Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360, eu sou a Maria João Simões. A análise é do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia, como está?

Bom dia. Começamos pelo Irão. A Agência de Energia Atômica admite que está às cegas sobre o programa nuclear iraniano. Teerão cortou o acesso dos inspetores internacionais há já mais de um ano. Posto isto, coronel, o Irão terá conseguido o tempo e o secretismo necessários para ter capacidade de produzir uma arma nuclear sem que ninguém consiga travar?

Eu creio que não. Eu creio que aquela destruição que resultou dos ataques com as bombas penetrantes em 2015, sim. Porque as centrifugadoras que estão instaladas podem não ser destruídas fisicamente, mas são muito sensíveis e até as vibrações acabam por-

Danificar de alguma forma, não é?

Sim, e é preciso ter muitas centrifugadoras a funcionarem em cascata para que aquilo funcione, para que se consiga produzir lá o urânio enriquecido nos graus necessários. Além de que as zonas onde isso estava foram bloqueadas, portanto, esse processo deve ter sofrido um grande atraso. E o Irão não teve hipótese de recuperar isso. Inclusive, a vigilância que é feita sobre esses sites mostra que não há uma atividade que dê indícios de que há ali uma produção em massa. Nas informações, nota-se movimentos de catrapilas, escavadoras, mas daí a haver todo aquele movimento que é preciso para que aquilo esteja a funcionar.

Mas aqui a preocupação é do próprio diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, o Rafael Grossi.

Pois, o problema é que não há acesso. O Irão, de facto, construiu instalações debaixo de montanhas e agora tem uma nova, que é a Montanha da Picareta, que essa aí ainda é mais difícil, mas há uma vigilância à volta. Ou seja, há uma espécie de kill zone à volta dessas instalações conhecidas, que no fundo garante que se houver movimentos muito intensos, nota-se que há qualquer coisa a funcionar. E eu acho que isso não se verificou. E para já, há um atraso. Aqueles 400 e tal toneladas de urânio já enriquecida a 60%, eventualmente terão sido dispersas, enterradas. Tudo isso vai demorar um bocado de tempo a recuperar e há pelo menos um ou dois anos de atraso em relação à iminência de uma arma.

Mas coronel, enquanto a Europa e a comunidade internacional deixam avisos e ameaças na ONU, na prática, têm sido os Estados Unidos a assumir aqui o papel de tentar travar o tal programa nuclear de Teerão. Resta alguma margem de manobra aos países europeus ou a segurança do Ocidente passou a depender exclusivamente da ação e da vontade de Washington?

Pois, isso é que é estranho. Isto do Irão interessa a toda gente, interessa a todo o Ocidente, porque o Irão não é só Estados Unidos, não é só Israel, é todo o Ocidente, é um inimigo. E a Europa não está fora do alcance dos mísseis iranianos, além de que a capacidade ou uma vontade que o Irão tem de os lançar, é bastante generosa. O Irão lança mísseis por todo lado com uma facilidade que mais nenhum país o faz. E não seria de admirar que lançasse um ou dois quando lhe aprouvesse sobre um país europeu, desde que tenha alcance. O Irão ter armas nucleares é perigosíssimo para toda a gente, por isso faz sentido limitar o seu programa. O Irão é um subscritor do Tratado de Não-Proliferação, por isso nem sequer pode estar a fazer legalmente nada do que está a fazer. O Irão mantém-se no Tratado de Não-Proliferação, mas infringe todos os dias e a toda hora. Já o vinha fazendo desde há muito tempo. A Europa não tem interesse nenhum, mas há sempre aquela ideia de que através da diplomacia, através das sanções e da persuasão se vai conseguir. Mas o problema é que o Irão, com essa conversa, vai subindo a escala, vai dando passos no patamar nuclear até chegar ao momento em que o ultrapassará se nada se fizer. O que os Estados Unidos fizeram, e Israel também, foi fazer aquilo que os outros não quiseram fazer, ou têm medo de fazer, ou não se atrevem a fazer, ou esperam que outros façam por eles. Já aconteceu o mesmo no Iraque, com o reator nuclear, e com a Síria também, que mantinham o reator nuclear pronto para enriquecer urânio e foi destruído por Israel. Toda a gente condenou, foram todos contra, mas depois no fim ficavam todos contentes, os fregueses mais felizes.

