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Boa tarde, bem-vindo ao Gabinete de Crise. Esta é uma parceria da Rádio Observador com a Universidade Nova de Lisboa e acompanha há praticamente um ano a evolução da pandemia. Na segunda parte do programa voltamos ao tema que marcou a semana: a Agência Europeia de Medicamento garante a segurança e eficácia da vacina da AstraZeneca, mas a suspensão decidida por vários países marca um abalo na confiança do processo. Vamos estar, por isso, daqui a pouco, com o professor da Faculdade de Farmácia, João Gonçalves, que é também diretor do Instituto de Investigação do Medicamento. Mas agora chamamos já a Sónia, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, e o Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Temos o número da semana. Muito boa tarde aos dois, bem-vindos também. Sónia, qual é o seu número?
Boa tarde, o meu número é o 1000 e escolhi este número porque se estima que terão ficado por diagnosticar mais de mil cancros, nomeadamente da mama, do colo do útero ou colo retal, só em 2020, devido à Covid, segundo dados da Liga Portuguesa contra o Cancro. Como assistimos, a pandemia da Covid, de facto, interrompeu ou interferiu abruptamente com programas de rastreio e de tratamento do cancro. E esta não foi só uma situação específica de Portugal, pois de acordo com a Organização Mundial de Saúde, um em cada três países da região interrompeu parcial ou totalmente os seus serviços oncológicos exatamente por causa da pandemia. Também segundo a Sociedade Portuguesa de Oncologia, esta terá levado a uma quebra significativa no diagnóstico de novos cancros, devido à redução dos programas de rastreio, consultas, mas também ao receio das pessoas em procurarem os seus médicos, adiando exames e consultas. E neste sentido, a população não deve mesmo inibir-se de procurar resposta aos seus problemas de saúde, pois este receio pode trazer consequências graves. Por outro lado, é importante que se continuem os esforços de incentivar a população a não adiar ou deixar de fazer exames de rotina e a continuar a visitar regularmente o médico assistente. Do lado dos serviços, e alinha também com a diminuição da pressão exatamente nos serviços de saúde relacionada com a diminuição dos casos Covid, importa agora planear e implementar de forma urgente planos de recuperação, diria eu, quase do tempo perdido. E coloquei hoje a ênfase no cancro, mas de facto serve para chamar a atenção de todas as outras doenças que são causas muito importantes de morbilidade e mortalidade.
E temos falado tanto aqui no Gabinete de Crise das doenças não Covid. Pedro, que número é que escolheu para hoje?
Eu escolhi desta vez um número baixinho. Escolhi o número três. Número três, os três dias em que se suspendeu a aplicação da vacina da AstraZeneca em Portugal e noutros países da Europa. As outras vacinas continuaram a ser aplicadas, mas a aplicação desta vacina esteve parada. Foram poucos dias, mas foram dias de espera, não propriamente de incerteza, mas foram dias em que a Agência Europeia de Medicamento esteve a preparar a sua avaliação sobre um potencial risco adverso que foi encontrado, muito raro, e a Agência Europeia de Medicamento acabou por concluir que não há um risco acrescido de coágulos, que é o problema aqui em causa, face ao que é usual aparecer fora da pandemia. E o que sucede aqui é que como quem é vacinado está agora muito mais atento a tudo o que se possa suceder e se regista tudo o que sucede com essas pessoas, acabam por aparecer situações que, sendo normais, podem ter interpretações de algum receio. E neste caso, não há qualquer prova ainda de uma relação causa e efeito, não se espera que seja algo que venha a ser detetado. Foi uma paragem devido a um problema que foi muito específico. Estamos a falar de 25 casos em 20 milhões de pessoas que já foram vacinadas na Europa. Portanto, não há qualquer receio que isso possa ter um problema que leve a parar a vacinação. Temos de acompanhar os números e acompanhar este problema como outros. Agora vamos ter que também perceber como é que vamos lidar com outras situações que vão provavelmente exigir também algum cuidado e que vão exigir que se olhe sobre o que está a suceder, uma vez que quando se começa a vacinar milhões de pessoas, é natural que de vez em quando se encontrem situações muito raras. Portanto, é importante que se pare quando houver dúvidas, é importante que haja clareza nas decisões, como houve agora, é importante que não se perca tempo a fazer a análise e a tomar decisões, e é importante que se mantenha a confiança das pessoas em quererem ser vacinadas.
