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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou Maria João Simões. A análise é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Olá, Bruno. A Bulgária está pronta para abrir um corredor aéreo para que Putin chegue a Budapeste para a reunião com Donald Trump. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, já reagiu e diz ser contra a deslocação de Trump a um país europeu para se encontrar com o líder que tem um mandado de captura do Tribunal Internacional Penal. Mas, Bruno, nenhuma das partes parece querer saber disso, não é?

Sim, nem os Estados Unidos, nem a Rússia. Acho que a situação não é propriamente ideal, nós próprios falámos disso aqui. Acho que é claramente uma prenda de Donald Trump ao seu amigo Orbán, que já estava a esperar há muito tempo por algo deste tipo. Orbán tem aliás eleições no próximo ano e as sondagens não lhe são muito favoráveis e temos visto esta tendência crescente também em Donald Trump, sobretudo neste segundo mandato, para no fundo promover uma espécie de trumpismo global, ainda mais do que no primeiro, ou seja, condicionar muito a sua ação externa também à promoção de interesses de líderes que ele vê como sendo alinhados com ele e leais a ele. Portanto, claramente aqui a questão do Tribunal Penal Internacional ou a sensibilidade dos outros países europeus realmente não pesou desse ponto de vista. A existência também de posições diferentes, no fundo, tem vantagens e tem desvantagens. Estamos numa situação que está longe de ser ideal, mas o facto de a Europa ter 27 Estados-membros com posições diferentes torna mais difícil tomar aqui uma posição de força perante Donald Trump, mas eu duvido que uma posição de força também fizesse assim tanta diferença. Claramente não vai acontecer. O que podemos dizer é, não sendo possível isso, pelo menos temos aqui uma Europa, se quisermos, não é a várias velocidades, mas com várias posturas e, portanto, fica claro que isto desagrada aos países europeus. Também fica claro que há países europeus que estão dispostos a ceder e a manter uma relação melhor com Donald Trump, portanto, talvez neste momento seja o melhor que se consegue arranjar.

Bruno, e o que é que podemos esperar que saia deste encontro depois das últimas declarações de Trump, que diz que a Ucrânia vai ter de ceder e que Putin vai ter de ganhar alguma coisa com esta guerra que ele começou?

