algo como adquirido, aparece alguma coisa que nos dá um sinal de alerta e que nos pode obrigar a repensar aquilo que nós julgávamos que já tínhamos ultrapassado. Portanto, eu creio que mudança é talvez a principal aprendizagem que nós tivemos, inclusive a mudança de aprender com os erros que foram feitos e de aprender com o que fizemos bem também.
Adalberto Campos Fernandes, sabendo o que sabemos hoje, houve alguma coisa que não deveríamos ter feito? O Pedro falava aqui na questão do Natal e de alguma euforia que se sentiu. Foi o momento mais crítico também na sua perspetiva?
Sim. Permita-me aliás, que é crédito pessoal, embora a autoelogio, como diz o povo, é vitupério. Eu no final de setembro, dei uma entrevista à Rádio Comercial, onde disse que iríamos ter pela frente quatro meses muito difíceis e que o mês de janeiro ia ser dramático. E disse também que na primavera haveria um ponto de viragem e começaríamos a ver o fim da pandemia. Mas é evidente que também disse em 9 de janeiro que naquela altura o carro estava desgovernado e era preciso pôr um travão às quatro rodas. Em cada momento, há uma circunstância, há um contexto epidemiológico e há uma leitura. Da mesma maneira que eu em janeiro fui muito agressivo, do ponto de vista até da comunicação, e estava preocupado como muitos outros que estávamos a ver a situação descontrolada. Eu agora sou francamente mais otimista, porque a diferença entre o Natal, onde nós fomos coletivamente imprudentes, eu diria mesmo irresponsáveis, tem que ver hoje com o facto de provavelmente nós em Portugal termos pelo menos seis milhões de portugueses que já têm imunidade, quer por terem contraído a doença, quer por terem feito uma dose ou duas doses de vacina. O contexto, portanto, muda, como dizia o professor Sá e Clarides, muda efetivamente por esta circunstância, que é a circunstância de nós termos vacinas eficazes e seguras. Da mesma maneira que fui muito duro em janeiro, agora não consigo ser, porque não vejo razões objetivas para que os casos que estão a aumentar, que são sobretudo em adultos jovens, casos benignos que resultam da inexistência de proteção imunitária, venham a ter consequências quer no internamento, quer nos óbitos. Deixe-me só para concluir dizer: no Natal nós falhamos clamorosamente. E o Pedro disse bem, porque tivemos uma euforia antes do tempo e a pior coisa que pode haver é festejar antes do tempo. Mas também nestes 14 meses, o que correu menos bem, quase sempre, foi a comunicação. A comunicação institucional e até a comunicação informal. Num futuro, numa circunstância nova, nós temos que trabalhar melhor esse aspecto. Todos nós, autoridades, acadêmicos, investigadores, comunicadores, oscilamos muito entre o catastrofismo militante e os cenários de que o mundo ia acabar, até ao entusiasmo injustificado. E portanto, essa comunicação, às vezes confundir a comunicação com propaganda, que é uma coisa que nos países todos, às vezes as instituições e as autoridades têm essa tendência. Mas globalmente, como diziam o Pedro e a Sónia, por linhas tortas, nós fomos escrevendo o nosso caminho e agora o que é preciso é preparar os dispositivos de saúde pública e o sistema para novos riscos que aí virão mais à frente e trabalhar muito na recuperação da economia, do emprego e da criação de riqueza no país.
E vamos dedicar a segunda parte do programa a falar precisamente dessas prioridades. Mas professor Constantino Sakellarides, muito falámos aqui, o Pedro e a Sónia, obviamente. Nesta questão da comunicação e de como nem sempre foi ajustada, era por aí que mexeria no passado, se fosse possível?
