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Este é o Som do Gabinete de Guerra, eu sou a Maria João Simões. Esta manhã contamos com a análise de Jorge Rodrigues, coordenador do Observatório de Risco Geopolítico da Porto Business School. Bom dia, Jorge, bem-vindo.

Bom dia, Maria João.

Bom dia. Começamos pela Rússia e Irão, que vão assinar esta sexta-feira um acordo estratégico que abrange áreas como energia, ambiente e defesa, e reforça laços entre países que estão ambos sob sanções internacionais. O que pode o Ocidente fazer sobre isto? Este é também sinal da nova ordem mundial que Putin disse ser irreversível?

Sim, respondo sim às duas perguntas. É uma concretização da prática. Na verdade, estamos apenas a ver um passo normal, que já vimos também um pouco com a Coreia do Norte e com a Rússia, em que verdadeiramente, o que se passa é que a Rússia está a sinalizar o seu reposicionamento no Médio Oriente. Há uma derrota na Síria, é nitidamente o grande perdedor do novo ambiente estratégico na região e portanto, se quer seguir com o eurasianismo de Dugin, que já ora inclui a tomada da Ucrânia e assegurar a segurança da Ucrânia, o que é curioso, mas de alguma forma acaba por procurar lançar as pontes para se fixar numa parceria que já é antiga, mas que de alguma forma agora se torna renovada a importância, nomeadamente por ter perdido outro ponto de apoio que seria a Síria. O que nós vemos aqui, basicamente, é o tradicional, entre aspas, o apoio mútuo de forças e de equipamento, que já se vem passando e é similar ao que aconteceu com a Coreia do Norte. Não acredito propriamente que sejam enviadas tropas iranianas para a frente de batalha ucraniana. Até porque o Irão já tem os seus próprios problemas, mas a verdade é que acaba por criar aqui algo-

É questão de criarem a preocupar-nos.

Exatamente, era esse o ponto que eu ia exatamente referir, que é o esforço nuclear, o programa nuclear iraniano, que muitos dizem já ter sido alcançado, eu acredito ainda que não terá sido. Mas a verdade é que com esse apoio técnico, esse apoio de algum tipo de material específico que permita chegar realmente à construção da bomba nuclear, poderá ser determinante neste momento, criando um novo foco de instabilidade regional e até mesmo global. Além disso, naturalmente, há aqui, apesar das dificuldades da Rússia, um encaminhamento de armamento para os proxies, tentando reconstruir o chamado Eixo da Resistência, etc. Mas relembro que para a administração norte-americana em geral, e nomeadamente para Trump, o Irão será sempre uma prioridade. De alguma forma, haverá aqui a abertura ou reabertura da frente de batalha entre os dois grandes competidores na região.

Sobre a Ucrânia, milhares de militares da Força Aérea estão a ser transferidos para unidades de Forças Terrestres. Zelensky defende a decisão e tem tentado acalmar os ucranianos, que sentem que esta decisão é sinal que a frente de batalha está em dificuldades. O Jorge Rodrigues é oficial das Forças Armadas. Que outra razão pode haver para esta mudança? A presença das tropas norte-coreanas que vieram reforçar a defesa russa?

Não é bom sinal. Nem é nada convencional que isto se passe. Portugal, por exemplo, no esforço da guerra colonial, nunca teve situações idênticas. Teve militares preparados para um tipo de missão específica, como seja missões de artilharia, etc, foram utilizados como unidades de infantaria após o devido treino, mas é muito longe do que nós estamos a enfrentar aqui. Isto já será uma situação completamente diferente e demonstra, de facto, a concretização das dificuldades no terreno e de recrutamento que Zelensky e que a Ucrânia acaba por ter, que já são conhecidas, e que de alguma forma também demonstra o grande esforço que está a ser feito para resistir no terreno. E já agora, tem havido avanços, sim, mas tem havido também uma estoica resistência e há aqui o objetivo de resistir pelo menos mais alguns tempos para ter uma boa posição na mesa negocial. No terreno, sabemos que Pokrovsk está cercada e que, de alguma forma, a concretização desse cerco, a efetivação da queda de Pokrovsk poderá ser um passo próximo da queda e o controle todo do Donbass, porque dará acesso a Kramatorsk e Sloviansk e, portanto, com isso há necessidade premente de ter forças na frente ou pelo menos eventualmente serem utilizadas este tipo de forças numa retaguarda, numa segunda linha, permitindo que outras forças mais preparadas se desloquem pra frente. Portanto, não é definitivamente um bom sinal, não é facilmente compreendido com as tropas, vai afetar a moral, o que também é um fator muito importante para o potencial de combate. Portanto, não serão sinais muito positivos para a situação na Ucrânia.

