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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos de atenção na geopolítica mundial e hoje contamos com a análise de Luís Loia, professor na Universidade Católica Portuguesa. Boa noite, obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Boa noite, o gosto é todo meu. Agradeço também o vosso convite.

Queria começar por falar na Europa. A Alemanha acusou Moscovo de ter tentado atacar o aeroporto de Leipzig no início de agosto e o ministro da Administração Interna alemão diz que Berlim está numa guerra híbrida. A Alemanha decidiu então fechar o Consulado-Geral em Bona e também anunciou que vai rescindir o contrato com a Casa Russa de Berlim. O Der Spiegel explica também que será feito um reforço do controle de cidadãos russos e que vão fazer uma maior pressão sobre a frota fantasma. Ora, a Rússia diz agora que vai dar uma resposta à altura e que a Alemanha inventou razões para escalar a tensão nas relações bilaterais entre os dois países. Entretanto, a NATO, pela voz do secretário-geral Marco Rutte e a União Europeia, pela voz de Ursula von der Leyen, já vieram mostrar apoio pelas decisões alemãs. Vou recuar ainda ao dia de ontem, porque a revista britânica The Economist, e acho que é importante mencionar isto, avançou que Vladimir Putin receia ser morto caso não consiga atingir o objetivo mínimo de capturar a região do Donbass. Putin terá mesmo dito aos conselheiros: "Eles vão enforcar-me". Sabemos que desde que foi eleito como sucessor de Boris Yeltsin em 2000, Putin construiu uma cleptocracia, ou seja, o Estado passou a controlar os oligarcas russos. Criou então os siloviki, que são ex-agentes do KGB e altos comandantes a quem o poder económico foi transferido, e agora eles controlam e pressionam Putin e controlam também parte das Forças Armadas. Também existe a visita do diretor da CIA por uma ameaça russa a um país da NATO na região do Báltico para 2029. Isto tudo pode levar a um escalar da guerra. Putin pode enviar entre 300 a 400 mil homens pra linha da frente, porque não quer falhar. Sendo a Alemanha a maior economia europeia, o segundo maior contribuinte da NATO, um dos exércitos mais fortes da Europa e um dos países falados para poder vir a assumir a liderança da NATO, isto dito pelo embaixador norte-americano na NATO em novembro de 2025, e tendo em conta que Putin está a pensar em escalar a ofensiva russa para a Europa numa espécie de tudo ou nada, devido a várias pressões, principalmente económicas, pergunto-lhe qual é que poderá ser essa tal resposta à altura por parte da Rússia a esta acusação alemã, como anunciou Maria Zakharova, e também pode estar aqui uma ameaça muito perigosa para a Europa.

