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Bem-vindo ao Gabinete de Crise. Estamos na análise semanal da pandemia, numa parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Como sempre, contamos com a Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, e com o professor de Economia da Nova SBE, Pedro Pita Barros. A pandemia obrigou a um confinamento do corpo e da atividade física, com consequências visíveis que passam não só pelo aumento de peso. Jovens, crianças, adultos e idosos foram afetados com uma dose extra de sedentarismo. É sobre isto que vamos falar na segunda parte do programa, com o professor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana. Mas agora temos dados para analisar. Vamos então aos números da semana. Bem-vindos. Sónia, o que escolheu para esta semana?

Boa tarde, Carla. Escolhi o número 25, de 25% de pessoas que referem que praticaram mais atividade física do que antes da pandemia. E são dados do Barómetro COVID-19, do Opinioncial da Escola Nacional de Saúde Pública. E este é um dado a destacar, pois são assim 25% de pessoas que tiveram a oportunidade, a vontade e até a motivação de se tornarem mais ativas. Se por um lado temos estes números, temos por outro dados que mostram e que vão no sentido daquilo que a Carla falava no princípio do programa, em que cerca de metade das pessoas assumiu que praticou menos atividade física, o que de alguma forma foi previsível, dadas as condições que tivemos durante este ano. E de facto, o sedentarismo é já, diria eu, um velho conhecido no âmbito da saúde pública. Quando olhamos para os estilos de vida e mudanças comportamentais, a par com alimentação, talvez seja este um dos que nos preocupa mais. E especialmente num período em que a nossa mobilidade, que foi fortemente condicionada, com muitos ginásios e atividades desportivas a serem encerradas durante muito tempo, este é um indicador que assume ainda mais preponderância e carece, eventualmente, de um planeamento estratégico bem direcionado. Aliás, o próprio teletrabalho veio também fazer com que as pessoas se tornassem mais sedentárias, nem que não seja só porque não há lugar às deslocações de ir para o local de trabalho. Mas queria também realçar um outro bom número e não ficar só nos números mais negativos, que teve a ver com algumas pessoas e as alterações que fizeram nos estilos de vida, também devido à pandemia. E aqui temos que quase 50% da população refere ter adotado uma alimentação mais saudável do que aquela que fazia antes da pandemia, em comparação com os 24% que referem ter comido mais alimentos calóricos ou com mais gordura, ou os 11% que referem ter consumido mais álcool. Portanto, estamos assim numa oportunidade também, por um lado, para se analisar e perceber o que levou algumas pessoas a iniciar práticas mais saudáveis de forma regular e integrar estas aprendizagens no desenho e implementação de estratégias mais direcionadas com as necessidades reais das populações, no âmbito de estilos de vida mais saudáveis, mas também, eventualmente, ainda mais importante, como é que podemos ajudar a que estas práticas se mantenham e perdurem no tempo.

E, portanto, estamos aqui a falar de mais uma oportunidade. Pedro, que número é que escolheu?

O meu número desta semana é o número três, que são os três meses ou os 90 dias, mais coisa, menos coisa, que faltam para que esteja vacinado aquele objetivo de 70% da população portuguesa. Esses 70% ainda não serão o fim da pandemia, mas é o começo do fim. E portanto, temos três meses para começar nessa fase final. Esperamos que seja a fase final. E nessa altura, será então possível aliviar mais algumas das restrições que nós temos tido, sobretudo começar a aliviar algumas das restrições envolvendo os ginásios e as pessoas fazerem desporto em recintos fechados. Vale a pena pensar que noutros países, e Israel é o país que está mais à frente com cerca de 60% da população vacinada, houve uma redução muito grande da transmissão e eles têm aliviado muitas das restrições e inclusive já reabriram ginásios para pessoas vacinadas. Portanto, tudo aponta para que possamos avançar também nessa direção, consoante nos aproximemos desses 70%.

Só falta mesmo. Sim, Pedro.

Só tenho a dizer que vale a pena ter em mente que os 70% são um número que nós temos na cabeça, mas não são um número mágico. Teremos que ver mais à frente se conseguimos mesmo voltar a ter todo o desporto em recintos fechados, não só na parte da assistência, que é o que muitas vezes as pessoas se lembram, mas da parte de fazer esse desporto, uma vez que há limitações que depois terão que estar associadas com os cuidados dos esportes em grupo, de ser em desportos que impliquem contacto, que impliquem partilhas de equipamentos, balneários, etc. Portanto, será necessário também termos aqui depois alguma liderança, alguma orientação das próprias autoridades de saúde sobre como é que podemos retomar essa atividade de desporto em recintos fechados. Ao ar livre, parece que está tudo a encaminhar-se para podermos avançar com alguma rapidez.