Vamos ver se o acordo se concretiza. Vamos, sobretudo, ver o que é que sai desta reunião preparatória que foi anunciada entre Rubio e Lavrov, que será a partir até por via telefónica, portanto, não será mais uma cimeira entre ministros dos estrangeiros. Mas realmente as indicações que tivemos foram bastante negativas, ou seja, parece ter havido novamente aquele fenómeno de Donald Trump volta a repetir aquilo que ouviu da última pessoa com quem falou, neste caso sendo Putin. Ou seja, Putin volta a repetir as exigências que fez basicamente desde o início, não propriamente da guerra, mas da segunda fase da guerra, se quisermos, aquela em que ele percebeu que não conseguiria conquistar toda a Ucrânia, nem perto disso, nem a capital, mas concentrou-se nesta zona mais do leste. Realmente, desse ponto de vista, estas oscilações são muito preocupantes, ou seja, mostram que realmente não se pode contar com Donald Trump como alguém que seja um aliado seguro da Europa, que tenha minimamente preocupações com que tipo de paz é que se vai fazer, porque é essa aqui a questão. Obviamente, toda a gente é a favor da paz. Até o Hitler ou o Genghis Khan eram a favor da paz, se pudessem conquistar um território sem guerra, à partida, toda a gente prefere isso. Mas a questão é: vamos criar aqui, nomeadamente neste caso da Ucrânia, um precedente de a guerra de conquista volta a compensar. Vamos não só admitir que não conseguimos resolver a situação pela força, não conseguimos recuperar território pela força, pelo menos para já, mas até se vai reconhecer que esse território afinal é russo e até devia ser russo. Aparentemente, Steve Witkoff, que é aqui o braço direito de Donald Trump para todo este tipo de negociações e também um alter ego de Donald Trump, no sentido que não tem experiência diplomática, não tem grande interesse em conhecer o histórico ou detalhe dos conflitos, quer é resolver isto rapidamente, como se fosse uma espécie de negócio imobiliário. Quando Witkoff, por exemplo, insiste nesta questão que há pessoas a falar russo nesta zona do Donbass que Putin reclama. Também há muita gente a falar português no Brasil ou em Luanda. Luanda foi portuguesa muito mais anos do que a Crimeia ou o Donbass foram russos. Não é por essa razão que agora Luanda tem de voltar a ser portuguesa. Mas realmente o risco aqui é esse. Vamos ver se, apesar de tudo, quer a pressão dos países europeus, da maior parte dos países europeus, quer alguma pressão, apesar de tudo, do interior dos Estados Unidos. Eu voltei a ver os números das sondagens e, por exemplo, há sondagens relativamente recentes, de há pouco mais de um mês, que mostram que até entre os republicanos voltou a aumentar o número daqueles que acham que se deve apoiar mais a Ucrânia. Vamos ver se ao menos isso condiciona aqui um pouco até que ponto é que Donald Trump irá neste esforço para voltar a ter boas relações e bons negócios com a Rússia, até que ponto é que ele irá numa coisa que me parece que também não se pode afastar, que é nesta ideia de que a ordem global que Donald Trump preferia, embora não pense propriamente muito nesses termos de longo prazo ou de estratégia global, mas a ordem global com que ele estaria mais confortável era uma em que as grandes potências e os líderes das grandes potências basicamente fazem o que querem, sem ter qualquer tipo de limite à sua ação.

Sobre o Médio Oriente, Trump volta a avisar o Hamas. Diz que se não for bem comportado, vamos entrar e vamos erradicá-lo. Bruno, o presidente dos Estados Unidos acrescentou ainda que o Hamas tem sido muito violento, mas que já não tem o apoio do Irão. Eles já não têm o apoio de ninguém, diz. Concordas, Bruno? O Hamas está assim tão sozinho quanto Trump pensa ou quer fazer acreditar?

Tudo que vem do Donald Trump tem que ser visto sempre com grande reserva.

Um double check.

Não há desta ideia. Vamos entrar lá, mas depois ele a seguir na mesma conversa diz: "Mas não somos nós, é Israel, nós vamos apoiar Israel, porque não vamos mandar pra lá tropas". Porque as pessoas não querem, os americanos não querem tropas lá. Começa logo por aí. Depois essa ideia do Irão abandonou o Hamas. Não parece que tenha abandonado o Hamas, está extremamente enfraquecido e tem uma capacidade muito mais limitada de apoiar o Hamas. Isso é verdade, sobretudo por causa da eficácia da ação militar de Israel, repetindo um ciclo que vemos há décadas e décadas, que é uma ampla coligação de países da região, que, neste caso, não era assim tão ampla, mas incluía o Irão, incluía o Hezbollah, incluía sobretudo grupos armados, o Hezbollah, o regime de Assad, os Houthis, que se unem para atacar Israel, depois perdem a guerra, ficam militarmente extremamente fragilizados. Nalguns casos, os regimes até caem, foi o caso de Assad, mas depois Israel não consegue dar o passo seguinte, que é transformar isso num processo político negocial. Em muitos casos, no passado, isso não aconteceu porque era completamente recusado pelos Estados Árabes. Por exemplo, a famosa Cúpula de Cartum, em que os Estados Árabes definiram os três nãos. Nem reconhecimento, nem negociação, nem paz, nem nada. Mas nas últimas décadas, e sobretudo muito com o Netanyahu, em muitos casos é o governo de Israel que realmente recusa isso.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana, Bruno.

Obrigado.

Obrigada, um bom dia.

Igualmente, bom dia.