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Está aberto o gabinete de guerra neste programa. Falamos dos conflitos em curso. Destaque para a Ucrânia e para o Médio Oriente. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar nos próximos minutos à conversa com o major general João Vieira Borges. Muito boa tarde. Obrigado por estar connosco. Vamos começar pela situação na Ucrânia e também por declarações que surgem na Rússia. A Rússia diz que não pode aceitar a versão atual do acordo proposto pelos Estados Unidos da América para um cessar-fogo, leva as propostas dos Estados Unidos para esse cessar-fogo a sério, mas diz que não pode aceitá-las da forma como estão agora. Quem diz isto é o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Ryabkov. Diz isto numa entrevista à revista International Affairs Journal, citada pelo Kyiv Independent. Como é que vê esta posição russa e se, de facto, seria de esperar que nesta altura a Rússia aceitasse essas intenções norte-americanas de cessar-fogo?

Muito boa tarde. Faço votos que o gabinete de paz substitua o gabinete de guerra em breve, mas não será assim tão breve. Como estamos a ver, isto está em linha com aquilo que nós estávamos a assistir e com Putin a ser referido por Trump que realmente a situação se estava a complicar e que era necessário encontrar-se com Putin. E ele referiu inclusivamente que para a semana haveria novas discussões sobre a Ucrânia. Há pouco, Lavrov disse que havia da parte da Rússia e dos Estados Unidos um novo encontro. Tudo isto, no fundo, vem justificar que efetivamente é necessária maior pressão diplomática, caso contrário, continuaríamos com a guerra mais intensa do que era antes, curiosamente, até com dados estatísticos em termos militares. A Rússia aproveitou os acordos para reforçar o seu esforço militar nas zonas que lhe interessava, que não é novidade nenhuma para nós, mas pelos vistos é novidade para Trump, que acreditava exatamente em Putin. Isto é um banho de realidade para quem gosta de usar a diplomacia errática. Vamos acompanhar, mas também sabemos sempre com Trump, que quem paga as faturas são sempre os mais fracos, sejam eles onde estiverem, porque relativamente à China e à Rússia, as pressões e as palavras são sempre diferentes.

Mas de facto, nós tivemos este processo de encontros entre Estados Unidos e Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, a situação na Sala Oval, as reuniões na Arábia Saudita, os entendimentos para chegar a cessar-fogo no que toca a serviços energéticos, também ao Mar Negro, vários pontos a ser discutidos, troca de prisioneiros, tudo isto parecia seguir uma linha de alguns entendimentos e de estarmos a caminhar para um cessar-fogo, mas estamos numa situação de banho-maria. Isto de facto há alguma saída concreta ou Donald Trump vai tardar a perceber que a Rússia está a tentar de facto aproveitar esta situação para ter alguns ganhos no terreno?

Eu acho que ele já percebeu, até porque há senadores e deputados da Câmara dos Representantes que já lhe chamaram a atenção, republicanos, inclusivamente. Eu acho que já têm consciência daquilo que Putin está a fazer e a única solução, todos nós sabemos, é uma cessação de todas as hostilidades no teatro de operações e uma separação de forças, idealmente com contingentes de um lado e de outro, da França, já agora, em vez de ser só de um dos lados. Mas isso é a solução, ponto. E era isso que Trump pensava que ia conseguir. A Rússia conseguiu na primeira reunião arranjar esta solução de cessar-fogo parcial, para ir ao encontro dos seus interesses e atingir ainda mais rapidamente os seus objetivos militares, até porque tanto o cessar-fogo parcial das infraestruturas energéticas como o do Mar Negro favorecem mais a própria Rússia e aqueles pseudodiplomatas norte-americanos com uma experiência mínima comparativamente com os russos, obviamente foram completamente ultrapassados e nós todos a ver na Europa o que é que ia acontecer. Aquilo que usou até agora era a combinação de pressão e incentivo. Vai ter que usar outro método, porque caso contrário, vamos continuar com a guerra.

Perdemos aqui momentaneamente a ligação neste gabinete de guerra com o major general João Vieira Borges, como foi percetível aqui um problema nesta ligação. Falávamos desta posição russa deixada hoje pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, que diz que a Rússia não pode aceitar a versão atual do acordo proposto pelos Estados Unidos da América para cessar-fogo. Diz que leva a sério essa proposta, mas que não pode aceitar da forma como está agora desenhada essa proposta. Estávamos a discutir, claro, como fica a posição dos Estados Unidos da América perante essa posição russa. Major general João Vieira Borges, creio que já temos condições, perdemos momentaneamente a ligação, mas estava a concluir essa ideia também sobre a perceção que Trump fica do resultado destas negociações com o objetivo de um cessar-fogo.

