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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. Estamos de regresso a mais uma análise ao estado da pandemia, nesta parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Na segunda parte do programa, vamos até aos centros de saúde. Passada para já a fase mais aguda da pandemia, como estão os médicos de família a gerir o contato com os utentes e como se está a praticar a medicina? Vamos estar com a médica Paula Bruer, que trabalha na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados dos Olivais, em Lisboa. Agora é tempo de abrir a ordem de trabalhos com o número da semana. Cumprimento já os nossos residentes, Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, e o professor de Economia, Pedro Pita Barros. Bem-vindos. Sónia, começamos com o seu número.
Boa tarde, Carla. O meu número é o dois. Hoje é um número pequeno e talvez numa temática um pouco diferente, e que se refere a duas unidades de saúde familiar que implementaram um projeto de prescrição social em Lisboa, que é a USF da Baixa e da Almirante, e cuja avaliação desta iniciativa está a ser coordenada por nós na Escola Nacional de Saúde Pública. Pareceu-me oportuno falar deste tema, uma vez que quarta-feira se comemorou o Dia Mundial da Saúde e a prescrição social foi um dos projetos que recebeu a atenção do Presidente da República em visita à USF da Baixa. E o que será, então, isto da questão da prescrição social? Pode-se dizer que é uma intervenção que integra a saúde na sociedade, ou seja, baseia-se no pressuposto de que muitos problemas de saúde estão relacionados com condições econômicas e sociais e, por isso, chama-se prescrição social, em alusão ao contrário da própria prescrição médica. Aqui os médicos e enfermeiros destas unidades não se limitam apenas a tratar problemas médicos ou clínicos, mas identificam os utentes que têm necessidades sociais, emocionais ou condições de vida que estão a ter impacto ou a agravar as condições de saúde da população. E depois, com o apoio dos assistentes sociais nos centros de saúde, procuram assim respostas com a colaboração de instituições sociais, como juntas de freguesia, Santas Casas, as próprias ONGs e até a comunidade para encontrar essas respostas. O próprio presidente referiu-se como sendo um projeto inovador, que será parte do futuro dos cuidados de saúde primários. E na verdade, aqui a concepção de saúde é muito mais abrangente, bem como a intervenção em todos os determinantes que a condicionam. É relativamente nova em Portugal, mas já muito difundida em Inglaterra. E o que nós vemos, e por isso é que eu trago também este exemplo aqui hoje, é que com a pandemia, há um aumento das consultas médicas motivadas por problemas de saúde agravados pelas desigualdades sociais e econômicas, problemas de saúde mental e até do isolamento social, em consequência da própria Covid. Portanto, vem reforçar ainda mais intervenções como esta da prescrição social. E, por outro lado, esta intervenção tem ainda a expectativa de poder contribuir para uma maior sustentabilidade e efetividade do nosso SNS, porque muitos destes utentes acabam por sobreutilizar os serviços com necessidades que muitas das vezes não são clínicas e podem ser resolvidas com a agregação de esforços de outros parceiros.
Excelente projeto, Sónia, para discutirmos até na segunda parte, em que vamos olhar para os centros de saúde. Fica o número dois da Sónia. Pedro, boa tarde também, qual é o seu número?
Boa tarde. O meu número é metade do número da Sónia, é o número um. E é o número um de voltarmos à preocupação com o famoso RT, o tal indicador de transmissibilidade, que faz parte dos indicadores de alerta admitidos oficialmente. Foi apresentado publicamente como sendo um sinal de aviso e de preocupação, e acabamos de chegar a esse valor limite do RT ser igual a um, daí eu ter escolhido esse número. Portanto, vamos estar a entrar agora numa fase em que vamos ter a necessidade de voltar a pensar qual é a rapidez de decisão pública que vamos ter. Não é claro, nem foi claro quando foi feito o anúncio há umas semanas, do que acontece quando o RT está acima de um. Se é estar acima durante um dia, se é estar em média durante uma semana, se estar acima é ser 1,01 ou ser 1,1. Portanto, lança-nos neste momento numa zona de incerteza que nós deveríamos tentar minimizar em termos de decisão pública e comportamento individual. A escolha deste número acaba por ser uma repetição, mas também é uma repetição de propósito, porque num tempo que agora já nos parece de alguma forma distante, já o tinha escolhido como número da semana há muitos meses. Estamos, de alguma forma, de volta a esse passado. Vale a pena pensarmos como é que conseguimos evitar algumas das hesitações que tivemos nessa altura, com o conhecimento todo que adquirimos até este momento. Portanto, número um, não só porque é um número importante, mas porque já estamos num regresso ao passado.
