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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. É a altura da análise semanal à pandemia numa parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. A Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, e o Pedro Pita Barros, professor de Economia da Nova SBE, já estão a postos para a reunião da semana. Na segunda parte, vamos falar de saúde mental, com mais um ano de incertezas, angústias, falta de contato social e uma grave crise econômica, como poderemos sair daqui com menor sofrimento? É o que vamos ver com o bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues. Mas para já, o número da semana. É com este número que partimos para o balanço dos últimos dias. Sónia, boa tarde. Que número escolheu?

Boa tarde, Carla. Escolhi o número 25, 25%, e que diz respeito aos inquiridos que ao longo da última quinzena se sentiram agitados, ansiosos ou tristes devido ao distanciamento social, e que são dados do Barômetro Covid-19 da Opinião Social da Escola Nacional de Saúde Pública. E estes dados têm vindo constantemente a chamar a atenção para os impactos que a pandemia tem na saúde mental dos portugueses, não só por causa da ansiedade e dos receios de infecção propriamente dita, mas também por causa das significativas alterações nas nossas vidas. E assim diria talvez que apesar desta ser uma questão quase transversal a todos, verifica-se que as fragilidades na saúde mental traduzem no fundo motivos diferentes e em diferentes grupos. Por exemplo, os números que reportam mal-estar mental em jovens é muito significativo. Aliás, numa outra análise que fizemos, encontrámos que 25% dos jovens entre os 16 e os 25 anos reportaram ter iniciado a toma de medicamentos ansiolíticos ou antidepressivos durante a pandemia. Portanto, é um valor significativo e importante. Por outro lado, também vimos que outro grupo vulnerável está associado a perdas no rendimento, à insegurança relativamente à atividade profissional, ou até, em alguns casos, à associação com o desemprego. Ou quem esteve em teletrabalho, tendo a seu cargo conciliar também o cuidar dos filhos pequenos, muitas das vezes com escola à distância, e aqui com uma fragilidade muito maior nas mulheres. Ou o burnout dos profissionais de saúde que estiveram na linha de frente da Covid. Ou ainda os grupos mais vulneráveis à Covid e com mais idade, que sofreram longos períodos de isolamento e que se viram afastados dos seus familiares mais próximos. Ou ainda aqueles que diretamente foram afetados pelas perdas associadas à Covid. E toda esta evidência, o que tem vindo a mostrar é que também nos momentos de crise como os que estamos a viver, há um exacerbar das situações prévias de doença mental e também ainda mais aumentado com o afastamento destas pessoas das unidades de cuidados de saúde onde habitualmente já eram seguidos. Diria eu que não querendo iniciar o programa a criar um quadro negro na área da saúde mental ou das necessidades, parece-me crucial ter em conta verdadeiramente o impacto que a Covid poderá ter na saúde mental da sociedade em geral, a curto prazo, mas mais importante, talvez diria, a médio prazo. E aqui realçaria as necessidades de olhar para os diferentes grupos e as diferentes necessidades, não só na questão mais da doença mental, mas também na questão da promoção da saúde mental. E aqui, sendo o tema da segunda parte do nosso programa, deixava de facto uma nota para enaltecer o extraordinário trabalho que, na minha opinião, a Ordem dos Psicólogos tem realizado nesta área, nomeadamente nas questões da promoção e da manutenção da saúde mental e nesta vertente mais holística, integrada e também de forma muito inovadora.

E que bom, vamos ter a oportunidade de estar com o bastonário da Ordem dos Psicólogos para falar um pouco mais sobre isto, Sónia. Pedro, vamos então agora ao seu número.

O meu número desta semana é o número três. E é o número três por estarmos a começar a terceira fase de reabertura progressiva da sociedade e de estarmos também a usar três ritmos para essa reabertura. Há o passo à frente, o ficar na mesma e o passo atrás. E eu escolhi este número porque nós temos uma grande incerteza e neste momento não sabemos bem ao que vamos. É uma incerteza que resulta da combinação da evolução da vacinação, que deixa uns grupos mais descansados, mas também é uma incerteza associada com os riscos da pandemia, que provavelmente também aflige mais quem tem que se deslocar e que se reflete inevitavelmente na saúde mental. Completando a informação que agora a Sónia estava a dar, num outro inquérito que nós fizemos em março deste ano a cerca de mil pessoas, e em que nos focámos nas pessoas com mais de 40 anos. Duas em cada três pessoas, dos 40 aos 49 anos, dizia sentir ansiedade. E um terço mencionava depressão. Nas pessoas com mais de 60 anos, neste mesmo grupo que nós inquirimos, cerca de metade dizia ter ansiedade e uma em cada cinco falava em depressão. Nós temos, provavelmente, na saúde mental, estas distinções entre ansiedade e depressão, em que a ansiedade está muito mais presente do que a depressão, mas que não é necessariamente nas pessoas mais idosas. Neste momento, temos na faixa dos 40 aos 49 anos, muito mais pessoas ansiosas e a sentir depressão do que na faixa de idades mais avançadas. Claro que isto não são diagnósticos clínicos, isto são percepções das pessoas, mas podem estar a dar uma ideia de quais os grupos que estão a ser mais afetados. E aqui nós também não temos os mais jovens, como a Sónia tinha no inquérito dela. Mas significa que se calhar na saúde mental, que tem nuances Que nós vamos precisar agora de começar a perceber melhor e de começar a agir melhor sobre cada uma destas nuances.

