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Este é o som do Gabinete de Guerra das Manhãs 360, esta quinta-feira com a análise do coronel José Ducar. Bom dia, bem-vindo, coronel.
Olá, bom dia.
Bom dia. Relatórios de serviços de inteligência europeus revelam que a China treinou secretamente cerca de 200 militares russos no final do ano passado. Militares que já estarão no terreno a combater contra as forças ucranianas. Coronel, de que forma é que isto deita por terra a alegada neutralidade de Pequim neste conflito ou a China pode tudo sem que haja consequências maiores?
Disse muito bem, é alegada. A China não é, de modo nenhum, neutral. Aliás, nunca condenou a Rússia pela sua invasão da Ucrânia e continua de forma ostensiva a apoiá-la, não só sendo seu principal cliente, incluindo violando sanções internacionais que há em relação à transferência de armamento, etc. E, portanto, a China mantém uma imagem, que é a imagem que quer manter, de um país que é uma espécie de papa. Xi Jinping é uma espécie de papa, quer apresentar a China como uma espécie de grande pacificador internacional. Mas, na verdade, sabe-se que é o principal cliente da Rússia para o seu petróleo, portanto, é a linha de vida da Rússia em termos económicos. Sabe-se também que fornece à Rússia materiais, alguns de duplo uso, como alegam, drones, milhares de drones, peças para construção de armamento, de uma forma que ninguém tem dúvida. Também está metida no negócio com a Coreia do Norte, que é uma espécie de protetorado chinês e que também apoia a Rússia de forma ostensiva e clara. Mas mantém esta reserva que permite agir com certo cinismo e aparecer como um grande pacificador e um país de equilíbrios, etc.
Ainda ontem, em Pequim, Putin e Xi Jinping apelaram juntos a um cessar-fogo urgente e abrangente no Médio Oriente. Portanto, de um lado, veste a capa de mediador diplomático no Médio Oriente e depois, do outro lado, alimenta secretamente a máquina de guerra russa.
Sim, a China é claramente um expoente do cinismo internacional, é um país que viola claramente o direito internacional quando entende, e de forma ostensiva, à sua volta, no seu próprio território. Mas depois aparece com esta capa, até a criar um contraponto com os Estados Unidos, que é uma espécie de firebrand agora internacional, em que o Trump toma decisões que às vezes ninguém percebe. E a China aparece como o grande equilibrador, a criar uma ideia de que "nós somos o contraponto, nós é que somos a grande cola do sistema internacional". Agora, esta ideia da China treinar tropas russas. Eu não sei se será a China que está a treinar tropas russas ou é o contrário, ou seja, ou é de facto a China a querer perceber como é que é feita a guerra. Porque a China não tem experiência militar efetiva em guerra nos últimos anos. O último combate que teve, se não estou em erro, foi com o Vietname há uns anos e não correu bem, apesar da sua superioridade. E portanto, a China precisa também de saber o que é que se está a acontecer no campo de batalha. Não no sentido apenas de ouvir as notícias ou de haver simpósios e trocas de informações, mas também talvez no terreno.
Perceber, na prática, como é que estão a ser treinados e o que estão a fazer.
Exato, isso é importante. Aliás, foi o que fez a Coreia do Norte, foram perceber como é que as guerras são e como é que elas estão a decorrer neste momento e que lições daí tirar. Acho que estão um bocado por aí.
Sobre o Irão, Trump e Netanyahu parecem estar em desacordo depois de uma conversa por telefone. O primeiro-ministro israelita terá dito ao presidente norte-americano que adiar os ataques contra o Irão é um erro. Coronel, que leitura faz disto quando há quem diga que esta guerra não teria começado se Netanyahu não tivesse insistido com Trump e inflamado a percepção da ameaça que o Irão representava?
