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Abrimos agora a porta do Gabinete Guerra, na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do especialista em Relações Internacionais, Orlando Samões. Boa tarde. Obrigada por ter aceitado este convite para se juntar a nós.

Boa tarde, eu é que agradeço o convite. Muito obrigado.

Ora essa. E começamos com um caso que está a gerar várias questões. O diretor da CIA, John Ratcliffe, fez alegadamente uma visita a Moscovo. Esta que foi uma visita-relâmpago inesperada à capital russa ontem. Não há, no entanto, confirmações oficiais, mas vários jornais norte-americanos e russos têm revelado detalhes sobre esta visita, que está ainda assim envolta num certo secretismo. Uma das razões apontadas para a visita pode estar no facto de que os Estados Unidos tenham descoberto informações sobre a Rússia ter planos para testar a NATO com possíveis ataques a países aliados nos próximos anos. Donald Trump também já falou sobre isto, diz que se trata de uma visita de semi-rotina. No entanto, Ratcliffe já não ia à Rússia desde 2021. O que pergunto é: por que este secretismo? Pode ser mesmo por esta razão apontada pela imprensa norte-americana? É, de facto, uma visita de rotina? O que é que acha deste encontro?

De facto, estamos aqui perante uma situação muito interessante. Não sabemos. Isto está numa situação envolta de um certo mistério que nos dá azo a um conjunto de especulações e de imaginações. Ficamos a pensar até que ponto é que o diretor da CIA terá mesmo estado em Moscovo. Podemos começar a duvidar um pouco de tudo isto. A verdade é que o chamado tracking da viagem foi bastante público, há dois aviões que seguem para Riga e depois um que vai até Moscovo com o diretor da CIA. E é verdade que entre semi-rotina ou rotina, é difícil dizer, porque na realidade é raro, ou pelo menos não vem tanto às notícias. E a última vez, o registo que temos era William Burns e ainda foi na era Biden, e foi uma viagem que não surtiu em grande resultado. Se calhar esta forma como Trump está a colocar esta questão, pode anunciar que não deve ter corrido assim tão bem e que não há assim muito para anunciar. O que é facto é que aparece John Ratcliffe numa altura em que se calhar pensaríamos começar a ver Witkoff e Kushner, que esses sim seriam enviados especiais para tentar perceber melhor o que é que a Rússia efetivamente estaria disposta a incitar algum processo, a iniciar algum processo de negociação, fosse do que fosse, até pelas questões que nós temos visto recentemente e aludido. Houve já momentos de troca de prisioneiros. Também é verdade que se calhar o diretor da CIA pode estar a negociar alguns dos americanos presos, são cinco ou seis na Rússia, ou que estão em vias de serem presos na Rússia e, portanto, podia haver aqui um investimento dos Estados Unidos nesse sentido. Ou como a sua pergunta indicia e bem, até que ponto é que há tensão com a Europa e pode haver aqui uma ameaça mais ou menos tácita para com alguns dos países da NATO nas regiões de presença russa, na Estónia ou na Letónia. E se calhar, indo um bocadinho nessa direção, este contacto pode fazer-nos lembrar aquele telefone vermelho entre a União Soviética e os Estados Unidos. Ou seja, para tentar acalmar a situação ou que ela não escale, o melhor é falarem diretamente. Os diretores dos serviços de informação falam entre si para apaziguar alguma situação de um possível mal-entendido. Ou seja, tentar ver do outro lado se é mesmo verdade que podem estar dispostos a isto ou aquilo, ou seja, uma situação de escalada, para que o outro lado diga claro que não e haver aqui a possibilidade de o mal-entendido ficar esclarecido. O que é facto é que diretores de informação podem, por vezes, também acabar por criar uma situação de informação ou de contrainformação, ou até estarem a tentar obter mais informações de uma maneira mais direta. Portanto, é uma situação que nós, não sabendo nesta fase, se calhar um dia saberemos, pode também estar a ser uma visita com caráter rotineiro, mas ainda assim, há tantos pontos de preocupação entre a Rússia e os Estados Unidos, nomeadamente o Irão, onde a partilha de informações por parte da Rússia pode estar a ajudar aos ataques do Irão às bases dos norte-americanos no Médio Oriente. E portanto, podemos continuar a especular, porque isto não sabemos, e podemos também, por que não, avançar a ideia de que as sanções, embora a Rússia não tenha um contacto comercial assim tão grande em percentagem para com o Irão, também poderia ser implicada nas sanções secundárias e pode estar a haver aqui um veículo de comunicação que, de certa forma, a Rússia pode ficar ou incluída ou excluída. Depois também não nos podemos esquecer que esta administração norte-americana tem-nos espantado tanto. Peskov diz-nos que isto é um fenómeno positivo, este tipo de contactos, e dá a entender que é um pouco disto que se trata, é quase uma troca de contactos. Vão-se mudando as pessoas nos cargos, ainda não conhecíamos John Ratcliffe e por que não conhecermos? Mas enfim, para já ainda é cedo De manter pontos de contato entre os serviços de informação, por que não? Se calhar aquilo que poderíamos exigir aos Estados Unidos era, às vezes, perceber um pouco melhor de que lado está e deixar algumas das amizades do seu presidente de lado e perceber que a Rússia está e mantém uma atividade de cariz muito agressivo, por vezes de guerra híbrida para com a Europa, por vezes ameaçadora em relação à zona NATO e os Estados Unidos da América deveriam ser muito claros de que esse tipo de comportamento pode e deve fazer levantar muito mais alertas na Europa e estarem dispostos a defender todo o território da NATO.