Aqui fica então este número e vamos à análise da semana. Começou a segunda fase do desconfinamento e eu sei que o Pedro não gosta muito desta palavra. Começou com o regresso de mais alunos às escolas, com a corrida às esplanadas e também com a abertura de algum comércio, museu e ginásios. O Pedro já falou na matriz de risco do governo. O RT começa a entrar nessa zona amarela e há também conselhos com o número diário de casos superior à linha vermelha. Com isto tudo, Sónia, há razões para alguma preocupação? Estamos neste período de alguma incerteza, um período decisivo?
Exato. O Pedro já acabou com o seu número de fazer um pouco a sua visão do que está a acontecer e em que fase estamos, e eu estou completamente alinhada com isso. Temos sinais de que os indicadores mais básicos que estão a ser monitorizados, o RT e o número de casos de infecção, estão a aumentar, o que era de esperar com o início do desconfinamento. Aqui nada de novo. A situação, aparentemente, está ainda sob controle, mas estaremos, e aqui em linha com o que o Pedro estava a dizer, estamos a entrar numa fase, diria eu, quase de teste em relação às respostas das estruturas e à capacidade para garantir uma atuação rápida, de forma a reduzir as cadeias de transmissão que vão aumentar e assim evitar recuar no desconfinamento ou na abertura gradual, como lhe quisermos chamar. Diria que as próximas semanas vão ser muito importantes para compreendermos exatamente qual é que é esta capacidade instalada de resposta face ao aumento natural dos casos. E aqui penso que vamos ter tempo para explorar um pouco melhor esta questão na segunda parte do programa. Temos que garantir, na minha opinião, que as iniciativas de testagem em larga escala que se estão a realizar têm o acompanhamento devido, por um lado, por parte das autoridades de saúde, mas também pela própria população, que tem que compreender totalmente qual é o seu papel, quer quando tem um teste positivo, e não se deixar vencer pelo cansaço, mas também o que significa um teste negativo e a necessidade de continuar a adotar todas as medidas necessárias. Por outro lado, é necessário, e esta seria a minha segunda parte do comentário desta semana, que muito daria para conversarmos, mas é fundamental que a operação de vacinação aumente substancialmente e que seja cada vez mais rápida, principalmente agora quando vamos passar ao critério da idade e já não somente relativamente aos grupos prioritários. Ouvimos esta semana, 6% da população já totalmente vacinada, mais 1,3 milhões que já receberam a primeira dose da vacina. Não são números extremamente elevados, mas eu diria que são números de esperança. E principalmente porque se olharmos para quem está vacinado, vemos que esta porcentagem aumenta substancialmente nos que têm mais idade, nos que estão mais vulneráveis a efeitos graves da Covid e também nos que têm tido taxas de letalidade maiores. A ideia é pensarmos que à medida que a vacinação vai ocorrendo, e já temos a evidência de que até noutros países, de facto, a vacinação é muito eficaz na redução dos casos graves e das mortes. Ao mesmo tempo, também nos permite ter eventualmente maiores números de infecção e transmissão sem que se reflita numa elevada pressão de serviços de saúde. Diria, como comentário, para sintetizar, que estamos num momento de teste muito importante e que, por um lado, se a situação não for monitorizada com rigor e cautela por parte das autoridades, mas também por parte de cada um de nós a fazer o seu papel, poderá eventualmente correr menos bem, ou como o Pedro dizia, já vimos isto acontecer no passado, ou se formos mais otimistas e tivermos esperança que o processo da vacinação vai finalmente arrancar a toda a velocidade, que estaremos nós também, população capaz de digerir um pouco melhor a nossa ansiedade pela normalidade e assim avançarmos no processo de desconfinamento e no verão com um pouco mais de normalidade. Diria que estamos aqui num momento crucial.
É um momento de teste, como disse, Sónia. Vamos aproveitar então, porque já tinha dito que sobre a questão da vacinação havia muito para dizer, todos estes episódios da AstraZeneca podem de facto ferir esse processo de vacinação que se quer e que se precisa que seja acelerado?
