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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. Todas as semanas analisamos o estado da pandemia numa parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Na segunda parte do programa, assinalamos o regresso às aulas presenciais de todos os níveis de ensino. Esta semana voltaram os estudantes do secundário e do ensino superior. Vamos perceber como se aprende em confinamento, o que mudou e que impacto estas mudanças tiveram na qualidade do ensino. Vamos estar daqui a pouco com o diretor da Nova Medical School, Jaime da Cunha Branco. Mas agora o encontro é com a coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias, e também com o professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Pita Barros. Boa tarde aos dois. O nosso encontro começa sempre com o número da semana. Sónia, o que escolheu para hoje?

Ora viva, Carla. Boa tarde. Escolhi o número dois milhões, porque esta semana passámos, de facto, a barreira do dois milhões de pessoas que já receberam pelo menos uma dose da vacina em Portugal e, de forma mais específica, temos agora cerca de 20% da população portuguesa que já recebeu pelo menos uma dose da vacina e mais de 7% que está completamente vacinado contra a Covid. Até o momento, o processo de vacinação parece estar a correr de forma muito positiva, sendo que todos os testes que se têm realizado à vacinação em massa, apesar de pequenas questões individuais que são naturais em processos de grande escala, mas deixam-nos muito confiantes de que será possível estabelecer o ritmo de vacinação diária necessário para que se consiga ir ministrando todas as vacinas à população e todas as vacinas que vão chegando cada vez em maiores quantidades, como se espera agora nas próximas semanas ou meses. Aliás, os últimos dados apontam que Portugal está cerca de 8% acima da taxa de vacinação da União Europeia, o que são boas notícias. E a verdade é que começamos a assistir aos primeiros sinais de que a vacinação já está a ter algum impacto, pelo menos nas taxas de mortalidade e nos casos com manifestação de doença mais severa. E assim como se tinha esperança, a vacinação vai ser um enorme contributo no controlo da infecção. Deixava apenas uma ressalva, que esta pode não ser uma realidade global. Aliás, a própria Organização Mundial de Saúde já veio publicamente manifestar a sua preocupação com o facto de muitos países do mundo estarem com dificuldades em vacinar de forma mais massiva a população nesta fase e principalmente os países de baixa renda. Portanto, isto provavelmente é uma questão que nos irá acompanhar nos próximos meses, na medida em que se levantam aqui questões fundamentais em termos de equidade, mas também por se tratar de uma questão de saúde global, e vai ter que ter, de facto, respostas globais.

Mas para já, e olhando para Portugal, este número dá, de facto, confiança: dois milhões de pessoas já vacinadas. Pedro, e o seu número, qual é? Boa tarde, também.

Viva, boa tarde, Carla. O meu número desta semana é bem mais pequeno que o da Sónia, 39. E são os 39 dias que já tivemos de reabertura progressiva da sociedade e economia. E escolhi este número porque permite dar duas notas sobre o que se passou nestes 39 dias. Primeiro, passou quase despercebido, mas houve uma pequena ondinha a partir do início de abril. Foi mais ou menos 15 dias depois do início da primeira fase da reabertura. E, portanto, tivemos aqui algo que subiu um pouquinho, depois baixou. Falaremos agora do que está a suceder neste momento, daqui a pouco, mas passamos por uma ondinha que teve a ver com esta primeira fase de reabertura. Acabou por ser um bom resultado não termos tido grandes problemas com isso. A minha segunda nota destes 39 dias é às vezes pequenas mudanças no próprio discurso público, no discurso público político, que acho que às vezes podem fazer a diferença e que mereciam um pouco mais de atenção. Eu falei há pouco, ainda agora, dos 39 dias de reabertura progressiva. E a reabertura progressiva foi o termo que foi usado no início pelo primeiro-ministro também e pretendia transmitir uma noção de gradualismo, implicitamente, portanto, ter a ideia de que vamos manter os cuidados para não criar problemas. Ora, curiosamente, na semana passada, esta palavra, em vez de ser usado o termo reabertura progressiva, passou a ser usado oficialmente política de desconfinamento. Está com a data de 16 de abril no site oficial do governo, a renovação do plano do estado de emergência e plano de desconfinamento. Ora, isto dá logo a sensação um bocadinho implícita de: "Ok, se é plano de desconfinamento, já podemos ir à vontade". E não é verdade. E portanto, quando se fala em necessidade de mensagens consistentes, e nós ao longo dos vários programas temos falado muito sobre isso, deve-se também falar das palavras que se usam, deve-se falar dos termos que estamos a usar e do peso que essas escolhas implicam. Neste caso, eu creio que seria melhor insistirmos para que a linguagem oficial fosse sempre reabertura progressiva, para dar esta ideia de gradualismo e de cuidado que é preciso ter. Mesmo que no atual momento, todos preferissem falar de desconfinamento, porque dá mais alívio, mas mesmo assim é menos alinhado na mensagem que seria bom transmitir sobre progressividade e cuidado. Portanto, são as duas notas que este número 39 me suscitou para esta semana.

