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Gabinete de Guerra, na Rádio Observador, o programa em que analisamos os principais conflitos que marcam a atualidade, bem como as situações mais tensas na geopolítica mundial. A nossa convidada hoje é especialista em assuntos internacionais. Trata-se de Ana Cavalieri. Seja muito bem-vinda à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar, Ana Cavalieri, por falar sobre o Ártico. A NATO confirma que está a planear uma missão militar na região. Já tinha acontecido no ano passado, mas agora acaba por ganhar maior relevância. Ana Cavalieri, depois das questões com Donald Trump, é altura de mostrar serviço nesta região do Ártico?

Muito boa noite. Eu penso que isso é um bom indicador de que pelo menos os membros europeus e também o Canadá, não esquecer que há vários membros da NATO que não estão apenas localizados na Europa, que existe aqui pelo menos o entendimento que o Ártico é uma região fundamental em termos geoestratégicos, que a partir do momento em que a arena geopolítica está a ser debatida entre grandes poderes como Estados Unidos e a China, principalmente, mas no caso do Ártico, a Rússia também é muito importante por causa das bases todas que eles têm ao longo dessa região, e o fato de haver iniciativas por parte desses países de aumentarem a sua expansão, nomeadamente em rotas marítimas, vai ser muito importante no futuro, mas também na expectativa de haver minérios raros, as chamadas terras raras, também na Groenlândia, sendo certo que é ainda muito duvidoso o tipo de viabilidade da exploração comercial numa zona que é muito agreste para essa exploração. Eu penso que é positivo para aquilo que são os interesses europeus. Para os europeus também não interessa termos a zona do Ártico dependente de uma ascensão da Rússia e da China. Eu penso que ainda é do nosso interesse estarmos aliados com os americanos, perimindo então aquilo que serão os interesses chineses e russos na região, e eu penso que é um sinal positivo. A mim interessa-me mais saber se aquilo que Trump alegou ter falado com Mark Rutte, mas que formalmente a NATO negou que essas conversas tinham sido feitas a esse pormenor, é saber que tipo de acordo é que então os Estados Unidos vão chegar com a Dinamarca, relativamente àquilo que será a presença americana na Groenlândia. Isto porque o argumento fundamental americano é que a Dinamarca é muito pequena, não só em termos populacionais, mas em termos também de investimento de segurança e defesa, para projetar o poder que é necessário para dissuadir a China e a Rússia de continuarem a avançar naquilo que é a expansão dos seus interesses no Ártico. E para além da Dinamarca ter essa incapacidade, a Europa tem demonstrado não só a incapacidade, mas também a falta de vontade política para investir os recursos necessários na região e, portanto, serão os Estados Unidos que, se tiverem o sacrifício de assegurar a defesa e a projeção de poder naquela zona a partir da Groenlândia, então deviam ter direitos de soberania na Groenlândia. Isso é, no fundo, o argumento americano. E aquela solução que foi à partida apresentada para resolver esse problema seria então um compromisso em que os Estados Unidos teriam alguns locais com soberania, os chamados pockets, na Groenlândia, um pouco como o Reino Unido ainda tem no Chipre. E nessas áreas onde as bases militares ou os sistemas de defesa antiaérea estariam fixados, seriam parte dos Estados Unidos, esses pequenos locais estratégicos da Groenlândia, e o resto da Groenlândia continuaria sob o domínio soberano da Dinamarca. Mas nada ainda foi concretizado. Aquilo que foi bom para nós, e que eu penso que também foi uma notícia muito positiva, foi de Trump ter recuado daquela ameaça de tarifas que alguns países, que tornou as discussões, que são importantes, mas que convém serem feitas com calma e com perspectiva estratégica. Foi bom ele ter recuado, porque foi algo muito pouco expectável e também só teve consequências negativas, esse anúncio de tarifas repentino, quando o acordo comercial com a Europa já estava mais ou menos estabelecido. E pronto, a situação será esta. À partida, vamos ver se há novidades sobre qual é que será a solução relativamente à Groenlândia.