E o caso da vacina da AstraZeneca acabou, de facto, por dominar aquela que foi a primeira semana do desconfinamento a conta-gotas. As escolas até ao primeiro ciclo já abriram, os testes de rastreio a pessoal docente e não docente começaram, voltaram as vendas ao postigo, os livros já são vendidos nas livrarias e muito importante, também já se pode cortar o cabelo. Sónia, com tantos acontecimentos, o que destaca desta semana?
Esta semana, como estava a dizer, que foi o princípio, no fundo, da abertura, acaba por não haver muito ainda para se dizer de qual será o impacto que esta abertura gradual terá na evolução. Portanto, temos de facto que aguardar aqui mais alguns dias para se começar a perceber como é este processo de abertura e qual o impacto que está a ter na evolução epidemiológica.
Dirá que mais uma semana, Sónia, e já conseguimos começar a ter um retrato do que foi este início de abertura?
Exatamente. Sim, até porque nós vamos precisar desse retrato e sabemos também que a vontade e a necessidade, até quase psicológica e mental, de começar de alguma maneira a desconfinar é muito grande. Sabemos também, por exemplo, que o bom tempo também tende a ajudar a um maior desconfinamento. Portanto, é preciso, de facto, começar agora a monitorizar o impacto que esta Que esta abertura significa na evolução epidemiológica da pandemia. Mas, de fato, aqui nesta semana, exatamente também porque não há estes dados, acabou por ficar muito associada às vacinas e ao plano de vacinação. E esta paragem, por precaução, relativamente à vacina da AstraZeneca, que o Pedro mesmo agora referiu, que faz todo o sentido do ponto de vista até daquilo que é o percurso natural da introdução de fármacos e de vacinas na população, foi, na verdade, e do ponto de vista mais populacional e dos cidadãos, uma semana de ansiedade e nervosismo, por receios relativamente aos seus efeitos, quer de quem já tinha tomado a primeira dose, quer de quem tinha tomado as duas ou até de quem teria que rapidamente decidir sobre a sua toma. E aqui é, de facto, muito importante, nós começamos a ver já esse trabalho a ser feito, mas é muito importante reforçar a confiança da vacina. Talvez tenha que se fazer um pouco mais do que apenas vir dizer que é segura, porque os receios foram grandes e também nesta preparação de que provavelmente, diríamos quase com toda a certeza, novos precauções vão acontecer no futuro e, portanto, era preciso também preparar a população para esse sentido. Muito interessante também nesta semana, e ficaria no meu comentário pelas questões da vacinação, diria eu que houve quase uma quebra no mito da não utilização ou da potencial não utilização de vacinas desenvolvidas por outros países fora do contexto europeu ou americano. Por exemplo, ouvimos começar a falar esta semana da utilização da vacina russa em Portugal e outras que já estão a começar a ter aprovação das entidades europeias. E nesta vacina russa, a desconfiança inicial pela rapidez com que surgiu, as próprias dúvidas que suscitou na comunidade científica internacional, podem mais uma vez influenciar a percepção face a esta vacina, que pelo menos ao nível da comunidade científica, parece estar rapidamente a mudar e esta vacina já está registrada em 25 países, a ser produzida também em cinco, e segundo dados publicados no início de fevereiro na Lancet, terá uma eficácia de 91,6% penso eu. E portanto, a tal Sputnik é provavelmente uma vacina que poderá vir até a ser produzida em vários países da Europa brevemente e de seguida essa tua utilização. Portanto, diria que para além destas quatro vacinas já aprovadas, poderão estar no caminho outras novas vacinas e esta questão da confiança e da adesão é muito importante e uma coisa está interligada com a outra, portanto, é necessário pensar como um todo nesta questão das vacinas e do programa de vacinação.
Sónia, se ainda tivemos tempo nesta primeira parte, ainda lhe vou perguntar por que é preciso fazer mais do que dizer que a vacina é segura, o que se pode fazer mais. Mas vamos já chamar o Pedro, porque a Sónia já explicou que ainda é muito cedo para que os indicadores reflitam o desconfinamento esta semana, por isso, por onde é que quer também olhar para o que aconteceu nestes últimos dias?