Essas notas, as palavras fazem a diferença. Os números também nos ajudaram a arrancar aqui na análise da semana. A conta-gotas, há um regresso à reabertura progressiva, já não lhe vou chamar normalidade, uma reabertura progressiva na maioria dos conselhos do país. A vacinação prossegue com novos grupos prioritários e até com autoagendamento disponível a partir de hoje e os indicadores ainda nos permitem respirar. Sónia, o que destaca da semana que passou?

Em primeiro lugar, acho que temos a confirmação de que o período pascal não teve grande impacto no aumento dos casos da infecção, que era algo que estávamos a tentar compreender, porque não tinham passado o número de dias suficientes pra ter a certeza. Mas agora temos essa confirmação, assim também como a abertura das escolas dos mais pequenos e dos jovens até o nono ano, porque esta semana já vai quase na terceira semana de aulas e esta abertura não se traduziu no excessivo aumento da transmissão da infecção, o que são boas notícias. Por outro lado, temos também que a grande maioria das pessoas acima dos 80 anos já está vacinada, como fazia ligação com o número desta semana, e principalmente os que vivem em estruturas residenciais. Isso, no fundo, faz-nos também pensar que grande parte dos mais vulneráveis estão agora já imunizados. E isto tem impacto nas questões dos internamentos e da mortalidade. Diria que é uma semana que nos deixa mais confiantes, que iremos começar eventualmente a ver um impacto positivo também da maior cobertura vacinal a nível populacional. Deixa-nos confiantes para vermos a esperança de um caminho de regresso a uma vida mais normal e também exatamente por isso diria que é uma grande motivação para que se possa requerer a cada um de nós o controle necessário dos comportamentos que estamos todos a ter, para que este caminho se torne uma realidade. Diria que é uma importante motivação para isso. Leva-nos a ter esperança, o que também, por outro lado, acho que é excelente pra recuperação dos níveis de saúde mental que todos nos temos estado a queixar. À medida que se vai avançando na vacinação e também neste plano gradual de abertura, sendo a minha opinião exatamente no mesmo sentido daquela que o Pedro estava a referir, acho que se vão levantar eventualmente questões sobre os indicadores a utilizar, porque é natural que os casos de infecção vão aumentando à medida que nós também vamos abrindo mais gradualmente, e também que provavelmente esta infecção não se vai traduzir nos indicadores associados à pressão dos cuidados de saúde e dos próprios serviços de saúde, seja nos internamentos, cuidados intensivos. A seu tempo terão que, provavelmente, como eu dizia, ser repensados estes indicadores que estão a ser utilizados pra toma de decisões, pra que possam também refletir esta nova realidade da própria pandemia. Por outro lado, e por último, diria que começamos também a ver de forma mais massiva a ferramenta que temos ao dispor no controle da infecção, nomeadamente com as questões da testagem massiva. Ouvimos também esta semana que se atingiram novos máximos dos testes realizados por dia, mas aqui também fazia uma ressalva de que é importante monitorizar a sua realização, de saber o que é que nos dizem em relação à evolução da pandemia, como é que estão a ser seguidos todos os casos positivos e seus contactos, mas também as necessárias precauções quanto aos níveis de realização dos testes de PCR, que podem eventualmente não estar a ter o mesmo aumento que os outros testes rápidos. Mas penso que estas questões da testagem são também provavelmente questões que iremos seguir nas próximas semanas.

Vamos certamente. Pedro, também partilha deste tom otimista em relação à forma como estamos a regressar um pouco à tal vida normal que queríamos tanto?

Curiosamente, não só partilho do otimismo, como a palavra que eu tinha escolhido pra esta semana era precisamente otimismo.

Que bom!