E portanto, esses três meses para o começo do fim da pandemia, como lhe chamou o Pedro. Olhemos então para o que foi esta semana. Houve Fátima e futebol, o que em termos pandêmicos quer dizer que houve ajuntamentos e uns com mais regras do que outros, e o assunto dominou a semana e ainda domina. Foi também levantada a cerca sanitária imposta a duas freguesias do Conselho de Odemira. De resto, a famosa matriz do governo mantém-se com o acordo da esperança, RT, novos casos, internamentos, os indicadores abaixo da linha de risco. Sónia, o que há a dizer desta semana?

Eu acho que esta semana e o comentário não pode deixar de mencionar, de facto, as comemorações à laia do Sporting como campeão nacional e que acabaram por ficar marcadas pelos festejos com o completo relaxamento das medidas de proteção ou comportamentos pouco adequados ao contexto pandémico que ainda estamos a viver. E estes ajuntamentos que começaram no Estádio de Alvalade, mais tarde acabaram por surgir em Lisboa e podem ter trazido, de facto, consequências menos positivas pra gestão da pandemia a vários níveis. E eram talvez estes níveis que eu iria realçar. Por um lado, no nível mais imediato, no nível epidemiológico, pode significar algum aumento de infecções. Eu aqui, pessoalmente, tendo a concordar que se possa especular que como o nível de infecção na comunidade está de facto a níveis muito baixos .

Sónia, acontece, é assim quando estamos em direto e em teletrabalho. Os sons são normais. Nesta altura estava aqui a falar das consequências menos positivas e dizia que pode não haver um risco tão grande de um aumento de infecções.

Exatamente, porque como a infecção está relativamente baixa na comunidade, é provável que o impacto em termos das novas infecções poderá não ser tão alto. Mas vamos precisar de cerca de 10, 15, 14 dias, como já sabemos, para compreender este real impacto. No entanto, e também já foi realçado, é importante esta estratégia de redução da propagação das eventuais cadeias de transmissão que possam surgir e garantir uma monitorização da situação com apelos. Aqui eu diria que são apelos que têm que ser de facto feitos em conjunto com estratégias adequadas à realidade e não meras indicações genéricas que provavelmente vão ter pouca adesão, até pelas características das pessoas com as quais temos que estar a trabalhar. Mas que era importante que houvesse uma real testagem de quem participou nos festejos e depois uma vigilância mais apertada aos possíveis sintomas, etc. Mas eu gostava de chamar, fundamentalmente, a atenção no impacto a um outro nível, diria talvez até um nível mais social. E neste seguimento, o que nós ouvimos até muito nas redes sociais e até em algumas pessoas na comunicação social, foi que os setores que viram a sua atividade limitada e até com grandes impactos econômicos e sociais, podem de facto ter um ímpeto de pensar: "Se uns podem, por que não nós também?" E isto pode ser importante pensar se não poderá originar um escalar de situações que embora em eventos mais pequenos, mas também tragam ajuntamentos de pessoas de forma menos controlada ou organizada. E portanto, acho que isto deve ser visto como um alerta para as autoridades, no sentido de passarem uma mensagem clara que este é um exemplo que não se pode repetir. Por outro lado, acho que também aprendemos, até com a agregação do exemplo do Natal e depois com a comparação, um pouco ao contrário do que aconteceu no período pascal, é que as regras e orientações claras, que informam sobre as práticas e os comportamentos a adotar em determinadas circunstâncias, acabam por direcionar de forma positiva o comportamento que as pessoas adotam individualmente e coletivamente. E portanto, diria assim que Portugal está num ótimo caminho, como a Carla dizia, em termos até dos nossos indicadores, num sinal e numa cor de esperança. Temos uma redução enorme das infecções e mortes, o processo de vacinação a correr de forma muito positiva e portanto estamos de facto muito próximos de nos próximos meses dizermos que estamos a ultrapassar esta crise e termos também um verão que volte a estimular o turismo e que auxilie na retoma econômica. E portanto, não é de facto o momento de deitarmos tudo a perder e portanto, não só do ponto de vista epidemiológico, mas é muito importante que se acautele também o impacto que este acontecimento possa ter tido a um nível mais social.

Pedro, com isto tudo que a Sónia disse, podemos encerrar o gabinete de crise ou os ajuntamentos podem por tudo em casa? É difícil a resposta.

