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Começa agora o Gabinete Guerra das Manhãs 360 esta manhã, com a análise do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia, tudo bem.
Bom dia. Donald Trump diz que um acordo de paz na Ucrânia está mais próximo do que nunca. Declarações depois da reunião desta segunda-feira, por videochamada, com o presidente ucraniano e vários líderes europeus. Miguel, desta vez há razões para este balanço positivo?
Essa é uma ótima pergunta.
Para a qual não tens resposta.
Exato.
É difícil.
Até porque nós sabemos da necessidade ou da vontade de Donald Trump para que haja um acordo. E para que haja um acordo, a ideia era sempre de que haja um acordo, primeiro era antes daquilo que é a festividade do Thanksgiving nos Estados Unidos, depois passou a ser o Natal. Entendemos ontem que Donald Trump disse que este era um acordo que ia demorar tempo, e poderia demorar até, ele disse, qualquer coisa como o tempo que tiver que tomar. Agora, o que nós sabemos é que Donald Trump quer um acordo de paz e quer um acordo de paz que seja feito de forma quase imediata, muito próximo daquilo que será um exemplo ao que foi o que aconteceu em Gaza, que é um acordo de paz feito, uma assinatura, e depois logo se vê o que é que sai. Em Gaza, nós vemos todos os dias o que acontece e sabemos que o acordo de paz não é um acordo de paz, mas na questão da Ucrânia, pela dimensão que ocupa, por aquilo que poderá também envolver, uma vez que não envolve só a Ucrânia, mas envolve toda a Europa, toda a arquitetura de defesa da Europa, é algo que não pode ser feito às três pancadas, digamos assim, e portanto demora muito mais tempo. O que nós também podemos observar e vamos observando é que, entretanto, a Europa, por mais difícil e por muitas vezes nós criticamos a Europa, a Europa conseguiu, de alguma forma, reforçar a posição da Ucrânia, nomeadamente na questão daquilo que é a arquitetura da questão de defesa. E é por isso que aparecemos no final da reunião com seis linhas, digamos assim, seis linhas de atuação, depois daquilo que foram as negociações com Steve Witkoff e com Gerhard Kuscher nos últimos dois dias em Berlim, e isso também, de alguma forma, reforma a posição. Se juntarmos a isto, esses seis pontos, e esses seis pontos são importantes, que é o apoio militar permanente, ou seja, a continuação da Ucrânia com o exército mais ou menos como tem agora, 800 mil militares. Depois, temos duas coisas que nós sabemos que são importantes para a Europa, e a Europa utiliza isto quase como uma moeda de troca, mas sabemos que a Rússia não vai aceitar, que são as forças multinacionais lideradas pelos Estados Unidos.
Lideradas pelos Estados Unidos aqui?
Exato, com o apoio dos Estados Unidos, mas que são criadas estas forças para reconstruir as Forças Armadas ucranianas e proteger o espaço aéreo e garantir a segurança marítima. A Rússia nunca vai aceitar que sejam efetivamente tropas europeias. Depois, uma monitorização do cessar-fogo. Será uma força internacional, mas qual força internacional? Falou-se durante muito tempo que poderia ser a Turquia, segundo maior exército da NATO. Mas nós ouvimos também ontem Lavrov dizer que a NATO precisava de voltar às fronteiras de 1996. Portanto, nós teríamos que convidar alguns países que hoje fazem parte da NATO a saírem da NATO, porque a Rússia sempre pediu.
Mas Miguel, sobre a NATO, a União Europeia também admite que Kiev poderá ser forçada a abandonar a ideia, a pretensão de fazer parte da NATO, que é uma das exigências do Kremlin.
Mas isso é uma troca até bastante inteligente. É uma troca até bastante inteligente, porque nós sabíamos que a entrada agora da Ucrânia na NATO seria sempre extremamente difícil, até porque depois há também a questão do veto dos outros países.
Claro.
Mas trazer a Ucrânia para dentro daquilo que é o espaço da União Europeia, como eu já disse mais do que uma vez, que é essencial para a arquitetura de defesa da Europa, obriga a que, de alguma forma, e uma vez que a Europa está nesta senda de se tornar independente, digamos assim, dos Estados Unidos em termos de defesa, e que a Alemanha quer assumir o comando da NATO e quer se tornar o grande pilar europeu militar da NATO, significa que a Ucrânia vindo para o seio da União Europeia, automaticamente teria uma proteção muito próxima daquilo que seria a arquitetura do chamado artigo quinto da NATO. Portanto, deixa cair esta ideia, para já, de que tem de entrar na NATO, até de alguma forma concedendo isto à Rússia, uma vez que a Rússia sempre disse que isto não seria uma linha vermelha, a mesma posição que teve, por exemplo, em relação à questão de aceitar que haja eleições e que haja efetivamente um respaldo imediato de que Zelensky disse: "Bom, mas então vamos a eleições e vamos fazer um referendo sobre as questões territoriais". E, portanto, de alguma forma, é para esvaziar o discurso que os russos possam ter, ou mesmo os Estados Unidos, de que a Ucrânia não quer dar uma resposta positiva. Agora temos aqui dois números, Maria João, que são super importantes.
Então.
