Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindo. O Gabinete de Crise faz um ano. O programa começou três semanas depois da chegada a Portugal dos primeiros casos de Covid-19 e nunca mais parou. Por isso, hoje temos um formato ligeiramente diferente, com dois convidados. Ana Jorge foi ministra da Saúde durante a crise da gripe A e o cirurgião José Fragata, que é também vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, que faz esta parceria com o Observador no Gabinete de Crise. Já vamos fazer o balanço deste ano e olhar para o próximo, mas como sempre, vamos arrancar com o número da semana. Sónia Dias e Pedro Pita Barros, um ano já passou depressa, ou não. Boa tarde, bem-vindos. Vamos aos números. O que escolheu, Sónia?
Boa tarde e é um prazer, de facto, estar aqui hoje depois de um ano de programa. O meu número é o 11, que é, no fundo, o número de dias que vamos estar impedidos de circular entre concelhos, o que significa mais um período de restrições. E embora estas medidas sejam, de facto, necessárias à contenção da propagação do vírus e à manutenção da favorável situação que temos neste momento em termos epidemiológicos, e até para garantirmos a continuação do nosso plano de desconfinamento e um verão com alguma normalidade, não deixa de ser mais um esforço significativo que os portugueses têm que encetar. E sabemos também que este esforço é de alguma forma desigual pelos portugueses. Por isso, hoje gostaria até de trazer, mais do que só um número, uma palavra, a da empatia. Empatia pelo esforço, pela resistência ao desalento, à frustração e à capacidade de nos mobilizarmos para o cumprimento das restrições da Páscoa, que é, de facto, um período muito importante, quer para crentes, quer também para todos, como momento de tradição, de reunião familiar e de momento de descanso. E portanto, temos este lado de exigência emocional e social, mas também o impacto do ponto de vista económico, porque todos estes fluxos de viagens e celebrações tinham, de facto, um impacto grande nas economias locais e, portanto, mais uma vez, aqui também a economia a sofrer um duro golpe ao perdermos esta questão das férias, embora estamos todos convictos de que será para um bem maior.
E por isso, desta vez, um número e também a palavra empatia. Pedro, qual é o seu número?
O meu número é um número redondo e grande, um milhão. E é um milhão, porque vamos passar esta semana o milhão do número de pessoas que já receberam pelo menos uma dose de uma das vacinas contra a Covid-19. É um número já grande, mas mesmo assim ainda não é aquele que nós vamos precisar ter. Resulta este número de se ter acelerado a toma da primeira dose com o adiamento da segunda, o que é visível no abrandamento do crescimento das segundas doses nos últimos dias, quando olhamos para os números que vão ser disponibilizados, mas mesmo assim vai ser preciso acelerar mais. Vamos precisar de usar todos os instrumentos disponíveis para conseguirmos chegar ao verão com muito mais gente vacinada. Isto é, não pode ser confortável ter apenas dois milhões de pessoas vacinadas com pelo menos uma dose daqui a três meses, se passássemos a experiência dos últimos três para os próximos três. Também será muito importante saber neste momento quantas pessoas têm imunidade, seja por vacina, seja por terem tido contato com a doença, na população que reside em Portugal. Até porque assim vamos conseguir perceber melhor o que vai ser o esforço de testagem que vai ser agora iniciado. E, portanto, este milhão simboliza o caminho que já fizemos, mas também a ambição de que temos que ir muito mais depressa a partir de agora.
Aqui fica também um número com uma ambição. E já vamos com 52 programas, 52 temas em análise e outros tantos convidados. Ana Jorge e José Fragata, muito obrigada por se juntarem à lista dos nossos convidados e ao Gabinete de Crise. Sejam muito bem-vindos.
Bom dia.
Bom dia.
Ana Jorge, muito obrigada pelo convite.
Muito obrigada nós por terem aceitado. Ana Jorge, deixe-me começar por si, aliás, porque é a única que ainda não tinha passado por aqui. Este último ano, já percebemos todos, foi muito desafiante e agora estando nesta posição mais confortável de olhar para trás, o que, na sua opinião, podia ter sido feito de diferente e o que aprendemos nestes últimos 12 meses?