Sim, a Sónia cobriu muito do que seria também o meu comentário. Eu estou a tentar aqui ver o que eu posso adicionar ao que a Sónia disse. Concordando com tudo o que ela disse, talvez eu conseguisse resumir que esta última semana, em vez de ter o nosso tradicional Fátima, Futebol e Fado, já muito famoso, acabamos por ter um Fátima, Futebol e Força. Força de coerciva do Estado em Odemira. E eu fui ver o que eram os números de Odemira em termos de habitantes. São cerca de 26 mil habitantes, segundo o INE, e provavelmente mais alguns não registados. E tiveram cerca sanitária com exercício da autoridade do poder central, com requisições e tudo, requisição civil. Ora, Lisboa fechou o futebol com cerca de 30 mil pessoas, segundo uma estimativa que estava num órgão de comunicação social, e Fátima limitou os peregrinos a 7500 pessoas. Estas diferenças, é evidente que vão criar perplexidade nas pessoas. E essa perplexidade será provavelmente a consequência pior dos festejos do futebol. Já agora, os parabéns aos sportinguistas, tenho muitos amigos sportinguistas e estou feliz por eles estarem felizes com o resultado. Mas as consequências dos festejos provavelmente não serão tanto a questão do número de contágios. Como já foi apontado, existe algum risco adicional, mas a circulação do vírus não é muito grande. Se as pessoas tiverem o cuidado de seguirem as recomendações que foram prontamente dadas, de fazerem os testes e os momentos em que devem fazer esses testes, e neste momento, fazer um teste rápido não é complicado. Basta passar numa farmácia, creio que algumas grandes superfícies também vendem, e ter esse cuidado será um elemento de cidadania básica neste momento. Mas esta ideia de que estamos a criar Uma situação em que já podemos ter ajuntamentos muito grandes, que afinal o risco não é tão grande assim, de que se calhar, já começamos a colocar o fim da pandemia num determinado momento no futuro, pode nos criar um excesso de confiança coletivo, que por um lado, mina a confiança nas medidas de saúde pública, e por outro lado, ao ter o excesso de confiança, leva-nos a ter menos cuidado em geral. E isso pode ser a forma de não conseguir acabar com a pandemia, no momento em que gostaríamos de o fazer, em que estamos à espera de o conseguir fazer. Nós temos que pensar que mesmo que este episódio do futebol não tenha sido dramático em termos de contágios, cria dificuldades agora em termos de comunicação, de manter algumas medidas restritivas. Como é que se vai dizer a um conselho que tenha 10 mil habitantes, que vão ter que ficar na fase um ou na fase dois do processo de confinamento, quando depois se aceita isto. Como a Sónia estava a dizer, vamos ter aqui uma brecha na confiança coletiva, que é: por que eles puderam, aquele que fez o ajuntamento, e nós, que queremos fazer qualquer coisa, não podemos? E o problema é que se generalizarmos este tipo de ajuntamentos, vamos certamente deitar fora o esforço realizado. E a questão é que um por si, se calhar, não tem um impacto muito grande. Se todos começarmos a fazer, tem certamente um impacto. E vimos que não foi preciso muito para no Natal, e a seguir ao Natal e Ano Novo, termos tido o que tivemos. Claro que agora estamos numa situação diferente com as vacinas e estamos a aproximar de uma situação de muito maior controle. Mas mesmo assim, esta ideia de gradualismo poderá ser posta em causa. De qualquer forma, neste processo eu acho que esteve bem a intervenção da Direção-Geral de Saúde rapidamente a informar do que é apropriado as pessoas fazerem: atenção a sintomas, reduzir contactos, fazer os testes rápidos em determinados dias, comunicar imediatamente para tentar quebrar alguma cadeia de transmissão que exista. Eu acho que esteve menos bem as decisões iniciais sobre a autorização e depois o controle da situação, que não pertencem ao Ministério da Saúde, pertencem a outro ministério. E eu acho que nos deve fazer relembrar que este esforço de controle da pandemia, para conseguirmos retomar a normalidade que se quer anunciar e que se vai tentando anunciar, vai ter que estar presente em todas as decisões de todos os ministérios. Não é simplesmente dizer: "Estamos a ver o fim da pandemia e portanto agora cada ministério pode voltar ao que fazia habitualmente." Não pode ser. Tem que continuar a haver um esforço. Que estes três F não sejam apenas de Fátima, futebol e força coerciva do Estado, e passem a ser um esforço coletivo de mantermos o caminho que estamos a fazer por agora e que tem sido bastante bem-sucedido desde fevereiro.

Sem perder a confiança e a autoridade de quem está a gerir a pandemia. Está feito mais um balanço da semana, quer dizer que é tempo para os mitos e alertas. E nestas chamadas de atenção, a Sónia quer também tirar lições do que aconteceu depois do jogo com o Sporting.

Sim, exatamente. Acho que é de consenso que, de facto, não correu bem, mas rapidamente vai ser necessário prever e planear respostas a eventos semelhantes e perceber que mesmo se estando a tratar de eventos em grande parte espontâneos, vão haver mais motivos para a ocorrência deste tipo de ajuntamentos e vão acontecer já em seguida. Portanto, durante este mês, se calhar até já, provavelmente este fim de semana. E lembro alguns jogos de campeonato, Taça de Portugal, eventualmente até a Champions. E portanto, é relevante que todos estejamos mais bem preparados. Do lado das autoridades, tirar as aprendizagens relevantes do que aconteceu e de como prevenir e encontrar soluções adequadas a este tipo de contexto. E também aqui dizer até que se calhar o trabalho conjunto com os representantes dos sócios, dos simpatizantes e dos clubes é muito importante. Por outro lado, também enquanto sociedade. Podermos estar mais conscientes e mais responsáveis para festejar, é certo, mas não perdendo de vista o momento que ainda estamos a atravessar.