E que dão, de alguma forma, força à posição do Zelensky Saiu duas sondagens que foram feitas na Ucrânia, em que são números importantes revelar, que são 75% dos ucranianos, neste momento, opõem-se a uma saída das Forças Armadas do Donbass. O Donbass é aquela parte que é uma condição da Rússia de aceitar qualquer tipo de cessar-fogo. Portanto, 75% dos ucranianos ouvidos disseram que não aceitariam, de forma absolutamente nenhuma, a saída. E depois, há um número que aumentou e bastante, que é os ucranianos que estão dispostos a suportar a guerra por tempo indeterminado, que aumentou de fevereiro de 2025, de 54% para 63% em novembro de 2025.
Isso é muito revelador, não é? Sim.
Que é muito revelador. Isto quer dizer o quê? Que os ucranianos não estão dispostos, depois destes anos todos de guerra, dos sacrifícios que fizeram, a aceitar qualquer negociação que implique uma queda da Ucrânia, uma capitulação da Ucrânia e uma cedência da Ucrânia. E então, o que nós poderemos estar à espera? E que isto pode ser uma coisa interessante. Nós sabemos que a Rússia nunca vai aceitar que a Ucrânia não se torne aquilo que a Rússia quer que a Ucrânia se torne, que é uma segunda Bielorrússia, ou seja, um país que seja controlável por parte da Rússia. E talvez o que a gente possa assistir nas próximas semanas ou até nos próximos meses, é os russos a fazerem uma avaliação se poderá ser bom neste momento preparar a guerra, entrar num certo cessar-fogo, e Vladimir Putin pode estar a avaliar o seguinte: "Eu agora já desgastei a Ucrânia e a Europa através da guerra até este ponto. Será que eu agora posso continuar a conquistar a Ucrânia através de uma guerra híbrida, da corrupção, da influência da comunidade russófila, da intervenção direta nas próximas eleições na Ucrânia?" Um pouco como acontece em algumas partes do mundo, no intuito de sabermos exatamente de que poderá estar nesta segunda fase para controlar a Ucrânia. Nós não sabemos e vamos ter que avaliar isto.
Claro.
Mas poderá ser que a Rússia conclua-
Sim, para concluir, ainda para irmos ao Médio Oriente, Miguel.
Exato. Como sabemos que a Rússia tem sérios problemas econômicos, poderá estar nesta fase. É isso que nós vamos ver nas próximas semanas em relação à resposta desta proposta que a Europa apresentou juntamente com a Ucrânia.
Sobre o Médio Oriente e quanto à segunda fase do acordo, há uma força de estabilização e também o desarmamento do Hamas e do Hezbollah. Trump disse que há muitos países que querem entrar e limpar tudo, caso os Estados Unidos o aprovem. Mas Miguel, como é que se faz isto de forma pacífica?
Nós estamos à espera de saber quais são os países que querem entrar.
Falam em 59 países, não é?
Pois, exato. Mas depois não sabemos ao certo. O maior problema de qualquer força de manutenção de paz que entrasse neste momento em Gaza, seria de que nenhum país quis entrar até agora, porque sabe que neste momento não é para manter paz, mas sim para controlar o Hamas. Ou seja, nenhum país quer entrar, um bocado na posição de que, como a gente costuma chamar, capacetes azuis da ONU, quando tem que andar em guerra com o Hamas. Não existe, neste momento, uma capacidade de desarmar o Hamas, porque nós não sabemos quem é o Hamas, onde é que está, que tipo de armas é que tem. Aquilo que nós estávamos à espera e que o Egito teria ficado responsável, que era responsável por fazer a reconstrução de uma força de polícia para depois instalar em Gaza, não foi feito. O espaço, que era um espaço entre Israel e aquilo que se chamava a Linha Vermelha. A Linha Vermelha, não, perdão, a Linha Amarela, que era chamada uma terra de ninguém, que iria de alguma forma criar ali um espaço de segurança entre Faixa de Gaza e Israel, para que essas forças internacionais também pudessem controlar, foi agora ocupado por parte de Israel. Portanto, o que nós vemos é que, tal como eu disse há pouco, como Donald Trump quis impor um processo de paz às três pancadas, se me permite assim dizer, e agora temos aqui um grande problema, que é passar a uma segunda fase. É extremamente difícil, porque não existe um equilíbrio político, nem um equilíbrio em termos de organização no próprio terreno. E por mais que Donald Trump diga que há uma quantidade de países que querem fazer todo este processo de intervenção, de manutenção de paz, nós sabemos que não existe paz, porque sabemos que Israel continua a intervir militarmente. Vamos ouvindo de que, volta e meia, morrem mais uns palestinianos à mão das tropas de Israel. Sabemos que o Hamas foi capaz de se reorganizar e nós deixamos de falar do Hamas, porque não sabemos ao certo quem é que está e onde é que está e que tipo de armamento é que tem. E, portanto, esta segunda fase implica também uma aprovação por parte de Israel, que tipo de país é que vai poder entrar. E eu acho difícil, neste momento, nós estarmos a encontrar um país que queira entrar em Gaza, não para fazer uma manutenção de paz, paz essa que é muito precária, e ao mesmo tempo, um país que esteja disposto a andar à caça daquilo que são os militantes do Hamas e tentar descobrir que tipo de armamento é que o Hamas tem. E como não existe ainda paz em Gaza, esse país tem que estar preparado também para ver morrer os seus soldados ou para entrar em combate direto com o Hamas.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra.
Obrigado.
Boa semana, Miguel. Obrigada.
Obrigado.