De facto, este tipo de situações e de mensagens, se são de alguma maneira, como até já vínhamos dizendo, se são naturais num processo de introdução de medicamentos e de vacinação para a população em geral, podem ser um pouco confusos. Mas eu estou relativamente otimista em relação a isso. Penso que, de alguma maneira, a comunicação já está bastante clara. As pessoas compreendem claramente quais são os riscos, e estes são, na verdade, muito raros e, portanto, foi passada muitas vezes a ideia de que a vacina tem muito maior benefício do que os riscos que pode acarretar, porque os eventos são verdadeiramente raros. Temos também tido, na grande maioria das vezes, sinais de que a população continua a aderir bastante bem à vacina e, portanto, não me parece por aí que até agora tenha tido um impacto muito grande.
E que possa ferir mesmo. Sim, Sónia, para concluir.
Sim, por outro lado, a ideia de que como temos a população maiores de 60 anos, um grupo bastante grande que ainda não foi vacinado e que não parece haver comprometimento para a vacina da AstraZeneca, parece-me que eventualmente o impacto não será muito grande.
Esperemos que não. Sónia, fica também esse olhar sobre as vacinas, porque Pedro, esta questão das vacinas acaba de alguma forma por marcar a semana. Que balanço é que faz?
Esta parte das vacinas coincide muito bem com o que eu tinha escolhido como palavra-chave para esta semana, que é confusão. E é uma confusão acerca do que se sabe, do que não se sabe, sobre o que se julga que se sabe sobre os efeitos adversos das vacinas. E aqui eu desfocava um pouco só da vacina da AstraZeneca e pensava que a discussão pública tem estado muito centrada nos coágulos detetados nas pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca, mas se formos ver as várias informações que têm saído, nós acabamos por perceber que existem também esses coágulos em pessoas que tomaram outras vacinas, em pessoas que não tomaram vacinas. Ainda não está estabelecido qual é o mecanismo biológico que faz a ligação entre, eventualmente, a vacina e o aparecimento desses coágulos. Como são situações muito raras, ainda não é possível determinar facilmente se é necessária alguma precaução. E acabamos por ter uma confusão também nas decisões dos vários países, que aparentemente surgem como muito arbitrárias, às vezes quase erráticas, o que só aumenta a tal confusão. E, portanto, acabamos por ter também muita incapacidade de, dentro desta confusão, perceber o que é opinião e o que é evidência científica ou prova científica. Vamos também ter, provavelmente, alguma confusão noutros contextos e, em particular, como é que nós vamos poder navegar esta situação de números gerais que estamos a ter de um bocadinho de planalto com algum risco de subida. E há bocado, quando eu falava que sentia uma repetição de situação, eu fui à procura tentar perceber qual era a semana do passado, que era mais parecida com a semana que nós vivemos agora em termos dos principais indicadores. E acabou por ser a segunda semana de setembro, que foi quando começamos a subir para a segunda vaga que houve em novembro.
E que coincidiu também com a reabertura das escolas, não é?
Coincidiu também com a reabertura das escolas. Portanto, estamos aqui também agora numa outra confusão, que é saber o que vamos fazer agora. E é uma confusão que também se vai colocar aos serviços de saúde e provavelmente nos centros de saúde e USF. Vão se preparar para uma possível nova vaga que ninguém quer, vão continuar a reforçar a recuperação do que ficou para trás. Vamos ter aqui confusões também em termos de decisões operacionais dos próprios serviços de saúde.
É outra encruzilhada em que nos encontramos. Estamos quase a ir para o intervalo, mas antes temos mitos e alertas. Já foram deixadas aqui várias mensagens, mas é a altura de vincar algumas delas. Sónia, está preocupada com a fadiga pandémica?