E portanto, aprender com o que aconteceu. Pedro, e é preciso também ter atenção às viagens de e para o Brasil.

Exato. Aqui o meu alerta desta semana está associado a esta ideia de evitar excessos de confiança e preparar o começo do fim da pandemia. Nós sabemos que temos muitas ligações ao Brasil, seja como turistas portugueses que vão lá, seja com viagens da comunidade brasileira em Portugal que vai e vem, seja eventualmente brasileiros que queiram vir a Portugal. E com a situação pandémica do Brasil ainda relativamente incerta para ser de alguma forma benevolente, mas vale a pena ter o cuidado que temos que ter uma atenção particular aí e aconselho a todas as cautelas nas movimentações dessas pessoas. Outros países estão a ter esse cuidado com a Índia, neste momento, que também é outro país muito descontrolado. Nós devíamos aprender o que está a ser feito nesses outros países, como Reino Unido e Índia, e perceber se precisamos com o Brasil ter algum cuidado especial. Não significa parar os fluxos, significa ajudar a que tenham todas as precauções necessárias com testes, seguimento de sintomas, acompanhamento das pessoas, etc. Vale a pena preparar e por isso deixo este alerta.

Fica esse alerta, esses recados. A situação no Brasil continua preocupante e há que pensar nos próximos eventos que possam provocar ajuntamentos. Voltamos já a seguir, porque temos notas de esperança e também um olhar sobre o impacto da pandemia na atividade física e no desporto. Vamos estar com o professor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise. Todas as semanas, os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros analisam o estado da pandemia em Portugal. Daqui a pouco vamos estar com o professor Carlos Neto para falar de atividade física ou da falta dela, um problema que a pandemia veio agravar. Mas agora é tempo das notas de esperança. Olhamos para o lado positivo. Que nota de esperança é que trouxe, Pedro?

Desta vez, a minha nota de esperança é algo que temos falado aqui muitas vezes, mas que nunca é de menos realçar, que é a elevada adesão das pessoas, em Portugal, à vacinação. E corresponde ao que se foi conhecendo ao longo dos últimos meses da nossa predisposição, em que os portugueses eram tradicionalmente os europeus mais predispostos para vacinação. E embora se encontrassem cerca de 10% a 20% de pessoas que hesitavam, acho que esse número de pessoas que hesita vai se convertendo em pessoas que querem ser vacinadas. E o nosso processo de aquisição de vacinas, de distribuição, marcação por autoagendamento e de administração está a funcionar bem. Eu acho que nunca é de menos realçar isso. E no caso do autoagendamento, é especialmente bom, porque é uma forma de as pessoas gerirem com maior liberdade algo que poderia ser complicado e que foge até à forma tradicional de nós termos sempre tudo centralizado num ponto do sistema de saúde e permitirmos aqui esta liberdade das pessoas escolherem o melhor momento. E portanto, devemos reconhecer o bom trabalho que está a ser feito pela SPMS na parte técnica disso e pela Task Force na sua parte da organização. E com isso estamos todos alinhados e em progresso para o tal começo do fim que esperamos ter daqui a dois, três meses.

Muito bem. Sónia, a sua nota de esperança também passa pela vacinação.

Exatamente. Não combinamos, mas estamos completamente alinhados. E de facto relaciona-se com o processo de vacinação, num prisma diferente. Mas estamos muito bem, porque estamos provavelmente a conseguir antecipar as metas inicialmente previstas, mesmo aquelas que eram as mais otimistas, e já estamos neste momento a agendar a vacinação nos que têm pelo menos 55 anos e no processo muito mais autónomo e de responsabilização individual, como o Pedro estava a referir. São ótimas notícias. Talvez só fazer aqui uma ressalva que temos esperança também que se possa rapidamente dar resposta a algumas ansiedades e até diria, alguma confusão que se tem gerado em algumas pessoas, nomeadamente na população, para algumas vacinas e com a questão dos menores de 50 anos. E, portanto, era importante esta clarificação do processo de vacinação. Estas questões do consentimento informado para algumas pessoas não são muito fáceis, não é um termo que estejam habituadas a ter que lidar e a ter que tomar este tipo de decisões. Portanto, era muito importante esta clarificação para que os níveis de adesão às vacinas, como o Pedro referia, continuem elevados, e são elevados, elevadíssimos diria eu, em Portugal, ao contrário de outros países em que estes níveis estão a diminuir e portanto, nesse caso, teremos e conseguiremos então que o processo de vacinação continue a decorrer da forma superpositiva, diria eu, com que estamos a ver o processo a avançar.