Sim, claramente. A combinação de pressão e incentivos não funciona. Ele já percebeu isso e toda a sua equipa já percebeu que a única solução é um cessar-fogo completo e uma separação de forças, seja ela de que modo que for. Caso contrário, obviamente que vai continuar a guerra e as pressões que ele tem, designadamente relativamente a combustíveis, não são pressões que pesem minimamente sobre a Rússia As relações entre Estados Unidos e a Rússia, a esse nível, favorecem claramente a Rússia em termos de autonomia, porque tem clientes para a exportação. A OPEP não vai baixar, certamente, o preço do petróleo como queria Trump para penalizar indiretamente a Rússia. E mesmo que baixe, será valores muito ínfimos. E portanto, a Rússia consegue contornar. Já lá estão há três anos a usar as sanções a seu favor e não são sanções de Trump sobre Putin, em termos económicos, que vão fazer com que deixe de atingir os seus objetivos políticos e militares. Os dois. Vai atingir os dois, certamente, com esta administração de Trump a trabalhar desta maneira.

Vamos falar um pouco do investimento em defesa, até porque em período de pré-campanha há várias vozes que pedem isso mesmo, que os partidos discutam na campanha a questão do investimento em defesa. Ainda hoje Marcelo Rebelo de Sousa disse isto: diz que o aumento de investimento em defesa tem de ser um dos temas em discussão. O almirante Henrique Gouveia e Melo, ainda potencial candidato a Belém, disse que não há outra opção do que investir na defesa, mas há também notícias que revelam que, apesar da Europa querer apostar na defesa, Portugal não quer comprometer contas e está a tentar uma abordagem mais cautelosa essa questão do investimento. Já hoje também Nuno Melo, ministro da Defesa, veio falar da necessidade de criar uma via verde para a contratação pública na área da defesa, para ultrapassar burocracias e complicações. Eu gostaria de ouvir sobre toda esta questão, major-general João Mira Borges, até pela sua experiência. Estamos agora a viver uma realidade em que, de repente, discute-se a toda a hora a necessidade de investir em defesa e por vezes até descurando outro tipo de investimentos, dada a importância da realidade que temos nesta altura. Qual é a sua opinião sobre a capacidade real de Portugal para avançar com este tipo de investimentos em defesa e onde é que Portugal deve investir? Sendo que pode ser em cibersegurança, pode ser em armamento, pode ser em infraestruturas. O que de facto podemos fazer?

É uma questão importante, premente, e acho que deveria fazer parte da discussão pública em plena campanha eleitoral. Ora bem, em primeiro lugar, temos compromissos assumidos não só com a Ucrânia, mas com a União Europeia e com a própria NATO, que levam a que tenhamos que indiscutivelmente investir. Estamos a falar em investir em defesa. Investir em defesa no mundo globalizado, sobretudo o mundo do armamento, implica projetos comuns no âmbito da União Europeia e eles foram consignados naquilo que foi o programa Rearmar, que agora tem outra designação, tem outra caracterização. E portanto, o programa Rearmar, Portugal pode tirar dividendos desse programa em termos de investimentos, designadamente na indústria militar, no sentido de não prejudicar aquilo que são as suas opções políticas noutras áreas, porque obviamente o investimento se pressupunha sempre, e porque são investimentos consideráveis, se nós passarmos daquilo que é os 3,6 mil milhões para sete ou oito mil milhões, mesmo que seja há quatro ou cinco anos, nós estamos a falar de 300, 400, 500 milhões ou mais por ano de investimento acrescido àquilo que é o PIB nacional. Ou seja, aquilo que nós temos de folga em termos do Orçamento de Estado para gerir nas discussões que nós levamos à Assembleia da República nunca passa de 1,5, 2 mil milhões, porque o resto está preso. É que nós quando temos um vencimento, pagamos a renda da casa, pagamos os seguros e depois sobram 300 €. É mais ou menos isso. Sobra pouco e portanto, esse pouco que sobra, obviamente, tem que haver outras soluções e a União Europeia apresentou essas soluções para Portugal. E agora, claro, temos duas dimensões. Primeira, a dimensão do material, onde é que se deve investir, respondendo à pergunta do Miguel. As áreas onde devemos investir, para além daquilo que tem a ver com as nossas capacidades para defesa do território nacional, as nossas necessidades levantadas em lei de programação militar, pode haver outras acrescidas no sentido dos compromissos assumidos dentro da União Europeia para determinadas áreas. Se temos competências, e temos, na área dos drones, temos a maior empresa de drones da Europa. Se temos competências na área, por exemplo, de produção de aeronaves em conjunto com outros países, e estou a falar, não vou fazer publicidade, até temos essas empresas em Évora e noutros sítios de dentro de Portugal. A outra é na Caldas da Rainha. Se temos capacidade, podemos melhorar essas capacidades, sempre em conjunto com outros países, porque nós não conseguimos produzir uma munição ou produzir um carro de combate, se já pouca gente o produz sozinho. Isso é os Estados Unidos ou a Rússia que o fazem. Portanto, aqui a nível da Europa, o que interessa é produzir menos carros de combate, no sentido de qualidade, não é de quantidade. Estou a dizer de haver menos modelos de aviões, menos modelos de carros de combate. Em vez de haver sete ou oito, haver dois ou três como nos Estados Unidos, mas todos estarmos virados para o mesmo objetivo que é ter maior eficácia, capacidade e maior eficiência nos diferentes sistemas de armas. Mas há aqui uma questão que eu acho que é muito importante, independentemente daquilo que disse o senhor ministro, e muito bem, da via verde para a contratação pública. Isto tem a ver com as grandes dificuldades que se sentem em todos os países, não é só Portugal Ora bem, nós não fazemos regras como o presidente Trump todos os dias. Não alteramos as regras. Tínhamos uma visão em que abríamos concursos públicos, quem concorre são países como a China, e nós fizemos a investigação de todo o equipamento, e depois é a China que ganha o concurso e nem sempre cumpre todos os requisitos, mas porque é mais barato, compramos à China. Isso tem que ser alterado. Eu estou a dar um exemplo muito simples. Isso tem que ser alterado. E portanto, esta Via Verde vai favorecer o quê? Vai favorecer a indústria, o emprego, e obviamente, isso é muito positivo, daí se chamar também investimento. Quando produzimos um carro de combate, tal como um automóvel, obviamente não estamos a falar só de chapa, não estamos a falar só de aço, não estamos a falar só de armamento, estamos a falar de outros componentes que trazem à volta uma série de empresas, uma série de empregos, desde os ligados às confecções até àqueles ligados às borrachas. Há aqui uma série de mecanismos que são muito interessantes, mas esta parte da contratação pública tem que ser realmente revista, não só em Portugal como na União Europeia. Mas há uma outra questão que se chama pessoal. E essa é a grande questão política também. Nós não vamos só produzir armamento para fazer exposições de armamento. Nós precisamos de gente e não temos gente, nem em Portugal, nem em Espanha, nem na Alemanha, nem no Reino Unido. Temos militares. Por muitos incentivos que tenhamos dado até agora, e já demos alguns, não temos militares.