Sim, exatamente. E vai um pouco, no fundo, também relativamente àquilo que temos estado a falar na primeira parte do programa, mas os dados mais recentes da mobilidade e até da frequência das esplanadas, um pouco de forma caricata, como temos ouvido falar esta semana, mostram que provavelmente os níveis de fadiga pandémica estão verdadeiramente elevados. Ou seja, a capacidade de todos aderirmos a regras de maior distanciamento e manutenção do recolhimento, sempre que possível, pode estar a estar muito baixa e é preciso que esta questão esteja também na mente de todos, quer das autoridades, e que precisamos de encontrar formas de motivar os cidadãos para continuarem a contribuir na redução da transmissão e também das próprias autoridades no controle e redução da transmissão da Covid. Mas aqui, talvez, eu acho que é possível agregar nesta motivação uma nota de esperança relativamente à vacinação e, portanto, no fundo, paciência, mais uma das palavras, mas realmente estamos a precisar de ter todos ainda bastante paciência.
Muita paciência. Pedro, e será que vamos conseguir portarmo-nos bem nesta fase decisiva?
Pois, esse é o meu alerta desta semana, também muito alinhado com a preocupação da Sónia. Como referi há pouco, nós estamos agora numa espécie de planalto, com um número relativamente estável de casos, mas relativamente elevado para aquilo que já foi no passado, quando tivemos situações similares de sair de confinamentos. Ainda não temos os efeitos totais da Páscoa, onde até um bocadinho por antecipação as pessoas ligeiraram um pouco. Houve depois mais um bocadinho de abertura a seguir. Ainda estamos muito no fio do equilibrista. Eu inicialmente tinha pensado em falar em fio da navalha, mas acho mais natural o fio do equilibrista. Sinto muito como se nós estivéssemos a passar entre dois edifícios lá em cima com uma vara a tentar nos equilibrar pra não cair pro lado errado. Isto é, um pouco menos cuidado e podemos voltar a ter uma aceleração de casos. Daí essa necessidade de muito cuidado. Temos agora uma desvantagem. Eu acho que, como a Sónia referiu, estamos todos muito mais fartos da falta de vida social e também, e eu não ignorava isso, muito mais exaustos economicamente nalgumas áreas. Não é a mesma coisa ter que fechar estabelecimentos, nomeadamente de restauração e turismo, num momento três meses depois da pandemia ou um ano e três meses depois da pandemia. Temos talvez alguma vantagem neste momento, que já aprendemos o que é o perigo da falta de cuidado. Ou aprendemos, se calhar podemos por aqui como ponto de interrogação. E tenho algum receio, nomeadamente, de se será que a antecipação de que podemos voltar a ter que fechar, faz com que toda a gente de repente comece a correr para as esplanadas para aproveitar antes que feche e isso faz com que se acelere a necessidade de fechar. Eu acho que nós podemos ter aqui dinâmicas sociais que convém acompanhar e convém perceber, não só em termos de aconselhamento ou de indicações, mas também de perceber se a própria decisão pública tem que ter o tempo de reação rápido ao que possa acontecer. É um alerta pra todos os lados.
São mesmo dois alertas que se colam muito. Estamos no fio do equilibrista ao nível dos indicadores e a fadiga é mais um fator a ter em linha de conta. Voltamos já daqui a pouco. Vamos ver como está a ser o dia a dia dos centros de saúde com a médica de família Paula Broeiro e temos também as notas de esperança. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que analisa o estado da pandemia em Portugal. Estamos, como sempre, com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros e daqui a pouco com a médica de família Paula Broeiro. Já fizemos o balanço da semana, só precisamos agora das notas de esperança. É a forma do gabinete de crise olhar para o copo meio cheio. Pedro, o que escolheu?
Como nota de esperança para esta semana, escolhi a mudança de critérios, por critérios mais simples, como a idade apenas, para acelerar o processo de vacinação. A vacinação, como a Sónia referiu há pouco, é importante, mas é também provavelmente a maior prioridade que nós conseguimos realmente controlar com alguma segurança e, portanto, devemos lidar com isso da forma mais rápida possível. Até para conseguir acomodar variantes futuras que possam existir, é importante assegurar que haja maior proteção geral desde já. É sempre melhor ter proteção do que não ter, mesmo que seja menor do que no passado. E nós não sabemos qual vai ser a duração da imunidade, de maneira que vamos ter que começar a pensar que em setembro terá de se pensar na vacinação de dezembro. E, portanto, temos que acelerar agora.
Dos que já foram vacinados, não é? Dos primeiros a ser vacinados.
