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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, com dois conflitos em curso em diferentes partes do mundo, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Nos próximos minutos vamos falar sobre estes dois conflitos com o estudidor Bruno Cardoso Reis. Boa tarde e bem-vindo, Bruno.
Obrigado.
Começo pela Ucrânia, ou melhor dizendo, nas imediações da Ucrânia, porque a Agência Reuters adianta que o sistema de defesa russo terá abatido o avião que se despenhou no Cazaquistão. Este erro, chamemos-lhe assim, pode trazer algum problema à Rússia?
À partida, a resposta normal seria que sim, mas não é seguro que seja assim. O Azerbaijão não quer criar também conflitos, tensões com a Rússia, porque isso podia levar a Rússia a aproximar-se da Arménia. Este é um daqueles conflitos realmente esquecidos, mas que de vez em quando tem voltado a reacender e no último reacendimento, o Azerbaijão conseguiu uma vantagem importante. Basicamente, recuperou o território ou ocupou o território deste enclave arménio, que tinha um estatuto de autonomia dentro do Azerbaijão, mas durante muitas décadas estava ocupado e ligado à Arménia, do Nagorno-Karabakh. Eu diria que isso limita muito a margem de manobra do Azerbaijão ou mesmo do próprio Cazaquistão, que tem procurado fazer sempre um jogo de equilíbrio entre a Rússia e a China. Mas, por exemplo, o Cazaquistão está muito ciente de que está numa situação muito semelhante à da Ucrânia, ou seja, tem uma grande população de língua russa e que no caso do Cazaquistão até é evidentemente distinta em termos étnicos dos cazaques, portanto a população da etnia dominante, basicamente população de origem russa junta à fronteira norte com a Rússia, ou seja, uma situação parecida àquela do Donbass e eu diria que haveria receio, se houvesse aqui um crescente de tensões, uma rutura com a Rússia, que isso pudesse levar a Rússia a fazer o mesmo que já fez com a Geórgia ou com a Ucrânia, que é aproveitar estas populações fronteiriças como um pretexto para fazer algum tipo de ação hostil contra o Cazaquistão. Agora, sobre os próprios dados do acidente ou abate do avião, ainda é relativamente cedo, mas parece haver, inclusive especialistas independentes, além de fontes da imprensa da oposição russa no exílio e também ucranianas, mas as fontes ucranianas são sempre um pouco mais suspeitas, de que pode ter sido aqui um sistema de defesa antiaéreo russo. A Ucrânia está a fazer ataques com drones a cada vez maiores distâncias, portanto, tem drones de cada vez mais longo alcance e embora o Cazaquistão esteja longe da linha da frente da Ucrânia, obviamente, mas realmente a Ucrânia tem levado ataques a milhares de quilómetros no interior do território russo e isso pode ter sido interpretado como um ataque. Obviamente não devia acontecer, uma vez que era um avião civil devidamente identificado, portanto é uma falha gravíssima. Também não é muito de fiar dos desmentidos russos, porque sabemos que a Rússia nunca reconhece nada que tenha a ver com este tipo de atuações, inclusive aquele caso trágico, terrível do voo da KLM, que foi abatido precisamente sobre a Ucrânia por um sistema de armamento que estava nesta zona do Donbass e que está mais do que provado hoje em dia que foi realmente um sistema russo, mas a Rússia nunca reconheceu que isso tivesse acontecido.
O Natal não foi propriamente pacífico na Ucrânia. Zelenskyy diz que foram identificados 184 ataques com mísseis e drones no dia de Natal por parte da Rússia. Que leitura é que se faz desta ofensiva num dia em que tradicionalmente ouvimos sempre as mensagens de paz multiplicarem-se?