Sim, a comunicação é de facto um aspecto importante e pode-se melhorar muito, mas também depende do contexto. Deixe-me dizer-lhe o seguinte, pareceu muito interessante. Angela Merkel, como todos sabemos, é a presidente dos europeus. É a grande força política da Europa. Disse no princípio de março que a Alemanha atrasou-se no outono a responder à pandemia. Isto é uma verdade europeia, não é uma verdade alemã, e temos que olhar para ela com objetividade. De facto, quando nós chegamos às primeiras semanas de dezembro, nós tínhamos uma incidência da doença várias vezes superior ao pico da primeira vaga da primavera. E portanto, chegamos em má forma, em termos de incidência, no princípio de dezembro. E isso porque as respostas em novembro não foram ou suficientemente rápidas ou suficientemente eficazes para o efeito. Sobre esta alta incidência, de facto, verificamos o aumento de mobilidade à volta do Natal. E sobre isso tivemos um abaixamento severo de temperaturas, que favorece a transmissão do vírus. E sobre isso tivemos também uma nova variante, precisamente a inglesa, principalmente atuante a partir de janeiro. E, portanto, este conjunto de circunstâncias nos devem fazer pensar sobre o que podemos melhorar. E podemos melhorar três ou quatro coisas. Esta que referiu é muito importante. Nós temos que assegurar várias formas de comunicação melhor do que tivemos e particularmente aquela que faz chegar às pessoas, ao espaço de convivência de cada um, a informação de risco que necessitamos para termos uma postura inteligente face a esse risco. Mas também temos que melhorar três ou quatro outros aspectos que são fundamentais. O primeiro tem a ver com o planeamento. É muito difícil planear no decurso de uma pandemia. É evidente e tem sido dito de várias formas. Mas há um planeamento específico para essas circunstâncias, que é o planeamento contingencial. É planear de acordo com as diferentes circunstâncias, de acordo com diferentes cenários, nós fazemos coisas diferentes. De facto, a nossa administração pública, principalmente, mobiliza bem os seus recursos para o imediato, mas não tem uma segunda linha para pensar o país à distância. E isso é muito importante. Junto a essa necessidade de aprendermos a planear melhor, de uma forma geral, na saúde em particular também, é necessário melhorar substancialmente os mecanismos de aconselhamento científico. Nós sabemos que numa democracia os governos são sensíveis à opinião pública e aos atores sociais. E o aconselhamento científico é o mecanismo pelo qual nós compensamos essa pressão sobre o poder político para ceder às percepções públicas daquilo que é melhor, daquilo que é pior, daquilo que provoca mais inconvenientes e mais medo. E, portanto, nós estamos numa fase ainda incipiente dos mecanismos de aconselhamento científico que permitem ao poder político equilibrar várias pressões para tomar decisões mais inteligentes, mais informadas e mais transparentes, mais perceptíveis pelos atores sociais.
E portanto, temos aqui esta questão do planeamento, também uma abordagem muito referida aqui nos gabinetes de crise. Vamos fazer agora uma pausa para a informação. Voltamos já daqui a pouco para continuarmos com os nossos convidados, Constantino Sakellarides, Adalberto Campos Fernandes, que se juntam à Sónia Dias e ao Pedro Pita Barros. Até já. Segunda parte do gabinete de crise. Estamos com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros a olhar para esta nova fase da pandemia, que nos leva também a despedir do programa. E como sempre temos feito, começamos com as notas de esperança. Pedro, com que nota de esperança é que se vai despedir?
A minha nota de esperança de despedida é uma nota de esperança muito geral. É para a forma como ao longo deste ano nos habituamos todos ao vírus. As escolas, neste momento, andam abertas sem problemas especiais, a restauração também. Os testes estão sendo feitos, temos até já a possibilidade de, por iniciativa própria, fazermos os testes e comunicarmos. A vacinação decorre a muito bom ritmo e até vai sendo antecipado, provavelmente, o limiar que se pretendia alcançar. E, portanto, aqui tenho a esperança de que tenhamos encontrado o equilíbrio delicado neste caminho que nos vai devolver a vida normal em grande medida. Estamos a juntar vacinas, testes, rapidez de atuação das autoridades públicas, cuidados e precaução de cada um. É muito provável que alguns dos cuidados tenham vindo para ficar. E embora não tenha pensado nisso, adicione aqui também um elemento nesta nota de esperança que vem do que o Constantino Sakellarides falou há pouco: que consigamos também aprender a fazer uma planificação contingente. Nós muitas vezes falámos aqui disso, que era importante ter regras claras e saber o que ia acontecer em cada momento. E mesmo que não seja em situação de crise, será bom que consigamos criar essa boa prática. É também uma nota de esperança que fica.