Olhar em três pontos diferentes. O primeiro, nos principais indicadores, apesar de tudo, podia ter havido um efeito de antecipação das pessoas da reabertura e terem começado a circular mais e a criar novos casos. E por isso, a descida dos números novos casos, que esta semana foram menos de 500 por dia em média, e a descida dos internamentos e das pessoas em unidade dos cuidados intensivos e dos óbitos continua a ser um bom sinal. É certo que reflete ainda uma parte da situação de antes da reabertura progressiva. Parêntese aqui, estou a usar o termo introduzido pelo primeiro-ministro, que na verdade eu acho mais feliz que desconfinamento. Vamos começar a enraizar a ideia de gradualismo para nós todos desabituarmos a ideia que isto vai ser um processo regular, mas não deixa de ser a continuação de bons sinais. Esse é o primeiro elemento a assinalar. O segundo elemento a assinalar é a volta da palavra-chave que eu escolhi para esta semana. Estive quase a mudá-la agora. Depois da introdução da Carla, estive quase a mudá-la para corte de cabelo. Como sinônimo de algum retorno à normalidade, mas vou afinal manter na palavra que tinha pensado inicialmente, que é o acompanhamento. Isto porque podemos passar a acompanhar a evolução daquele quadro colorido que foi apresentado pelo primeiro-ministro para representar o que está a acontecer. Nós sabemos que vai ser preciso muitos outros indicadores, por exemplo, sobre a capacidade do sistema de saúde, sobre a intensidade de realização dos testes, seja para despiste, seja para confirmação de sintomas. Se calhar devíamos ter também indicadores com alguma regularidade diferente, se calhar mês a mês, sobre a imunidade geral na população, através de uma amostragem que fosse feita com outros testes e vamos ter que ter a calma de saber interpretar estes resultados. Agora, o que chama a atenção aqui é, sendo aquele quadro interessante como forma de fixar uma imagem na nossa cabeça, o que aliás já está a acontecer. Já muitos falamos do famoso R. Eu acho que o nome vai ficar carinhosamente no nosso imaginário. Nós sabemos que esse valor vai tender para um. Por exemplo, se tivéssemos durante um mês inteiro 10 casos todos os dias, era uma ótima situação, só tínhamos 10 casos todos os dias, mas esse R estaria a tender para um. E, portanto, a nossa própria interpretação vai ter que ser ajudada com estes quadros. Tivemos também um sinal positivo de um documento da DGS mencionar alguns automatismos quanto a aumentar as pessoas que estão a fazer inquéritos epidemiológicos se houver um aumento de casos. Portanto, começamos a ter instrumentos adicionais, que não seja apenas os números habituais, para conhecer o que está a acontecer e para parar as cadeias de transmissão quando elas começarem a ocorrer, seja por iniciativa própria, seja por iniciativa das autoridades de saúde. E, portanto, é saudável É provável que haja várias formas de acompanhar a evolução da pandemia e, portanto, este quadro colorido do primeiro-ministro. Se lançou esta corrida a ter diferentes instrumentos, eu acho ótimo. O terceiro ponto, muito rápido, é parar e sinalizar que já começamos a ver nos dados que o tempo médio entre a primeira e a segunda dose das vacinas está a aumentar como planeado e que, como consequência disso, o número de vacinados com a primeira dose aumentou. Portanto, temos uma clara aceleração no início de março das tomadas de primeira dose e um encostar da segunda dose aos 28 dias depois da primeira, que é mais ou menos um sinal de que o que foi anunciado está a ser cumprido com o dilatar dos prazos e com o reforçar da toma das primeiras doses no sistema. Portanto, o que foi anunciado como plano, nós começamos a encontrar nos dados, o que é sempre bom de assinalar.
O que fica aqui também registado com a palavra-chave da semana: acompanhamento, e ainda não o corte de cabelo. Vamos continuar a analisar a semana já daqui a pouco, mas agora vamos aos mitos e alertas. São ideias, avisos, chamadas de atenção para deixar bem claro antes do intervalo. Sónia, e apesar dos bons indicadores em Portugal, quer deixar um alerta, até na lógica deste acompanhamento que o Pedro estava a defender há pouco, não é?
Sim, exatamente. O meu alerta vai para que Portugal está em contraciclo em relação à Europa, em termos de casos de Covid, o que são ótimas notícias, mas não deixa de ser um alerta para o verão. E depois do mês de janeiro, o pior desde o início da pandemia, Portugal destaca-se por apresentar agora uma tendência de redução dos novos casos de infecção, ao contrário de outros países europeus que começam a confinar novamente. Mas aqui eu diria que a economia precisa que este desconfinamento seja rigoroso, com testagem em massa e aumento da vacinação até para o verão, que se aproxima. E o alerta fica exatamente que quando a Europa começar a desconfinar e as viagens começarem a aumentar no início do período de férias, precisamos nós, em Portugal, de estar em ciclo com os restantes países, principalmente com os destinos turísticos nossos concorrentes. E, portanto, temos mesmo que ter a atenção com o desconfinamento para que possamos estar preparadíssimos para o verão.