De facto, os acontecimentos têm-se precipitado nos últimos tempos, e novas ameaças parecem estar a surgir, não tanto da parte da Rússia, assim que eu vejo, mas essas ameaças podem escalar da parte da Europa, como resposta a essa guerra híbrida que se vai fazendo sentir. Agora foi a Alemanha, mas nós também temos que recuar um pouco no tempo e vemos que esta guerra híbrida, e até com a utilização de drones, são acontecimentos que têm vindo a ocorrer, não só na Polónia, na Finlândia, na Roménia, mas de facto, como diz, agora foi confirmado que o drone que pousou na pista do aeroporto de Leibniz é russo, ou é de iniciativa russa. E quando se chega à ameaça a uma das maiores potências europeias, senão mesmo a maior, a resposta poderá ser mais grave, mais dura do que as simples sanções económicas. Não parece, no entanto, que a Alemanha ou até mesmo a União Europeia, ou até mesmo a NATO, tenham interesse, neste momento, em entrar num conflito bélico com a Rússia. Aliás, aquilo que a Alemanha anunciou precisamente hoje foi a intensificação das sanções económicas à Rússia. E essa tem sido a resposta que a Europa tem dado, e também os Estados Unidos, a esta ameaça que a Rússia faz ao mundo ocidental europeu. Outra questão: será o escalar da ação ofensiva, agressora da Rússia para outros países da NATO. E parece-me que ela não irá acontecer. Estaríamos à beira praticamente de carregar no botão nuclear se fosse caso disso, e não é interesse da Rússia, não me parece que seja, nem é interesse da Europa, nem da NATO, que tal possa escalar até esse ponto. De qualquer forma, prevejo que os apoios à Ucrânia, à resistência ucraniana, se intensifiquem e que, na medida do possível, com estas ações pontuais por parte da Rússia ou algumas declarações, como foi aquela que já foi feita em relação à França, se dê uma escalada mais por palavras e ações pontuais de guerra híbrida, mas não com graves danos, sobretudo civis, nas potências envolvidas ou nos países que pertencem à NATO. Penso que isso não irá acontecer mais do que isso. De qualquer forma, Putin está num momento em que tem enfrentado uma crescente oposição interna à sua estratégia. Já são mais de quatro anos deste conflito que não se resolve. São muitas mortes, é muito investimento em material bélico que tem prejudicado a economia interna. São muitas sanções e é um desgaste profundo que, eventualmente, nem o apoio da China ou o apoio da Coreia do Norte podem colmatar. E nesse sentido, parece que, mais pelo desgaste do tempo, Putin poderá apostar numa solução mais rápida para este conflito. Não digo perdendo, mas tentando levantar aqui a face Se for agredido, para justificar internamente uma resposta mais massiva com os 300, 400 mil soldados. E é isso que parece ser a estratégia. Aquilo que me parece que é mais óbvio é que a Europa e mesmo a NATO, a Europa sem capacidade e a NATO sem vontade, não têm capacidade de resolver este conflito ou não querem resolver este conflito por causa da sua organização interna. O papel dos Estados Unidos na NATO alterou-se com a administração Trump. A liderança da NATO foi posta em causa. A União Europeia não tem uma força de defesa que permita responder. E parece-me que o interesse continua a ser, sobretudo, um interesse mais económico do que político para responder à ameaça russa. E, portanto, Putin vai-se encurralando pelo tempo, pelo desgaste, mas não creio que esta lábia atinja conflitos mais desproporcionais do que aqueles que temos vindo a assistir.

Queria agora falar sobre o Médio Oriente. Os Estados Unidos e o Irão têm estado a trocar ataques. Donald Trump ameaçou há poucos minutos intensificar os ataques contra o Irão se os iranianos retaliarem. É uma inconsistência que já nos tem sido habituada. Ora estão a falar e a fazer um acordo, ora estão a atacar-se e a ameaçar-se. Parece não existir bem um fim à vista neste conflito. Ontem, o secretário do exército norte-americano, Dan Driscoll, demitiu-se após vários meses de atritos com o secretário da defesa, Pete Hegseth. Dan Driscoll era conhecido como o homem dos drones e terá saído por razões como, por exemplo, o bloqueio intencional de medidas de modernização que Driscoll tinha para o exército, também por discordar com os vários despedimentos de generais de topo por parte do líder do Pentágono. Esta demissão gerou alguma divisão no exército norte-americano e todas estas preocupações estão principalmente ligadas à campanha no Irão. Driscoll, de acordo com o Washington Post, achava que o exército norte-americano não estava preparado para esta ofensiva. Estes sucessivos avanços e recuos nas negociações, ora estão a negociar, ora estão a atacar-se, estas várias inconsistências por parte da administração de Trump, as divisões do exército norte-americano, desde o caso, por exemplo, do USS Abraham Lincoln, em que soldados estavam mal em termos de saúde mental, até mesmo agora a esta demissão do secretário do exército norte-americano. Confirmam estas suspeitas de Dan Driscoll de que os Estados Unidos não estavam de fato preparados para entrar para uma guerra? E também utilizo aqui o exemplo de estarem a faltar mísseis Patriot. Isto mostra que os Estados Unidos, de fato, não estavam preparados para uma guerra.