Aqui fica também esta reflexão. Vamos desenvolvê-la na segunda parte. Para já, este número três do Pedro acaba por marcar a semana, com vários autarcas a criticar os critérios de incidência da Covid-19 nos conselhos mais pequenos. De resto, durante esta semana houve mais uma reunião no Infarmed e muitas outras sobre a questão, mais uma vez, da segurança de algumas vacinas. Sónia, o que é que retira desta semana? O que é que lhe merece maior análise agora?

Sim, não podemos deixar, de facto, de falar da questão da terceira fase do desconfinamento e aqui o número que o Pedro escolheu acaba por caracterizar um pouco o que irá acontecer. Penso que foi importante continuar com o alinhamento para esta abertura gradual que tinha sido já definido. A ideia de que provavelmente temos pouco tempo e, portanto, por isso os especialistas também pediram alguma cautela, era uma ideia que nós já sabíamos. Sabíamos que o calendário que tinha sido definido inicialmente era um equilíbrio difícil entre a monitorização da situação epidemiológica, mas também as necessidades em termos das questões económicas, das necessidades sociais e, portanto, logo à partida, o calendário implicaria algum risco. Relativamente aos dados atuais, parecem-nos indicar que podemos avançar com muita cautela. Temos esta questão da utilização de indicadores que, na verdade, face à situação pandémica, que é sempre muito complexa, levanta verdadeiramente questões e nunca consegue responder a todas as especificidades e a questão dos pequenos conselhos e do impacto que os pequenos números podem ter na sua situação é importante e eventualmente levará à necessidade de afinar alguns critérios. Até me lembro aqui do que aconteceu a Portugal em determinado momento, que tínhamos quase toda a região com números muito baixos de incidência, mas apenas a situação difícil de Lisboa e Vale do Tejo levou a que não cumpríssemos os critérios europeus e que Portugal fosse incluído nas listas dos países com restrições de viagens e até prejudicou bastante algumas regiões em determinado momento. Portanto, estes critérios são muito úteis, na minha opinião, são claros, objetivos, são ferramentas para se trabalhar, mas que acabam por não cumprir todas as especificidades. Por outro lado, esta situação mostra, eventualmente, dois aspectos que eu realçaria. Por um lado, a questão de como de facto é importante o comportamento de cada um de nós e este comportamento, para além de ser importante para o próprio, ele acaba por ter influência em todos. E aqui reforçando a importância de continuarmos a seguir ao máximo as regras de recolhimento e de higiene, que já muito bem conhecemos. Mas também penso que é importante que não se incida numa estratégia de culpabilização das regiões que apresentam maiores dificuldades. Diria até, pelo contrário, que a tónica deveria ser de trabalhar em parceria, de reforçar os recursos e as respostas nessas regiões para que as situações possam ser facilmente resolvidas, até porque sabemos que estas questões não são estanques e provavelmente, se há algum problema numa região, provavelmente isso vai ter depois impacto em outras. E, portanto, só diria aqui também, como realçamos a semana passada, que haverá também aqui o maior teste. No fundo, há necessidade de assegurar que todos os recursos para quebrar as cadeias de transmissão, que vão ser agora cada vez mais ativas, sejam de facto eficazes. Portanto, diria que vamos entrar no momento e com esta fase de desconfinamento percebemos isso claramente, de corresponsabilização de todos os intervenientes nesta luta contra a pandemia.

Aqui fica a ideia de que vamos entrar no momento do grande teste e da corresponsabilização. Será, Pedro, que é por aí que passam as palavras-chave desta semana para si?

Quase, é perto.

É por aí.