Ora, falar do que poderia ter sido feito diferente nesta fase, como disse, é sempre mais fácil de fazer depois do plano passado. Eu acho que não haveria muitas coisas diferentes a fazer, a não ser algo que, do ponto de vista geral, sou muito sensível. Uma forma como foi comunicado e o papel que a comunicação social teve na informação, que é importante à população, mas eu diria que houve, a meu ver, muitas vezes informação a mais, isto é, não é que não seja necessária uma informação transparente, real e cuidadosa, mas é a quantidade de informação e às vezes alguns detalhes que são muito complexos para o entendimento da população em geral. E, portanto, eu teria algum cuidado da forma como as situações são transmitidas, não aliviando, obviamente, a preocupação, mas também não criando situações de medo e de pânico que não são muito favoráveis ao processo. E, portanto, esta é a área que eu, neste ponto de vista, acho que poderia ter sido feita de forma diferente. E a outra, obviamente, que tem a ver com o fato de que nós, logo no início, se percebeu, embora se soubesse muito pouco como é que esta doença se comportava, havia muito pouca informação do ponto de vista clínico, do ponto de vista científico, do ponto de vista como se trata. Houve tentativas De tratar os doentes mais graves de uma forma, que depois percebeu na fase a seguir que se fazia de forma diferente. Isso obviamente é sempre assim.
Foi uma aprendizagem.
E tem que haver sempre, só que o tempo era curto. Mas houve algo que eu acho que devia ter sido feito diferente e que tem a ver com a população que foi mais fustigada do ponto de vista da doença e das situações fatais, foram os mais velhos e as pessoas que estavam em situações de residência em lares. E que nós, enquanto profissionais de saúde e quem sabe como estas pessoas estão muito fragilizadas, que as condições de saúde e de vida nestas instituições são, eu não queria chamar precárias, porque não é precária, mas não têm as condições de saúde e a organização dessas instituições e que a entrada do vírus teria, de facto, as consequências que teve. E isso podia ter sido feito de outra forma se as regras de funcionamento dos lares tivessem uma componente de saúde, que não têm, ou têm de uma forma muito incipiente. Há regras que não são cumpridas e o pessoal é pouco diferenciado, faz um esforço imenso, são altamente dedicados, mas do ponto de vista daquilo que é o controle de infecção, do controle da contaminação, das regras de afastamento e de higiene, que é necessário, muitas vezes são muito aligeiradas por falta de orientações, de conhecimentos, e que isso podia ter sido feito de outra forma pra nós não termos aquela taxa de mortalidade que atingimos em janeiro, que de facto os números eram muito, eu não queria dizer o termo, porque são angustiantes, mas de facto são uma preocupação pra um profissional de saúde. Não gostamos.
E a abordagem poderia ter sido outra?
Eu acho que a abordagem poderia ter sido outra. Tinha que haver equipes de saúde lá dentro e não como foi feito, de certo modo bem, mas tem que ser antes. A atitude nos lares teria que ser antes de lá ter chegado o vírus. Isto é, sabia-se que aquela população é sensível, logo, vamos tomar medidas de grande contenção e mudar comportamentos dentro. E comportamentos do ponto de vista de saúde, e isso não houve capacidade de fazer.
Não foi feito quando era possível.
Pelo menos, no meu entendimento.
Claro, e foi nesse sentido que lhe perguntámos e já vamos continuar a conversar e olhar para isso. José Fragata, antes de falar na qualidade de cirurgião e de conhecedor do sistema de saúde português, deixe-me perguntar ao vice-reitor da Universidade Nova, qual é a vantagem de estarmos há um ano aqui em conjunto na rádio a analisar as questões da pandemia? Ajudou de alguma forma, até nesta dificuldade de comunicação que foi identificada por parte das autoridades de saúde no início da pandemia?