A vacinação aqui a encher as nossas notas de esperança. Vários estudos demonstram que a atividade física dos portugueses diminuiu durante a pandemia e, portanto, estão escancaradas as portas para doenças como a obesidade, diabetes ou problemas cardiovasculares, mas pode ser também a própria sociedade que se transformou num modelo mais sedentário. O nosso convidado desta semana é o professor catedrático Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana. Muito bem-vindo.

Muito bom dia, Carla. Muito obrigado pelo convite.

Obrigada nós por vir ao Gabinete de Crise. E deixe-me começar precisamente por aqui. Esta paragem forçada que temos tido por causa da pandemia pode ter consequências que sejam mais estruturais? Pode ser que continuemos agora a ficar mais tempo sentados, quer em frente ao computador, quer depois também em frente à Netflix, que é como quem diz, nos nossos tempos de lazer?

Eu diria que nós temos três pandemias que estão, neste momento, a afetar muito o corpo dos portugueses e principalmente na infância e na adolescência. A primeira, de facto, é este vírus, que nos apanhou de forma inédita e numa dimensão de incerteza. O segundo é o número de horas que estamos sentados, porque há uma verdadeira hecatombe anatómica, muscular, mental e orgânica. Repare que houve um decréscimo do tempo de atividade física em cerca de 72% e um aumento do tempo de exposição frente ao ecrã de cerca de 71,3, devido ao ensino remoto, ao teletrabalho, etc, ou ecrã lúdico. Mas é preciso dizer que antes do confinamento já as crianças e jovens estavam confinadas. Nós já tínhamos problemas muito graves. E com esta pandemia houve vários impactos. E eu destacaria quatro pontos fundamentais. O primeiro, o aumento do comportamento sedentário, uma espécie de iliteracia motora, que provocou excesso de peso em alguns casos e aparecimento até, em muitos deles, de obesidade, também de regressão em muitas habilidades motoras das crianças e jovens. E o que eu tenho verificado quando regressei agora à escola, no primeiro e depois no segundo confinamento, foram energias vitais descontroladas das crianças, uma espécie de agitação motora e falta de foco. O segundo ponto é o aparecimento de um comportamento de solidão e de falta de autoestima, provocado pela diminuição do tempo e espaço para brincadeiras ativas, quer em casa, quer no exterior, entre crianças e jovens, e o abandono de situações de confronto com o risco. Portanto, dinâmicas desafiantes do corpo que ficaram paradas. Também a agenda desportiva foi fechada. Temos cerca de 250 mil jovens em formação desportiva que deixaram de fazer desporto, o que provocou, de certo modo, uma percentagem de abandono desportivo que nós ainda não conhecemos bem o seu contorno e, por outro lado, uma falta de desmotivação muito grande destes jovens. Esperemos agora, com a abertura do desporto, que esses jovens regressem. O terceiro ponto é a instalação de uma pandemia do medo, que é pior que o próprio vírus, e que teve vários efeitos na cultura corporal e na cultura mental em todas as idades, principalmente crianças e idosos, e com o aparecimento de ansiedade, de angústia, de inquietação emocional. O quarto ponto, que me parece ser fundamental, é a falta de socialização que nós observamos nas crianças e jovens, por não poderem estar com os amigos, tendo sido separados, afastados, longe de quem se gosta. Quando vamos às escolas, vemos que há corredores, há bolhas, não há intervalos escolares, etc. Eu devo dizer que nós fizemos um estudo na Faculdade de Motricidade Humana, com a nossa equipa de trabalho, sobre os efeitos do Covid-19 no primeiro confinamento, e as competências motoras das crianças e jovens diminuíram consideravelmente. Quer dizer que há aqui um impacto muito negativo, que nós ainda estamos para perceber, porque há novas doenças que estão escondidas debaixo da pele, que estão obscuras e que nós ainda vamos ter aqui algum tempo para perceber, de facto, quais são os seus efeitos de termos um corpo que foi aprisionado durante este tempo todo. Esta pandemia agravou e desvalorizou as linguagens do corpo numa sociedade muito padronizada e domesticada a valores exclusivamente produtivos, consumistas e subtilmente manipulados.

Mas essas doenças que estão escondidas são doenças novas?

Sim, provavelmente completamente novas, que nós ainda não sabemos exatamente os seus contornos, mas é óbvio que têm efeitos ao nível da cultura motora, o menor desempenho motor, obviamente, uma inatividade física muito grande e, por outro lado, ao nível emocional e ao nível mental. Há bocadinho ouvi aqui com algum interesse esta questão relacionada com o melhoramento da alimentação, mas de facto houve uma diminuição muito gravosa dos estilos de vida ativos Das crianças, dos jovens e dos adultos, porque ficaram demasiadamente retidos em casa.

Carlos Neto, mas a Sónia Dias, nesse barômetro, falou também que mais pessoas retomaram a atividade física. E a verdade é que vemos mais pessoas a correr, a andar de bicicleta, a ocupar parques e jardins. Não é significativo?