Não combinamos, mas acabamos por estar no mesmo comprimento de onda. E por quê? Porque o que se passou esta semana, em termos de números, naqueles principais indicadores que nós vamos usando aqui neste nosso observatório gabinete de crise, temos a tal evolução favorável na parte do sistema de saúde. Temos menos mortes, menos internamentos, menos internamentos em UCIs, continua numa descida regular. Tem-se mesmo, neste momento, uma folga maior no sistema de saúde do que se tinha no ano passado, quando se esteve a sair da primeira situação de confinamento. Por esse lado, não há sinal de alarme neste momento. No número de novos casos, estamos neste último mês numa situação de quase estabilidade, embora com uma ligeira tendência de subida, com uma ligeira rampinha ascendente nestas últimas duas semanas. A situação mais parecida que nós tivemos com isto, em termos da dinâmica que estamos a ver, foi antes do verão de 2020, em que também quase se conseguiu esta estabilização. E depois até se passou o verão com uma relativa tranquilidade e só em setembro começamos a ter a subida de casos para o que foi a segunda vaga. Agora, temos números mais elevados do que tínhamos nessa altura, há quase um ano, mas temos com menos consequências. Temos menos casos que precisam de recursos hospitalares, provavelmente consequência também da vacinação. Eu acho que isto justifica um certo otimismo. Também temos que o reforço da vacinação tem continuado, e tem continuado com uma aceleração na última semana, que é visível nos dados e que é um bom sinal pros próximos tempos. Significa que as vacinas estão a chegar a bom ritmo, há capacidade logística de as administrar e tem melhorado essa capacidade logística. As pessoas em geral querem ser vacinadas e a nossa ambição tem que ser chegar ao máximo possível de vacinação diária o mais rapidamente que se consiga. Eu acho que tudo isso fomenta um certo otimismo e creio que nós temos também Pensar noutros elementos de prospetiva que nos ajudam nesse otimismo. Estava a tentar relembrar qual foi exatamente o programa quando, algumas semanas atrás, eu referi que um dos momentos-chave para o que se passaria neste processo de conta-gotas seria precisamente uma semana, uma semana e meia depois da Páscoa. Estamos agora nessa fase e vemos que esta evolução depois da Páscoa não trouxe uma explosão de casos como tinha sucedido na altura do Natal, qualquer que tenha sido a razão nessa altura. E se olharmos para os Google Mobility Reports, que é um indicador da mobilidade das pessoas, vemos que também houve um aumento de mobilidade na altura da Páscoa, mas não se traduziu na aceleração descontrolada dos contágios. E portanto, é possível que haja também aqui maiores cuidados por parte das pessoas. Agora, outros motivos para termos otimismo. Temos agora esta entrada em funcionamento do portal do agendamento, que curiosamente, eu fui lá espreitar, tem um filtro de idade e só consegue prosseguir o agendamento quem cumprir o critério de idade. O que tem graça é que eu experimentei com uma data que me pareceria que deveria dar, 23/04/1955, e deu. Depois, experimentei com 24/04/1955, já não deu. Supondo que isto avance dia a dia, mas uma pessoa nascida em 55 tem 65 anos ou mais. E portanto, dá-me a sensação de que ali na programação há qualquer coisa que ainda vai criar confusão de pessoas a tentarem inscrever-se e não conseguir. Esperemos que não, esperemos que tenha sido apenas pontual.

E que seja ainda um acerto.

Pode ser que seja o acerto, mas é bom que nestas situações de fronteira de idades, muitas vezes há essa situação de um pequeno detalhe de programação poder fazer com que as pessoas, depois ao tentar entrar, não consigam. Seria bom que houvesse essa verificação. Agora, otimismo também por quê? Porque, como já tem sido noticiado, da reabertura das atividades presenciais, aulas no ensino superior. E aqui eu posso falar um pouco da minha experiência como docente do ensino superior na própria universidade. Vamos falar da minha experiência pessoal como experiência de campo e portanto, em vez de fazermos estatística, fazermos uma observação. Voltei a circular no espaço da universidade e também fui testado aleatoriamente num dos testes de massa dentro da universidade, num processo que até envolve a Faculdade de Ciências Médicas, cujo diretor nós vamos ter daqui a pouco. E tem sido um processo de voltar ao campus com bastante cuidado de toda a gente e que dá esse otimismo. Por exemplo, o processo de teste demorou 10 minutos. Foram cinco minutos em casa uns dias antes pra agendar, em que eu escolhi o meu dia e hora de semana para uma altura em que eu tivesse uma aula pouco depois, já que eu estava no campus, fazia as duas coisas. Recebi um e-mail a dizer que tinha sido selecionado e depois a dar-me a hora que eu previa. E depois tive um minuto de espera para confirmação de identidade, um minuto de espera para cubículo, três minutos para meterem uma zaragatona até o nariz, depois saída. E deu para perceber que as pessoas estavam com calma, mas todo alunos, docentes e não docentes a irem lá. À saída, perguntei, por curiosidade, quantos casos positivos já tinham sido identificados nesta semana. O teste tinha sido ontem, foi quase uma semana. E naquele momento, até aquela altura, havia zero casos na faculdade. Nem falsos positivos tinham aparecido ainda, falsos negativos não sabemos. Agora, a adesão que houve e o que se vê no campus, o que se vê nos corredores da universidade, as pessoas terem cuidado, os alunos terem cuidado, os docentes terem cuidado, acho que me dá algum otimismo sobre como é que isto vai continuar.