Falemos agora do estreito de Ormuz. O Irão diz que foi alcançado um acordo com Omã sobre a partilha de receitas na navegação por este estreito. O porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica faz também algumas exigências aos Estados Unidos, pede para que se voltem a sentar à mesa das negociações para o tal memorando de entendimento, mas avisa que se pararem de obstruir e voltarem ao memorando, o estreito pode ser reaberto dentro da estrutura desse acordo. Por outro lado, se os Estados Unidos não aceitarem as condições do Irão, o estreito não será reaberto em hipótese alguma. Também o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, veio já descartar alguma possibilidade de um acordo diplomático com os líderes iranianos e reitera que se o Irão atacar Israel, a resposta será mais forte do que nunca. Ainda assim, sobre este acordo e as exigências face aos Estados Unidos, pergunto se apesar deste novo acordo alcançado entre Irão e Omã, o impasse no estreito vai continuar.

Eu começo a ficar bastante confuso com toda a situação, porque estes acordos entre Omã e o Irão já estiveram várias vezes muito próximos, já foram anunciados como tendo sido conseguidos, mas a velocidade com que se diz que ainda não há uma resolução completa, eu creio que a última formulação da Guarda Revolucionária é confirmar que há alguns acordos, e estou a citar alguns, com Omã sobre Ormuz, mas que ainda não são plenos. Ou seja, nós estamos aqui numa situação em que Ormuz entre e aberto. Portanto, tendem a creditar um conjunto de rotas ou mais a norte ou mais a sul. Possivelmente, também essas rotas não são as mais profícuas do ponto de vista da própria navegação. E então tentam encetar uma maneira de ter as rotas privilegiadas mais a meio, sobre as quais é mais difícil conseguir acordo. E muito possivelmente, estamos aqui nesta situação em que é difícil chegar a acordo com o Irão e se calhar Omã até pode estar no seu papel de mediador a tentar chegar a bom porto. De certa forma, aqui a representar este sultanato acaba por fazer aqui o trabalho dos outros estados do Golfo que não têm este contacto com o Irão, mas na prática nem aberto nem fechado. E de facto, o que o Irão quer é manter o mundo um bocadinho aqui em suspenso em relação a isto e os Estados Unidos não conseguindo abrir, ainda fecham mais, fazem bloqueio aqui por via de tentar criar um bloqueio ao próprio Irão, acabam por criar a impressão de que mantêm fechado. Por muito que Trump depois diga que os Estados Unidos já conseguiram ou retirar, fazer um processo de desminagem para dar a impressão que está aberto, mas no fundo o medo continua e as seguradoras continuam a exigir prémio de seguro que por vezes podem ultrapassar o razoável, precisamente porque estão a lidar com muita incerteza. Ora, isto passa a tornar, de facto, é muito difícil nós estarmos neste mundo. A intervenção de Israel, como lembrei bem, é também aqui quem está em guerra com o Irão, porque Netanyahu continua a utilizar expressões muito duras para com o regime e portanto dando a entender que também não estará muito disposto a encetar conversações. Ora, isto mais tarde também vamos conseguir ler melhor toda esta situação. A pressão que devia ser feita para uma abertura total e completa é que deveria estar aqui a ser cumprida e não permitir muito até estes arranjos que vão levar possivelmente a uma situação que vai onerar a passagem do Estreito de Ormuz, mesmo que haja acordo com Omã. Agora o acordo com Omã pode ser um ponto intermédio, mas repare-se que muitas vezes há uma imprensa internacional ou a Reuters a dizer que se chegou a acordo e mais tarde vem o Irão dizer que ainda não está totalmente fechado e é isso que no fundo nos deixa aqui nesta hesitação. Não há contundência, nós de humanidade aqui estamos com uma dificuldade imensa em tomar qualquer tipo de decisões, até num sentido ou noutro. Mesmo no sentido de guerra, como os Estados Unidos tomaram no final de fevereiro deste ano. Nem isso conseguem neste momento e nem pelo seu contrário, ter um plano estratégico delimitado no tempo sobre sanções e sobre a possibilidade de tornar o Irão um Estado pária. Nem isso conseguem, não foi apresentado qualquer calendário, nem que conjunto de entidades secundárias que transacionam com o Irão pudessem vir a ser afetadas no futuro. Ou seja, não está a ser dito nada de muito concreto e Ormuz continua com muito poucos navios por dia a atravessar e a passagem a conseguir passar muito abaixo dos níveis anteriores. Claro que isto pode não estar totalmente ligado à guerra, mas é a forma que o Irão tem de continuar a espelhar alguma da sua força. Enquanto Ormuz for vital, assim será. Esta questão de estar aberto ou fechado, eu também noto que por vezes nós somos demasiado brandos com a crítica que fazemos ao Irão. Na realidade, muitas vezes se diz que os Estados Unidos estavam em negociações e passaram ao ataque. Notem também a dificuldade que o Omã, que é mais próximo, os estados do Golfo são muitas vezes estados que nós até podemos achar que são swing voters, entre a aliança para com o mundo ocidental, que têm em alguns níveis e alguns acordos, e para com darem por vezes a mão aos persas e permitirem também uma negociação com os persas do Irão. Reparem que, na realidade, estes estados também em negociação com o Irão não conseguem chegar a bom porto. Não têm força para fazer guerra, que na realidade também foram muito vítimas deste processo, mas não conseguem apontar nem num sentido ou noutro. Portanto, se repararmos nesta situação, esta negociação do Omã com o Irão nos faz lembrar a dos Estados Unidos. Quando os Estados Unidos dizem que estavam desesperados nessa negociação, podiam estar a falar a verdade.