Eventualmente não estavam preparados, julgo eu, para a capacidade de resistência do Irão e para a capacidade de resposta, sobretudo naquilo que interfere com os interesses económicos da intervenção dos Estados Unidos.

Crê que, por exemplo, o secretário da defesa norte-americano e Trump tenham subestimado o poder do Irão?

Não sei se em termos militares, a inteligência americana é muito competente nestas matérias, não sei se em termos militares os Estados Unidos terão falhado a avaliação que fizeram ao Irão. Aquilo que me parece mais é que há um claro programa político da parte desta administração Trump de expansão do seu poder militar, do seu poder político, mas sobretudo do seu poder económico. E quando isto parte de um programa político que muitas vezes pode jogar com a estratégia militar em função de objetivos que não são militares, mas que são sobretudo económicos, estas tensões normalmente ocorrem. Não é a primeira vez que tal ocorre. Eu recordo, por exemplo, que durante a Guerra do Golfo, no Iraque, nós tivemos a questão das armas de destruição massiva, de que o Iraque seria possuidor para legitimar uma intervenção. Aqui tivemos o problema do Irão poder ou não enriquecer urânio e chegar à bomba nuclear, mas a intervenção dos Estados Unidos teve, sobretudo, parece-me, um interesse económico de controle dos movimentos do petróleo. Viu-se isso que foram bem-sucedidos também na Venezuela. E esses interesses que são sobretudo, penso eu, económicos, não acredito que a intervenção tivesse como objetivo derrubar politicamente um regime que é considerado injusto ou que é considerado contra os direitos humanos ou que é considerado ilegítimo do ponto de vista da legitimidade política interna. Não creio que tivessem sido objetivos políticos, creio que foram objetivos sobretudo económicos e esses muitas vezes chocam com a estratégia militar, que faz uma avaliação no terreno distinta daquela que é meramente política para chegar à construção dos seus objetivos económicos. Em função disto, estas tensões agudizaram-se. O chefe do Estado-Maior do Exército já se tinha demitido. Este chefe do Estado-Maior do Exército era muito próximo do secretário, que agora também se demite, e Driscoll e Hegseth mantiveram estas tensões, sobretudo porque são tensões entre a estratégia política e a operacionalidade militar. E aí, se o objetivo final é um objetivo económico A estratégia militar muitas vezes deve estar ao serviço da estratégia política, não se pauta por esses objetivos meramente econômicos e a realidade dessa intervenção militar é distinta daquela que pode ser a ação política. Isso ao se concretizar na intervenção no Irão e na capacidade de resistência do Irão, provocou naturalmente tensões, porque a administração Trump parece querer escalar no objetivo de controlar o estreito e eliminar a cúpula política e a guarda republicana do Irão. Esses objetivos não são conseguidos de um dia para o outro. Portanto, essas tensões têm provocado estes desalinhamentos entre o poder político, o poder militar e os objetivos finais que são econômicos.

Eu queria lhe perguntar também relativamente a esta ofensiva e também a esta demissão por estes atritos com Pete Hegseth. Dan Driscoll não concorda, é o que diz o Washington Post, com as medidas que Hegseth está a tomar. Já também houve vários analistas e jornais norte-americanos que dizem que Hegseth não está bem preparado para liderar este cargo de secretário da Defesa e também de que está a lançar uma espécie de guerra religiosa também, como Hegseth próprio se referiu, como uma cruzada norte-americana. Acha que Pete Hegseth, de facto, não está preparado para liderar este departamento?