Fica aqui. Sim, Pedro, mesmo para terminar.

Uma frase muito rápida sobre vacinação dos professores universitários. Sendo eu professor universitário, defendo que se deva avançar por idade e rapidamente. Se fizermos assim, o problema resolve-se para todos em pouco tempo.

Muito bem, fica essa frase também para a polêmica do dia ou uma das polêmicas do dia. Estamos quase a ir para intervalo, mas ainda temos mitos e alertas para analisar. São os avisos para os próximos dias. A Sónia está preocupada com um eventual desinteresse na vacinação. Por quê?

Não diria total desinteresse, mas acho que é necessário ter aqui alguma atenção que a informação mal contextualizada pode levar, de facto, a uma diminuição da intenção de vacinação por parte da população em geral, que não está a acontecer e que devemos manter esse aspecto positivo. Mas, de facto, o que nós começamos a ver são pequenos sinais, porque o número de pessoas que responde não ao SMS da convocatória está a aumentar. É certo que é muito baixo em porcentagem, mas em número absoluto já são algumas pessoas que, por várias razões, acabam por não aceitar ser vacinadas. E estamos na fase da vacinação meritoriamente dos prioritários e pelo critério de idade, o que são os grupos, no fundo, se falamos dos grupos com maior letalidade. É isso importante, seria o meu alerta, que se intensifique as explicações à população da relação real do risco-benefício, provavelmente sendo necessário uma linguagem mais acessível, incluindo quais os grupos onde o risco é maior e menor, ou até diria eu, exemplos práticos e comparações de risco que incluam situações do dia a dia. Por exemplo, comparação com a toma da pílula ou até, por exemplo, do risco das viagens de avião.

E pode ser então assim mais fácil chegar a algumas partes da população. O Pedro tem mais uma palavra-chave, que é cooperação aqui na área da restauração.

Exatamente. Meu alerta desta semana vai para a necessidade de haver cooperação de todos nas precauções que é preciso ter quando se vai ao restaurante. E aqui, todos significa os clientes. É fácil as pessoas que vão com amigos e com família descuidarem-se, mas também os donos desses espaços de restauração, que têm que chamar a atenção para evitar que seja necessário novamente fechar, o que seria dramático pra eles. E, portanto, ambos não podem levar a mal os outros fazerem observações e têm todos ter cooperação para que tudo corra bem.

Então, fique sublinhado. É preciso cooperação entre clientes e donos de restaurantes para que não haja um novo encerramento e não se desvalorize também a importância da vacinação, sobretudo em grupos de risco. Voltamos já a seguir com Jaime Dacunha Branco, diretor da Nova Medical School, e também com ainda mais notas de esperança. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros. Daqui a pouco vamos falar do impacto da pandemia no ensino superior e da forma como as faculdades estão a regressar às aulas presenciais. Será nosso convidado o diretor da Nova Medical School, Jayme da Cunha Branco. Mas antes disso, vamos às notas de esperança. Já tivemos uma primeira parte muito otimista, mas este momento ainda é melhor. Pedro, o que nos trouxe esta semana?

Esta semana trouxe o começar a dissipar-se uma nuvem que esteve sempre presente quando falávamos de vacinas, que era saber se as vacinas ajudavam ou não a quebrar as cadeias de transmissão. Começam a surgir agora os primeiros trabalhos de análise de dados sobre se este efeito está presente ou não. E começam a indicar que sim, que existe uma quebra acentuada nas novas infecções e que, portanto, as vacinas não só protegem as pessoas, como ajudam a quebrar as cadeias de transmissão. Sabemos que elas são eficazes em prevenir a infecção. Sabemos que elas ainda são mais eficazes em prevenir os casos graves, caso a pessoa fique infectada. A dúvida sobre se impedem a transmissão do vírus começa agora a dissipar-se e no sentido favorável. Portanto, é uma nota de esperança grande sobre a nossa ainda maior capacidade de agora controlar a pandemia.

Muito bem, é mesmo importante que isso possa ser mesmo assim. Sónia, qual é a sua nota de esperança?