Muito obrigado, Carla. Eu queria começar, naturalmente, por cumprimentá-la a si, cumprimentar a doutora Ana Jorge, que é uma pessoa com quem me relaciono desde há muito tempo, mas também o Pedro Pita Barros e a Sónia Dias, que são colegas da Nova. E felicitar, naturalmente, o programa, que eu acho que tem sido uma iniciativa notável. De facto, logo quando a pandemia começou, atordoados como estávamos, a universidade, e eu fui o responsável por essa área, achou que devia ter uma estratégia de comunicação. Um dos papéis da universidade é a divulgação do conhecimento. E a divulgação do conhecimento não é só fazer ciência pura e publicações sofisticadas, mas é também levar esse conhecimento às populações. E de facto, estávamos a lidar com uma realidade nova, da qual a ciência ia debitando, e nós achamos que seria importante que a universidade, neste caso a Nova, tomasse uma atitude proativa de comunicação. Foram feitas várias iniciativas, muitas delas passando pela Escola Nacional de Saúde Pública, com o observatório que teve, COVID-360, que foi uma iniciativa mais científica dentro da universidade, mas uma de divulgação pública foi de facto esta parceria com a Rádio Observador, que nós agradecemos e que foi muito gratificante. Nós começamos, como se lembra, por pedir ao professor Alexandre Brandão e ao Pedro Pita Barros, que eram dois pilares muito fortes da universidade, para assumir tal seriedade que pusemos nisto e depois, a seguir, a professora Sónia Dias continuou nessa senda de grande senioridade. Portanto, são pessoas ao nível de catedrático, são pessoas que nós tínhamos o melhor que podíamos oferecer pra isto. E o que se conseguiu foi um serviço público, que eu acho que é um serviço público, por espaço de reflexão técnica e de resiliência. Repare que nós vivemos um período durante a pandemia, a doutora Ana Jorge nisso tem razão, onde a comunicação provavelmente não foi a melhor. Nós tivemos excesso de comunicação, excesso de informação, quero eu dizer, e ouvimos muita gente falar daquilo que não sabia, e muito. E toda a gente tinha direito a uma opinião técnica. Mas essa informação, às vezes, é desinformação e nem sempre está alinhada. O próprio governo teve excesso de informação nalguns momentos e menos adequada. E eu acho que este espaço aqui na Rádio Observador foi um serviço regular, uma enorme resiliência que deve ser felicitada, mas
Eu acho que reduziu para a população a informação que era útil e que era necessário que tivesse.
E com essa ponderação, José Fragata, peço desculpa, vamos aproveitar os cinco minutos que nos restam da primeira parte para ouvir estes residentes do gabinete de crise. A Sónia, que foi chamando a atenção para muitos desafios a que teríamos dar resposta ao longo destas semanas todas. O que se aprende com isto tudo, Sónia?
Diria, de forma muito rápida, primeira coisa, que planeamento, rigor e preparação, mesmo face ao imprevisível, faz toda a diferença na forma como somos capazes de responder. E acho que talvez nesta fase estamos a usar o que aprendemos, a tentar superar alguns erros que cometemos e a ser capazes de simultaneamente aprender, monitorizar e fazer em simultâneo. Portanto, nesse sentido, acho que temos essa aprendizagem. Depois, o investimento nos serviços de saúde robustos. De facto, os nossos profissionais de saúde, altamente treinados e competentes, mostraram sentido de missão, empenho e dedicação que nos inspiram, orgulham e que também colocam a aposta no Serviço Nacional de Saúde e na formação de novas gerações, também deve ser, de facto, uma prioridade. E por último, a questão de que juntos somos mais fortes. E parece quase um clichê, mas tem muitos níveis, até na escala mundial de resposta, cada país não vai sozinho conseguir responder. E também, depois a agregação de múltiplos setores nas respostas do terreno, e também até na investigação, com a importância da multidisciplinaridade e as ciências biomédicas mais ligadas às ciências comportamentais, à história, à inovação, tecnologia. E vemos como todas estas agregações, na verdade, contribuem para respostas mais eficazes.
Pedro, tiramos lições do que correu menos bem, olhando até para a fase que estamos agora a apresentar, como a Sónia diz, em que temos que demonstrar se aprendemos ou não com erros, isso terá acontecido? Pedro.
Este ano.
Muito bem.
