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Segunda edição do dia de Gabinete de Guerra. É nosso convidado a esta hora o antigo professor da Academia Militar, António José Telo, a quem agradeço a disponibilidade para analisar alguns dos factos mais recentes relacionados com os conflitos no Médio Oriente e também no leste da Europa. É precisamente pela guerra da Ucrânia que começamos, um dia depois do presidente dos Estados Unidos ter dado conta dos esforços diplomáticos norte-americanos, no sentido de sentar à mesa das negociações russos e ucranianos. A Rússia voltou a atacar várias zonas do território da Ucrânia, desde logo Kiev, Kharkiv, Zaporizhzhia. Senhor professor, há, de facto, uma vontade genuína por parte da Rússia de chegar a um entendimento, de resolver esta guerra pela via diplomática ou estamos na presença, acima de tudo, retórica?
Boa tarde. Há que ter em conta que é um período especial que estamos a viver. A Rússia tem, sem dúvida, vontade de resolver a guerra, mas é nas suas condições e não noutras, e até agora não tem mostrado desejo de abdicar de condições que são muito difíceis de ser aceites pela Ucrânia, nomeadamente o abandono da totalidade do Donbass. Agora, isto tem que ser entendido à luz das eleições americanas que estão relativamente próximas das midterm elections, o que significa que há uma pressão por parte e uma vontade por parte de Trump de obter resultados visíveis, pelo menos que possam ser falados e apresentados ao mundo, independentemente do seu efeito efetivo. E eu entenderia esta iniciativa de Trump, essencialmente, neste momento, nesse contexto. Aliás, mesmo a falada reunião tripartida nunca seria uma cimeira, seria sempre uma reunião prévia de técnicos e acredito que, na prática, já existem, o que é que existem discretamente, ou seja, sem que os holofotes incidam sobre elas e sem que sejam objeto de notícia. Se agora, de repente, passam a um outro estatuto de visibilidade, tem a ver, sobretudo, penso eu, com o desejo do presidente americano de apresentar resultados. Para ele, o ideal seria que houvesse um armistício na guerra entre a Rússia e a Ucrânia antes das eleições. Não me parece que isso aconteça.
Professor, peço desculpa interromper. É à luz desta interpretação que aqui faz que devemos ler a afirmação feita pelo presidente dos Estados Unidos que o fim da guerra nunca esteve tão próximo?
Eu já ouvi várias vezes essas afirmações ou afirmações muito semelhantes. O que é que é capaz de ser verdade? Quer dizer, nunca esteve tão próximo. É possível que estejamos a dar passos nesse sentido, o que significa que cada dia que passa podemos dizer que nunca esteve tão próximo. Agora, eu tenho dúvidas sobre a intenção efetiva da Rússia de terminar a guerra. Do ponto de vista da Rússia, é um dilema, porque é o dilema entre ou aceitar uma solução de compromisso, mesmo um compromisso favorável, como tudo indica que é o que está a ser negociado, ou então apostar o tudo por tudo. Ora, a Rússia tinha dado sinais e continua a dar sinais, até há relativamente pouco tempo, que estaria disposta a apostar o tudo por tudo, nomeadamente em termos das provocações que faz em relação à União Europeia. Portanto, há aqui uma dúvida e hesitação da Rússia. É muito possível que a Rússia esteja a aceitar estes termos do presidente Trump, ou seja, esteja a dizer: "Sim, senhora, vamos dar sinais de que queremos um entendimento e queremos uma solução a curto prazo para facilitar estas midterm elections por parte do presidente Trump", mais do que qualquer outra coisa. Agora, mais significado e mais importância tem a reunião tripartida, essa cimeira entre Rússia, Estados Unidos e China. Há muitas coisas em cima da mesa, muitas coisas que têm que ser resolvidas. A guerra da Ucrânia é uma delas e que possivelmente, para uma reunião tripartida a esse nível, é capaz de não ser das mais importantes. Mas há, sim, várias coisas que têm que ser resolvidas. Uma delas, de facto, é o funcionamento económico do sistema mundial. E nisso há alguns pontos de divergência que estão em cima da mesa. É evidente que nós sabemos que estas cimeiras normalmente só aparecem quando as questões já estão tratadas. Para os dirigentes máximos poderem aparecer para a fotografia, para poderem dizer que foram eles que se empenharam e que resolveram os problemas, fazer as assinaturas e conseguir obter os louros e conseguir obter os frutos que resultam dessa iniciativa. Portanto, isso sim, essa cimeira tripartida entre China, Rússia e Estados Unidos será importante e é possível de realizar-se. Uma cimeira Rússia, Ucrânia, Estados Unidos é duvidoso, mas é normal que haja uma reunião de técnicos que apareça em público com grandes holofotes em cima, pelas razões que já indiquei, essencialmente pelo desejo do presidente Trump de mostrar resultados.
