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E continuamos a falar sobre o conflito na Ucrânia e para isso abrimos novo gabinete de guerra da Rádio Observador, hoje para recebermos a jornalista Inês André Figueiredo, que assina um artigo no Observador sobre as atrocidades cometidas pelas tropas russas nas ruas de Bucha. Inês, bom dia, obrigada por estares conosco.
Bom dia.
Bom dia, Inês.
Boa segunda-feira.
Igualmente pra ti. Inês, que cidade é esta? Sabemos que fica nos arredores de Kiev.
É isso mesmo. Bucha é uma cidade ucraniana que pertence exactamente à região de Kiev. Tem menos de 40 mil habitantes e fica a pouco menos de 30 km da capital ucraniana. Sabe-se que esta cidade esteve nas mãos dos russos praticamente um mês e que as tropas de Vladimir Putin conseguiram conquistar esta localidade não muito depois da invasão russa à Ucrânia. Há relatos de que no dia 5 de março já havia tentativas de fuga da população aqui desta zona. Mas este fim de semana, Bucha deixou de ser apenas uma cidade como outra qualquer na Ucrânia, como outra qualquer invadida, para se transformar no reflexo de uma invasão bárbara, ou, na verdade, ainda mais bárbara do que aquilo a que estamos a assistir na Ucrânia há mais de um mês. Se era um nome que não conhecíamos, isso inverteu-se claramente em apenas dois dias.
Sim, pois, de facto, e as imagens que chegam desta cidade são realmente muito incômodas. Sabe-se exatamente, Inês, o que é que aconteceu?
Eu vou tentar recuar aqui um bocadinho para explicarmos o que se passou, porque tudo começou no sábado. Ou melhor, para tentar explicar a informação disponível que nos tem chegado da Ucrânia, que era através de algumas equipes de reportagem que acabaram por chegar a Bucha depois de se saber o que se tinha passado, mas também muitas partilhas nas redes sociais. No sábado surgiu uma primeira informação de que havia uma cidade que tinha sido recuperada pelas tropas ucranianas, tal como aconteceu com outras neste dia. Ali à volta de Kiev foram recuperadas várias cidades. E nessa cidade os soldados que chegaram depararam-se com um cenário de brutalidade. Aos poucos começaram a surgir as primeiras imagens nas redes sociais, com cadáveres espalhados pelas ruas, alguns de mãos atadas atrás das costas, outros queimados, uns ao lado de casas, outros nas bermas e no meio da estrada, todos civis, e isto foi o grande ponto a reter aqui. As imagens não deixavam dúvidas de que eram pessoas perfeitamente normais, não eram militares, eram pessoas que estavam desarmadas. Algumas a andar de bicicleta, pudemos partilhar essas imagens. E vê-se, principalmente, que há muitas pessoas que foram apanhadas desprevenidas. Muitos corpos caídos à beira da estrada, ao lado de habitações. São imagens, como dizia a Carla, chocantes. E além dos mortos, também toda a destruição da cidade, em que se veem destroços por todo lado. Os sobreviventes falam de dezenas de casas destruídas, um cenário absolutamente assustador. E muitas pessoas que falam e os testemunhos que são dados, são de pessoas que estiveram semanas escondidas em caves, por exemplo, à espera que as tropas russas saíssem e que sobreviveram nas caves das casas. Logo no sábado, o próprio presidente da Câmara de Bucha veio dizer que quase 300 pessoas tinham sido enterradas numa vala comum, porque não havia a capacidade nos cemitérios para enterrar tanta gente quando houve esta hipótese de começar a enterrar os mortos que estavam naquela cidade. Mas além desta vala, que teve de ser aberta pela quantidade de mortos que os russos acabaram por deixar para trás, as autoridades vieram também confirmar que tinha sido encontrada uma outra vala comum, onde foram descobertos quase 60 cadáveres. Ao que tudo indica, esses, sim, colocados ali pelas tropas russas.
Inês, são de facto imagens que estão a chocar o mundo. A nível internacional, já são conhecidas reações?