E o que aprendemos pode ser posto em duas ou três gavetas. E não aprendemos só o que correu mal, aprendemos também o que correu bem. Vimos por aí três ou quatro gavetas importantes. A primeira foi o papel da ciência, que retomou uma centralidade que não andava a ter e que nós vemos que os países que se orientaram mais pela ciência têm tido melhores resultados e que a ciência que conseguiu pôr-nos cá fora em tempo recorde uma vacina. Mas também tivemos que aprender a humildade de saber que não sabemos muita coisa ainda. E saber ir ajustando, seja em termos da sociedade, seja em termos de políticas públicas, seja em termos de organizações. Tivemos todos que ter uma humildade de perceber que tínhamos que reaprender muitas coisas. Poderemos falar depois de uma segunda parte, de um conjunto de lições que eu acho que nós podemos tirar deste período, a todos estes níveis, e que nos vem retrezer uma necessidade de no futuro pensarmos melhor sobre o que é que fizemos durante este período. E como eu disse, tendemos a focar sempre naquilo que correu mal, mas eu acho que também muita coisa correu bem, ainda assim, e portanto também podemos aprender com o que conseguimos fazer bem.
E esta é a altura de fazer essa avaliação ou só quando a pandemia estiver ultrapassada é que vale a pena olhar desta forma mais crítica para o passado?
Mas vale a pena sempre ter uma visão crítica sobre o passado e sobre o passado recente, até para irmos melhorando consecutivamente. Muitas vezes o discutir a quente os problemas, tem a questão das pessoas se sentirem, às vezes, pessoalmente atingidas, por estarem a dar o seu melhor e alguém vir criticar o que está a ser feito. Também é uma aprendizagem que nós temos que fazer. Como é que quem está de fora transmite as suas opiniões para quem tem que decidir e como é que quem tem que decidir consegue da melhor forma ir buscar as opiniões que vêm do exterior. Aliás, até uma reflexão interessante, se calhar, para a doutora Ana Jorge ter daqui a pouco, uma vez que já esteve nesses lugares de decisão, onde provavelmente teve a solidão e a companhia dos críticos e do processo.
E que enfrentou também a gripe A e muito pânico também nessa altura. É uma boa deixa para a segunda parte. Agora vamos fazer uma pausa para atualizar as notícias do dia. Já vamos voltar a conversar. Até já. Segunda parte do gabinete de crise. Há um ano que analisamos o estado da pandemia em Portugal, porque é dia de aniversário. Estamos com dois convidados que se juntam à Sónia Dias e ao Pedro Pita Barros, Ana Jorge, antiga ministra da Saúde, e José Fragata, médico-cirurgião e vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vindos de novo. Ana Jorge, a senhora passou por uma situação que podia ter sido quase equiparável à pandemia, quando se temeu que a gripe A pudesse também afetar muito o nosso modo de vida. Depois, o impacto não foi assim tão grande. Desde então, desvalorizamos o risco de uma situação pandémica mais grave ou o país de alguma forma conseguiu preparar-se para uma situação como aquela que começamos a viver no ano passado?
Sim. Eu acho que aconteceram as duas coisas. Por um lado, quando apareceu a gripe A e se temia e foi decretado pela OMS que era uma pandemia, houve uma preocupação, porque se atingisse níveis grandes da população
Ia causar muita perturbação do próprio funcionamento da sociedade e portanto houve uma tentativa de organização dos planos de contingência com visão a isso, mas de certo modo, havia setores que não acreditavam muito que a pandemia fosse grave, porque tinha havido um historial uns anos antes de duas epidemias de gripe, a gripe das aves e a outra que foi do síndrome respiratório agudo, que também veio do oriente e que não chegou praticamente a Portugal e portanto houve poucos casos. E não acreditaram de todo que isto pudesse acontecer e portanto isso desvalorizou e tornou em alguns momentos dificuldades de intervenção. De qualquer forma, houve um trabalho feito e que eu acho que serviu também para alguma fase inicial, que foi a primeira vez que se fizeram planos de contingência gerais por setores. Houve muita informação e muita divulgação dos cuidados com a etiqueta respiratória. E eu acho que isso ficou, apesar de tudo, também na população. O que não quer dizer que agora não seja preciso todos os dias estar a repetir a necessidade nesta gripe.