Sobre o acordo de cessar-fogo em Gaza, ainda não há fumo branco. Israel e Estados Unidos dizem que a entrada em vigor depende apenas do Hamas, mas o grupo palestiniano aponta falhas até Laviv. O que pode estar a empatar? O facto de Israel ter recusado o pedido do Hamas para entregar o corpo de Yahya Sinwar ou, como diz o Hamas, ainda não deram o OK porque Israel não submeteu o mapa de retirada das IDF.

Isto aqui há múltiplos aspetos.

É difícil suspirar.

É, há múltiplos aspetos que podem estar a afetar. Uma coisa é certa: nunca estivemos tão perto, isso é um ótimo sinal. Notamos ali referências extraordinárias que nunca vimos antes, mas há sempre uma produção final, porque vamos ver, vai ser um acordo e depois dirão que foi assinado. Portanto, quem melhor estiver numa posição negocial, naturalmente vai conseguir ter um bom ponto de partida para a fase seguinte Se a cumpre ou não, é outro problema que vamos ter que pensar. O tal equilíbrio estratégico, já vimos falando, os objectivos maximalistas que Israel tem ainda como base, que é a sua segurança existencial, o não querer o Hamas no futuro político de Gaza, etc. Tudo isso ainda é algo dúbio. O facto de, por exemplo, o cessar-fogo ser permanente ou temporário, é também um aspecto que se é ainda não totalmente definido, visto que Israel compromete-se com o temporário, o Hamas pretende um permanente para ter mais margem de manobra. Só que o Hamas também utiliza para se reorganizar e para fazer novo recrutamento e treino, como nós sabemos, que tem sido um dos objectivos do Hamas e um dos contra objectivos de Israel. As buffer zone, por exemplo, a não retirada dos corredores de Filadélfia e Netzarim, é um factor particularmente importante para Israel, para lhe dar algum tempo de resposta, para lhe dar alguma capacidade, dada a sua dificuldade e a profundidade estratégica que não tem, portanto, qualquer ataque rapidamente poderá chegar a uma zona complexa. E depois há um fator que não é despiciendo, que é a pressão interna com o ministro da Segurança Nacional, Ben-Gvir, apoiado por Smotrich, que não tem o objectivo de derrubar Netanyahu, isso ficou bem claro, mas tem o objectivo de ir boicotando os processos de paz que têm sido pensados e trabalhados. E, portanto, há aqui uma pressão interna. Para além do mais, naturalmente, há a grande placa, a grande competição global pelo poder, que naturalmente traz outros actores para a região, que acabam por influenciar directamente quem está no terreno e que acabam por pressionar procurando desestabilizar um pouco e reorganizar estrategicamente a região.

O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, apresentou ontem um plano para a reconstrução e a governação de Gaza no pós-guerra. Jorge Rodrigues, o que se sabe sobre este plano e do que foi apresentado, o que lhe parece viável?