E aí convém estarmos todos mais ou menos no mesmo momento da pandemia, não é?
Exatamente.
Pedro, quer falar do escrutínio das vacinas.
Exatamente. O meu alerta desta semana vai para a nossa necessidade de todos percebermos o que é o processo de monitorização da aplicação das novas vacinas. Nós sabemos que há situações que ocorrem fortuitamente e algumas vão ocorrer nas pessoas vacinadas. Portanto, não poderemos tirar imediatamente consequências e dizer: "Porque ela foi vacinada, teve este problema". Mas muitos problemas existem e vão ser detectados. E portanto, aqui o alerta é para as pessoas não se assustarem com casos que possam surgir, para os decisores políticos confiarem na ciência e no que a análise dos casos lhes vai dizendo. E o alerta também para as autoridades internacionais na área do medicamento clarificarem rapidamente, com base em dados científicos, as dúvidas que surjam. No fundo, o alerta é: vamos ter que ser todos bastante cuidadosos e sobretudo não entrar em extremos face a qualquer problema que seja anunciado, até se descobrir se é de fato um problema ou não.
Pedro, mas há esse risco de começarmos a ter uma atenção eventualmente até excessiva a algum caso que aconteça e que não tem relação com a vacina, mas a dúvida pode instalar-se mais nos próximos tempos, depois do que aconteceu esta semana.
Exatamente, e por isso vai ser preciso ter a capacidade de desmontar rapidamente esse aspeto. Porque é inevitável que pessoas que sejam vacinadas acabem por surgir com problemas que são encontrados, até porque elas estão a ter mais cuidado a perceber o que lhes está a acontecer, e vão ser encontrados se calhar mais frequentemente do que seriam se não tivessem sido vacinadas, apenas porque estamos com esse cuidado de perceber a evolução das pessoas. E portanto, temos que distinguir o que possa ser consequência da vacina e o que possa ser algo que aconteceria de qualquer forma e que por acaso sucedeu numa pessoa que está vacinada. E, por exemplo, podemos levar um pouco até para a caricatura. Certamente haverá pessoas, a dado momento, que terão tido a vacina e que terão desastres de automóveis, mas ninguém, provavelmente, em bom senso, dirá que foi o ser vacinado que provocou o desastre automóvel. Portanto, nós temos que perceber, no fundo, quantos desastres de automóveis, portanto, situações que nós não gostaríamos que aconteçam, mas que sucedem por vezes, têm ou não relação com a vacina.
Fica bem claro com esse exemplo. É preciso então manter a confiança nas vacinas, mas com a capacidade de monitorizar o que está a acontecer e, já agora, olhar para o resto da Europa e para os países que estão a enfrentar um aumento do número de infeções. Voltamos já a seguir ao intervalo para as notas de esperança e depois para analisar estas dúvidas criadas em torno da segurança da vacina da AstraZeneca. O nosso convidado é João Gonçalves, professor da Faculdade de Farmácia e também diretor do Instituto de Investigação do Medicamento. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que todas as semanas analisa a evolução da pandemia em Portugal e no resto do mundo. O diretor do Instituto de Investigação do Medicamento, João Gonçalves, vai juntar-se daqui a pouco à Sónia Dias e ao Pedro Pita Barros. Eis já a seguir as notas de esperança. É sempre assim que começamos, com otimismo, a segunda parte do Gabinete de Crise. Qual é a sua nota de esperança, Pedro?
A minha nota de esperança esta semana vem da queda que estamos a observar nos casos de Covid-19 nos lares, seja nos residentes, seja nos funcionários. Isto significa que também em Portugal começamos a ver os efeitos que têm sido encontrados noutros países, nomeadamente Inglaterra e Israel, que embora mostrando que estamos longe da imunidade do grupo global, pelo menos parte dos mais vulneráveis, e nós vimos durante a pandemia que a vulnerabilidade das pessoas nos lares era grande Estão a ser conseguidos melhor protegidos agora, estão a ficar com maior proteção. E já tínhamos visto esses efeitos, de alguma forma, no estudo dos profissionais do Hospital de São João, se não estou enganado, mas agora começamos a ter os primeiros sinais de proteção dos idosos. E portanto, começam a dar a esperança de que estamos mesmo, se não estiver tudo ultrapassado até o verão, pelo menos os casos mais severos e a mortalidade estarão a ser contidos pela presença da vacina.