Outra nota de esperança. Sónia, e a sua?
A minha nota de esperança vai para a palavra que talvez elegesse neste programa, que são aprendizagens. E o facto que as imensas aprendizagens possam contribuir para melhorar a qualidade de vida nas suas diferentes dimensões, com impacto em ganhos em saúde, em bem-estar, saúde mental, etc. E acho que neste nível temos, de facto, um longo caminho a percorrer. E no fundo, o que eu desejaria era que daqui a algum tempo olhássemos para trás e que este período não tenha sido em vão. É também uma nota de esperança com talvez, diria eu, uma componente de realismo, pois enquanto a pandemia epidemiológica da Covid está no bom caminho, por isso também terminamos o programa hoje, a pandemia das desigualdades sociais e até de saúde, mais relacionado com as questões não Covid, ainda está bem ativa, para não dizer provavelmente ainda em expansão. E, portanto, é preciso assim também de uma forma rápida e concertada, e esta é a minha segunda parte da esperança, que se encontrem estratégias efetivas que permitam dar respostas adequadas a uma também recuperação do ponto de vista da situação mais a nível social e económico.
Muita esperança para os próximos tempos, mas também muito realismo. Neste último gabinete de crise, estamos também com o antigo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, e o ex-diretor geral da Saúde, Constantino Sakellarides. Estivemos há pouco a olhar para o que foi este último ano, mas se o pior já terá passado, como queremos todos, os desafios são ainda muito grandes. Constantino Sakellarides, como é que o país sai desta enorme crise, da crise das desigualdades, e como é que se vai recompor? Como é que vê o futuro próximo?
Temos vários futuros próximos. Temos o futuro imediato e temos o futuro a longo prazo. E em relação a cada um deles, temos preocupações de vária ordem. Temos a preocupação que tem a ver com a evolução do vírus, ou seja, este vírus que provocou este coronavírus, provocou esta pandemia, continua muito ativo a multiplicar-se, a dar origem a novas variantes. E nós sabemos que essas novas variantes vão multiplicar-se até o momento em que consigamos que, a nível mundial, haja, de facto, uma diminuição drástica da transmissão do vírus. E sabemos também, pela experiência histórica com as pandemias da gripe, que sempre que temos uma nova pandemia, aparece um vírus da gripe dominante, que entra no nosso ecossistema e que faz parte do perfil vírico da gripe em cada inverno, o que nos tem obrigado a revacinar as pessoas todos os invernos a partir de uma vacina que é composta por um conjunto daqueles vírus circulantes na época, no hemisfério contrário, no hemisfério sul, no nosso caso.
E, portanto, antecipa um próximo inverno mais difícil, com essa conjugação do vírus da gripe com eventuais variantes do coronavírus.
Mas isto é curioso porque tem duas dimensões. Por um lado, nós aprendemos uma coisa que é lutar contra a nossa complacência. Todos nos recordamos que todos os invernos, principalmente aqueles em que a essência da gripe era mais elevada, provocavam o caos no nosso serviço nacional de saúde e provocavam uma mortalidade acentuada nas pessoas mais vulneráveis, para os mais velhos e as pessoas mais doentes. E nós, com o hábito que se estabeleceu em relação a esta quase fatalidade, criamos uma complacência muito grande em relação a este vírus sazonal, que acontece no inverno. Verificamos agora que se tomamos medidas de contenção, como a máscara, como distanciamento físico, nós conseguimos deixar de ter gripe praticamente no inverno. E, portanto, percebemos que sendo estas pandemias epidemias locais, podemos facilmente identificar qual é aquele período onde o risco de incidência é maior na nossa comunidade e começar a tomar medidas efetivas, não só para diminuir a transmissão, mas para proteger os mais doentes e os mais velhos dos efeitos da gripe. Ora bem, essa experiência que tivemos em relação à ausência da gripe face às medidas que tomamos em relação ao coronavírus, devem nos servir para o próximo inverno.
Uhum! E, portanto, aprender.