Temos aqui algumas ideias principais. Primeiro, era um wishful thinking nítido, acreditar que realmente tudo se vai resolver facilmente. Não é fácil. A solução de dois Estados, até começaria por aí, não é viável a curto prazo, apesar de todos os compromissos internacionais, todos os passos que já têm sido dados, mas é o único caminho. Não pode haver dúvidas que é esse o caminho que tem que ser seguido, mas não o coloquem como objectivo imediato. Tem que ser a longo prazo, tem que ser no sentido estrutural, tem que se criar condições para isso. E muito dependerá do empenhamento da comunidade internacional. Há pouco falava na competição global, na tal Nova Ordem que a China e a Rússia procuram, do West and the Rest, ou seja, uma competição entre o Ocidente democrata liberal e o resto do mundo. E em boa verdade, aqui acaba por se sentir também essa competição. A comunidade internacional, se não se empenhar, incluindo a regional, incluindo os países que circundam toda esta área, em que ponham de lado seus interesses directos, e mesmo dentro dos palestinianos, as diversas facções que acabam por defender interesses, seja deles próprios, seja de outros actores como Irão, Iraque, a própria Síria, e se formos alargando Rússia, China e Estados Unidos, naturalmente que ficamos com a ideia que, como nos diz a história, que ninguém realmente se preocupa com os palestinianos. Nesse sentido, ou há aqui uma mudança de paradigma ou vai haver grandes dificuldades. No entanto, há aqui alguns aspectos que eu considero particularmente importantes na administração, segurança e reconstrução de Gaza. Primeiro, há o reconhecimento que há aqui um primeiro passo interino, em que envolve a autoridade palestiniana e representantes de Gaza, das várias etnias, vários grupos, com apoio internacional de financiamento, apoio técnico, supervisão. É um bom primeiro passo. Mas como digo, os próprios Estados Unidos poderão boicotar logo à partida, visto que na Trump não é definitivamente a sua prioridade, a sua prioridade está noutra região.

Entretanto, o presidente da Coreia do Sul, que estava afastado do cargo, foi detido depois de em dezembro ter tentado impor a lei marcial no país. Este é o primeiro presidente sul-coreano na história a ser preso. Jorge, que implicações pode isso ter na dinâmica da região?

Eu começaria por dizer que é um sociólogo, fosse um pouco a jeito, permita-me aqui a expressão, porque realmente decretaram uma lei marcial por uma questão de interesse, quase diria pessoal, não chega a esse ponto, mas é quase. Realmente havia aqui um exagero mesmo para o histórico de rebelião, de convulsões da Coreia do Sul, que é um país que realmente tem aqui umas características também elas muito particulares. Há bocado eu falava, volto sempre aqui à questão de prioridade dos Estados Unidos na Ásia-Pacífico. Apesar de Trump ser afastado da multilateralidade na região, global, é verdade, mas também na região, o que o isola um pouco, a verdade é que a prioridade dos Estados Unidos já vem há quatro presidentes para cá, para a Ásia-Pacífico, e Trump não deixa dúvidas que a China é o seu grande esforço, é o seu adversário, é o único competidor que tem o interesse e a capacidade para realmente colocar a par dos Estados Unidos. Portanto, há aqui um grande esforço de orientar a sua política externa para lá. A Rússia também procura alargar o conflito da Ucrânia e talvez aí ter trazido tropas norte-coreanas para o conflito, então transportar para a Ásia de forma a envolver a China, e a China tenta se afastar e tentar até de alguma forma evitar desequilíbrios na região e evitar que realmente seja envolvida nessa questão. Vai haver, de facto, desequilíbrios, não há a mínima dúvida, vai haver desequilíbrios globais com esse movimento. No entanto, não nos parece que a situação esteja descontrolada no ponto de vista regional. A nível interno há, de facto, uma representação de uma família particularmente importante pelo presidente que foi agora preso, mas não me parece que venha a impactar na segurança regional de forma decisiva. No entanto, há sempre aqui uma ponta mar esta que a qualquer momento poderá sofrer novos desenvolvimentos, lá está, mais uma vez, por ação interna ou externa de outros atores.

Jorge Rodrigues, muito obrigada pela análise. É mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si, Jorge.

Obrigado, Marília. Até breve.