Entretanto, e sobre a guerra na Ucrânia, o jornal político revelou que uma empresa estatal chinesa forneceu à Rússia componentes essenciais para a produção em massa de drones kamikaze. É a prova documental de um apoio militar direto de Pequim a Moscovo, contornando as sanções internacionais. Coronel, isto muda o jogo ou o Ocidente vai continuar a fingir que acredita na suposta neutralidade da China para não abrir hostilidades com Pequim?

Pois, disse muito bem, a fingir, porque, de facto, toda a gente que está no ramo, no negócio, sabe que é a China que está a fornecer os componentes. Por exemplo, os jatos destes drones que a Rússia está a usar agora, que são drones a jato. Aqueles motores são fornecidos pela China. Toda a gente sabe isto. A China viola as sanções todas com o Irão, mas fá-lo sempre de uma forma sutil, debaixo da mesa. Através de empresas fictícias.

De uma forma sonsa.

Sim, mas toda a gente sabe que faz isso. Aliás, faz isso com quase tudo, mesmo no comércio mundial, usa sempre subterfúgios e esquemas. Mas consegue sempre sair de cara lavada. Toda a gente sabe isso. Ou pelo menos intui isso. Agora, uma prova direta devia, no mundo ideal, levar a alguma ação. Não sei se levará, porque a China, entretanto, já tem uma capacidade de pressão sobre o mercado mundial, tornou-se uma espécie de fábrica do mundo, que leva a que haja com muita cautela. Nós temos, por exemplo, aqui ao lado, a Espanha, que neste momento é uma espécie de porta de entrada dos carros chineses na Europa. Ou seja, há países que depois tiram proveito disto e é muito difícil tomar uma ação comum quando os negócios já estão tão capilarizados em alguns países. Uns ganham, outros perdem e cada um pensa em si E poucos veem o que é que o horizonte lhes trará.

A trégua temporária de três dias acordada para a visita dos enviados de Washington durou pouco. Assim que as reuniões do Witkoff e Kushner terminaram em Moscovo e em Kiev, a Rússia voltou a lançar ataques com mísseis e drones sobre a capital ucraniana. Coronel, este regresso imediato aos bombardeamentos é Putin a querer mostrar quem manda e que a diplomacia de Washington continua sem capacidade de impor um cessar-fogo duradouro?

Sim, Putin está convencido que em termos estratégicos está na mão de cima, portanto, tem mais potencial, tem mais capacidade, pelo menos na sua opinião. Ele acredita que vai ganhar. Isso é sempre assim. Acreditam todos que vão ganhar até não ganharem. Mas ele acredita que sim. Acredita, na sua bolha, que a Ucrânia não tem capacidade de se aguentar, nem a Europa tem capacidade de se aguentar, não ajuda a Ucrânia e, portanto, mantém a pressão porque acha que a prazo, com a pressão que fizer, com mais mísseis, com mais bombardeamentos, consegue levar a sua frente e esgotar a Ucrânia e a Europa. É uma avaliação que ele faz. Não acredito que esteja correcto. Na verdade, no terreno, neste momento, a Ucrânia está até a ganhar alguma iniciativa local em alguns eixos do Donbass. No terreno, as avaliações russas não estão a concretizar-se. Pelo contrário, neste momento há uma pequena iniciativa ucraniana naquela zona, em termos táticos. Em termos estratégicos, sim, a Rússia tem neste momento uma vantagem, tem mais mísseis, a China está por trás a fornecer componentes. A própria Europa está por trás. Não a Europa como entidade, mas empresas europeias que estão a fornecer, por exemplo, vou-lhe só dar um exemplo, as Ilhas Maldivas, neste momento, o comércio das Ilhas Maldivas com a Rússia aumentou umas centenas por cento. E por quê? É componentes que vão da Europa para as Maldivas e das Maldivas para a Rússia. É só um exemplo.

Uma forma de contornar.

Sim, dos esquemas que estão a acontecer. Muitos dos componentes destes mísseis, nomeadamente dos balísticos, são ocidentais. E este comércio está-se a fazer por baixo da mesa, por vias terceiras, isto está a acontecer. A Rússia confia que vai continuar a manter este esquema. Vamos ver se os Estados Unidos, com uma lei que aprovaram, a lei Lend-Lease, que prevê sanções secundárias de 500% a todos aqueles que colaborem com a Rússia, a ver se Trump a aplica, porque se aplicar tem uma grande alavancagem.

Que sai do papel, não é? Que não fica só no papel. Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Uma boa semana. É sempre obrigada.