Esta semana decidi realçar as dinâmicas que se criaram nas universidades e principalmente nas escolas de saúde, que foram muito para além da adaptação às aulas à distância e até ligando com o tema desta semana. Assim, foram estabelecidas parcerias efetivas entre as diferentes escolas dentro da mesma universidade, até entre universidades e principalmente entre as escolas de saúde e o próprio Serviço Nacional de Saúde para o combate à pandemia e à investigação científica, numa lógica de entreajuda e complementaridade. Um exemplo mais recente são as testagens massivas no ensino superior, que muitas delas estão a ser feitas com o apoio das faculdades de Medicina e de Enfermagem, faculdade de Medicina, por exemplo, como foi na nossa própria universidade, mas também a mobilização e o voluntariado dos alunos destas escolas para atividades, por exemplo, em unidades criadas para o combate à Covid, no apoio aos profissionais de saúde, em diversas tarefas na estrutura hospitalar de contingência de Lisboa, que foi criada na altura mais crítica da pandemia ou até em centros de rastreio no acompanhamento telefónico a doentes Covid. Portanto, estas dinâmicas constituíram seguramente uma aprendizagem muito importante para os alunos, mas também uma ajuda efetiva nas respostas que foram dadas. E, portanto, a minha nota de esperança é que algumas destas dinâmicas e a agregação de esforços de diferentes setores possa perdurar, contribuindo assim para uma sociedade mais coesa, mas também com respostas mais efetivas na pós-pandemia.

E é uma ótima experiência. Depois de quase três meses de ensino à distância, os alunos do secundário, universitário e politécnico voltaram esta semana a entrar nas salas de aula, naquela que foi a última etapa deste processo de reabertura gradual das escolas. Vamos perceber como a comunidade escolar passou por isto, o que mudou e o que vai ser preciso fazer. O nosso convidado esta semana é o diretor da Nova Medical School, Jayme da Cunha Branco. Bem-vindo ao Gabinete de Crise.

Muito obrigado, Carla. Muito obrigado pelo convite. Queria saudar os meus colegas e amigos, o Pedro e a Sónia, que consegui ouvir agora nos últimos minutos. Infelizmente, não pude estar convosco desde o princípio do programa.

Mas vai ter a oportunidade, seguramente, de ouvir essa análise e agora de participar nesta conversa e com o esclarecimento que é preciso fazer antes de tudo, os alunos da Nova Medical School nunca estiveram limitados às aulas online durante este segundo confinamento, não é? Como é que se trabalhou neste período?

Não. Isso é verdadeiro só em parte. Eu vou passar a explicar.

Muito bem.

O que aconteceu com este segundo confinamento, iniciado ainda no fim de janeiro, foi que nós estávamos a atravessar, nessa altura, o período normal de exames, de avaliações do primeiro semestre, que se prolongou até o dia 15 de fevereiro. E, portanto, os primeiros 15 dias, ou mesmo três semanas do confinamento, os alunos que já faziam os exames todos à distância, fossem exames orais, fossem exames escritos, mas todos à distância, tiveram o procedimento normal. No reinício das aulas, que seriam normalmente a 15 de fevereiro, nós nessa altura não iniciamos as aulas presenciais. Iniciamos as aulas à distância e três semanas depois, e isto penso que terá sido, salvo erro, dia 8 de março, estou a dizer de cor, uma segunda-feira, nós retomamos as aulas do ciclo clínico tal qual no primeiro semestre, isto é, no terceiro, no quarto, no quinto e no sexto anos do curso médico. Os alunos voltaram aos hospitais e voltaram aos cuidados primários de saúde para os seus estágios práticos, tal qual tinha acontecido no primeiro semestre deste ano letivo. Claro que os alunos do primeiro e do segundo ano, as aulas práticas laboratoriais e em teatro anatômico e os alunos de nutrição, porque nós também temos uma licenciatura em nutrição, além do mestrado integrado em medicina. Os alunos de nutrição continuaram com aulas apenas à distância e porque essas só foi permitido agora, evidentemente, com a legislação esta semana. Esta semana voltaram todos.

Voltaram todos. Houve muitas diferenças na organização do ensino neste confinamento deste ano, em comparação com o primeiro do ano passado, em que todos fomos sobressaltados com esta pandemia.

Houve uma diferença radical. É que nós, quando isto começou, nós fechamos no dia 11 de março de 2020. Nós não conhecíamos a situação. A Itália e a Espanha estavam a arder, entre aspas. Nessa altura.

E o ensino à distância era muito primitivo, quase.