Isso não é muito significativo se observarmos a população total portuguesa e, acima de tudo, se analisarmos esse dado, que é importante, mas analisarmos em função das faixas etárias, porque de facto as crianças ficaram sentadas no sofá frente aos ecrãs. E até houve muitas famílias que interpretaram nas regras sanitárias que foram colocadas, que não se podia sair de casa, não se podia ir aos espaços exteriores das habitações. E, para além disso, também se verificou que houve uma diminuição muito grande do contato físico e a relação entre os amigos, entre os pares, entre as crianças. De facto, é preciso ver também que houve muita assimetria, muita injustiça e muita dificuldade de muitas famílias em relação aos filhos, de os poder trazer para o exterior e serem ativos com eles, porque há casas que não tinham condições de habitabilidade, há situações de classificações de natureza sociocultural que criaram problemas graves de subsistência. E, portanto, há aqui dinâmicas que me parecem muito importantes, porque houve uma menor intensidade de esforço, um maior aumento da iliteracia motora. Por outro lado, houve posturas e equilíbrios afetados nos corpos, coordenações motoras que diminuíram. Eu tenho crianças que diminuíram a sua capacidade de correr, de saltar, etc. Uma percepção espacial e temporal muito mais fraca, autoestima e autoconfiança danificadas, menor contato físico. E isto é resultado, como já sabíamos, antes da pandemia e depois da pandemia, uma sociedade adversa ao risco, muito pouca mobilidade e muito pouca autonomia, liberdade das crianças poderem utilizar a rua, poder ir a pé pra escola, uma superproteção patológica que existe da parte dos adultos, um déficit de contato com a natureza, porque este urbanismo desenfreado criou, de facto, desconexões entre espaços verdes e, portanto, uma grande falta de políticas públicas e, acima de tudo, de clarividência, de como se deveria ter implementado nas regras sanitárias uma agenda mais aliviada para os primeiros níveis de escolaridade, isto é, para as crianças e jovens.

Sónia Dias, seríamos capazes de criar agora um meio mais amigo da atividade física? Porque como ouvimos agora, até pelo Carlos Neto, isto é um problema antigo, agravou-se, acentuou-se agora neste último ano.

Sim, exatamente. E eu só realçava aqui que de facto os nossos dados são relativos à idade adulta.

Pois, não tem a ver com as crianças.

O que nós temos é exatamente também de acordo com os dados que temos, são muito próximos daqueles que o professor estava a referir, nomeadamente até com o aumento da obesidade, etc, que no fundo, já é consequência. Acho que há aqui um aspecto muitíssimo importante e que tem vindo a ser assim a análise relativamente ao impacto da pandemia e também é neste caso dos estilos de vida. É que o impacto que a pandemia teve é verdadeiramente desigual. E se nós temos, na grande maioria dos grupos, um impacto bastante negativo, nomeadamente relativamente à atividade física, à alimentação, mas também a todos os determinantes socioeconômicos que nós sabemos que estão associados com o melhor estado de saúde e com a prevenção e proteção da saúde, temos depois também um impacto muito negativo nos grupos que naturalmente já tendem a sofrer mais, nomeadamente com grupos, por exemplo, com menos capacidade econômica e social, diria eu, com menos capacidade nas condições habitacionais, com menos literacia em saúde, com menos recursos para promover e proteger a sua saúde. E, portanto, claramente as políticas associadas a esta questão dos estilos de vida e da atividade física, no fundo, nas áreas em que o professor estava a referir, claramente têm de ser também pensadas. Devem ser pra todos, inclusivas e pra todos, porque todos nós podemos proteger a saúde e promovê-la, mas devem ser também direcionados pra quem mais precisa. E, de facto, mesmo aqui, o impacto foi muito desigual.

Pedro Pita Barros, já falamos aqui, o professor Carlos Neto falou do número de horas sentado. Vamos conseguir conciliar modelos de trabalho mais digitais com esta necessidade do movimento e da atividade física?

Vamos ter que fazer também essa aprendizagem, muito provavelmente. As pessoas já passavam também muito tempo sentadas nos locais de trabalho, mas tinham o tempo de deslocação entre locais de trabalho e casa, que introduzia, ainda assim, alguma mobilidade nas pessoas. Agora, como é que nós vamos conseguir compatibilizar, não é claro, mas dá uma sensação que a lógica do espaço urbano terá que começar também a ajudar muito mais. Creio que isso foi um dos aspectos referidos aqui importante, que é como é que a própria geografia das cidades se tem que adaptar a modelos de teletrabalho que não eliminem totalmente a capacidade das pessoas fazerem exercício e a capacidade das pessoas se mexerem de alguma forma. Aqui, provavelmente, será algo que levará algum tempo a aprendermos como é que isso pode ser feito e como é que vai resultar. No sentido em que algumas destas mudanças dependerão também do que é que serão as mudanças dos hábitos de trabalho. Fala-se hoje em dia de haver várias empresas que uma das aprendizagens é que provavelmente quererão ter algumas pessoas A fazer um regime em que estão parte do tempo em teletrabalho e parte do tempo na empresa. Portanto, podemos ter alguma mitigação do estar completamente parado. Agora, que durante este tempo da pandemia, com as escolas fechadas, que houve um impacto muito grande sobre as crianças, que provavelmente tem que ser revisto em termos do que será o desporto escolar nos próximos anos, para tentar compensar e também aprender aí, realmente é verdade. Portanto, eu colocava não só as necessidades de sabermos melhor o que vamos ter que fazer, apenas na parte de teletrabalho, mas também no que foram as consequências do que foi a escola à distância que as crianças tiveram e como é que se consegue fazer essa recuperação nos próximos tempos.