Senhor professor, se bem percebi, eu suponho a ideia de que uma eventual reunião tripartida entre Estados Unidos, China e Rússia não servirá para encontrar uma solução para a guerra no leste da Europa?
Se for mencionado, será um assunto marginal.
Lateral.
Porque nas reuniões entre esses três, há assuntos bastante mais importantes, nomeadamente mesmo em relação à guerra da Ucrânia, a guerra do Irão passa à frente. Ou seja, para esses três é mais importante uma solução para o Médio Oriente do que propriamente uma solução para a guerra da Ucrânia, que tem um nível diferente. E mais uma vez, o que se nota e o que é muito visível é a ausência do que poderia ser um quarto importante que é a Europa. A Europa continua mesmo, em termos oficiais e em termos teóricos, continua perfeitamente ausente destas discussões. O que é um contraste claro com uma situação que existia há o quê? Dois anos, três anos, há muito pouco tempo. E de repente a Europa não só é marginalizada, como aceita a marginalização e como aparentemente ficará muito contente se não vier a piorar a sua situação drasticamente a curto prazo, coisa que pode acontecer com as eleições que se perspetivam, nomeadamente na Espanha e na França.
O que deve a União Europeia fazer face a esse alinhamento forçado da resolução das grandes questões mundiais?
A União Europeia não consegue rever o seu estatuto no mundo sem minimamente encontrar um entendimento interno. Ou seja, o que falta à União Europeia é uma estratégia que tenha um consenso. E aqui há uma dificuldade evidente, é que normalmente as estratégias têm sempre uma parte pública e depois têm uma parte que é privada, que não se pode dizer sob pena de se for dito, não ser alcançável, não se conseguir realizar. Ora, para a União Europeia, tal como ela existe atualmente e tal como funciona atualmente, é impensável conseguir elaborar uma estratégia global. E não só uma estratégia que tenha o mínimo de consenso dentro da União Europeia, mas sobretudo uma estratégia que seja eficaz em termos externos. Antes tinha algum peso e circunstância porque aparecia junta com os Estados Unidos. E aparecia, de facto, como o grande aliado dos Estados Unidos. Hoje, claramente, já não é.
A força diplomática está intimamente associada à capacidade militar.
Está intimamente associada, mas há aqui um problema de fundo: é que a Europa não tem uma estratégia. Em termos globais, não tem uma estratégia, porque a defesa de uma série de banalidades do mundo que passou não é uma estratégia. É uma tentativa de disfarçar a ausência de uma estratégia. Se perguntarem à Europa o que é que pretende para o Médio Oriente, primeiro falta saber quem é que pode falar em nome da Europa. Mas se houvesse alguém que falasse em nome da Europa, possivelmente teria banalidades do gênero: "Queremos uma paz, queremos uma estabilidade, queremos o progresso e o bem-estar de todos". Pois está bem, isso todos dizem querer. A questão está em termos concretos, como é que isso se traduz? A Europa não consegue atualmente sair de banalidades. E mais, não consegue fazer o que a Espanha fez, que é disfarçar a sua total ausência de estratégia com banalidades do gênero: "Não, nós temos que respeitar o direito internacional", que obviamente não dizem nada e que não resolve absolutamente nada o problema. Pelo contrário, são um atraso e uma marcha atrás, como aliás a própria Espanha confirmou quando recuou. O próprio governo espanhol recuou a seguir, deu o dito por não dito, mas entretanto já fez a sua triste figura de total ausência de um entendimento do que é o mundo atual e, sobretudo, de como agir no mundo atual para defender os interesses europeus.
O senhor professor fazia referência ao Médio Oriente, é para lá que viajamos agora. Corre esta possibilidade, paira no ar a possibilidade de um ataque em força por parte dos Estados Unidos a seguir às eleições intercalares norte-americanas que aqui já fizemos referência. Parece um cenário provável, tendo também em conta esta evolução do barril de Brent hoje, por exemplo, já ultrapassou a barreira dos 112 dólares, o valor mais elevado desde maio. Parece inevitável essa nova ofensiva por parte dos Estados Unidos?