Investir no recrutamento.

A questão do recrutamento e eventualmente da mobilização, sobretudo para os países que estão mais perto da linha da frente, é fundamental. Por isso está a discutir as leis do serviço militar, se é um sistema misto, para além do sistema de contrato não funcionar, tem que haver outros sistemas que não só o serviço militar obrigatório. Há outras modalidades e cada país tem a sua especificidade e nós somos muito diferentes da Espanha, muito diferentes da Alemanha, portanto, temos que encontrar isso. Mas encontrar isso em consenso. Era importante que os partidos se entendessem, em primeiro lugar, na necessidade de investir em defesa. Em segundo lugar, na tal necessidade de facilitar a contratação pública. Era importante se entenderem. Em terceiro lugar, era importante que se entendessem também naquilo que são as motivações para termos mais militares, mulheres e homens jovens. E em quarto lugar, direta e indiretamente ligado a isso, era importante entenderem-se sobre aquilo que é a educação dos nossos jovens naquilo que tem a ver com a cidadania. E isso é muitíssimo importante para prepararmos os nossos jovens não só para a paz, mas para a adversidade. É importante preparar as pessoas para a adversidade no trabalho, nas relações pessoais e inclusivamente neste mundo das grandes potências, em que países como Portugal, obviamente estarão sempre sobre fogo de outros países maiores, nomeadamente agora também os Estados Unidos, para além da Rússia e da China.

Major-General João Vieira Borges, vamos ainda em dois minutos falar aqui um pouco sobre o Médio Oriente, até porque Israel voltou a atacar o Líbano, voltou a atacar Beirute. Três feridos foi a contabilização inicial. Foi dito também pelo exército israelita que conseguiram matar um elemento do Hezbollah, que estaria em Beirute. A ONU já veio condenar. Como é que se explica que Israel continue a avançar com este tipo de ataques sobre o Líbano, numa situação de cessar-fogo, de entendimento para cessar-fogo, e estar aqui a atacar novamente Beirute, sendo que, de acordo com Israel, tudo foi feito para atacar diretamente um agente do Hezbollah?

A questão de Israel, como nós sabemos, é porque neste momento tem as costas quentes, ou seja, tem o apoio claro da administração Trump para todas estas ações militares, sejam ações na Cisjordânia, atenção àquilo que se está a passar na Cisjordânia, seja em Gaza, seja no Líbano, seja na Síria. E portanto, nós estamos a ver uma grande liberdade de ação da parte de Netanyahu, que não respeita o direito internacional minimamente, que nós sabemos como é que trata as Nações Unidas e como é que trata todos aqueles europeus que têm uma voz independente, que defenda os direitos humanos e que defenda aquilo que já todos na prática defendíamos desde 1948, que é dois Estados na região. E portanto, ele está contra, continua a usar a força. E portanto, a solução, como nós sabemos, a partir do momento em que os Estados Unidos o apoiam diretamente, a solução que seria no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pelo menos consensões, não existe. Portanto, estamos a viver um mundo em que as grandes potências que estão a destabilizar o mundo, são elas próprias que estão no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou seja, estes mecanismos que nós teríamos noutro sistema, estão cada vez mais dificultados neste mundo.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição do Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Estamos de regresso amanhã.