Pedro, agora perdemos o contacto, a ligação com o Pedro Pita Barros, que nos estava a dar a nota de esperança e os efeitos práticos que a vacinação nos lares já estão a ter na proteção dos utentes e também dos funcionários. Não sei se, Pedro Pita Barros, conseguimos restabelecer contacto. Penso que ainda não. Sónia, vamos assim, vamos à sua nota de esperança. O que é que trouxe enquanto tentamos recuperar aqui a ligação com o Pedro. Sónia.
A minha nota de esperança vai, como penso que não poderia deixar de ser, para o facto da EMA ter feito sair ontem o parecer de que a vacina da AstraZeneca é segura, eficaz e que não há evidência da associação ao aumento de risco de eventos tromboembólicos, que são os tais responsáveis pelos coágulos sanguíneos. E que vão continuar, naturalmente, a monitorizar os estudos relacionados com a vacina e com as suas reações adversas. A boa nota de esperança vai para a rapidez na resposta deste comitê, que pode também ser uma boa notícia para potenciais percalços no futuro, mas fundamentalmente também para a ideia de que assim vamos poder retomar a vacinação, no sentido em que também esta paragem não tenha um efeito importante no programa de vacinação e que a meta de vacinar 70% da população adulta até ao final do verão possa de facto ser uma realidade, e é nota de esperança para que, de facto, no verão já estejamos todos em maior segurança.
Vamos chamar também já o nosso convidado. A Sónia falou aqui do parecer da Agência Europeia do Medicamento, que acabou, de alguma forma, por trazer alguma tranquilidade em relação à segurança da vacina da AstraZeneca. João Gonçalves é professor da Faculdade de Farmácia, é diretor do Instituto de Investigação do Medicamento e é também o nosso convidado desta semana. João Gonçalves, bom dia, bem-vindo.
Olá, estão a me ouvir?
Estamos perfeitamente, sim. O problema está com o Pedro Pita Barros, que vamos recuperar, certamente. Mas para já, João Gonçalves, ajude-nos a perceber o que é que se passou esta semana. A Sónia Dias já enquadrou e trouxe um olhar positivo sobre a forma como as instituições funcionaram. Mas a questão é: é normal que um medicamento novo, que entre no mercado, suscite este tipo de cautela, como verificámos, ou houve aqui algum efeito dominó um pouco mais irracional, digamos assim?
Eu penso que foi uma conjugação dos dois fatores. Nós sabemos, e temos essa experiência ao longo de dezenas de anos, de que os medicamentos mais novos, quando entram no mercado, têm sempre uma etapa, um tempo, de desenvolvimento clínico, que é aqueles ensaios clínicos, mas depois há toda esta parte da segurança do medicamento que, ao longo de meses e anos, vai sendo avaliada. Portanto, isso é uma coisa normal, que não é só para as vacinas, mas para outros medicamentos. Depois, houve esta questão desta histeria de grupo. Não é imunidade de grupo, mas é uma histeria de grupo, em que fundamentalmente as atenções estão sempre um bocadinho exacerbadas com a AstraZeneca. Isso é outra questão que, se calhar, temos que avaliar por quê. Mas parece que houve aqui uma pressão muito grande para que a EMA, ou os comitês, o Comitê de Farmacovigilância da EMA, pudesse rapidamente avaliar todos os dados que tinham à sua disposição. E fundamentalmente, foi isso que ocorreu em poucos dias. Uma resposta rápida, e isso acho que é excelente. Eu acho que devemos deixar esta nota de esperança, que as instituições europeias, em termos de segurança de medicamentos, juntamente com a FDA, são das instituições mais fidedignas, mais científicas, mais técnicas em avaliação de problemas de segurança dos medicamentos. E, portanto, se nós não identificamos com esta pequena quantidade de incidência de eventos tromboembólicos, estes pequenos eventos, que realmente, até se compararmos com a vacina da Pfizer, são relativamente semelhantes. Se calhar, houve aqui talvez uma exacerbação demasiadamente extemporânea para a AstraZeneca, mas realmente o que aconteceu pela EMA foi uma rapidez com que se deu esses resultados. Isso vai continuar a ocorrer, claramente.