Claramente Putin não é sensível a essas mensagens de paz. Inclusive, há aqui esta guerra também identitária em torno do Natal, ou seja, os russos celebram o Natal ortodoxo noutra data. Os ucranianos passaram a celebrar na data que é corrente na Europa Ocidental, na Europa Cristã Ocidental, de 25 de dezembro. À partida, eu diria que o normal seria respeitar eventualmente as duas datas, mas claramente não é essa a postura da Rússia, que é de aumentar ao máximo a pressão sobre a população civil ucraniana para tentar levar a uma quebra da vontade de continuar a resistir. Também, se houvesse algumas dúvidas sobre toda esta conversa de processos de paz, negociações, inclusive da parte do próprio presidente eleito norte-americano, Donald Trump, que pudesse levar a alguma maior contenção por parte da Rússia, é evidente que isso não é o caso. Este é o décimo grande ataque aéreo em grande escala contra alvos essencialmente civis por parte da Rússia ao longo do ano, mas é especialmente significativo porque obviamente é no dia de Natal, portanto obrigou os civis ucranianos a passarem aquilo que devia ser o dia de Natal, não com as famílias e a festejar e a ter aqui algum intervalo desta tragédia da guerra, mas refugiados em abrigos antiaéreos.
Entretanto, o homem nomeado por Trump como conselheiro para a paz na Ucrânia condenou este ataque. Isto dá alguma esperança a Zelenskyy de que Trump não lhe tire o tapete de um dia para o outro?
Realmente, a pessoa que foi nomeada, o General Kellogg, é alguém que desde o início mostrou perceber que a Rússia só negociará a partir de uma posição em que haja alguma força do outro lado, ou seja, em que não seja evidente para a Rússia que a continuação do conflito seria vantajosa para os seus objetivos. Desse ponto de vista, tem uma leitura mais sofisticada que aquela que o próprio presidente tem mostrado. Isso pode ser positivo no sentido de ser uma indicação de que, em termos dos conselheiros próximos de Donald Trump Há esta noção de que não seria bem visto pelo próprio eleitorado que apoia Trump o espetáculo de um colapso da Ucrânia, de uma submissão da Ucrânia à Rússia, que isso teria um impacto muito negativo no prestígio e na credibilidade dos Estados Unidos, na imagem também de força dos Estados Unidos e do presidente americano, que tendencialmente eu diria que é algo que o Donald Trump parece valorizar. Agora, eu acho que isso sobretudo mostra o seguinte: é que é muito difícil prever exatamente o que é que Donald Trump vai fazer. Isso é um problema especialmente pra Ucrânia, mas também é um problema pra Rússia. Quando de vez em quando os responsáveis russos dizem "não sabemos, não podemos ter a garantia, não é certo que Donald Trump vá favorecer, vá ser um amigo da Rússia", eu acho que em parte isso é tática, é uma forma de criar algum distanciamento, porque eles percebem que nos Estados Unidos a Rússia continua a ter uma visão relativamente negativa, mas também tem um lado de verdade, ou seja, de realidade dos responsáveis do Kremlin perceberem que de facto Donald Trump é alguém com quem não se pode realmente contar, que fará aquilo que em última análise ele acha que será melhor pra ele, pra sua agenda política, pra sua imagem política. Isso pode significar uma postura mais favorável à Rússia em certos momentos, mas não é garantido que seja assim de forma continuada e de forma estável.
Deixa-me ir à situação do Médio Oriente, Bruno, e sobretudo na Síria, porque estes dias ficaram marcados por confrontos entre algumas forças ainda aliadas à Assad e militares do novo Ministério do Interior da Síria. Em que ponto é que está esta correlação de forças? Ou seja, Bashar al-Assad ainda tem algum poderio do ponto de vista militar?