Parece-me inevitável e mais, não me parece inevitável agora. Eu, pelo menos desde que se falou no protocolo de entendimento, e já lá vão cerca de cinco meses, quatro meses e tal, que eu venho a dizer que era meramente um compasso de espera. Os Estados Unidos apostaram numa estratégia conjunta com Israel, que não obteve os resultados desejados. É falso que não tenha obtido nenhum resultado, mas é verdade que não obteve os resultados desejados. E começaram a pensar numa nova aproximação, que exigia tempo. E que exigia tempo não só em termos militares, era preciso rever por completo a manobra militar e, sobretudo, era preciso minimamente repor estoques que se revelaram frágeis e insuficientes, mas sobretudo que exigia uma aproximação, exigia tempo em termos políticos e diplomáticos. E essa aproximação está a ser feita unindo o problema do Irão, que é inseparável, com o problema dos Hutis e com o problema do Líbano, e tratando como um todo e envolvendo nesse tratamento aquilo que são, ao fim e ao cabo, os grandes poderes locais, os grandes poderes islâmicos no Médio Oriente. Estou a falar nomeadamente do Egito, estou a falar nomeadamente da Turquia, do Paquistão e da Arábia Saudita E os Estados Unidos estão a fazer um caminho lento é certo nesse sentido e desde o primeiro momento, de uma maneira discreta, a partir de certa altura e quando digo certa altura é há cerca de dois meses, o presidente Trump foi o primeiro a dizer: "Vamos lançar o grande ataque contra o Irão". Coisa que já era evidente antes, mas ele disse-o abertamente e publicamente. Não estou a falar de nenhum segredo de Estado, foi dito publicamente pelo presidente Trump. Evidente que as afirmações públicas do presidente Trump valem o que valem e nós já sabemos que nem sempre se concretizam. Agora, sim, sem dúvida, os Estados Unidos estão a preparar uma nova aproximação com uma vertente política, diplomática, ideológica, mas também com uma vertente militar. E essa vertente militar pode passar por uma ação conjunta. O Irão é o primeiro a lançar achas na fogueira quando ainda há pouco tempo disse: "Se formos atacados, poderemos invadir países do Golfo". De facto, há uma série de pequenos países no Golfo, pequenos, mas bastante importantes economicamente e, sobretudo, em termos de energia, que o Irão tem capacidade de invadir, pelo menos teria se não tivesse os Estados Unidos ali. Portanto, o próprio Irão está, ao fim e ao cabo, a cair nessa armadilha, que é ao dizer: "Nós podemos invadir outros países do Golfo", o que o Irão está a dizer é: "Ou vocês colaboram com uma solução rápida pro problema, ou então vão ter que pagar uma consequência muito forte e vão ter que pagar em conjunto". Portanto, sim, isso está a ser preparado de uma maneira muito clara. A minha dúvida é que até há alguns tempos eu diria que isto só iria se desencadear depois das eleições do meio, a midterm election. Agora tenho dúvidas.
Pode ser antes de 3 de novembro.
É, se não haverá uma escada de antecipação de um lado ou do outro. A parte perigosa atualmente é essa.
Eventualmente, o Irão, até para prejudicar a campanha eleitoral do Partido Republicano.
Não, não só. O Irão já disse, e disse também claramente e publicamente. O Irão também fala demais, não é só com o presidente Trump. O Irão já disse o seguinte: "Nós poderemos lançar um ataque preventivo. Ou seja, se nós virmos que se está a preparar uma ação de grande envergadura contra nós, poderemos lançar um ataque preventivo". Ouça, e que se está a preparar uma ação de envergadura, não há muitas dúvidas. Se houvesse dúvidas, bastava seguir os noticiários portugueses, que claramente diziam que os aviões reabastecedores nas Lajes passaram pra 16, que era o máximo que estiveram no período pior, mais aceso da guerra do Médio Oriente. Portanto, claramente está se a preparar qualquer coisa. Ninguém se dá ao trabalho e ao gasto de colocar 16 reabastecedores nas Lajes, para já não falar nas outras dezenas que estão espalhadas pelo Médio Oriente e pela Europa, se não se estiver a preparar qualquer coisa. Se se faz este gasto, é porque alguma coisa está a ser preparada.
Aguardemos que coisa é essa que está a ser preparada e se será executada antes ou depois das eleições intercalares nos Estados Unidos, agendadas para o próximo dia 3 de novembro. Senhor professor, muito obrigado pela sua presença nesta edição de Gabinete de Guerra, onde procuramos abordar alguns aspectos do conflito da guerra no leste da Europa e também no Médio Oriente. Esteve como convidado o professor António José Telo, antigo docente na Academia Militar.
Obrigado e continuação de bom trabalho.