Quando diz que vai continuar a ocorrer, é porque vão ser suscitadas outras dúvidas e a EMA vai ter que continuar a ter que responder desta forma?
Sim, e há outra questão importantíssima: daqui para frente, vamos todos olhar para todas as vacinas e todos os pequenos detalhes e pequenas incidências de novos efeitos secundários. Não esqueçamos que temos a vacina, que é outra vacina de adenovírus, que vai entrar em utilização daqui, talvez já em abril, a da Johnson & Johnson, também é uma vacina adenoviral. Temos a vacina russa, que também é adenovírus E isso vai nos levar a que as pessoas fiquem com alguma desconfiança, é normal, mas claramente a EMA vai ter uma pressão muito grande para continuar a avaliar estes eventos secundários. Mas isto até é bom que aconteça.
Quando fala de uma pressão muito grande dirigida à Agência Europeia do Medicamento, é uma pressão dos governos, até da opinião pública, de quererem ter todas as garantias de segurança, porque é urgente, para o regresso à nossa vida mais ou menos normal, haver a imunidade do grupo trazida pela vacinação?
Sim, claramente, isto é uma pressão exercida pelos governos. Eu acho que há aqui uma pressão política sobre a ação da EMA. Não esqueçamos que a EMA, no fundo, dá o parecer técnico, mas depois quem aprova a introdução no mercado é a Comissão Europeia. E, portanto, há aqui uma pressão que garanta esta segurança, mas é preciso ter outra coisa em consideração: é que neste momento nós temos vacinados no mundo centenas de milhões de pessoas, que é algo que em pouco tempo nós também nunca tivemos anteriormente. E é normal que estes eventos secundários que aparecem, agora comecem a aparecer mais naqueles problemas que são normais ocorrer na população. Portanto, isto vai continuar a aparecer, vamos continuar a ver aparecer estes números de eventos secundários. Agora, como dizia o Pita Barros, é necessário ter uma avaliação técnica, científica e estatística sobre o que está a acontecer, para que depois não criemos esta histeria de grupo que, na minha opinião, foi demasiadamente exacerbada por parte dos governos.
E isso leva-me a uma questão, João Gonçalves, que tem a ver precisamente com o rácio entre o número de casos e o número de doses administradas. Esse rácio recomenda, do ponto de vista meramente técnico, sem a tal pressão dos governos de que estava a falar, recomenda a suspensão de um medicamento?
Eu sinceramente acho que não. Estes eventos tromboembólicos... há aqui duas questões que se calhar as pessoas também têm que ver. Uma coisa é os números e outra coisa é o tempo quando estes eventos apareceram. Ou seja, rapidamente houve aqui uma detecção que houve muitos eventos tromboembólicos que começaram a aparecer. Ou seja, pessoas que começaram a ter hemorragias cerebrais, algumas tromboses, isto apareceu muito rapidamente. E foi exatamente este número de eventos secundários a aparecer, que levou a que os governos tivessem estas decisões. Agora, isto deveria ter sido feito ao contrário. Há uma metodologia que é rapidamente nós percebermos qual é a totalidade dos eventos, que são estas tromboses, que na Europa são cerca de 300 mil eventos por ano. E se nós pensarmos neste número total, nós estamos a pensar aqui no número que nós temos de 30 ou 40 em cinco milhões de pessoas vacinadas. E, portanto, este número é relativamente pequeno e certamente que, na minha opinião, não havia aqui uma razão para suspender a vacina. Havia certamente uma necessidade muito grande de a EMA rapidamente fazer essa avaliação, mas suspender a vacina, para mim, foi uma ação muito drástica. E por quê? Porque nós sabemos que em outras vacinas, e há um caso muito interessante no Japão, que é um caso em que se suspendeu a vacina, por exemplo, a vacina do HPV. E o HPV, no fundo, o cancro cervical, é terrível. E quando eles suspenderam, por uma questão apenas de qualidade de alguns lotes, as pessoas deixaram de ter confiança na vacina. Houve um aumento de mortes relativos a este tipo de cancro, e isso foi muito pior do que os casos possíveis de efeitos adversos que tivessem ocorrido. E, portanto, eu acho que isso aqui é um problema, na minha opinião, foi o maior problema nestes últimos dias.