Esse é um desafio importante, Carlos Neto. A escola soube adaptar-se ou está a conseguir adaptar-se até a essas crianças que surgem mais desequilibradas do ponto de vista motor e emocional? E as cidades também vão conseguir dar essa resposta diferente?

Essa é uma excelente pergunta e é em sequência da intervenção da doutora Sónia e do doutor Pedro. Eu referiria mais três pontos. O primeiro é que nós temos que fazer tudo o que nos é possível para o futuro, ter uma infância saudável e natural e também, ao mesmo tempo, estar com uma grande consciência desta crise climática que está aí e criar um planeta saudável e sustentável. E por isso é necessário transformar as escolas e as cidades de uma forma autocêntrica, dominadas pela predominância dos automóveis, dos espaços de betão e de sintético, da obesidade curricular nas escolas, do tempo de ecrã desestruturado, para aquilo que eu chamaria escolas e cidades ecocêntricas, isto é, aprendizagens centradas em pessoas ativas, numa perspectiva participativa e comunitária, para aquilo que eu designaria como a harmonização de valores humanos e naturais. Em segundo lugar, no regresso à escola, eu acho que esta pandemia nos ensinou que agora não devemos estar extremamente preocupados com a recuperação das aprendizagens escolares, porque as crianças necessitam de restaurar o corpo. O que eu quero dizer com isto? Utilizar de preferência os espaços exteriores, que chamamos recreios escolares, aumentar o contato de exploração com a natureza, oportunidades de espaço e tempo para brincar e ser ativo, aumentar as atividades artísticas, lúdicas e desportivas, tempo de reflexão e disputa interior do corpo, porque as crianças necessitam também de ter uma melhor capacidade de autoimagem e autoestima, aumentar o tempo da socialização, diluir e espantar os medos, falar com as crianças muito sobre isso, suavizar as regras sanitárias e também diminuir o tempo de estar sentado, como já falámos aqui, aumentar o trabalho colaborativo, definir um modelo dinâmico e desviver as aprendizagens escolares de uma outra maneira. O mundo mudou e a escola também tem que mudar. Selecionar temas, projetos e conteúdos multidisciplinares, até para ter consciência ambiental, que é fundamental. Promover o pensamento crítico e também a resolução de problemas, desenvolver a curiosidade e a capacidade de comunicação e também fomentar a capacidade adaptativa e criativa. E por último, dizer que é necessário também agora convidar os pais, que durante a pandemia tiveram mais consciência de que afinal a escola a tempo inteiro não resolve o problema todo. Eles têm mais necessidade agora de terem percebido que, afinal, estar em família é outra coisa. E, portanto, temos que ter pais mais disponíveis para ter uma relação mais forte com os filhos, em atividade física, atividade lúdica. As crianças precisam brincar muito no indoor, isto é, nos espaços interiores, mas também nos espaços exteriores, outdoor, e definir em função das idades das crianças, um mapa de atividades em função daquilo que as cidades, as ruas... Temos que devolver as ruas às crianças e um mapa de atividades informais, de modo a que elas possam ser mais ativas e brinquem mais, e melhorar a qualidade de vida dos filhos, fornecendo tempo e espaço disponível para brincar e serem ativos. E também eliminar, sempre que possível, o tempo de estar muito tempo sentado, que é outra pandemia, assim como o excessivo contato com os dispositivos digitais. É claro que a literacia digital veio para ficar, mas é preciso aqui haver bom equilíbrio e bom senso. E, por outro lado, as três regras básicas, que é selecionar uma alimentação saudável em conjugação com bons hábitos de sono e uma atividade regular de atividade física, lúdica e desportiva.

Então o diagnóstico é o mesmo. Era o mesmo que havia antes da pandemia, tem de ser reforçado.