Eu creio que a administração Trump não está preparada para liderar os Estados Unidos nem a estratégia que foi definida e que foi apresentada aos eleitores. Sobretudo a estratégia definida para gingar aquele slogan do Make America Great Again é uma estratégia muito errática e Donald Trump circundou-se de alguns políticos que objetivamente não têm currículo e têm mostrado que não têm capacidade para levar a cabo essa estratégia. Há figuras que rodeiam Donald Trump, como Hegseth, que estão claramente impreparadas e são erráticas no discurso. Tirando Rubio, não vejo que haja políticos a rodear Donald Trump que sejam competentes o suficiente para levar a cabo as missões a que se propõem. Rubio, por outro lado, parece ser mais inteligente, mais ponderado, mais realista na sua ação e até poderíamos dizer mais perigoso. De qualquer maneira, esta administração tem-se revelado incompetente e errática e tem afetado o papel dos Estados Unidos no mundo. Isso vai se revelando também internamente com o descontentamento crescente que os cidadãos americanos vão mostrando. Aliás, viu-se agora com este acordo que foi estabelecido para a exploração das reservas da Venezuela, nas próprias palavras de Trump, como o acordo que vem salvar a economia interna americana. Portanto, digamos que quando uma potência como os Estados Unidos está dependente, nas próprias palavras do seu presidente, de ataques bélicos para explorar os recursos econômicos de outros países e com isso alimentar ou manter ou até desenvolver a sua economia interna, é porque de facto a saúde política e econômica do país não está bem e não se resolve desta maneira, certamente.

Mas não seria esperado, tendo em conta esse descontentamento que o professor falava e tendo em conta estas eleições intercalares que estão aí à porta e vê-se também um descontentamento geral do povo norte-americano relativamente a Donald Trump, não se esperaria que a situação no Irão pelo menos acalmasse um bocadinho, não seria isso melhor para Donald Trump, tendo em conta que muitos dos americanos são contra esta ofensiva?

Donald Trump tem se colocado numa posição em que nenhuma das soluções é boa. É isso que me parece. Se recuasse ou se acalmasse nesta intervenção no Irão, dava mostras de fraqueza e por aí seria criticado. Se for o crescendo à escalada, como anunciou agora mais uma vez de um ataque em massa e em força para capitular o Irão, também não fica bem visto de um modo ou de outro se ela não for efetiva. Portanto, tem se colocado numa posição que me faz lembrar um velho ditado brasileiro que diz: "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come." É nessa situação que os Estados Unidos se têm colocado e a resposta tem sido aquilo que se costuma dizer muitas vezes uma fuga para frente. Isto vê-se em muitos sentidos. Vê-se, por exemplo, na política das tarifas. As tarifas que foram anunciadas 60%, 40%, 50% naquele famoso placar que ele apresentou numa conferência de imprensa logo após tomar posse.

Até tarifou umas ilhas que só têm pinguins.

Exatamente. E especialmente com a China, essa política também tem-se vindo a revelar desastrosa. E agora também com o Canadá. São situações em que Donald Trump se tem colocado e que muitas vezes obrigam a recuos e outras vezes obrigam fugas pra frente, o que denota a sua ação completamente errática e pouco previsível. E quando a ação de um país, de um Estado, quer a nível interno, quer a nível externo, é errática e pouco previsível, as consequências não são boas. Agora, internamente, não há uma oposição forte a Donald Trump que nas intercalares ou nas próximas presidenciais, se entretanto a Constituição não for mudada nos Estados Unidos, possa fazer frente a este movimento conservador. Eventualmente, Donald Trump tem tido medidas para manipular e também eliminar os seus opositores e eventualmente minar também os movimentos de oposição que parecem estar a ter sucesso internamente naqueles habituais movimentos autocráticos de perpetuação do poder. Mas aí, como em todos os casos, o problema será sentido sobretudo pelos cidadãos. E a resposta terá que ser dada precisamente pelos cidadãos americanos, que neste processo da ação interna e externa de Donald Trump, da sua administração, têm sido pouco ouvidos ou até mesmo completamente ignorados. Portanto, terá que vir daí uma resposta.

Veremos como é que correm essas eleições intercalares e esse plano interno nos Estados Unidos. É também sabido que, pelo menos em termos de sondagens, o Partido Democrata até leva uma vantagem grande contra o Partido Republicano, mas por agora temos estas previsões do professor. Não temos muito mais tempo, chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Luís Loia, professor na Universidade Católica Portuguesa. Muito obrigado pela sua análise.

Obrigado eu.

O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã e fica disponível, como sempre, em podcast.