Acrescentar a isso, temos o facto de possivelmente termos que revacinar-nos Em relação ao coronavírus. E essa vacina não será exatamente igual a esta, porque tem que tomar em conta as variações que o vírus foi sofrendo. E, portanto, é muito provável, devamos ser vacinados. A própria União Europeia já comprou vacinas pensando no futuro de uma revacinação. Não sabemos ainda qual é a natureza dessa revacinação. Ainda é cedo para saber isso. Portanto, resumindo a questão das infecções respiratórias de inverno, nós aprendemos com a complacência excessiva em relação à gripe e com a perspectiva de uma revacinação.
Sim, mesmo para terminar, Constantino S aclarides.
Sim, o outro aspecto tem a ver, de fato, com a recuperação dos atrasos da resposta dos cuidados de saúde. E isso é uma nota que me parece absolutamente fundamental. Essa recuperação não pode ser fazer mais agora do mesmo. Nós temos que fazer diferente. O nosso sistema de saúde, quer público ou privado, responde muito mal ainda aos desafios de envelhecimento. Os nossos cuidados de saúde são fragmentários, pouco integrados, com pouca continuidade, abandonam as pessoas no curso daquela continuidade e temos que aproveitar a oportunidade para olhar de novo para a qualidade do nosso cuidado de saúde e aproveitar esta recuperação, não só para acrescentar recursos, para recuperar suficientemente bem, mas mudar radicalmente o nosso padrão de cuidado de saúde.
Registei essa frase: "Não podemos fazer mais do mesmo", Adalberto Campos Fernandes. Essa é também a lição que podemos aprender deste passado recente, aquele que nos estamos agora a tentar libertar e pensar já a curto e a médio prazo.
Sim, é uma das lições, mas se me permite, pegando até no desafio que colocou ao Pedro e à Sónia, sobre a nota de esperança, eu tenho uma nota de esperança da qual não quero abdicar, que é que em dia de rankings, hoje é o dia do ranking das escolas, que naturalmente suscita sempre muita paixão, muita polêmica, que no ranking das prioridades europeias e dos países, nomeadamente em Portugal, a saúde e a investigação científica possam ter um upgrade de reconhecimento político e que possam efetivamente passar a ser prioridades e não apenas olhadas muitas vezes, quer a nível europeu, quer dos governos nacionais, como um centro de custos que apenas traz incômodos e embaraços ao orçamento.
E aposto que sabe do que está a dizer.
Exatamente. É fundamental, porque se percebeu que os aviões ficaram no chão, o mundo parou, a economia foi ao fundo. E apenas e só por quê? Porque apareceu um agente biológico que provocou uma tempestade pandêmica em todo o mundo. E eu espero que todos os decisores ao nível central, quer da União, quer dos países, percebam que a saúde tem legitimidade, não por si própria, mas pelo serviço que presta às pessoas, de subir na hierarquia de importâncias e prioridades dos governos. Ora bem, quanto àquilo que foi dito sobre a questão da reorganização, não é só no sistema de saúde que nós temos que acabar com esta ideia de silos, de guetos, de uma permanente confrontação entre setores, de uma excessiva ideologização do debate político. E fazendo de conta, os mesmos que alimentam este tipo de debate, que não tínhamos conhecimento dos idosos abandonados, daqueles que morreram e que podiam não ter morrido em janeiro e em fevereiro, porque nós, cinicamente, eu diria, enquanto sociedade, ignoramos uma realidade que há muito é conhecida de todos. Nós temos um país muito envelhecido, provavelmente o quinto país mais envelhecido do mundo. Temos que lidar com esta realidade. Temos que olhar para a condição humana de uma outra forma. Isso, naturalmente, requer recursos na saúde, no social, mas requer, sobretudo, uma partilha e uma multidisciplinaridade que nós não temos tido. Eu desejo que a crise nos ensine que é preciso ter uma sociedade mais aberta, mais empreendedora, mais competitiva para gerar valor social e econômico e que, como dizia o professor Sclarides, não estejamos, no fim desta crise, a discutir as mesmas coisas com os mesmos argumentos que andamos a discutir há vinte, trinta, quarenta anos, a prejuízo do bem comum e dos interesses da própria sociedade.
