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É já amanhã que a Finlândia se torna oficialmente membro da NATO. Vai ser o primeiro ponto na agenda de hoje do gabinete de guerra com o historiador Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.
A Finlândia vai ser o 31º membro da Aliança Atlântica, a coincidir com os 74 anos de aniversário da NATO. Portanto, há aqui também esta questão simbólica. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Demorou menos de um ano a conseguir ser integrado e é bom lembrar que a NATO partilha uma fronteira de mais de 1000 km com a Rússia. É um momento histórico? É incontornável e num contexto muito importante sublinhar, que é este da guerra. Pedia-te, Bruno, primeiro a análise a esta integração e depois também que comentasses as medidas de segurança no Ocidente e a Noroeste que a Rússia já veio prometer aplicar.
Olá, boa tarde. É histórico no sentido que é mais um alargamento e é, sobretudo, um alargamento que quebra, do ponto de vista da Finlândia, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, no caso da Suécia, a concretizar-se essa adesão, que está mais complicada, desde 1814, desde as guerras napoleónicas, um padrão, sobretudo nestes dois países nórdicos, de estrita neutralidade e que tem muito a ver também com a proximidade à Rússia, antes disso à União Soviética ou Império Russo, e, portanto, é algo histórico. Apesar de tudo, eu acho que é preciso qualificar aqui um pouco as coisas, ou seja, por um lado, a NATO sempre teve uma fronteira com a União Soviética e depois com a Rússia, nomeadamente nesta zona, precisamente, através da Noruega. A Noruega tem uma fronteira que dá à volta de 200 km com a União Soviética e depois com a Rússia. Essa realidade sempre existiu. No período soviético, quando o Cáucaso também fazia parte da União Soviética, a Turquia também tinha uma fronteira terrestre com a União Soviética. A Turquia faz parte da primeira vaga de alargamentos, portanto, o primeiro alargamento da NATO, logo em 1952, aumenta a fronteira com a União Soviética e não é uma novidade no sentido de ser uma ameaça sem precedentes, como às vezes a propaganda russa ou pró-russa parece querer fazer crer às pessoas. Na verdade, eu acho que esta invasão é um teste interessante. Nós, na semana passada, tivemos o Congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política e também de Relações Internacionais e um dos temas que foi discutido foi, no fundo, as implicações da guerra para a disciplina das Relações Internacionais e da Ciência Política. E eu defendi que nós, no caso da adesão da Finlândia, temos uma coisa rara, que é uma espécie de experiência no mundo real. É raro conseguirmos fazer experiências na Ciência Política, porque ela envolve pessoas e Estados, e não são experiências físicas ou químicas com elementos inertes e que não têm autonomia. Mas aqui temos uma espécie de experiência no mundo real, que é: se realmente fosse verdade que a principal razão da invasão russa da Ucrânia era a dita expansão da NATO, o alargamento da NATO, então a única opção lógica neste momento era o próprio presidente Putin mandar as tropas retirarem da Ucrânia e começar a invadir a Finlândia, porque amanhã a Finlândia vai ser membro da NATO. E isso não é uma coisa vaga, não é uma coisa que não se sabe quando é que vai acontecer, é uma coisa que está absolutamente iminente. Mais, eu recordo, e isso mostra bem que esta tese, de facto, é útil para a propaganda, mas não tem nenhuma base factual. Este processo mostra bem como é complexo o processo de adesão à NATO. A Finlândia, pelo que eu estive a ver e pelo que me recordo, é o país que conseguiu uma adesão mais rápida à NATO. Um ano. É praticamente um recorde. E isto porque era um país já extraordinariamente integrado na aliança. Eu recordo-me de uma visita à sede da NATO, o secretário-geral adjunto a certa altura dizer a colegas finlandeses e suecos: "Vocês já só não são membros formalmente. Mas a colaboração é tão próxima, o treino, a doutrina é tão próxima que praticamente poderiam ser a qualquer momento Estados-membros." Ainda assim, o processo demora um ano, nomeadamente porque é preciso o acordo unânime de todos os Estados-membros. Ora, este processo nunca foi iniciado em relação à Ucrânia, nunca houve acordo de todos os Estados-membros, pelo contrário, quando isso foi tentado em 2008 pelos Estados Unidos, foi vetado por vários países europeus importantes, inclusive a Alemanha e a França. Portanto, claramente, isto mostra, em relação à guerra, tem sobretudo esta implicação, que é mostrar que este pilar da propaganda russa e pró-russa, que infelizmente tem tido até muito eco no Ocidente e a nível global, realmente é uma completa falácia. Não é claramente essa a razão da invasão russa da Ucrânia. Lá está, se fosse, então a Finlândia estaria em risco de ser invadida. A Finlândia não está em risco de ser invadida, e isto remete para o fim aqui do comentário. Não está a ser invadida porque é um país muito bem armado, muito bem equipado. Mais uma vez, para quem tem receio que o armamento sofisticado ocidental seja a causa da guerra, pelo contrário, na Finlândia fica muito evidente que é um fator fundamental de dissuasão da agressão russa. Aquilo que impede a Rússia de invadir a Ucrânia é fundamentalmente o fato de a Finlândia ser um osso muito mais duro de roer do que seria a Ucrânia, como aliás já demonstrou no passado. Está muito bem equipada, está muito bem organizada militarmente e agora passa a ter aqui uma garantia de segurança adicional. Portanto, eu tendo a desvalorizar esse gesto, essas declarações de alterações de distritos militares e de reforço de forças militares russas na região. É uma resposta mínima, indispensável para a Rússia não dizer que não faz nada, mas não me parece que seja muito significativo. O único elemento de ameaça real, mas que essa também já se verificava, são os chamados ataques híbridos, por exemplo, ciberataques. Não é por acaso que a Finlândia já tem o centro de excelência da União Europeia para lidar com ataques híbridos, porque já em anos passados era um dos alvos preferidos dos ciberataques russos.