Mas foi a primeira vez que nos habituamos a usar o gel desinfetante. Foi nessa fase em 2009, estamos a falar desse ano.
Exatamente. O gel desinfetante, o cuidado da forma quando se tossia ou havia espirros, de não o fazer livremente, de pôr o braço e não a mão, de usar um lenço de papel e deitar fora. Isto passou muito para a população e fundamentalmente para as crianças, que é algo muito importante. Mas era preciso voltar a reforçar. E a gravidade, apesar de tudo, deste vírus, do H1N1, que é o da gripe A, e o deste não são semelhantes. E havia mais conhecimento, porque o H1N1 era um vírus que faz parte do vírus da gripe anual e que já tinha havido circulação e portanto sabia-se mais do comportamento do vírus do que deste, que era completamente desconhecido. Portanto, isto criou, de facto, duas grandes diferenças e este veio a demonstrar que é muito fácil a sua disseminação e que causa situações graves nalguns setores da população, quer da idade, quer por razões clínicas, se têm algumas patologias de base. Por outro lado, a gripe A atingia mais os jovens e esta mais os idosos, porque os idosos têm, no seu historial, alguma sensibilidade já ao H1N1, isto é, têm algumas defesas. Embora houvesse situações de grande gravidade. E foi a primeira vez que se usou o tal ventilador, que nesta pandemia foi muito falado, o ECMO, que não havia em Portugal. Penso eu havia um ou dois, e um deles penso que era no serviço do professor Fragata e aproveito para o cumprimentar, bem como aos outros parceiros aqui do gabinete de crise. E que depois houve também aquisição nalguns hospitais. E houve alguma necessidade de usar o ECMO e houve inclusive um ou dois doentes que foram transferidos, eu penso que para o norte de Espanha ou mesmo para a Inglaterra, porque não havia disponibilidade nem experiência nessa altura em Portugal e hoje existe. Houve toda uma evolução dos serviços de saúde, que foi feita ao longo dos anos, porque este equipamento tem outras indicações que não só estas questões das lesões provocadas pelo vírus da gripe ou pelo COVID-19. E, portanto, há uma semelhança.
Mas também muitas diferenças. Mas é curioso este paralelismo, a sensação de que poderia vir um vírus desconhecido perturbar a forma como todos nós vivemos e quase um aviso de que alguma coisa como estas poderia ter acontecido. José Fragata, é de facto interessante recordarmos esse ano de 2009, olhando agora para o momento que estamos a atravessar. Num momento e no outro, estamos a aprender com os erros? Ana Jorge diz que houve evolução nos serviços de saúde e outra capacidade de resposta. É suficiente para conseguirmos continuar a dar resposta a situações novas?
Em 2009, nós tínhamos de facto dois ou três dispositivos de ECMO no hospital e de certa maneira fomos pioneiros nessa técnica no país, mas não aplicada à doença respiratória, mas aplicada digamos à doença cardíaca, como ponto para transplante. Eu na altura chamei até o Dr. Francisco Jorge, eu chamava-lhe Zé Chico, porque o vi há muitos anos. O Francisco Jorge e a presidente do conselho de administração do hospital para lhe dizer que se preparassem, porque provavelmente aquilo ia ser preciso. E depois o serviço do Porto, o Hospital São João, meteu-se no avião e foi à Alemanha e trouxe a tecnologia, que fez o centro de ECMO respiratório, que hoje é muito relevante. Mas de facto, eu acho que estas pandemias têm sido todas uma enorme oportunidade de aprendizagem. O Churchill costumava dizer, ou disse: "Let us not let the crisis go to waste," que é como quem diz: "Não deixemos que a crise seja desperdiçada." E de facto, estas crises são sempre oportunidades de aprendizagem. Por exemplo, vieram nos mostrar que a saúde pública é relevante estava um pouco adormecida. Mostraram que a ciência importa para criar soluções práticas e, de fato, é absolutamente pouco usual, excepcional, que uma vacina se produza num espaço tão curto. Puseram ênfase na medicina intensiva, que não vai ficar igual no país, nem a capacidade, que era muito reduzida. E agora qualquer hospital distrital tem uma excelente área de intensiva. Depois chamaram ainda a atenção para o papel de cada um na proteção da sua saúde, na necessidade de literacia, do autocuidado, cuidados de proximidade, nesta ponte que é necessária entre a medicina e o setor social da saúde, o apoio social. E depois chamaram, finalmente, e eu penso que a senhora ministra recentemente apercebeu-se disso, na mente grande necessidade, na noção de um sistema integrado de saúde, que englobe todos os players, o público, privado, social e até parcerias com a indústria e com a universidade para respostas rápidas. Portanto, eu acho que nós, se formos inteligentes, tiraremos muitas lições da Covid para a própria reforma ou evolução do sistema de saúde, que eu penso que neste momento é necessária por questões que poderei aduzir mais tarde, mas também não queria monopolizar o tempo.