Até porque, Sónia Dias, temos tido alertas mais ou menos recorrentes de que é preciso estarmos preparados para outras pandemias. E essa é a questão, Sónia, estaremos mesmo?
Sim, esse é talvez o grande desafio, que mais ou menos, de alguma forma, todos nós colocamos, que é não nos fixarmos apenas na questão da resolução da parte mais epidemiológica e até médica, eventualmente, das questões da Covid, mas em todos os efeitos que a Covid nos trouxe, mas que, de fato, como o professor Adalberto dizia no início, crise também traz oportunidade. E, portanto, seremos nós capazes de olhar do ponto de vista das aprendizagens e aproveitar as oportunidades que esta crise também nos trouxe nesses pontos. E de fato, temos muitos sinais hoje que nos permitem ver claramente as fragilidades e as desigualdades que temos. Importa agora ter a vontade política, social, de resolver essas questões e de aproveitar este momento para uma sociedade mais inclusiva, mais aberta e também com melhores indicadores de saúde e econômicos.
Pedro Pita Barros, como é que vai ser este futuro próximo com as tais outras pandemias, que podem ser problemas sanitários, mas podem ser outros, sociais, econômicos, de que temos falado, e das desigualdades, que é outra enorme pandemia, que tem sido uma tônica dos nossos programas.
Bom, nós neste período conseguimos aprender que temos muita coisa para fazer, mas provavelmente a mais importante neste momento é pensar que temos que nos preparar para estarmos preparados
É impossível prever o que é que vai acontecer exatamente no futuro, qual será o próximo grande problema de saúde que existirá. Mas algo que nós conseguimos perceber destes últimos 14 meses foi que a rapidez de decisão, o compreender o que está a acontecer, o que se chama agora numa nova palavra, resiliência do sistema, se torna extremamente importante. E que tem muito mais a ver com os mecanismos de decisão e com os mecanismos de compreensão de como a saúde interage com a sociedade, como as pessoas interagem com as medidas, como é que a preocupação com a situação económica interage com a preocupação com a saúde propriamente, estar a acumular recursos em algum sítio, na esperança de que um dia venham a ser usados. E aqui nós temos muito ainda para compreender, mas podemos tirar duas ou três lições mais da parte organizacional, que me parecem importantes. A primeira delas é se nós olharmos para o que correu bem em Portugal. Uma das partes foi no momento de impacto inicial, há 14 meses, a capacidade que as próprias organizações, hospitais e centros de saúde tiveram de começar a coordenar e a tomar a liderança de iniciativas que lidassem com a pandemia. E aqui já tivemos o Fernando Araújo, do Hospital São João. É um exemplo de como é que uma instituição pode liderar um processo em extrema dificuldade, mas mostrando essa tal resiliência, essa capacidade de decisão, tal como tivemos, que eu já chamei aqui também, o exército invisível dos cuidados de saúde primários, que tratando ou acompanhando 90 e tal por cento dos casos de COVID, raramente fizeram ou tiveram a visibilidade que as grandes situações dramáticas receberam. E nós temos que olhar bem para o que correu bem e perceber como é que potenciamos isso. A telemedicina provavelmente veio para ficar. As questões da hospitalização domiciliária, também. A necessidade de um planeamento diferente, como já foi aqui referido, também. Temos as tais oportunidades, que eu acho que estão ali à nossa mão de apanhar. É como se é aquela fruta que está fácil de colher, como muitas vezes se costuma dizer, tenhamos assim a ousadia de ir apanhar.
E deixem-me aproveitar estes minutos que nos faltam para aproveitar um pouco mais dos nossos convidados. Constantino Sakellarides, se pudesse implementar uma medida hoje para os próximos tempos, o que é que faria?
Aproveito para dizer que eu fazia o que a Assembleia Mundial da Saúde pediu à OMS para fazer no ano passado: fazer um relatório sobre o que correu bem e o que correu mal.
Aprendeste, portanto, a olhar e fazer o balanço do que aconteceu.
Exatamente. Esse relatório foi agora publicado e diz duas coisas interessantes. A primeira é que fizemos tudo mal em fevereiro do ano passado. Europa, na Ásia, globalmente.
Desvalorizamos.