E, portanto, começar a pensar que se vamos em dezembro ter que começar a usar novas vacinas para retomar a vacinação daqueles que foram vacinados há um ano, isso tem que ser pensado em setembro. Para se poder pensar nisso em setembro, temos que acelerar agora e ter critérios mais simples e avançar rápido parece ser importante. Se olharmos para o exemplo dos Estados Unidos, nós vemos que a simplificação do processo tem sido um dos elementos centrais deles conseguirem ter a vacinação em massa que estão a ter. Então nós devíamos também aprender com essa simplificação de processos. Eu acho que estamos a aprender, portanto é uma nota de esperança.
Simplificação de processos. Sónia, qual é a sua nota de esperança?
A minha nota de esperança vai um pouco também no seguimento do que já agora foi referido e que acho que havia uma certa expectativa se seríamos capazes de mobilizar para a vacinação em massa, que envolvesse um grande número de pessoas e em espaços de tempo muito curtos. E aqui realçaria o processo de vacinação da comunidade escolar, que na verdade pôde ser encarado como um teste e que nos veio mostrar que a vacinação em massa foi possível e, portanto, é uma nota de esperança que vamos conseguir concretizá-la também em outros episódios. Depois, sabemos todos que temos outros desafios relacionados com as vacinas, nomeadamente em relação a estoques disponíveis e às questões relacionadas com a confiança, como fomos vendo esta semana. Mas de facto acho que é uma nota de esperança a capacidade de organização que se mostrou possível, com as estruturas a conseguirem rapidamente mobilizar-se e organizar-se. E, portanto, esperemos assim que haja vacinas disponíveis e que este teste possa ser replicado em outros momentos para que a meta de imunizar 70% da população se atinja o mais rapidamente possível, e bem precisamos disso.
E bem precisamos disso. Estão dadas as notas de esperança e seguimos já, como prometido, para os cuidados de saúde primários. O portal da transparência do SNS mostra que as consultas presenciais nos centros de saúde e unidades de saúde familiar caíram para metade nos primeiros dois meses deste ano, em comparação com 2020, mesmo antes da chegada da pandemia. Mas dizem mais, dizem que as consultas à distância quase que duplicaram e que os meios de diagnóstico e terapêutica caíram também drasticamente neste segundo confinamento. Paula Broeiro é médica de família, exerce na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados dos Olivais, em Lisboa. É também professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e hoje é a nossa convidada. Muito boa tarde, Paula Broeiro, bem-vinda.
Boa tarde, muito obrigada pelo convite e boa tarde à Sónia Dias e ao Pedro Pita Barros.
Bem-vinda também.
É uma honra estar aqui.
Bem-vinda também. Paula, tracei rapidamente este quadro global da atividade dos centros de saúde e de unidades de saúde familiar. Menos consultas presenciais, mais consultas à distância e menos meios complementares de diagnóstico. É também esta a percepção que tem daquilo que estão a fazer os centros de saúde nesta altura?
É sim. De facto, no início tivemos todos algum receio, não sabíamos, e organizámo-nos de modo a que os utentes quase não entrassem nas unidades de saúde e por isso a maioria dos contactos com os doentes foram através do telefone e do e-mail. E de facto, tenho esta noção, quando se publicam dados que diminuíram o número de consultas, o número de consultas não diminuiu. Diminuíram as consultas presenciais e aumentou o número de contactos por ansiedade, por questões, como a professora Sónia Dias teve a oportunidade de dizer, muito sociais e da saúde mental, que criou alguma ansiedade e a procura mais exaustiva e por as alterações econômicas decorrentes da pandemia, pessoas que habitualmente não usavam os cuidados de saúde primários passaram a utilizar. Eram muitos não frequentadores que passaram a utilizar os cuidados de saúde decorrentes da crise econômica associada.
Associada. Mas isso, Paula, foi no início da chegada da pandemia. Nesta altura, em que, apesar de tudo, respiramos um pouco mais de alívio, os centros de saúde estão a conseguir voltar a abrir as portas aos utentes para consultas presenciais, por exemplo?