Não, ainda bem que conseguimos partilhar experiências, foi interessante esta viagem a 2009. Mas agora, Sónia Dias, o desafio é 2021 ou 2022. Como é que vamos viver este segundo ano de pandemia? O que é que consegue antever?
Sim, essa é uma pergunta muito relevante. Como é que vamos processar todas as memórias do que aconteceu? E aqui, até de uma forma muito macro, como é que vão ficar os processos das decisões políticas, do funcionamento do mundo do trabalho, da área da educação, da investigação, as prioridades, por exemplo, que temos ouvido falar das alterações climáticas, da inovação, mas também depois a um ponto de vista mais individual e coletivo em termos de sociedade. Como é que vamos gerir o que é que cada um perdeu da sua vida, avós, pais, jovens na sua juventude, crianças no seu desenvolvimento. Enfim, como é que esta pandemia ou este evento, que foi severo a nível global, e que, na verdade, não escapou, nem escapa em nenhum dos aspectos. E eu diria aqui dois ou três pontos, até para complementar também o que já foi referido. Por um lado, acho que conhecemos hoje, de forma muito forte, a nossa vulnerabilidade. E isso acho que é um ensinamento. E isso também nos está a mudar. A ideia de que éramos donos do mundo ou que tudo o que tínhamos alcançado eram dados adquiridos, acabou por cair por terra. E, portanto, somos e estamos a ser diariamente confrontados com esta vulnerabilidade. Depois, por outro lado, também este fenômeno que é intergeracional e que nos obriga também a pensar não só em nível individual, mas num todo coletivamente. E, portanto, há múltiplos impactos a longo prazo, até no ponto de vista mais da saúde e do setor saúde, que o professor Fragatas também tão bem agora já resumiu, mas há aqui muitos impactos a longo prazo que são muito pouco conhecidos. É muito interessante ver que a literatura científica começa agora em muitas áreas do conhecimento na área da biomedicina, virologia, imunologia, serviços de saúde, até economia social, psicológica. Começam a haver muitos artigos já focados nesta questão do que é que vai ser o mundo pós-pandemia, ou pelo menos no mundo em que a pandemia não assume uma preponderância tão grande, porque sabemos que provavelmente ela ainda está para ficar, mas de fato, o que é a vida real e essa, de fato, como a conhecíamos, foi interrompida e provavelmente não voltará a ser a mesma. E, portanto, como é que vamos estar. Todos somos unânimes e grande parte dos artigos ou mais catastróficos ou mais otimistas, são unânimes em apontar que temos aqui, de fato, enormes desafios societários. Eu também sou daqueles que tem muita esperança na humanidade, na nossa capacidade de superação, de inovação e, portanto, estou também a acreditar que vamos encontrar respostas para, por um lado, quem mais precisa, mas, por outro lado, também aproveitar as oportunidades que esta crise nos traz.
Pedro, sem bolas de cristal, não é isso que tentamos fazer aqui, como é que lhe parece que vai ser este ano ou os próximos anos a viver com a pandemia?