Sim, esta pandemia só veio trazer maior consciencialização disto. E por isso eu terminaria dizendo assim: é necessário, atualmente, fazer um pacto de sustentabilidade, um pacto de transição entre a escola, a família e a comunidade, porque a comunidade também tem que ter melhores políticas públicas, de ter cidades, vilas e aldeias mais confortáveis e que seduzam as pessoas a vir para a rua para maior encontro, maior mobilidade. Repare, a mobilidade das crianças é muito reduzida. Nós temos a índice de mobilidade na Comunidade Europeia mais baixa. As crianças não vão a pé pra escola, as crianças não têm autorização para ir pra rua. As crianças estão completamente aprisionadas em casa e na escola e passam em média 10 horas na creche, oito horas no primeiro ciclo, segundo ciclo, e isto é verdadeiramente um crime. Portanto, nós temos que alterar as políticas públicas no que diz respeito à harmonização entre a vida da família, por outro lado, a vida no trabalho e a vida que as crianças passam na escola, porque elas são vítimas do trabalho dos pais. E isto afeta o corpo. Eu diria mesmo que estamos aqui numa espécie de crueldade invisível que esta pandemia criou nas culturas de infância, que não respeita os seus direitos, os direitos ao brincar, a ser livre, ter mobilidade, ter também participação e, acima de tudo, contato com a natureza e contato com os amigos. Portanto, eu diria que o brincar e ser ativo ainda é um território muito desconhecido e por isso a minha ideia básica é: libertemos as crianças deste aprisionamento em que vivem. E depois desta privação, temos de reabilitar o prazer de existir como corpo em movimento e em relação com os outros. É necessário ritualizar o medo, falar com as crianças sobre esta situação que apanhou a todos. Agora, obviamente que as crianças necessitam de viver a infância de forma plena e elas não estão a fazer isso. O que é que acontece a estes nascidos digitais que estão nas nossas mãos e a um futuro que é completamente imprevisível, incerto e também desconhecido? Estamos a prepará-las para que mundo? Numa escola tradicional Clássica, que impõe o conhecimento, as crianças não vivem, não aprendem de forma ativa. De facto, o corpo fica à porta da escola, porque o que entra na escola é só o cérebro. Há aqui uma atenção exclusivamente centrada nas aprendizagens escolares. E nós, neste momento, depois desta pandemia, temos que aliviar e equilibrar as atividades formais e informais e dar mais valor ao corpo, porque o corpo não pode estar esquecido. Não podemos ter uma visão tão cartesiana na existência deste corpo. O corpo é só um e a sala de aula não é o único local onde se aprende. Há 100 anos, com a gripe espanhola e com a tuberculose, as salas de aula eram todas cá para fora. Nós temos um país fantástico, de clima, de cultura e também de tradição, de grandes aventureiros e, no entanto, não desfrutamos, porque estamos todos fechados, enquanto no norte da Europa, com climas muito mais austeros, as crianças e os jovens andam em média quatro a cinco horas cá fora e às 16h, os pais vão buscar os filhos à escola e têm mais liberdade de existir, mais prazer em viver e, de certo modo, mais capacidade de ter sucesso.

E portanto, temos muitos desafios pela frente. Professor Carlos Neto, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise esta semana. Sónia Dias, Pedro Pita Barros, despedimo-nos e estamos aqui de regresso para a semana. E a fechar, e porque já falámos tanto da festa do título, ela não foi só negativa. Recordamos a história que foi contada pelo Observador esta semana de um grupo de amigos da Corredora que comprou uma carrinha barata e foi decorada a rigor, seguiu viagem até Lisboa para assistir à tal vitória do Sporting. Pelo caminho, deixaram mensagens de respeito pelo próximo, que bem podiam ter ajudado a evitar o que se passou nos festejos umas horas depois. Eu sou a Carla Jorge Carvalho, o sonoplastia é do Bernardo Almeida. Até para a semana.

Nós perguntamos aos proprietários da carrinha quanto é que queriam. €100. "Ok, €100 ficamos com ela." A febre começou a partir de novembro. O Sporting entra nas sendas das vitórias e nós também começamos com o nosso balanço. Durante dois meses e uma semana, talvez, reconstruímos a carrinha, pintámos a carrinha, decorámos a carrinha e viemos com a carrinha. Só uma nota final. Era importante que o mundo sportinguista olhasse para o que aconteceu hoje e que pensemos todos em Sporting. Eu não votei neste presidente, mas este é o meu presidente porque tem que ser. E porque a consciência de cada sportinguista tem que começar no respeito que tem pelo próximo. De que é que estão à espera? Faz-me lembrar uma música do Jorge Palma. "Portugal, Portugal, de que é que estás à espera?"

Queres um pé numa galera. Eu estou no fundo do mar. Portugal, Portugal. Enquanto ficares à espera, ninguém te pode ajudar. Quiseste cegas de quem eu esquinha. Quiseste pôr toda a gente na linha. Tu caçaste o meu coração pela ponta das tuas lanças. Dicaste quem verdade dizia. Compuliste amor com pornografia. E não conheces o gosto de brincar com as tuas crianças. Portugal, Portugal. De que é que tu estás à espera? Queres um pé numa galera. Eu estou no fundo do mar. Portugal, Portugal. Enquanto ficares à espera, ninguém te pode ajudar.