Mas antes de entrar na palavra-chave, só faço aqui uma analogia com o que acontecia há um ano atrás, quando saímos do primeiro confinamento. A nossa primeira fase de confinamento em maio de 2020. E quando comparamos os números de agora com o que tínhamos nessa altura, é muito curioso, porque nós temos hoje em dia mais casos novos em média por semana do que tínhamos na altura. Estamos quase com o dobro do que havia nessa altura, mas quando olhamos para os óbitos e para os internados em UCI, estamos ao mesmo nível, ou melhor, do que estávamos nessa altura e temos menos internados em geral do que tínhamos nessa altura. E, portanto, mesmo quando queremos comparar as situações e perceber qual é o risco que nós estamos aqui a ter, não é muito diferente, se calhar, daquilo que estava nessa altura, porque agora já aprendemos muitas coisas sobre como o processo pode decorrer e já temos, sobretudo, uma situação nova, que é a vacina a ser administrada. E nas últimas duas semanas, nós tivemos que o crescimento de novos casos não tem sido, sobretudo, nas idades acima dos 70 anos, tem sido abaixo. E as acima dos 70 eram aquelas que apresentavam maior mortalidade associada com a Covid. E, portanto, temos aqui também a vantagem daquela estratégia de vacinar. Ora, qual é a minha palavra-chave desta semana? O que é que eu escolhi como palavra-chave desta semana? A palavra risco. E é uma palavra risco que nós estamos a dar um salto de confiança, a arriscar, baseado na evolução destes casos mais recentes e da evolução favorável que têm tido os indicadores e a diminuição dos casos mais graves E também, ainda por acaso é curioso o que a Sónia referiu, não temos em Lisboa, desta vez, nenhuma situação crítica como acabamos por ter o ano passado. Lisboa está a evoluir, continua a manter um decréscimo, portanto está a evoluir no sentido favorável face ao que foi o passado. Agora, por que a palavra risco é aqui apropriada? Não é só por nós estarmos a arriscar, mas estamos a tomar, de certa forma, um risco otimista de seguir para a fase seguinte, porque temos os indicadores no fio da navalha. Não são maus, mas não são espetaculares. É também um risco calculado, que não deixa de estar presente e estamos à espera que as escolas, as universidades, a restauração, a cultura e o entretenimento, os centros comerciais, tudo o que esteja agora a abrir mais, se tenha preparado durante o último mês para este novo processo. Eu também creio que é um risco desejado por grande parte da população. E aqui, como Sónia dizia, esperemos que as precauções que cada um de nós tem que ter se mantenham ao nível que é necessário para manter a pandemia controlada. Mas creio que é desejado porque já se notava uma crescente pressão sobre a saúde mental de cada pessoa e sobre a própria vontade para conseguir manter este esforço. Eu julgo que é um dos temas que será interessante retomarmos depois. É também um risco, mesmo assim controlado, controlado na população idosa mais vulnerável. Dado o nível de vacinação que já conseguimos nesse grupo da população, e logo que temos alguma proteção, temos de alguma forma algum controle nesse aspecto. Também está mais controlado, porque eu tenho a sensação que estamos com maior esforço de testes ou uma maior facilidade de testes e de rastreamento dos contactos. A possibilidade das pessoas também fazerem testes individuais, se quiserem, comprando numa grande superfície ou comprando numa farmácia, permite também uma participação das pessoas na própria estratégia de controlar a pandemia, tentando saber o mais depressa possível se estão ou não infetados. Portanto, nós temos aqui o tomar de um risco, não deixa de ser um risco, e não podemos afastar a possibilidade de ter que recuar aos primeiros sinais de que começa a correr mal. Mas eu acho que é um risco otimista, controlado, de alguma forma desejado. Vamos ver como é que nós o conseguimos ultrapassar.

É um risco e é o desafio que provavelmente, como diz o Pedro, todos nós queremos passar por ele nesta altura. Vamos aproveitar os últimos minutos antes do intervalo para os mitos e alertas. São chamadas de atenção para deixar aqui bem sublinhadas. Sónia, há uma relação entre a Covid-19 e a perturbação mental?

Exato, esse é o meu alerta desta semana, que se mantém nas questões mentais. E portanto, que realmente começa a surgir cada vez mais evidência, e evidência mais robusta, que relaciona a infeção com a perturbação mental. E houve então um estudo, por exemplo, na "Lancet Psychiatric", que reportou que doentes sem história psiquiátrica anterior, a infeção Covid foi associada ao aumento da incidência de um primeiro diagnóstico psiquiátrico até aos 90 dias seguintes, e com maior significância nas questões da ansiedade, insônia e até demência. E depois também, em linha, outro estudo mostrou, por exemplo, que 22,5% dos pacientes com Covid-19 tiveram diagnóstico neuropsiquiátrico concomitante. E, portanto, apesar dos efeitos da Covid, também ao nível das perturbações neurológicas ou psiquiátricas, ainda serem pouco conhecidos, penso que há sinais que começam a sinalizar a necessidade de os serviços de saúde nesta área estarem atentos a estas potenciais associações e ao impacto um pouco mais a longo prazo que a infeção Covid pode trazer.