Ter agora seis meses que vão ser cruciais para perceber se conseguimos finalmente controlar a pandemia com a vacina, com alterações que sejam necessárias. E depois vamos ter que reconstruir muitos aspectos da nossa vida comum. Aspectos de vida pessoal, que percebemos que, como estava ainda agora a ser dito, percebemos vulnerabilidades, percebemos necessidades. Vamos ter que construir em termos de vida coletiva, que mecanismos vamos querer ter, seja na saúde, seja fora da saúde, para lidar com estas situações. Vamos ter, em termos de vida internacional, digamos assim, como é que nos inserimos num espaço europeu e mundial de funcionamento que liga a saúde com a economia e, no fundo, perceber que caminhos é que vamos seguir para frente. Uma das grandes lições que nós tiramos deste último ano e que vai ser muito útil para o próximo ano, é que vamos ter que aprender a estar preparados para o inesperado. Que é muito diferente de ter grandes planos ou ter grandes choques, é porque nós não sabemos de onde é que poderá vir o próximo choque e, portanto, vamos ter que construir aquilo que agora é palavra da moda, resiliência, mas que é a ideia de que se houver um choque, nós temos que aprender rapidamente com esse choque e rapidamente nos colocarmos a reagir e alterar o que for necessário alterar, seja na área da saúde, seja fora da área da saúde. O próximo ano também vai ter um desafio muito importante, com e sem pandemia, independente da situação que é, como é que vamos lidar com o triplo golpe Que foi dado na saúde mental. Tivemos a ansiedade com a doença, por um lado, tivemos as ansiedades com as implicações econômicas e com toda a parte de desemprego e dificuldades que existem em alguns setores. E estamos a ter o custo mental das medidas de confinamento de combate à pandemia. Nós provavelmente só vamos descobrir as consequências destes impactos ao longo do tempo e vai demorar algum tempo mais ainda pra conseguirmos resolver isso. Tivemos também um efeito muito importante, num aspecto mais macro, de solidariedade europeia. É pequeno, é certo. É certo que também começou com as vacinas, começou com algumas medidas ou com alguns apoios entre países na área da saúde, como tivemos agora o exemplo dos médicos alemães que estão a deixar hoje por Portugal, aos quais deixo também aqui um agradecimento pelo sinal de solidariedade que transmitiram. Mas construiu-se uma identidade europeia também, que passa a ter na área da saúde. E apesar dos erros que vamos tendo a nível da gestão europeia destes processos, é importante que se mantenha uma lógica de estarmos todos juntos nisto e vai criar dificuldades várias ao longo do processo, mas vai ter muitos benefícios no final. Do ponto de vista positivo, há também uma grande lição que nós tivemos, que nos vai ser muito útil também no tempo que se vai aproximar e que nunca nos devemos esquecer dela, que é a importância de termos um bom sistema de cuidados de saúde primários, que tem sido muito invisível ao longo de toda esta pandemia. Já falamos aqui disso em outros programas, mas que sem ela nós não teríamos tido a resposta que tivemos e sem essa rede de cuidados de saúde primários, teríamos certamente muito mais dificuldades. E ela vai ser muito importante para lidar com todas as consequências da pandemia e com o lidar do pós-pandemia.
E com o tal inesperado que o Pedro falava, Ana Jorge, vamos ter que estar preparados para uma nova pandemia, seja ela qual for e venha quando vier?