Muito mais para evitar o avanço dessa pandemia. E a segunda conclusão interessante foi de que os órgãos do governo, a Assembleia Mundial da Saúde, portanto, os países de todo o mundo que participam nesse órgão do governo, não são suficientes para responder à situação. Precisa haver uma estrutura de governo universal em termos das emergências de saúde pública, com poder suficiente para conseguir, quer a nível internacional a OMS, quer os governos nacionais, sejam capazes de, em conjunto, tentarem antecipar este fenómeno, intervir precocemente e intervir eficazmente na contenção ou na resposta a esse desafio pandémico.
Ora, com esta ideia, Constantino Sakellarides desconstrói a minha pergunta. Adalberto Campos Fernandes, não será uma medida que possa fazer a diferença nesta altura, mas sim uma resposta global, é isso?
Sim, claro que é um conjunto, é um mosaico de medidas, mas há uma que eu recomendava, não só em termos nacionais, em Portugal, mas na própria Europa. Aliás, a Europa vai dar passos com a criação de uma autoridade de resposta rápida, que era que nós atribuíssemos a nível nacional, nos países, à saúde pública, o papel e a responsabilidade estratégica que ela tem que ter entre crises. Ou seja, não é quando a crise aparece, nós andamos a correr atrás do prejuízo e depois vemos que não temos nem os meios, nem os instrumentos, nem as capacidades. Portanto, talvez pensar que a saúde pública é um elemento de defesa nacional, que tem valor estratégico e, portanto, trabalhar em bastidores, como dizia o Pedro e dizia o professor Sakellarides, porque quem vai para o mar, avia-se em terra, e neste momento nós estamos em terra, quase em terra, e portanto temos que nos preparar para a próxima invasão de água, que vamos ter seguramente daqui por uns anos. E nessa altura estar melhor organizados e, sobretudo, com capacidade do planeamento, não apenas estratégico, mas também operacional, que é necessário.
Sónia, consegue indicar uma medida decisiva que nos faça preparar melhor para a próxima maré alta?
É muito difícil, não é? Mas talvez assim, muito rapidamente, empregaria a palavra agregação. Agregação de esforços de múltiplos setores. E vimos claramente que quando as respostas são intersetoriais, têm um impacto muito maior. Portanto, talvez fosse também de uma forma mais macro a medida que iria escolher.
Pedro, a mesma questão difícil, eu sei, mas já que estamos a encerrar a pandemia, qual seria a medida que escolheria? Esta ideia de que a resposta tem que ser sempre grande e global.
Preparar mecanismos que tenham rapidez de decisão, seja a nível nacional, regional, internacional, global.
Tem que ser assim, internacional e global. Estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Constantino Sakellarides e Adalberto Campos Fernandes, foi uma honra ter a vossa presença no último Gabinete de Crise. Muito obrigada. Continuamos aqui na Rádio Observador a contar convosco. Obrigada também à Universidade Nova de Lisboa e obrigada, sobretudo, ao entusiasmo, energia e envolvimento da Sónia e do Pedro, que nunca tiveram férias. É verdade isto. E ainda não estivemos juntos, mas esse café fica mesmo prometido. Está combinado isso, Sónia e Pedro.
Está combinado. Muito obrigado por nos teres conduzido durante estes 14 meses. Foi uma condução muito acertada e que nos manteve sempre com este entusiasmo e com esta nota de otimismo que sempre procurámos ter durante o gabinete.
E foi um privilégio.
Da minha parte também, dizer que foi um gosto muito grande esta partilha semanal, que é com saudade que deixamos, mas ao mesmo tempo com esta nota de esperança de que finalmente podemos terminar o gabinete de crise.
É isso mesmo, era o que queríamos logo desde o início. E terminamos com a música que encerrou esse primeiro gabinete de crise do dia 27 de março de 2020. Estávamos no primeiro confinamento e desejávamos mesmo que tudo fosse ficar bem. Não ficou. Perdemos muitas vidas, ficaram muitas sequelas, mas pode ser que os momentos de superação que também tivemos nos ajudem no futuro. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, estive sempre com a Vanessa Cruz, o Bernardo Almeida e o Diogo Casinha. Boa tarde.