E vamos ver se há, de facto, essa sensibilização e essa atenção dos serviços de saúde. Pode ser matéria também para a nossa conversa na segunda parte do gabinete de crise. Para já temos um mito escolhido pelo Pedro. E afinal, Pedro, as pessoas já vacinadas não vão ter Covid, é assim?

Não. E esse é talvez o mito ou alerta, como quisermos pôr de uma forma mais ou menos positiva, que apesar de as pessoas estarem vacinadas, existe sempre um pequeno risco de contrair a Covid. Isto é, há sempre uma pequena percentagem que poderá ter a doença. Nós sabemos que a vacina é eficaz em 95%, significa que há ali uns 5% que poderão vir a ter Covid, ou se for em 90%, haverá uns 10% que pode ter Covid. E o que nós sabemos é que mesmo que as pessoas tenham a Covid, o risco de ter uma situação muito grave passou a ser muito excecional, passou a ser muito mais pequeno. E aqui há a distinção entre apanhar a doença e ter uma sequela grave ou ter uma consequência grave ou mesmo fatal da doença. Isso é muito mais diminuído do que apenas ter a doença. Ora, por que é importante? Se as pessoas acharem que têm risco zero, a cada situação que seja conhecida, de que existe uma pessoa que foi vacinada e que afinal também tem Covid, vai se criar uma dúvida sobre a própria vacina. O que não faz sentido, porque a própria vacina tem esse pequeno risco de 5% a 10%. E nós podemos começar a passar de estados de absoluta confiança na vacina para estados de absoluta desconfiança na vacina. Nós temos visto que nas últimas semanas, a racionalidade e a emoção sobre as vacinas nem sempre andam juntas. E a discussão à volta dos coágulos e das vacinas ilustra isso bem. Segundo algumas fontes, parece que o perigo de morrer devido a um coágulo que se possa ter não tomando a vacina, até porque se pode contrair a Covid-19, que também pode provocar esse problema, é muito maior do que tomando a vacina. Portanto, só com o mesmo problema, até é melhor tomar a vacina do que não tomar. E portanto, a ligação entre a saúde mental, as confusões, eventualmente exageradas, sobre as vacinas e os coágulos, e sobre outras situações que venham a ocorrer, acho que são um tema que nós teremos que pensar no futuro, e se pode as pessoas terem consciência que a vacina diminui muito o risco, não elimina completamente, elimina quase completamente a sequência grave.

E por isso há as tais regras que foram lembradas aqui pela Sónia devem continuar a ser mantidas independentemente de quem está ou não vacinado. Ficamos com estes alertas da semana. A vacinação contra a Covid-19 não é uma armadura invencível, embora ajude muito, e temos de estar preparados na área da saúde mental para todas as dimensões da doença. Fazemos agora uma pausa. Estamos de regresso com o Bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, e também vamos estar com as notas de esperança. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise, em que analisamos a evolução da pandemia em Portugal com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros. O nosso convidado esta semana é o Bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues. Já vamos discutir o atual estado da saúde mental dos portugueses e perceber quais os caminhos para a recuperação, mas antes as notas de esperança. Pode haver sempre um lado positivo e é este o exercício no arranque da segunda parte do Gabinete de Crise. Pedro, qual é a sua nota de esperança?

A minha nota de esperança decorre de terem saído as novas normas para os lares. É uma nota de esperança para as pessoas que se encontram nessas estruturas, que lhes vai permitir retomar alguma normalidade com mais facilidade. Isso creio que só lhes poderá ser favorável do ponto de vista da saúde mental. É também uma nota de esperança, ou pelo menos um pedido, digamos assim, para que de futuro a Direção-Geral de Saúde pense e disponibilize estas normas por antecipação e não por reação. Por exemplo, neste caso de idosos e dos lares, no momento em que se iniciou a vacinação das pessoas nessas estruturas, seja de residentes, seja de funcionários, deveria ter sido logo imediatamente publicada a nova orientação. E sempre que for preciso rever orientações, seria provavelmente bom para a saúde mental de todos, que seja feito antecipadamente. É uma nota de esperança, porque permite pensar que essas pessoas idosas vão agora ter um caminho mais fácil para retomar alguma normalidade. E é uma nota de esperança para pensar que a Direção-Geral de Saúde poderá começar a trabalhar por antecipação e não apenas por reação na revisão destas orientações.