Para já, em termos de novidades, há essa missão militar no Ártico que está a ser preparada pela NATO. Ana Cavalieri, falamos agora da Ucrânia, porque Volodymyr Zelensky acusa a Rússia de não levar a diplomacia a sério e diz que o trabalho dos negociadores ucranianos será ajustado, estes negociadores que estão à procura de um plano de paz. Também o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, diz que a Rússia não está interessada na paz. São declarações de hoje, após Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, ter visitado de forma surpresa a Ucrânia. E a minha pergunta, Ana Cavalieri, é se esta posição, quer de Zelensky, quer também do secretário-geral da NATO, podem comprometer de alguma forma as negociações entre a Rússia e a Ucrânia.

Eu penso que não, na medida em que aquilo que pode comprometer neste momento foi o fato de Donald Trump ter supostamente negociado com Putin um cessar-fogo energético por vários dias e quatro dias depois, ou seja, seria à partida por 10 dias e quatro dias depois, Putin já enviou drones e mísseis contra estações fundamentais de produção energética. E nós sabemos que os ucranianos estão a sofrer bastante com aquilo que tem sido um inverno rigoroso e os ataques russos a esses pontos estratégicos em termos de estrutura energética. Isso, para mim, é que irá com certeza condicionar o tipo de negociações que estavam neste momento a ser feitas, sendo certo que eram negociações que para os ucranianos também não estavam a correr muito bem. Supostamente, aquilo que saiu como primeiras indicações daquilo que o processo negocial estava, na semana passada, a desencadear, era a pressão americana sobre Zelenskyy para antes do compromisso das garantias de segurança, cujo documento e também o tipo de garantias de segurança, de forma mais especificada, já estava elaborado e acordado, mas para Trump, ou aquilo que era a posição da administração americana, esse compromisso só se iria formalizar depois de Zelenskyy formalizar a cedência de território, nomeadamente em Donetsk, que os russos ainda não conquistaram. Uma coisa é numa posição negocial, quando há duas posições que parecem ser absolutamente antagônicas, sem possibilidade de compromisso, que é Rússia aceitar garantias de segurança análogas ao Artigo quinto da NATO para proteger a Ucrânia. E essas garantias de segurança, supostamente, os Estados Unidos iriam garantir, nomeadamente com cooperação de aliados europeus. Os aliados europeus estariam dispostos a enviar tropas, ou seja, a proteção europeia seria ao nível terrestre, marítimo e aéreo, e a proteção americana nessas garantias de segurança seria eventualmente aérea, mas também aquilo que é fundamental no fornecimento de sistemas, que só os americanos neste momento conseguem produzir à escala e com a eficácia que é necessário, nomeadamente os sistemas de defesa antiaéreos, Patriots, mas também os mísseis de longo alcance, que os Estados Unidos conseguem garantir com maior produtividade. E também outro tipo de equipamentos. E isso também é importante, na medida em que os europeus ainda não se conseguem substituir aos americanos nesta linha, que são os serviços de informação e de intelligence, que são fundamentais para avisar os ucranianos quando mísseis estão a vir para o território ucraniano e também informar os ucranianos de quais as coordenadas exatas dos alvos estratégicos a conseguir atingir dentro da Rússia. Os americanos ainda têm a preponderância nesse nível. Isso é algo que os russos, à partida, ainda não demonstraram, não indicaram nenhum sinal que estariam preparados para aceitar esse tipo de proteção análoga à do Artigo quinto, porque é verdadeiramente o que interessa. A objeção dos russos, da perspectiva russa, de a Ucrânia não pertencer à NATO, é precisamente por causa do Artigo quinto, que dá garantias de segurança coletiva, não é por mais nada. Pelo que os russos ainda não atribuíram qualquer indício de que estariam prontos para moderar essa sua posição relativamente a essas garantias de segurança, mas a pressão que Trump está a fazer sobre Zelenskyy, sobre aquilo que é fundamental para a posição ucraniana, que era não ceder aquela linha de fortificação que existe em Donetsk, que é neste momento o que impede uma progressão com mais ritmo por parte dos russos, porque a seguir essa linha em Donetsk, que os ucranianos ainda mantêm, é só planície, e portanto, em termos estratégicos, em termos das barricadas de segurança, barricadas aqui utilizado num termo muito simples, mas naquilo que são as fortificações. Ceder isso para ou uma zona desmilitarizada ou uma zona daquilo que é chamado uma free economic zone, que é uma solução que nós em relações internacionais utilizamos quando não sabemos bem como resolver uma disputa territorial. Essa pressão de Trump que está a fazer agora em Zelenskyy, no fundo, ceder primeiro o território e só depois é que se formalizavam as garantias de segurança, isso para Zelenskyy, naturalmente, e para nós europeus, é absolutamente inaceitável. Ao mesmo tempo, nós sabemos que Putin aparentemente não tem problema nenhum em violar os acordos que faz diretamente com Trump, que era esse cessar-fogo energético que Trump alegava ser para poupar, e é verdade, seria para poupar o sofrimento de milhões de ucranianos que estão a passar muito frio neste momento. Pelo que se confirma que essas negociações, neste momento, ainda não provocaram um avanço que nos possa dar muita esperança.