E temos tempo ainda para mais uma pergunta, mesmo assim já quase no final do nosso tempo. Ainda relacionado com o conflito armado na Ucrânia, e voltamos aqui um bocadinho atrás, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, recebeu um aviso. O Reino Unido aparentemente pode vir a sofrer um ataque russo inevitável contra infraestruturas de segurança e defesa, devido ao apoio que Londres tem dado à Ucrânia. Esta é uma ameaça direta ao Reino Unido, mas aqui pedia-lhe uma resposta, de facto, mais sucinta. Podemos considerar que, apesar de ser uma ameaça direta, pode ser também uma ameaça indireta a toda a Europa?

É uma ameaça a toda a Europa e por via do país que até saiu da estrutura da União Europeia e que vimos como tendo ficado ainda mais autónomo, mas que na realidade tem apresentado aqui uma estratégia de continuidade e tem ajudado a criar união na própria Europa. Note-se o impacto deste projeto do Freya, que tentará produzir um sistema antimíssil europeu, é uma alternativa aos Patriots, chamemos-lhe assim, e que poderá juntar países diversos, desde os nórdicos, claramente o Reino Unido, a França, a Espanha e também os Países Baixos. Ou seja, Burnham está aqui a conseguir manter os vários pontos de apoio para a construção de um programa militar europeu e esteve presente nos 35 anos da Ucrânia também com aquela nova investida entre os SCALP e Storm Shadows que denotam este apoio entre França e Reino Unido, que no fundo espelham a capacidade que o Reino Unido tem tido de ser líder e de ter lido a história de uma maneira que parece que tem sido revelada ao longo destes cinco anos. A Rússia não vai querer um cessar-fogo porque quer uma nova maneira de estar perante a Europa e por isso é que é tão difícil chegarmos a um fim da guerra da Ucrânia. Burnham, sim, tem razão isto para estar preocupado, mas ele tem apenas dado continuidade àquela estratégia do Reino Unido desde o início. Tivemos primeiros-ministros como Boris Johnson, que foi o primeiro, a seguir Rishi Sunak, depois Starmer e Burnham, para citar os quatro que vocalizaram mais o seu apoio à Ucrânia e que naturalmente veem nesse apoio uma forma, no fundo de envolvimento, mas também de liderança. A Ucrânia acabou por dar em troca o conjunto dos segredos das táticas russas e, portanto, um conjunto de dados que tem retirado sobre esta guerra, que deixará também o Reino Unido numa posição de liderança. E para responder ainda mais direto à sua pergunta, quando Burnham sentou, mesmo para fechar, como chairman desta coligação de vontades na Ucrânia, disse que "estou aqui há tão pouco tempo", estou praticamente a citar: "Estou aqui há muito pouco tempo e já fui ameaçado pela Rússia. É a prova de que estamos a ter impacto na Rússia". E isto, de facto, ele orgulhoso do trabalho deixado pelo seu rival Starmer, e foi assim que ele também começou, esta coligação de vontades, que tantas vezes criticámos e dissemos que não chegava muito a nada, o que é facto é que começa a dar alguns sinais de um apoio contundente à Ucrânia, e isso deixa o Reino Unido numa situação de permanência e de sob ameaça à qual o Reino Unido terá que responder, juntando toda a Europa, porque nenhum país isoladamente estará em condições para rivalizar com a Rússia, mas no sentido de nos apetrecharmos e de melhorarmos a nossa capacidade para evitar a guerra com a Rússia. A Rússia não se vai meter contra uma Europa unida, liderada pelo Reino Unido, isso de maneira nenhuma. Portanto, poderá estar aí a chance e a chave para evitarmos as próximas guerras.

E é com essa ideia que fechamos o Gabinete de Guerra. Chegamos ao final do nosso tempo. Hoje contámos com a análise de Orlando Sá Moço, especialista em Relações Internacionais. Mais uma vez, obrigada por se ter juntado a nós.

Muito obrigado, eu que agradeço.

O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.