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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas no globo. Na edição de hoje, conto com a análise do antigo professor na Academia Militar, António José Telo. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar, António José Telo, por falar sobre a tensão entre a Rússia e os países da NATO. Horas depois de ter ameaçado a aliança com armas nucleares, a Rússia lançou novo aviso aos países europeus. Alerta que as fábricas europeias que produzem armamento para a Ucrânia são alvos legítimos. António José Telo, que leitura podemos fazer destes avisos russos que continuam a somar-se?
Boa tarde, antes de mais. Comparar é simplesmente o ponto mais alto de uma série de provocações várias a todos os níveis, desde corte de cabos a drones, à violação do espaço aéreo, a ações de sabotagem, a ações de ataque cyber, mas uma longa série que já vem há vários meses. Aparentemente, está em consonância com a intenção declarada pelo presidente Putin de completar a conquista do Donbass ainda este ano e aparentemente também é uma alternativa ao que está a acontecer no terreno, em que a ofensiva russa marca passo e nalguns pontos tem mesmo pequenos recuos. Portanto, a ofensiva russa não avança. E a Rússia avisou, e avisou através de textos oficiais em que falava de consequências catastróficas, que a Ucrânia só se aguenta com o apoio europeu e que esse apoio europeu passará a ser visado. E, portanto, foram feitas ameaças diretas ao Reino Unido, depois foram feitas ameaças a todos os países europeus e, em particular, da União Europeia, e foram desencadeadas ações que, sem que sejam oficialmente da Rússia, ninguém duvida que partiram de lá, desde ataques de drones perto de aeroportos até outras, e sem dúvida acompanhando de uma escalada verbal. Portanto, é uma ação russa que visa essencialmente testar a firmeza europeia, visa explorar as debilidades, em particular dos países que têm eleições dentro de pouco tempo, nomeadamente os países do sul, a França em primeiro lugar, à cabeça. Foi o Reino Unido, mas agora é a França que tem mais provocações e que se insere dentro de uma lógica que é a lógica russa neste momento, que é um pouco de desespero, de não encontrar saída para uma guerra que começou e que neste momento procura uma saída, por enquanto ainda de uma forma essencialmente de provocação política e diplomática, possivelmente passando a um outro nível, talvez dentro de pouco tempo.
António José Telo, vamos avançar neste gabinete de guerra, até porque Donald Trump insiste que o maior problema para o preço do gasóleo é a guerra na Ucrânia. A minha pergunta é se faz sentido esta frase tendo em conta a situação que se vive no Médio Oriente.
Comparar as afirmações de Donald Trump normalmente não o primam por um grande rigor analítico ou sequer por uma procura de verdade. São afirmações que visam normalmente um objetivo de curto prazo e neste caso, parece-me que o objetivo é claramente as tentativas de Donald Trump de tentar encontrar uma mediação em termos da guerra na Ucrânia. E tentar também conseguir algum apoio por parte da Europa, em particular, mas por parte de outros parceiros. Portanto, é uma afirmação que tem que ser entendida nesse sentido. No entanto, temos que entender igualmente que em relação ao gasóleo, o que está em causa são várias coisas, mas a coisa principal não é o fornecimento de crude, não é o seu transporte, mas é a refinação. E essa frase tem a ver justamente com o facto de a Ucrânia estar a atingir com sucesso as refinarias russas. Ora, a Ucrânia foi a primeira a dizer que está disposta a parar com esse ataque às refinarias, estendendo a um cessar-fogo a todas as formas de obtenção de energia, se a Rússia fizer o mesmo, que é algo perfeitamente razoável. Portanto, que haja um cessar-fogo em relação às formas de obtenção de energia e, a Ucrânia até acrescentou, dos transportes, porque a Rússia também noutra das suas campanhas para tentar forçar a Ucrânia a fazer o que ela não quer fazer, tem intensificado os ataques sobre as redes de transportes ucranianas, nomeadamente sobre comboios, inclusive sobre centrais de caminhonagem e inclusive sobre veículos que circulam nas estradas e nas pontes. Portanto, a Ucrânia é a primeira a dizer: "Sim, senhora, com certeza, nós compreendemos que isso possa causar transtornos em termos dos abastecimentos e estamos dispostos a parar, se a Rússia parar também com o mesmo tipo de ataques". Até agora, o que Trump não conseguiu foi que a Rússia se comprometesse a parar com esse tipo de ataques, mas a posição ucraniana é clara e é perfeitamente razoável
Ainda sobre o tema, António José Telo, vamos avançar até porque há uma questão em torno do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que ordenou que a delegação do Irão abandonasse os Estados Unidos após o fracasso das negociações. Que tipo de contratempo é este? Que efeito tem nas negociações, sendo que temos apenas dois minutos até o final do programa?
Tem que se inserir numa dupla ação que vem da administração Trump anterior. Primeiro, disse claramente que perdeu a confiança no Irão, que o Irão não é pessoa de honra e não honra os seus compromissos. E em segundo lugar, isto também claramente se insere dentro de algo que o presidente Trump anunciou claramente. Um dos problemas do presidente Trump é que ele diz as coisas de uma forma demasiado clara. Ele disse de uma forma muito clara que está a preparar um grande ataque para depois das eleições. Um grande ataque ao Irão e que será um ataque que ele disse isto na própria Assembleia Geral da ONU, um ataque que irá aniquilar o Irão. Portanto, é nesse contexto que isto surge. Ou seja, é uma maneira de encostar o Irão à parede ou aceita de imediato as nossas condições, ou então deve esperar por receber um grande ataque, sem dúvida diferente dos do passado, a partir do momento das eleições. E o presidente Trump anunciou isto claramente, que ao mesmo tempo é uma forma de pressionar o Irão a aceitar as condições americanas ou então sofrer as consequências. E diga-se, está também a fazer diligências no sentido de conseguir o apoio de vários estados do Médio Oriente, com a dificuldade que é sempre, que é uma dificuldade que até agora se tem revelado imperdível de ultrapassar, que é a dificuldade de conciliar uma ação de estados árabes com Israel, que irá sem dúvida apoiar esse ataque ao Irão.
Muito obrigado, António José Telo, antigo professor na Academia Militar, esteve na análise no Gabinete de Guerra de hoje, que fica como sempre disponível em podcast.