Muitas reações. Logo no sábado, a primeira reação foi do Reino Unido, que dizia que ia ajudar a recolher provas para apoiar o Tribunal Penal Internacional na investigação àquilo que já dizia serem crimes de guerra. Daí até agora, as reações dos líderes mundiais têm-se multiplicado. Não há ninguém que deixe sequer dúvidas sobre o que se passou em Bucha. Se as imagens são chocantes, os líderes mundiais também fizeram questão de o descrever de forma gráfica, quase. Murro no estômago, brutalidade, horrores indescritíveis, atrocidades, são tudo palavras que foram usadas para descrever. António Guterres, secretário-geral da ONU, disse estar profundamente chocado, como dizias há pouco. António Guterres usou esta palavra na publicação no Twitter e apelou a que se faça uma investigação independente e que se responsabilize quem fez isto. Duas ideias que ficaram da maioria das reações: muitos líderes mundiais não têm dúvidas que o cenário de Bucha e a forma como aquelas pessoas foram mortas são, de facto, crimes de guerra, e a questão das sanções, que volta a estar mais uma vez em cima da mesa, com pedidos de mais sanções para a Rússia.
Claro, e teremos certamente novidades sobre isto, se calhar ainda durante esta segunda-feira. O que é certo, Inês, é que do lado da Rússia também há uma resposta. Eles dizem que isto é uma provocação e, portanto, negam a autoria destes crimes.
Exatamente. Só antes disso, dizer que a Ucrânia falou em execuções arbitrárias e que o presidente ucraniano já veio descrever os crimes como tortura e responsabilizar os próprios líderes russos, e não só quem está no terreno, pelo que está a acontecer.
Sim, e fala até de genocídio, não é? E, portanto, com uma gravidade enorme sobre o que aconteceu.
Exatamente. Ele diz: "É hora de fazer tudo para que os crimes de guerra do exército russo sejam a última manifestação deste mal na Terra". Ou seja, volta a apelar a todos os líderes mundiais, até àquela ideia de que já tinha dito: "Hoje somos nós, amanhã podem ser vocês", e a querer travar isto o mais rapidamente possível. Mas voltando à reação da Rússia, essa surgiu no canal de Telegram do próprio Ministério da Defesa e diz que os relatos são falsos. Nessa publicação, os russos justificam que saíram da cidade a 30 de março e culpam as forças ucranianas por terem bombardeado Bucha após essa saída das tropas. O argumento é que a posição dos ucranianos, estes possíveis alegados bombardeamentos que as tropas ucranianas tivessem feito, também poderiam ter levado à morte de civis. Mas as justificações chocam com a realidade quando os russos vêm dizer, por exemplo, que os cadáveres dos vídeos se mexiam, dando a ideia que não estavam mortos. Há várias equipas já lá, as autoridades estão lá, equipas de reportagem que conseguiram provar, obviamente, que isto não é verdade. E mais, a Rússia não só nega tudo isto, como diz que é uma provocação da Ucrânia, como dizias, e do próprio governo de Volodymyr Zelensky. Soube-se há pouco que o Kremlin convocou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir o tema, o que demonstra aqui um pouco, tendo em conta esta reação e tendo em conta que a Rússia não assume a responsabilidade, que está obviamente a querer passar as culpas para a Ucrânia. Vamos tentar perceber isso.
Vamos acompanhar, claro.
Certo, só terminar dizendo que no caso de Mariupol, já se tinha começado a falar muito em crimes de guerra e as imagens que nos chegavam eram de uma brutalidade tal que não deixavam ninguém indiferente. Bucha acaba por se tornar no centro da guerra num dia para o outro, com as atenções todas viradas para esta cidade, obviamente pelas piores razões.
A jornalista do Observador, Inês André Figueiredo, que assinou o artigo sobre a cidade de Bucha e as atrocidades da guerra, tem mesmo de ler. Inês, muito obrigada por ter estado conosco.
Obrigada, Carla.