Fica essa nota. E a Sónia, o que escolheu?

A minha nota de esperança vai um pouco, eventualmente, para o outro lado, como o Pedro dizia, mais otimista da palavra risco associada à terceira fase de desconfinamento. E de facto, depois de 15 dias após a Páscoa, e embora o tempo para avaliarmos o impacto total ainda seja curto relativamente ao período pascal, não podemos deixar de verificar que pelo menos os números indicam que conseguimos ter alguma contenção ou não dispararam totalmente como se podia temer. E portanto, a minha nota de esperança, na verdade, é a mais expectável e provavelmente o mais comum em todos nós. É que, de facto, se consiga bloquear as cadeias de transmissão, controlando a subida de casos, mesmo agora com o maior desconfinamento a ocorrer, que sejamos todos atentos e rigorosos nas medidas de proteção, apesar da grande fadiga que sentimos, e que o plano de vacinação acelere à medida da chegada das vacinas, e que este seja verdadeiramente o princípio da retoma de alguma normalidade, embora, na verdade, é importante também termos consciência de que não poderemos ter ainda a vida como a conhecíamos antes da pandemia.

São muitas notas de esperança ao mesmo tempo, Sónia, mas acho que estamos todos consigo e de alguma forma lança o tema desta semana. Ansiedade, angústia, depressão, burnout, são temas que entraram na nossa vida tão depressa quanto a pandemia. Um ano depois, mantêm-se a incerteza e o medo em relação ao futuro, que já percebemos ter um forte impacto em todos os níveis da saúde. Francisco Miranda Rodrigues é o Bastonário da Ordem dos Psicólogos, é o nosso convidado desta semana. Muito bem-vindo, obrigada por estar no Gabinete de Crise.

Obrigado, bom dia.

Francisco Miranda, deixe-me começar precisamente por esta ideia, esta incerteza permanente, a ideia de poder voltar para trás no processo de desconfinamento a todo momento, como de resto aconteceu ontem na comunicação do primeiro-ministro para alguns concelhos. Isto tem um impacto importante na nossa saúde e estabilidade mental?

A incerteza, de uma forma geral, é algo que nos afeta sempre, porque nós procuramos certezas, procuramos a segurança que a certeza nos dá, mas lidamos na nossa vida, mesmo sem a pandemia, com muitas incertezas no nosso dia a dia. A questão é que a pandemia vem trazer um nível de incerteza bastante maior, um nível de incerteza que tem a ver com a nossa segurança física logo à partida, de uma forma que nos faz sentir isso muito mais presente a todo momento. E isso tem um lado negativo, certamente, no que nos faz sentir às vezes de desconforto e até naquilo que pode levar, com o prolongar da situação ou perante vulnerabilidades preexistentes, ou pura e simplesmente conjugado com outros contextos com que cada um tenha que lidar a todo momento, pode levar a outros problemas psicológicos ou mesmo a perturbações. Mas, na verdade, também conseguimos muito mais facilmente adotar comportamentos que porventura são aqueles que são mais adaptativos e necessários para a nossa própria segurança, porque essa incerteza nos faz precisamente ter essas sensações que nos são transmitidas pela tal ansiedade que sentimos, pelo medo, e que também tem esse outro lado de ativação e de preparação para uma ação e para um foco numa ação, que é importante que tenhamos. Ou seja, estas coisas não são tão lineares assim, não são preto e branco, têm esses dois lados também, visivelmente, num contínuo. E portanto, o que nós temos que cada vez mais olhar é para aquilo que são as nossas experiências de vida. Já é de lidar com a incerteza, muitas das vezes. Aceitar que isto é, de facto, desagradável, é desconfortável e que nos cria problemas. E de facto, é verdade, cria problemas a muitos de nós, em momentos diferentes, provavelmente, mas dificilmente alguém passa completamente incólume numa crise com esta dimensão e com o prolongamento no tempo que esta tem. E isso é natural que aconteça.

Mas há alguns de nós mais vulneráveis a este tipo de problemas ao nível da ansiedade, como o Pedro Pita Barros falava na primeira parte do programa, que é diferente da depressão. Há uns de nós que estamos mais expostos a esse risco?