Era uma visão que se tornou uma realidade numa semana. É uma coisa absolutamente extraordinária a forma como o ensino superior e mesmo o secundário, mas eu falo da experiência das escolas médicas. Nós temos um organismo que é um pouco diferente de todas as outras escolas do ensino superior. Nós temos um conselho das escolas médicas, isto é, os diretores das oito escolas médicas portuguesas reúnem-se de uma forma regular. E nessa altura, reunimo-nos muito mais de forma extraordinária. Chegou a ser todas as semanas, exatamente para que as experiências de uns resultassem nas vitórias dos outros. Quer dizer, quando alguém tinha uma má experiência, compartilha com os colegas para que isso não acontecesse nas outras escolas. Isso foi muito importante.

Como aconteceu em quase toda a comunidade científica. Quebraram-se algumas barreiras. Portanto, aprendeu-se. A comunidade escolar conseguiu mesmo aprender com o que aconteceu o ano passado e reagir e responder de uma forma diferente.

Sem dúvida. Sabe que as particularidades do ensino médico são, de facto, muito grandes em relação ao ensino de outras matérias. Quer dizer, não há médicos sem treinar com doentes e com os seus professores, sem ver o que os professores fazem junto dos doentes, sem conversar com eles, sem os auscultar, sem os palpar, sem falar com eles, sem os cheirar. Quer dizer, a relação entre o médico e o doente não é transmissível através da net ou de outra forma qualquer. E, portanto, essa é a nossa enorme preocupação. As matérias básicas também precisam de algum laboratório e precisam de estar em teatro anatômico para perceber como é que o corpo é formado, mas pode ainda haver algum ensino a distância, mas o ensino prático, clínico, não é substituível por coisa nenhuma.

E isso quer dizer que estes meses representaram uma perda na qualidade do ensino?

Não tenha dúvidas. O ano passado, nós tínhamos acabado de iniciar, tínhamos um mês de segundo semestre, e não conseguimos reiniciar o segundo semestre até o fim. E, portanto, isso foi uma perda enorme para os nossos alunos, nomeadamente para os do sexto ano, que estavam nos seus estágios profissionalizantes e que tiveram apenas metade e mais um mês do seu ensino normal. Claro que durante as férias houve alguma recuperação, houve um esforço, quer de docentes, quer de alunos, para compensar, mas vai ser agora, durante o seu internato, que a compensação vai ser feita. Sabe que, apesar de tudo, a medicina é sempre feita da mesma maneira, é ver e tratar doentes. E, portanto, nós estamos, apesar de tudo, sempre a tempo de fazer alguns arranjos na forma como nos treinamos e como treinamos os nossos alunos e médicos mais novos, para que haja segurança na prestação de cuidados que eles vêm a oferecer.

Portanto, esta perda não é irreversível. Jaime da Cunha Branco, deixe-me colocar a questão que está hoje na ordem do dia para si e para o diretor da Nova Medical School: é importante que os professores do ensino superior sejam vacinados?

Bom, aí nós temos outra vez uma particularidade. Nós estamos quase todos vacinados porque somos médicos. Quer dizer, portanto, sem dúvida nenhuma que é importante.

E os outros professores?

Ora bem, eu ia falar exatamente disso. Quer dizer, eu não consigo perceber por que se discriminaram os professores do ensino superior, porque isto é uma discriminação. Se houve, de facto, uma determinação governamental ou da autoridade para as vacinas, que definiu, e muito bem, a necessidade de se vacinar em prioridade os professores, não sei porque é que os professores do ensino superior não foram incluídos nessas prioridades. Tenho uma enorme dificuldade em perceber o motivo da discriminação negativa, neste caso. Claro que o fato de a maioria dos nossos professores, porque nós também temos, apesar de tudo, professores que não são médicos, atenção. Mas é a minoria, como pode calcular, isto é uma faculdade de medicina e, portanto, a maior parte dos professores são médicos. Não se consegue compreender porque é que, de facto, não foram incluídos como todos os outros professores do básico e mesmo da pré-primária, dos ciclos iniciais, em que os profissionais estão em contacto com crianças ou então adolescentes.

E, portanto, vê aqui uma discriminação entre os professores.

Não tenho dúvida.

Não tem dúvida sobre isso e foi muito claro e afirmativo nesse sentido. Sónia Dias, deixe-me voltar um pouco atrás. Estávamos a falar das perdas para os alunos que deixaram de ter as aulas presenciais. Essa paragem vai ter, de facto, impacto na competência dos alunos ou será reversível, como acabamos de ouvir?