Eu penso que a dinastia Assad parece realmente acabada. Alguém que diz que saiu do país porque um outro Estado lhe diz pra sair, acho que não terá muito crédito. Agora, outra coisa é o grupo ou os grupos minoritários que apoiaram o regime, como eu referi várias vezes, a Síria hoje em dia a demografia é muito complicada de saber com segurança, porque houve imensas vagas de refugiados, mas estima-se que talvez à volta de 40% da população da Síria não era árabe sunita, ou seja, não era a população majoritária. As minorias são muito numerosas e há aqui um grupo que estava especialmente próximo do regime, os alauítas, que era no fundo o grupo a que pertencia a própria família Assad. E esse grupo não desapareceu e continuou a ter armas. Toda a gente estava armada na Síria, havia múltiplas milícias e portanto há realmente o risco de que se esse grupo se sentir ameaçado, independentemente desta ideia de estar a combater pelos Assad, isso parece-me que não faz muito sentido, agora combater por si próprios, pela sua segurança, se se sentirem ameaçados, acho que isso é uma real possibilidade e portanto eu veria este incidente mais nestes termos, ou seja, uma milícia armada alauíta que aproveitou aqui estas notícias que vieram também a público de um ataque a um santuário alauíta, etc, para no fundo procurar ganhar algum protagonismo. Não sei até que ponto é que eles mantêm alguma ligação significativa com a família Assad, mas não me espantaria realmente que se este grupo que agora tomou o poder não tomar cuidado em termos de não hostilizar demasiadas minorias, e isso vai ser difícil, porque também há pressões em sentido oposto. Pessoas que, por exemplo, foram vítimas de repressão do regime e associam o regime aos alauítas e portanto culpam os alauítas por aquilo que o regime fez. Se este novo grupo que está agora no poder não conseguir gerir isso, há o risco realmente do reacender da guerra civil com vários grupos armados ligados às minorias a combater este grupo que é sobretudo árabe sunita.
Sobre esta questão das sensibilidades das diversas minorias na Síria, ontem decorreu uma missa cristã em Damasco. A celebração foi rodeada de várias viaturas militares do HTS, mas que não intervieram. Que sinal é que esta missa dá quanto a estas promessas de liberdade religiosa dos rebeldes na Síria?
Acho que a mensagem que a liderança pretende dar é que é possível haver uma missa cristã em Damasco, ou seja, não estamos no Afeganistão dos talibãs e portanto que este grupo vai ser diferente desses outros grupos fundamentalistas do próprio Daesh e dos talibãs, e portanto vai realmente respeitar no fundo os direitos destas minorias, pelo menos até certo ponto, mais naquela tradição árabe e islâmica conservadora, no fundo serem um pouco cidadãos de segunda classe, mas apesar de tudo não serem expulsos nem maltratados e portanto terem direitos mais limitados, mas ser-lhes permitido viver em segurança. Acho que se isso acontecer, será uma boa notícia. Portanto há claramente setores, aparentemente o próprio líder, Al Gulani, parece ir nesse sentido. Há setores que defendem essa postura de algum cuidado e de algum respeito pelas minorias pra evitar precisamente o reacender do conflito armado, mas vamos ver se ele consegue impor essa linha a todos os elementos deste grupo. Tipicamente estes grupos muitas vezes têm estruturas de comando muito centralizadas e se isso será suficiente no fundo pra evitar aqui novos incidentes e uma escalada que pode ser potencialmente muito complicada pra população civil síria e pra própria região.
Bruno Cardoso Reis, obrigado pela disponibilidade para te juntares a nós hoje no Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã. Bruno Cardoso Reis aqui a analisar os conflitos na Ucrânia, mas também no Médio Oriente, em particular a questão na Síria, com estas notícias destes dias de Natal em que decorreu uma missa católica em Damasco, sem qualquer intervenção militar pra dar também esse sinal de abertura a outras sensibilidades. Já na Ucrânia, também pelo que percebemos, não houve propriamente um respeito por esta época do Natal festejado no dia 25 de dezembro, como se festeja agora na Ucrânia, com Vladimir Putin a ordenar o lançamento de vários ataques, muitos deles na capital ucraniana, em Kiev. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.