Portanto, e no caso português, estes três dias podem ter um efeito maior. Estamos, João Gonçalves, parece-lhe, perante agora uma crise de confiança desta vacina ou das vacinas em geral?
Pois, é que o meu problema agora não é já a vacina da AstraZeneca, é o problema de todas as vacinas. E as pessoas talvez não vão deixar de se vacinar com a da AstraZeneca, mas se calhar vão ter algumas reticências em não ser vacinados já, não serem vacinadas já. E eu gostaria de ver agora, se calhar no próximo mês, qual é a avaliação que nós fazemos da confiança das pessoas, quando ela já neste momento já estava muito alta. Penso que há um estudo que mostra já 80 ou 90% de confiança dos portugueses na vacina e se calhar ela vai diminuir. E isso é que agora aproximando-nos do verão, que era uma altura crucial para a vacinação, para que nós nos protegêssemos depois na entrada do outono, isso faz-me ficar preocupado que potencialmente possamos ter aqui outro problema.
Pedro Pita Barros, agora já com ligação restabelecida, até que ponto é que casos como este, da AstraZeneca, podem abalar o processo de vacinação mais globalmente?
Bom, eles podem levantar as questões da desconfiança e sobretudo dar Munição para as campanhas antivacinas que existem, que têm existido nos últimos 30 anos por todo o mundo, dar-lhes munição para começarem a dizer: "Estão a ver que afinal não é assim tão bom." E aqui só se consegue evitar mantendo uma informação constante, mantendo clareza na comunicação, mantendo rapidez na decisão e mantendo a calma. E dentro deste processo todo, a EMA teve rapidez a dar a informação que era possível. Os governos dos países é que tiveram um pouco de pânico a mais na reação ou algum efeito estratégico que tivessem transmitido sobre a vacinação da AstraZeneca, mas claramente não estiveram tão bem como deveriam estar. Podiam ter tido a calma suficiente para dizer: "Ok, mesmo que seja uma questão de precaução." Até podiam parar, mas usar um discurso diferente de dizer que como procedimento, sempre que existe um alerta, nós vamos fazer isto. Não é por desconfiança, é por processo. E a maneira como funcionaram em domínio uns países atrás dos outros, mostraram também a importância de ter uma coordenação europeia para poder ser criada uma decisão comum de todos os países, de enquadrar esta decisão num processo que está pensado, que está testado. Não se vai pensar que foi a EMA que começou a avaliar agora apenas isto. A EMA tem vindo a acompanhar desde sempre estas vacinas e estas também agora. E portanto, nós temos um processo científico de validação destas situações e eventualmente uma paragem que faz parte desse processo científico. Temos de lembrar o que se falou quando há muitos meses atrás, houve uns ensaios clínicos que também foi parado durante uns dias, por causa de um óbito que surgiu, que foi preciso perceber o que estava a acontecer. Felizmente, não teve nenhum problema, tinham sido situações fortuitas, mas fazia parte do processo. O transmitir que nós estamos, às vezes até estas decisões como partes de um processo, eu acho que pertence ao tipo de comunicação de dar credibilidade e dar garantias de que está tudo a correr bem.
Isto leva-nos, Sónia, até para a pergunta que lhe tinha prometido na primeira parte do programa: como é que se recupera a confiança? A Sónia dizia que não basta dizer que esta vacina em concreto é segura, é preciso um pouco mais. Que caminhos é que podem surgir nesse sentido?
Sim, do lado eventualmente até das autoridades, etc, é preciso, de facto, perceber como é que se consegue traduzir a evidência e os resultados da investigação científica em mensagens que sejam verdadeiramente compreensíveis. Por um lado, a posição científica é muito clara, parece-me a mim, e parece haver um consenso de que houve, eventualmente, uma posição exacerbada ou uma precaução exagerada, mas eu não tenho a certeza de como é que isto é depois traduzido nas questões da confiança, do receio da população. E portanto, é preciso ter um pouco mais de cautela relativamente a estas mensagens, até porque estamos quase todos a acreditar que novos percalços vão existir. E portanto, é já no fundo, uma preparação para possíveis eventualidades futuras. Por outro lado, acho que é muito importante, aqui mais uma vez, nós na verdade conseguirmos compreender quais são os verdadeiros receios, ansiedades da população. E isso vai também permitir que a comunicação seja mais próxima daquilo que as pessoas precisam, de facto, de ouvir para que continuem a ganhar confiança. E aquilo que nós sabemos do ponto de vista quase da comunicação social e das autoridades, foi esta tranquilidade no momento de precaução e de confiança nas instituições europeias até, e nas nacionais, mas nas instituições ligadas ao medicamento, pelo lado da população, uma incerteza muito grande do que é que deveriam fazer relativamente a isso. Portanto, diminuir aqui, no fundo, diria eu, este espaço entre as duas partes da equação é muito importante, até porque claramente depende disso a criação de maior confiança, a adesão da população e claramente também ao sucesso do programa. Para terminar rapidamente, eu acho que nós temos feito em Portugal um caminho extraordinário relativamente ao desenvolvimento da literacia em saúde. O Pedro já falou e eu vou falar numa outra perspectiva, o tal R, que é um conceito muito difícil, entrou no vocabulário e isto é um exemplo muito concreto de que, de facto, é também uma oportunidade de envolvermos mais as pessoas nas decisões da sua saúde e na procura e na motivação para saber mais e estar mais informado. Portanto, eu diria que também é uma oportunidade nesse sentido.