É assim, nós sempre tivemos consultas presenciais, isto é, desde o início da pandemia que foram definidas prioridades. A saúde infantil, sobretudo naquelas idades-chave coincidentes com o plano de vacinação, a saúde materna, os dependentes, as pessoas dependentes com a visitação domiciliária e a resposta à doença aguda foi sempre presencial durante todo o período pandêmico. O que ficou um pouco de fora foi a vigilância de doenças crônicas e essas foram as privilegiadas nos contatos telefônicos ou na resolução de problemas que não requeriam a presença dos doentes. Neste momento, a retoma está um pouco alterada, porque se alterou tanto o padrão do modo de fazermos consulta, como as outras atividades que foram alocadas aos médicos de família, como se os médicos de família não tivessem um perfil profissional específico, num modelo mais biopsicossocial.
Como assim? O que os médicos de família estão a fazer agora que não faziam?
Os médicos de família estão a fazer agora, que não faziam, são as tarefas ligadas à vigilância da Covid, dos 95% dos doentes que permanecem em casa, que são os doentes menos graves. Portanto, a comunicação social publicou os casos graves, mas os 95% da população que tem a doença ligeira é vigiada pelos médicos de família. Tivemos que organizar os cuidados e diferenciar para nos protegermos e protegermos os doentes e foram criadas nos cuidados de saúde primários umas unidades que são as de atendimento à doença respiratória na comunidade, que são os ADRs, que mobilizam médicos de família para essa atividade. Agora os centros de vacinação Covid, que mobilizam enfermeiros e médicos de família e o ADR e o Trace também mobilizaram todos os profissionais de saúde, a ponto que, por exemplo, os psicólogos, os fisioterapeutas, todas as outras profissões de saúde foram alocadas à vigilância epidemiológica da Covid. Durante muito tempo, as outras profissões de saúde deixaram de existir, foram todas alocadas aos cuidados de saúde. Depois, como não tínhamos as consultas presenciais, porque nunca nos foram dadas condições logísticas, um simples atendedor de chamadas que podia orientar os doentes e que diminuía alguma da sua ansiedade, passamos a ser sobrecarregados por e-mails, que não têm forma de desligar. O e-mail tornou-se uma forma de comunicação com os cuidados de saúde primários, sete dias por semana, 24 horas por dia, e creio que neste momento a grande sobrecarga da atividade tem a ver como é que nós conciliamos uma outra forma de fazer consultas por telefone, por e-mail, com as consultas presenciais e com as outras todas as atividades que não tínhamos antes. E isto está a ser muito difícil para a retoma.
Isto quer dizer, Paula Bruer, que a relação entre médico e paciente mudou com a pandemia?
Mudou. Se calhar a relação talvez não tenha mudado se havia relação antes. O que sentimos é que nós, médicos, adquirimos umas outras competências que não tínhamos antes, que era como é que nós estabelecemos uma relação médico-doente através de um telefone. E eu creio que isso é possível, porque adquirimos, de facto, outras competências e, por exemplo, na vigilância Covid, eu pensei assim: "O que nós ao telefone vamos fazer a estes doentes?" E adquirimos competências auditivas que não tínhamos. Eu vou dar um exemplo: os doentes no início da sua doença têm um timbre de voz, uma forma de falar mais rápida. Quando nós vigiamos em continuidade, conseguimos perceber a gravidade da doença até por a velocidade com que conversam. Portanto, nós médicos adquirimos outras competências que não tínhamos antes. Eu, por exemplo, testava falar ao telefone e agora acho que já consigo fazê-lo bem. E os utentes também adquiriram outras competências. Nós vimos pela forma como nos escrevem os e-mails, que se tornou muito mais acessível, independentemente do estrato social. Pessoas simples ou arranjam familiares que mandem e-mails, conseguem comunicar. Isto é um ganho de comunicação e de acessibilidade que antes não tínhamos. E os doentes aprenderam também, uns mais, outros menos, a gerir as suas necessidades terapêuticas, os medicamentos que necessitam para nos pedir. Aprenderam também os doentes o autocuidado. E aqui, voltando ao trace, o autorreport, que são áreas que nós nunca exploramos da competência dos doentes, que é a sua capacidade de se autovigiarem e de se autocuidarem. Isso é um ganho que me parece que a pandemia trouxe a valorização de outras competências também dos doentes.
Ia perguntar-lhe precisamente isso, Paula Bruer. Estamos quase sempre a ouvir dizer que as crises são oportunidades. Houve aqui mudanças que podem trazer uma vantagem quando a pandemia passar. É verdade, neste caso, que isso pode acontecer?