Bruno, vamos ao segundo ponto na agenda, a morte do comandante militar e blogger pró-Kremlin, Vladlen Tatarsky, enquanto estava num café em São Petersburgo. Entretanto, há uma activista detida que tinha estado presa por protestos antiguerra. Terá sido ela quem entregou o artefacto explosivo à vítima. Já foi interrogada, o governo russo publicou até um vídeo. Esta história está bem contada e que repercussões pode ter para a guerra?
Eu acho que temos que ter aqui bastante prudência. É um facto que houve um ataque bombista, houve pelo menos um morto e vários feridos. O café não estava, nesse momento, pelo que eu percebi, aberto ao público, estava a funcionar para um evento destes meios ultranacionalistas pró-guerra. O grande problema é que este senhor Tatarsky fez muitos inimigos, sobretudo na Ucrânia, com declarações, por exemplo, um vídeo que foi muito mostrado agora a partir do Kremlin a dizer: "Nós vamos matar toda a gente, vamos roubar toda a gente, porque Deus está do nosso lado", isto falando da invasão da Ucrânia. Obviamente fez muitos inimigos na Ucrânia e não é impossível que haja aqui uma ação, ainda que uma ação que o governo ucraniano desminta, uma ação inclusive que pode ser até de grupos pró-ucranianos, mas que não estão diretamente subordinados ou ligados ao governo, mas é possível que sim, mesmo que usando alguém, por exemplo, do movimento antiguerra, no caso da Rússia, que se prestou a isso. Mas também não é impossível que mesmo esta activista antiguerra tenha sido manipulada, por exemplo, por setores do próprio Kremlin, porque ele também fez muitos inimigos no interior da Rússia. Muitos destes bloggers mais nacionalistas, mais guerristas, têm sido extremamente críticos da eficácia das Forças Armadas Russas, do Ministério da Defesa. E ele também se destacou por muitas vezes tomar posições extremamente críticas, referir comandantes militares de unidades supostamente de elite que estariam constantemente bêbados e seriam incapazes de comandar e declarações desse tipo. Também é possível que haja aqui, de facto, uma dimensão de luta interna. Eu acho que teremos de ver que dados credíveis é que vão emergindo. Em termos da evolução da guerra, acho que não terá aqui um efeito imediato. Houve as declarações do líder do grupo Wagner, que está obviamente muito ligado a estes meios, a reclamar a conquista de Bakhmut e a dedicá-la a este mártir dos meios nacionalistas, mas isso não alterou a realidade no terreno.
Bruno, importa precisamente fazer um ponto de situação rápido sobre Bakhmut. O líder do grupo Wagner publicou um vídeo a hastear a bandeira, mas a Ucrânia garante que a cidade ainda não está perdida.
Sim, aquilo que o próprio Prigozhin vem dizer é: "Legalmente, nós ocupamos a cidade, porque esta é a Câmara Municipal, ou era, porque obviamente está tudo destruído e é o centro da cidade". Mas ele próprio, nessas declarações, nesse vídeo, também diz: "Os ucranianos continuam na parte mais ocidental". Ele próprio parece admitir que no terreno as coisas não mudaram decisivamente. Podem mudar. Eu admito que os ucranianos possam, mais uma vez, estamos a falar nisto há algumas semanas, possam decidir a certo momento retirar mesmo das zonas que ainda ocupam de Bakhmut. Acho que aqui a grande razão para não fazerem isso é procurar o mais possível fixar aqui forças russas, retirar a iniciativa à Rússia, evitar que a Rússia ataque outras cidades que ainda estão, apesar de tudo, menos destruídas, têm sido menos alvo da artilharia russa e isso justifica aqui uma resistência ainda com custos importantes e também a ideia que é uma forma de ir fixando e também esgotando as forças russas para depois os ucranianos, no momento das ofensivas de primavera, quando o tempo for mais propício, quando tiverem pescado ainda mais meios e mais tropas treinadas no Ocidente, o fazerem com o máximo de força e perante forças russas o mais possível esgotadas, que tenham esgotado as suas reservas de homens, de material. Essa parece continuar a ser a estratégia. Mas desse ponto de vista, não me parece que tenha mudado nada de essencial, pelo menos com os dados que temos para já.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Voltamos a abrir novos Gabinetes de Guerra amanhã nas manhãs 360 e na tarde em direto.
Obrigado.