Sónia, essa deixa até ótima para uma questão que está a ser lançada agora, João Gonçalves, e gostava de ouvir sobre este direito ou não de um utente poder escolher a vacina que vai receber. Isto faz-lhe sentido, João Gonçalves?
A mim não me faz sentido o doente escolher a vacina. Eu acho que isso, neste momento, se isso acontecesse, seria dramático até em termos logísticos, porque daqui a nada tínhamos que ter todas as vacinas preparadas e a pessoa escolhia a que estivesse lá disponível. Eu acho que esta questão tem que começar pela parte científica. Isto vem de tudo o que nós falámos anteriormente. Isto não quer dizer que há uma ditadura científica, e já tenho ouvido falar disso, que os cientistas querem ser ditadores e que o que eles dizem é que está certo. Não. Tem que haver uma avaliação científica de todas as vacinas e todas são boas para a população. E, portanto, escolher uma vacina, acho que seria claramente escolher baseada em mitos e factos e não em dados científicos.
Eu acho que isso não pode ocorrer por múltiplas razões. Daqui a nada tínhamos aqui quase que ir ao café e pedir a sua vacina baseada numa maior campanha de marketing ou pressão política que se faça sobre uma outra empresa. E acho que isso é muito mau.
E, portanto, a questão da literacia em saúde também pode aprofundar-se mais em relação a um medicamento. Sim, para concluir.
Eu acho que aqui há outra questão importantíssima: as pessoas têm que ter a noção que todas estas vacinas que estão aprovadas, para além de terem segurança, têm uma eficácia tremenda. E, portanto, o que é mais importante nesta questão da vacina, mais que a segurança, que é talvez a coisa mais importante que a indústria quer, mas a eficácia neste momento não pode ser colocada em segundo lugar. E não pode ser colocada em segundo lugar porque nós, neste momento, estamos ainda muito longe dessa potencial imunidade de grupo, mas também não sabemos quanto tempo é que a imunidade vai durar. E, por outro lado, também não sabemos se essa imunidade nos vai permitir antecipar e prevenir o aparecimento de variantes do vírus. E, portanto, é muito importante que as pessoas mantenham esta disciplina de vacinação, exatamente porque temos que chegar ao inverno. E aqui a minha preocupação é sempre o chegar ao inverno. Eu sei que estamos muito longe ainda, ainda temos que passar o verão, mas a mim custa-me muito pensar que nos vamos atrasar por alguma hesitação, porque podemos ter um grande problema no início do inverno se não tivermos esta consciencialização que temos mesmo que nos vacinar com qualquer uma vacina.
João Gonçalves, essa nota fica aqui sublinhada. Muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise. Foi importante lançar essa discussão consigo. Sónia Dias e Pedro Pita Barros, obrigada também. Para a semana, o Gabinete de Crise faz um ano, é muito importante e vamos cá estar os três. Numa altura em que a segurança das vacinas está a ser questionada, despedimo-nos com o momento em que o violoncelista Yo-Yo Ma improvisa um concerto num centro de vacinação no Massachusetts, nos Estados Unidos. As imagens têm corrido mundo nestes últimos dias. Enquanto está em observação, depois de vacinado, Yo-Yo Ma resolve oferecer um pouco de esperança e de agradecimento através da música. Houve aplausos. Sorte de quem presenciou este momento ao vivo. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, a sonoplastia é do Diogo Casinha. Boa tarde e até para a semana.