A minha opinião é também que, de facto, houve impacto e é importante que se reconheça essa questão, mas eu também estou muito alinhada com a ideia de que são perdas que são recuperáveis. Enquanto até professora universitária, de facto, o que vimos foi uma enorme vontade, quer por parte dos docentes em se adaptar às necessidades e ao próprio ensino à distância e às suas exigências, mas também às necessidades da vida dos próprios alunos. Provavelmente, outros professores universitários terão outra experiência, mas a minha experiência é no ensino, quer em alunos na própria faculdade de ciências médicas, que vão ser médicos, mas também em alunos que na grande maioria já são profissionais de saúde e, de facto, estiveram muitos deles também na própria linha da frente no combate à Covid. E, portanto, foi necessário, de facto, adaptarmos, nós docentes, às próprias vidas e constrangimentos dos nossos alunos, mas também enquanto docentes, devo dizer que foi extraordinário ver o quanto os nossos alunos estavam empenhados, motivados, por um lado, no combate à Covid, na linha da frente enquanto profissionais e os alunos enquanto voluntários, etc. Mas também os nossos alunos na motivação em não perder as aprendizagens, fazer tudo o que estava ao seu alcance para poderem estar nas aulas, para poderem compensar o que estava a ser perdido e naturalmente que após esses períodos mais críticos de ensino à distância, estamos a fazer todos os possíveis para recuperar aquilo que não foi possível aprender e adquirir durante o confinamento. Portanto, eu também estou bastante otimista que vamos claramente conseguir recuperar com muito esforço, mas vamos conseguir recuperar essas aprendizagens. Penso que, de facto, o ensino superior tem talvez algumas características diferentes de outros níveis de ensino.

Pedro, e queria também, daqui pouco, falar dos alunos do secundário, aqueles que vão chegar à faculdade nos próximos tempos. Mas Pedro Pita Barros também tem esta percepção que aquilo que se perdeu é recuperável?

Sim, embora no meu caso, como são alunos de economia e gestão, a questão da recuperação e da parte prática é muito menos premente do que é na parte da medicina. Mas notou-se claramente que todos tivemos que fazer uma adaptação, os alunos também. E eu até nem tenho a certeza se alguns dos alunos até nem preferem algum destes modelos híbridos que temos vindo a experimentar de aulas à distância, depois com uma parte presencial. Mas quando isto tudo terminar em termos de emergência, vamos provavelmente continuar a testar modelos de ensino com uma componente presencial e com uma componente híbrida à distância. A parte da distância, na parte de economia e gestão, diminui a interação no momento, mas ao mesmo tempo permite uma muito maior flexibilidade das pessoas assistirem e, em particular, por exemplo, quando nas nossas aulas conseguimos gravar e disponibilizar, isso é muito apreciado pelos alunos. Portanto, vamos passar a ter outros instrumentos também neste processo de aprendizagem.

Portanto, vai-se aprender e aproveitar as tais oportunidades que as crises nos colocam. Jaime da Cunha Branco, é a última pergunta. Estamos a falar das particularidades do ensino superior, mas tivemos dois anos letivos atípicos e a ideia, e olhando a montante, isso vai ter impacto nos alunos que vão agora chegar ao ensino superior. Poderão estar mais mal preparados por causa disso?

Olha, eu vou analisar isso de duas maneiras, mas tinha que, se me permite, um ponto prévio, dizer que estou de acordo com a Sónia e com o Pedro, que o ensino não vai voltar a ser igual, como tantas coisas não vão voltar a ser iguais depois desta experiência. Há coisas que realmente não é preciso fazer presencialmente. Pode-se facilitar a vida, quer do docente, quer do aluno. O docente pode dar a sua aula no local onde estiver a trabalhar, por exemplo, no caso dos médicos no hospital, e pode estar a dar uma aula teórica ou teórico-prática desse local, até com um doente ao lado, e o aluno pode ver ou em live, no momento, ou pode ver, como disse o Pedro agora mesmo, depois gravado. Portanto, isto é uma facilidade enorme para muitas coisas. Quer dizer, claro que nós temos esta particularidade das aulas práticas e da necessidade das aulas práticas, mas em relação às aulas práticas e teóricas, às aulas teóricas e teórico-práticas, essa é de facto uma verdade. Fala-me dos alunos e de dois anos atípicos, mas antes de falar em quem vai entrar para o ensino superior, eu queria-te falar de quem está no ensino superior. Eu estou muito preocupado, não tanto com os alunos do terceiro, do quarto e do quinto e do sexto ano, aqueles que tiveram até o ano passado e que já são agora médicos e que já estão nos hospitais, alguns até estão comigo a trabalhar na enfermaria e na consulta, no seu ano comum de internato. Eu não estou preocupado com esses. Esses tiveram experiências letivas normais durante anos e anos. Eu estou preocupado com os alunos do primeiro e do segundo ano. Repara um aluno que está agora no segundo ano e que teve até agora uma experiência de normalidade apenas de um semestre o ano passado. Apenas de um semestre.