As pandemias são o risco da sociedade global e como aconteceu, nós tivemos uma equivalente a esta há 100 anos, no princípio do século XX. E que foi gravíssima. Não tínhamos aquilo que tivemos hoje, capacidade de resposta hospitalar, não havia meios de comunicação, enfim, tudo isso. E, portanto, isso pode acontecer sempre. É preciso estar preparado? É, mas estamos hoje muito mais bem preparados do que estávamos aqui há um tempo atrás. E estou perfeitamente de acordo com o que o Pedro acabou de dizer, nalgumas áreas. Gostaria de reforçar aqui duas, que já foram apontadas e falar numa terceira. E no fundo, são a importância da saúde pública, que era muito parente pobre, era muito difícil reforçar, eu lembro que em determinadas alturas, reforçar a necessidade de ter pessoas na área da saúde pública, médicos especialistas, técnicos e enfermeiros, porque não era sentido como uma necessidade e hoje foram fundamentais. Reforçar a importância da saúde mental, que já está a ser importante e é um desafio grande e penso que o Programa Nacional de Saúde Mental aponta muito para isso, não só já hoje está a ser necessário dar respostas, como o pós-pandemia, que nos próximos tempos que vem aí, com toda a complicação. E nesta área da saúde mental, não esquecer um setor que não foi muito falado nunca, que é a infância. E não é só o problema da escola e do confinamento, é que no fundo, as crianças vivem em famílias, famílias que estão em sofrimento e elas próprias também estão. E, portanto, a repercussão na infância, no seu desenvolvimento, das crianças, o não terem tido oportunidades, que muitas vezes, passando aquele momento de atendimento, perdem oportunidades no seu desenvolvimento e que a própria saúde mental destas crianças tem que ser pensada e pensada em respostas que não são só com o serviço de saúde, são toda uma comunidade virada, porque a saúde mental faz-se com a comunidade, com outras respostas globais e envolvendo toda a sociedade. E por último, isso tem a ver com o reforço do Serviço Nacional de Saúde, que eu acho que depois desta pandemia, se percebe que fica reforçado e fica reforçado em dois aspectos e fundamentalmente um, que é aquilo que depois toma a decisão. É a importância de Portugal ter um Serviço Nacional de Saúde como o nosso, que respondeu, com algumas dificuldades, obviamente, mas todas as situações em pandemia isso iria acontecer, porque nunca ninguém está preparado para uma pandemia, não pode obviamente estar, senão tem serviços a mais, mas que foi capaz de se adaptar. E o reforço da importância de um serviço nacional público, que tem que fazer parcerias, tem que contar com o outro setor, com o setor social e o setor privado, mas se não for forte, se não ter capacidade de uma resposta e poder fazer a própria regulação do próprio sistema, e isso tem a ver com o fortalecimento do Serviço Nacional de Saúde, do reconhecimento da população em geral e da área política também, da importância deste serviço e que eu acho que saiu reforçado.
E mantém que saiu reforçado, Ana Jorge. Peço desculpa e vou pedir desculpa também ao José Fragata, porque temos um minuto e vamos já prometer um programa só para isto. Como é que o SNS sai desta crise? Também lhe parece que sai reforçado, como ouvimos a Ana Jorge dizer?
Eu, pessoalmente, não. Eu nesse aspecto não concordo inteiramente. Eu acho que nós aprendemos nesta crise, primeiro a vulnerabilidade, depois a força das colaborações com a saúde, com a indústria e a ciência, a necessidade de estarmos prontos para adaptações rápidas e resiliências longas. Mas o SNS respondeu, de facto, e não tiro nada à necessidade de o termos, mas acho que tem que ser reformado. Por quê? Nós temos, neste momento, uma crise COVID e pós-COVID, o rescaldo da doença, a doença inflamatória, a doença pulmonar e mental. Temos uma crise não COVID para a qual precisamos de uma task force para recuperar o trabalho atrasado, e é muito. Temos a crise social e económica, mas sobretudo, acho que temos uma oportunidade fantástica para reformar o sistema nacional de saúde, que se deve manter como sistema nacional de saúde e público, mas com colaborações à luz das lições do COVID.
José Fragata e Ana Jorge, muito obrigada por terem vindo ao Gabinete de Crise. Percebemos sempre que uma hora não chega para falar disto tudo. Espero vê-los em breve neste espaço. Sónia Dias e Pedro Pita Barros, muito obrigada pelo entusiasmo, pelo ânimo, mesmo nos piores momentos, e o envolvimento que têm tido neste projecto há um ano, sem paragens. Temos terminado cada programa com um som ou uma música que remetem para a pandemia e não tem faltado criatividade a artistas mais ou menos conhecidos. Chris Mann foi um concorrente do programa norte-americano de talentos "The Voice". Não resistiu a fazer, também ele, o apelo do momento: as vacinas. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, sempre com o apoio da Vanessa Cruz, a produção do Miguel Cordeiro e com a sonoplastia do Diogo Casinha. Boa tarde e até ao próximo Gabinete de Crise.