Quer dizer, há uns de nós, naquela ideia de que se nós num determinado momento vivemos, por exemplo, com condições do ponto de vista socioeconômicas que nos expõem a maiores riscos, ou seja, se nós temos forçosamente que trabalhar sem ser em teletrabalho, ou se nós temos que trabalhar em teletrabalho e esse teletrabalho é feito numa habitação pequena ao mesmo tempo que temos os filhos em casa a terem que ter as aulas também a distância, isso cria problemas, desafios com que temos que lidar e isso pode nos tornar mais suscetíveis de dificuldades. Se nós temos perdas de rendimento, sabe-se que existe uma correlação entre essa situação e o aparecimento de alguns problemas psicológicos. Os quadros chamados por alguns autores de escassez do ponto de vista mental, criam condições para mais erros na tomada de decisão e por uma espiral que associada a problemas emocionais que possam existir, criam mais condições para essa situação que dizia. Mas isso não é numa lógica de que há umas pessoas que logo à partida são aquelas pessoas.

Os tais grupos de risco que nos habituamos a falar.

Pode ser eu, pode ser a Sónia, pode ser o Pedro, a qualquer momento, qualquer um de nós, perante determinados episódios de vida que estejamos a passar, podemos sofrer disso. Pessoas que estejam neste momento, ou porque tenham alguma perturbação já pré-existente, ou porque estejam com outro tipo de perdas associadas, já estejam com outros riscos associados, sim, claro que essas pessoas têm aí vulnerabilidades que mais facilmente podem levar ao desencadeamento de problemas psicológicos ou ao agravamento dos já existentes.

Francisco Miranda Rodrigues, há uma consciência efetiva por parte das autoridades de saúde de que esta é uma questão importante e que deve ser abordada com medidas concretas?

A sensação que tenho é que há um crescendo de consciência e de uma perceção e compreensão da importância destes impactos, e de cada vez mais que a saúde física não é a única componente da saúde. E eu acho que isso tem tido avanços consideráveis. Durante a pandemia, a visibilidade que estes impactos passaram a ter também trouxeram transformações. E há algumas coisas muito concretas que demonstram que sim, que existe uma nova forma de olhar para os impactos dentro desta área. Mas, apesar de tudo, talvez ainda não esteja assim tão claro como foi claro a forma como vocês apresentaram toda a situação no início deste programa, que quando nós estamos a falar de saúde mental e nos impactos na saúde mental, não estamos só a falar de doença mental e de perturbações, estamos a falar de outro tipo de problemas também, que não sendo tão graves, são problemas que nos afetam, que nos causam sofrimento, que alteram as nossas condições de vida para pior, que perturbam o nosso desempenho profissional, as nossas relações pessoais e familiares, e que se não forem a tempo e horas, alvo de alguma atenção, nomeadamente para aquelas pessoas que por si só não consigam, seja porque não tinham as competências tão desenvolvidas para serem mais resilientes num determinado momento, seja porque com o passar do tempo, a conjugação desses seus recursos pessoais com o desgaste a que estão sujeitos, a tal fadiga pandémica que temos também referido. A verdade é que muitas mais pessoas vão cada vez mais salientar os impactos e vão também dizer que necessitam de apoio. E, portanto, para isso é preciso respostas que não sejam respostas apenas assentes numa ideia de que quando as pessoas estão doentes, nós precisamos de atuar. Não, não é quando as pessoas estão doentes. Essas estão evidentemente numa situação muitíssimo mais vulnerável e é muito importante, é quase basilar, que o sistema e o Serviço Nacional de Saúde, em particular, deem respostas para estas pessoas. É muito importante, mas é tão importante quanto isso, e do ponto de vista da sustentabilidade, eu diria que é mais importante, que nós atuemos na prevenção e na promoção da saúde. E na promoção da saúde e na prevenção, estamos a falar em atuar ainda antes de existirem problemas, ajudando as pessoas a serem mais resilientes no tal desenvolvimento de competências socioemocionais que permitam que as pessoas sejam cada vez mais resilientes. Mas haverá sempre situações onde nós não conseguimos lidar com tudo o que temos pela frente, com todos os desafios e onde precisamos de apoio. E nesses casos, é preciso que o apoio esteja disponível, sem estar completamente dependente da situação socioeconômica que cada um tem e, portanto, esteja disponível também ao nível do setor público e que tenha o mínimo de barreiras possível também. Portanto, que o acesso seja um acesso disponível e fácil. Nesse sentido, houve um passo importante. A criação do Serviço de Aconselhamento Psicológico da linha SNS 24 foi um passo histórico e nem todos os países possuem esta valência. Não podemos ficar por aí, porque desde o início que todos sabemos que as intervenções possíveis através de uma linha telefónica são intervenções muito breves para algumas situações, nomeadamente ansiedade aguda, e portanto, é preciso muito mais do que isso. O plano de recuperação e resiliência, pelos vistos, vem tentar fazer aquilo que durante anos diversos governos não fizeram com o Plano Nacional de Saúde Mental, que é concretizá-lo, tirá-lo do papel e pô-lo na prática. Isso é uma coisa que é positiva. Agora, continua a não existirem medidas que apontem para a parte mais de proximidade, trabalho preventivo e promoção da saúde. E para isso, nós podemos dar as voltas que quisermos, podemos inventar as coisas que quisermos, podemos salientar os N papéis que todos nós podemos ter nisto, mas se não é possível recorrer com alguma facilidade a uma consulta num centro de saúde, com uma cobertura minimamente nacional, onde possa existir um psicólogo ou uma psicóloga para dar esse apoio, será difícil depois poder fazer mais do que os mínimos dos mínimos neste tipo de trabalho que é necessário. Portanto, eu diria que sim, há mais conscientização, mas é preciso que nas ações políticas se faça mais. Se faça um pouco na linha também do que se está a fazer nas escolas, onde realmente foram dados passos muitíssimo significativos. Não terminou o trabalho, mal começou, mas a verdade é que se deram passos enormes com o reforço de recursos nesta área e que esses passos darão certamente frutos se forem mantidos, se as pessoas, se os psicólogos e psicólogas forem mantidos nas escolas e tiverem condições para fazer o seu trabalho, pois com certeza que isso vai dar frutos no sentido dessa tal prevenção que referíamos e da promoção. Porque actividades de desenvolvimento de competências socioemocionais, um apoio a uma escola mais inclusiva, que seja capaz de personalizar cada vez mais os processos de aprendizagem, vai se ver depois também no futuro, em cidadãos mais resilientes, mais capazes de dar o seu contributo à economia e à sociedade e, portanto, para um país com mais bem-estar e mais coeso, certamente.