Claro.

Estamos no fim do segundo ano. E os alunos que entraram este ano para o primeiro ano tiveram uma experiência mais normal, porque enfim, tiveram de facto aulas práticas, laboratoriais, etc. E agora voltam a ter a partir desta segunda-feira passada. Mas a verdade é que é um ano completamente atípico. E muitos destes nossos alunos não são de Lisboa, quer dizer, estão aqui deslocados das suas famílias, sozinhos em casas ou em partes de casa ou em residências ou em lares. E portanto, convivem muito menos uns com os outros.

Que é uma parte importante da vida académica também.

Não é importante, é fundamental. A integração é fundamental em tudo. Você chega a um sítio novo, tem que ser integrado. Quer dizer, chame-lhe praxe ou outra coisa qualquer. Eu não sou fã das praxes de maneira nenhuma, mas quer dizer, a praxe pode ser uma coisa boa, se for só de integração, se não tiver brutalidade, se não tiver coisas anormais e essas não devem acontecer. Mas de facto, a integração, se falarmos em integração, os alunos precisam de ser integrados pelos mais velhos para os sítios onde vão de novo, porque isto é completamente diferente do ensino secundário, não tem nada que ver. E portanto, eu estou muito preocupado com estes alunos, até sob o ponto de vista da saúde mental de alguns deles. E nós temos um gabinete de apoio ao aluno, que além da própria universidade também ter, nós temos aqui na escola o gabinete de apoio ao aluno, que tem tido muito mais trabalho, digamos assim, durante este período. Essa é uma grande preocupação que nós temos, eu não a escondo e desde o início da crise gravo um vídeo semanal, porque as pessoas aqui deixaram de se ver, não só os alunos, como os funcionários, os investigadores, os docentes. E, portanto, a forma que eu encontrei para manter a coesão da escola é um vídeo semanal, em que dou conta daquilo que se passa durante a semana e programo a semana seguinte. E tenho pedido aos alunos que tenham qualquer dificuldade, que nos comuniquem de qualquer maneira, querendo ter em contato conosco de qualquer maneira, para nós podermos resolver os assuntos, mesmo que pareça um assunto menor. Essa é uma grande preocupação que eu tenho. Em relação aos alunos que vão entrar, nós o ano passado tivemos Um enorme êxito. Os cursos de medicina, evidentemente, são muito procurados e fizemos o open day da escola virtual e este ano vamos repetir a experiência. Tivemos uma experiência muito boa, espero que este ano seja idêntica. A motivação dos alunos, as médias até aumentaram. No ano passado fomos procurados por alunos com médias mais altas, mas as médias também aumentaram de uma forma geral em todo o ensino superior. E mantivemos a nossa posição, o nosso ranking, de ser a escola de Lisboa que foi mais procurada.

Portanto, não nota nos alunos deste primeiro ano uma diferença em termos de preparação do secundário em relação a anos anteriores. Não é visível isso?

Talvez. Eu não dou aulas ao primeiro ano. Eu sou um clínico e, portanto, dou aulas a partir do quarto ano. De maneira que eu tenho aqui relatos de colegas que dão aulas a partir do primeiro ano, de que isso pontualmente acontece. Os alunos que procuram medicina também não são alunos quaisquer. São os melhores. E, portanto, isso é menos notório.

Jerónimo da Cunha Branco, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise. Foi importante conhecer a realidade do dia a dia de uma faculdade. Obrigada. Nós vamos voltar para a semana. Sónia Dias, Pedro Pita Barros, obrigada também. Até lá. E no fim do programa vamos juntar mais vozes às nossas. Os Shout lançaram um desafio nas redes sociais e em menos de 24 horas juntaram 100 cantores para criarem uma versão acústica do tema dos Coldplay, "Sky Full of Stars". O resultado desta experiência foi apresentado esta semana no Dia Mundial da Voz e tenta homenagear o instrumento mais universal de todos. O tema foi totalmente gravado à distância, em estúdios caseiros, improvisados na casa de cada um. O resultado mostra que a pandemia também trouxe engenho e arte. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, a sonoplastia é do Bernardo Almeida. Até para a semana.