Pois, há quem diga isso e para mim isso é uma espécie de recapitular um libelo antigo antissemita, que é a ideia que Israel, um país daquele tamanho, controla os poderes mundiais ao ponto de os levar a agir, uma espécie de tumor que está ali e que dá ordens a países muito mais poderosos que ele. Enfim, há aí bastante exagero. Agora, o que se passa aqui é que é óbvio, pela retórica e pelo que se vai sabendo, que Trump quer fazer um acordo com o Irão. E o acordo está a afunilar, pela última retórica, para a questão nuclear. Está a afunilar só para isso. E deixa de fora aquilo que Israel entende também importante, que é a questão dos mísseis e dos proxies. E portanto, mesmo nesta framework que agora se está a discutir, que é isso que está em causa agora, uma framework em que iria haver um mês ou mais de negociações, etc. Teria uma carta de entendimento em que discutiriam este assunto e este assunto, Ormuz, a parte nuclear, e o resto ficaria para depois. Israel entende que esta é a ocasião certa para acabar com esta estratégia iraniana de dominar regionalmente toda aquela zona com mísseis, com proxies, etc. E está a sentir que os sacrifícios que fez, na opinião de Israel, não se irão traduzir numa machadada séria naquilo que é o regime iraniano e nas suas capacidades e intenções. E portanto, está a ver perder-se uma oportunidade. Eu acho que é isso que está em causa neste momento. Os interesses americanos não são os mesmos que Israel, nunca foram. Israel tem interesses de sobrevivência, a América tem interesses de hegemonia e ali naquela zona, como em todas, é sempre assim, coincidem nalguns pontos, não coincidem nos outros. Israel, obviamente, depende dos Estados Unidos em termos militares, e portanto está a ver que a sua capacidade de levar a frente os seus objetivos está a chocar com os interesses americanos. Não só acontece no caso do Irão, mas também no caso do Líbano e no caso de Gaza também.
Mas coronel, entre Estados Unidos e Irão, quem é que está em melhor posição agora para esticar a corda, neste momento? E até quando pode Trump ameaçar com a destruição total para depois recuar?
Trump obviamente pretende um acordo. Toda esta ação é para levar o Irão a fazer um acordo que seja melhor que os acordos anteriores e que, no fundo, controle o Irão em termos do que é a sua estratégia regional, de promoção de hegemonia e de ameaça aos países vizinhos e de controle de rotas marítimas também. Tudo isso sempre foi feito para levar o Irão a fazer um acordo. A questão é que o Irão nunca fará um acordo enquanto puder evitá-lo. E já perceberam que os Estados Unidos não vão invadir o Irão no sentido clássico, não vão tomar o poder em Teerão. Sabendo isto, e sabendo que podem causar alguns danos, não só aos Estados Unidos, mas fundamentalmente aos países que estão à volta e que são aliados dos Estados Unidos, jogam com essa cartada. Ou seja, nós vamos esticar a corda, vamos tentar manter os nossos pilares estratégicos, que eu repito outra vez, que é o nuclear, os mísseis e os proxies. E agora jogam também com o controle do Estreito de Ormuz. O Irão vai tentar fazer isto tudo porque já percebeu que os Estados Unidos não vão invadir o Irão, podem causar muitos danos, podem de facto destruir muita coisa, e o Irão percebe que esta guarda revolucionária não tem muitos problemas em sacrificar uma parte significativa da população, o bem-estar, inclusive as vidas de muita gente. Joga nisto. Os americanos não querem invadir o Irão, querem um acordo. Nós também queremos um acordo, as condições desses acordos, o que nós queremos não é possível. E por isso vamos tentar chegar a um acordo que seja palatável e que garanta os nossos interesses. Sempre sabendo que o tempo político não corre a favor do Donald Trump.
Até porque são eles intercalares, não é?
Sim, o tempo económico também não corre a favor do Irão. O Irão está a perder capacidades, mas a guarda revolucionária não se importa muito disso. O que interessa é manter o regime, manter-se no poder e se tiver que sacrificar muita gente, fá-lo-á, como se viu.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana.
Igualmente para si. Obrigado.
Obrigada, bom dia.