E portanto, já se fez alguma coisa, mas é preciso investir ainda mais. E falou aqui no trabalho que deve ser feito a montante. Sónia Dias, há essa valorização séria da questão da saúde mental.

Pois, aqui concordo completamente que estamos ainda num caminho a ter que, no fundo, desenvolver. De facto, concordo completamente que a pandemia veio desbravar algum terreno e de uma forma mais rápida, relativamente às questões, por exemplo, ainda de algum tabu a conversar sobre estas questões da saúde mental, do estigma e da discriminação, que muitas das vezes existe. E até quase, diria eu, da percepção individual que muitas das vezes associamos a uma maior vulnerabilidade ou uma fraqueza. Portanto, há aqui uma série de mitos, muitas vezes associados à saúde mental, que de alguma maneira a pandemia veio acelerar nessa redução. Mas eu achei muito interessante, e talvez colocasse a tónica nesta questão, que é: se por um lado, há de facto todo este impacto na área da saúde mental e, portanto, aumentaram as necessidades. Se por outro lado, também há, no fundo, diria eu, quase um aumento da própria consciência individual das necessidades e do possível mal-estar individual, é necessário também que se aproveite e se adeque a oferta existente. E aqui, nomeadamente, nas questões dos cuidados de saúde primários e da capacidade de depois dar resposta a estas necessidades que cada uma das pessoas pode vir a sentir e a solicitar. Portanto, há aqui de facto vários desafios, não tanto só na questão da doença mental, como era referido, mas fundamentalmente na promoção da saúde mental e no lidar, até diria eu, a curto prazo, com todos estes impactos e que nós vimos que são muito diferentes, que são de especificidades diferentes. E, portanto, provavelmente é preciso adequar a oferta, porque as necessidades vão ser maiores nos próximos tempos.

Pedro Pita Barros, estamos de facto atentos aos riscos de uma sociedade mais doente, também a nível mental?

Creio que vamos nesse sentido. Estou agora pensando aqui, como eu amo o lado mais economista, dois lados: o lado da procura, que é as pessoas reconhecerem e procurarem apoio, mas temos também o lado da oferta, que é como é que se disponibiliza esse apoio, como é que se faz, como é que depois alguém paga essas procuras de apoio. E não sei se nesta última parte, nós estamos a dar os passos necessários e relevantes para satisfazer depois as necessidades que a população venha a ter. E eu acho que nós temos aqui que pensar como é que o todo se organiza. E se calhar não é só dizer que as pessoas vão procurar mais, é pensar como é que o outro lado tem capacidade de responder em termos técnicos, por um lado, e depois em termos financeiros, também. Também me choca que é um caminho novo, com novos desafios. Por exemplo, neste momento, entre as pessoas que estão vacinadas e as que não estão vacinadas, será que nós sabemos qual é a melhor forma de lidar com esta distinção? É permitir diferenças, por exemplo, permitir que quem esteja vacinado vá a um espetáculo de teatro, mas quem não esteja, não vá. Será que estamos preparados para fazer isso também, ou devemos manter tudo mais restrito até termos todos ou quase todos vacinados? O que a saúde mental nos diz sobre isto? Poderemos ter pessoas a querer passar por estarem vacinadas, mesmo não estando ainda vacinadas. Que problemas é que nós também podemos vir a ter pela própria resposta geral à pandemia, implicar divisões que nós antes não tínhamos tão aparentes dentro da nossa sociedade. Eu creio que tudo isto nos cria desafios do lado da procura, em que as pessoas reconhecerem e procurarem apoio é uma parte, mas nós temos outras partes importantes de novos desafios que surgem em termos de necessidades e como fazer, como pagar e como colocar, no fundo, o sistema a funcionar para dar resposta.