Eu tenho a certeza que sim. Se calhar alguns dos doentes não gostarão de ter consultas não presenciais, mas esta forma de comunicar é, por exemplo, para pessoas que estão em teletrabalho, o não se deslocarem aos cuidadores, é a forma que criou um espaço e que eu creio que não retorna. Para nós foi estas competências que adquirimos e foram de facto oportunidades que não teríamos tido sem a pandemia.
Falou que há uma maior atenção ao autocuidado. Nota diferenças também de comportamentos, mais cuidados em relação à utilização da máscara, por exemplo. Nota que aprendemos alguma coisa nesse sentido desde que a pandemia chegou a Portugal?
Isso eu não sei se tenho essa percepção. Eu creio que o uso da máscara tem a ver com a mudança de comportamentos e, de facto, nós todos, e não é por ser médica, percebemos que, no geral, as pessoas usam a máscara e isso mudou comportamentos. Não sei se é aplicável a todo o tipo de comportamentos. Isso não lhe consigo dizer.
São dois níveis diferentes, estarmos atentos aos nossos sinais e aos sinais do nosso corpo e depois em sociedade podemos não interiorizar tanto isto. Sónia Dias, percebemos que houve aqui uma necessidade de se adaptar a capacidade de resposta dos centros de saúde. O que é que vai ficar disto tudo? Na primeira parte deu dois exemplos desse esforço de dar resposta a todas as necessidades e às necessidades diferentes que foram entretanto surgindo. Como é que vamos sair daqui?
Tentar um pouco, como a Paula também referia, que as exigências que a própria pandemia colocou e as mudanças que foram sendo introduzidas possam de facto ser oportunidades para reorganizar de alguma maneira os serviços e as respostas que vão sendo necessárias adequar. De facto, e agora até fazendo um pouco a ligação com a parte mais socioeconómica e dos determinantes sociais, de facto, provavelmente a pandemia vai trazer aqui necessidades em saúde que não seriam tão realçadas ou que não estariam tão realçadas antes da própria pandemia. E, portanto, vai ser necessário essa adaptação, e já não estou a falar aqui tanto na questão mais logística de provavelmente de consultas à distância ou uma maior comunicação que não seja necessariamente só a comunicação física, como muitas das vezes tinha que acontecer antes. E, portanto, nesse sentido, acho que há aqui um espaço muito interessante para novas reorganizações e nomeadamente, e isso estamos a ver, e é impressionante, a capacidade que as pessoas e que a própria pandemia está a trazer nas questões da literacia em saúde, da preocupação com a gestão da sua saúde. E isso é muito interessante ver que não está só a acontecer em grupos em que naturalmente já acontece, com maior nível educacional ou níveis socioeconómicos mais elevados, mas está a acontecer do ponto de vista mais transversal. E, portanto, aqueles grupos que à partida estariam, de alguma forma, um pouco mais desiguais, acabam por estar a conseguir também chegar a esse nível. E, portanto, a questão da gestão da sua saúde e da centralização do cidadão no seu processo e na sua gestão de saúde, eu acho que é um aspeto muito importante e de realçar.
É um ganho. Pedro Pita Barros, deixa-me voltar à questão da oportunidade para a mudança. Este pode ser o momento para os cuidados de saúde primários se aproximarem mais dos utentes? É porque já era um problema antes da pandemia. Em urgência, as pessoas tendiam a recorrer aos hospitais. Pode haver uma nova relação com os centros de saúde e as unidades de saúde familiares?