Francisco Miranda Rodrigues, muitas perguntas que o Pedro lança. Não vamos ter tempo para elas, mas a pergunta final, e estamos mesmo no último minuto, é: como é que podemos sair disto tudo melhor?

Já foi aqui apontado, mais investimento vai ser necessário. Não me parece que haja grande volta a dar, mas se nós queremos as pessoas preparadas para recuperarmos o país e para colocarmos as coisas cada vez a andar, e o mais rapidamente possível, no caminho que eu também há bocadinho salientava, desenvolvimento económico e de coesão social, não há outra forma. Sem pessoas em condições para o fazer, vai demorar muito mais tempo, vai custar muito mais dinheiro e portanto estamos a falar de investimento e era bom que no governo passasse a haver, não é no Ministério da Saúde necessariamente, é no governo, passasse a haver muito mais a consciência de que estamos a falar de investimento, não estamos a falar pura e simplesmente de uma despesa infindável. E portanto, esta aposta tem que ser feita tendo isso em conta e evitar que aconteça o que está a acontecer neste momento, porque é o que está a acontecer. Se eu tiver um problema, necessitar de apoio, o que eu vou ter é que esperar, e vou ter que esperar muitos meses, para não dizer, em alguns casos, ter que esperar alguns anos para ter uma consulta com um psicólogo, se não tiver outros meios no privado. É preciso que os seguros de saúde também façam a sua parte. Não estão de todo ainda a fazer a sua parte. E se o privado quer ter um papel, os seguros de saúde também vão ter que apostar mais nesta área e retirar barreiras, porque não faz sentido, por exemplo, para ter consultas de psicologia, se tenha que passar por uma prescrição médica. Ir a um psicólogo não é ir fazer um raio-X e, portanto, é uma coisa perfeitamente ultrapassada e felizmente, já sabemos ao dia de hoje que a ADSE parece ter decidido resolver de uma vez por todas essa situação e, por exemplo, o acesso às consultas de psicologia comparticipadas pela ADSE vão deixar de exigir necessariamente uma prescrição médica. E isso também é uma coisa boa para aumentarmos o acesso. Mas há muito, de facto, para fazer e encontrar modelos também para financiar, porque há muito investimento para fazer. E no que diz respeito a psicólogos para os centros de saúde, para os cuidados de saúde primários, está mesmo praticamente ainda tudo por fazer. Há muito pouco feito até agora e isso é imprescindível e urgente que aconteça para que a população possa ter o apoio que necessita. Sem isso, vai ser muitíssimo mais difícil. E já agora, uma nota final: empresas.

Mesmo a terminar.

As empresas estão a começar a apostar. É preciso que apostem de forma bem pensada e racional neste aspeto, não com medidas avulsas, não a despejar simplesmente dinheiro para as coisas, mas com medidas que comecem nas práticas de gestão, nas lideranças e com uma boa avaliação e planos de prevenção dos riscos psicossociais.

Francisco Miranda Rodrigues, vamos ter de o convidar mais uma vez para cá voltar. Para já, muito obrigada por ter vindo a este gabinete de crise.

Com prazer.

Sónia Dias, Pedro Pita Barros, muito obrigada também. Temos encontro marcado no sítio do costume para a semana. E como precisamos de ânimo, despedimo-nos com a mais recente canção de Mick Jagger. Foi lançada esta semana, de surpresa, e fala da saída do confinamento. A editora diz que é uma canção otimista e é uma verdadeira viagem pelo último ano. O Zoom, o TikTok, o futebol sem público, as bandas sem concertos e até uma crítica aos negacionistas. "Easy Sleazy". Pode ser que não falte muito para ser tocada ao vivo. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, a sonoplastia é do Bernardo Almeida. Até para a semana.