No sentido das pessoas voltarem a pensar duas vezes agora antes de ir a uma urgência hospitalar, contactar o centro de saúde da área ou o USF, julgo que sim, julgo que está a mudar de alguma forma esse pensamento das pessoas, mas também a facilidade com que agora as pessoas usam, seja do lado dos médicos, seja do lado dos cidadãos, novas formas de comunicação vão também ajudar a estabelecer essa relação. É muito curioso o que a Paula referiu há pouco. Já agora, saúdo a Paula, que não nos vemos já há bastante tempo, com muita pena minha, é um prazer voltar a tê-la aqui conosco. O terem que usar outros sentidos do que apenas a visão nas consultas. É muito engraçado porque, no fundo, a relação médico-doente, muitas vezes, vários médicos de família me referiram ao longo do tempo que era muito importante, às vezes, a linguagem corporal que as pessoas têm durante as consultas, que lhes dá muita informação, que às vezes as pessoas não estão a falar ainda. Agora, não tendo a parte visual, tiveram que transferir essa sensibilidade para a parte oral e, portanto, transformar o próprio telefone numa extensão de um sentido, que neste caso é a audição, que antes se calhar não estava tão apurado. E, portanto, é provável que nós agora consigamos ter novas aberturas das pessoas e de ambos os lados para novas formas de relacionamento. Eu creio que aí é muito interessante pensar que isso possa acontecer. É também uma confiança retomada, porque eu acho que neste momento se começa a ter a noção clara de que existe um trabalho muito invisível dos cuidados de saúde primários. Nós aqui já temos várias vezes ao longo do nosso programa referido essa situação de haver 95% dos casos ou mais, nalgumas situações, de pessoas que são seguidas com Covid-19 aí e não nos hospitais, mesmo que não apareça. Agora, os desafios para a frente, também vai ser interessante perceber como é que os próprios centros de saúde se vão ajustar, nomeadamente às questões de ansiedade. Curiosamente, ansiedade é uma coisa diferente de depressão, pelo que já me explicaram e a Paula poderá confirmar, e parece haver muito mais problemas de ansiedade do que propriamente de depressão, o que também pode ser uma parte devida à capacidade dos centros de saúde, os médicos de família, acomodarem e receberem as pessoas, ouvirem-nas e manterem de alguma forma sob controle esta própria ansiedade.
Paula Bruer, última pergunta, nos minutos finais: saímos daqui mais capacitados para responder a eventuais novas crises, a uma nova vaga da pandemia, que não queremos, mas que ainda não saiu do nosso mapa de risco?
Eu não sei se saímos, porque nós já começamos um bocadinho mal. Em termos de recursos humanos e logísticos, nós começamos mal a pandemia. Eu que trabalho numa unidade de cuidados de saúde profissionalizados, que tinha a utopia de acabar com as iniquidades em saúde e preservar a justiça social, neste momento estamos ainda pior que antes, porque colegas se reformaram, colegas adoeceram e não nos foi dado nem mais recursos e, por isso, estamos a ver com alguma dificuldade como é que nós ainda conseguimos fazer mais. Não sei se uma nova pandemia ou um pico epidémico como foi em janeiro, se na minha unidade nós nos conseguimos organizar, tendo a veleidade de tentar cuidar de mais 10 mil utentes sem médico, sem capacidade. Portanto, aqui eu creio que deveria haver mais investimento nos cuidados de saúde primários, um envolvimento do contexto, mesmo no próprio planeamento do que se pede aos cuidados de saúde primários. Um exemplo concreto, que é os centros de vacinação. Nós, que já temos escassez de recursos, ainda temos que mobilizar médicos e enfermeiros para os centros de vacinação. Por exemplo, a parte médica, há de haver outros médicos com competências até melhores que as nossas para estarem nos centros de vacinação e é um recurso dos cuidados de saúde primários que é alocado para mais uma tarefa.
Paula Bruer, deu-nos mais uma razão para desejarmos que não haja uma nova vaga da pandemia. Peço desculpa de interromper. Chegamos mesmo ao fim.
Temos que envolver o contexto no planeamento do que se pretende para a pandemia.
Paula Bruer, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise. Foi importantíssimo ver como é que os centros de saúde estão a responder às enormes necessidades que ainda são pedidas. Sónia Dias, Pedro Pita Barros, obrigada também. Temos um novo encontro marcado para daqui a uma semana. E já falámos do regresso às esplanadas, ou melhor, da corrida às esplanadas, e já surgiram algumas preocupações sobre o comportamento dos portugueses à mesa do café ou do restaurante. Ficamos, por isso, com as recomendações do primeiro-ministro. Não é bem uma regra de etiqueta, é mais uma regra de máscara. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, a sonoplastia é do Bernardo Almeida. Boa tarde e até para a semana.
Quando vão à esplanada, obviamente quando pegam na sua chávena para tomar o café, é natural que tirem a máscara para tomar o seu café. Mas depois de tomar o café, e se permanecerem na esplanada a conviver e a conversar, podem-no fazer, mas devem-no fazer com máscara.