Esse acordo que acabou por ser quebrado poucos dias depois ter sido anunciado por Donald Trump, acordo para evitar ataques às infraestruturas energéticas. Vamos avançar, Ana Cavalieri, e falar ainda no Médio Oriente. Estão previstas negociações entre os Estados Unidos e o Irão, mas os representantes iranianos estarão a tentar mudar o formato das negociações. Isto acontece no mesmo dia em que a Marinha norte-americana abateu um drone iraniano no mar da Arábia. A minha pergunta é se isto pode ser uma faísca para uma situação já tensa entre o Irão e os Estados Unidos, e o que é que podemos esperar desse encontro, dessa negociação entre Estados Unidos e Irão?

Eu penso que este evento não irá desminerar aquilo que será o projeto de negociação de um acordo neste momento. Parece que Trump tem aqui um problema que a mim me parece evidente. Ele alega que haveria linhas vermelhas que o Estado iraniano não poderia ultrapassar, que foi a morte dos manifestantes. E não esquecer que quase 40 mil, isso é algo que foi aceito pelo regime, pelo que provavelmente mais pessoas morreram, mas cerca de 40 mil manifestantes foram mortos. E tinha sido uma linha vermelha que depois Trump adiou para: "Ok, o que não poderá acontecer é haver execuções", ou seja, o Estado matar manifestantes que estariam detidos. E isso também aconteceu. Irá haver uma perda de credibilidade óbvia e perdendo-se a credibilidade, perde-se também aquilo que é o mais importante em geopolítica, que é a capacidade de projetar poder para dissuadir Não só o nosso adversário imediato, mas também todos os outros adversários que temos espalhados pelo mundo. A palavra de Trump estaria enfraquecida se ele, neste momento, não fizer um ataque contundente. Não quero dizer que seja um ataque que resultasse na mudança de regime, mas aqueles manifestantes foram à rua também porque houve uma promessa que o Trump fez explicitamente, que é: "A ajuda está a caminho". As três solicitações, ou aquilo que é as três posições que o Trump quer assegurar do regime dos aiatolás é eles se desistirem do programa nuclear, desistirem também de pararem de investir naquilo que é o seu plano, a manufatura ou a sua indústria de defesa relativamente a mísseis balísticos, e também deixarem de financiar grupos terroristas proxies na região. Há aqui algo que também não faz sentido, no sentido em que Trump alega que naquele ataque em maio de 2025, o programa nuclear iraniano tinha sido destruído. E não é nestes meses, supostamente, que os iranianos, que estão numa crise brutal interna, económica, mas também ao nível militar, porque os israelitas conseguiram dizimar aquilo que era a cúpula de liderança militar e da guarda revolucionária do Irão, e também destruir aquilo que seriam os grandes armazenamentos de mísseis balísticos que o Irão tem e também aquilo que são os sistemas de defesa antiaérea. À partida, tanto o programa nuclear como o sistema de produção de mísseis balísticos estavam muito enfraquecidos. Por isso, para mim, se deste acordo, se desta negociação, aquilo que os Estados Unidos pretendem como retirar ao regime iraniano como leverage, seria o seu programa nuclear, mas que supostamente estava destruído, seria o seu programa de produção de mísseis balísticos, que supostamente também estava absolutamente debilitado. E também a sua capacidade de financiamento de grupos proxies, sendo certo que esses grupos proxies, que são principalmente o Hamas e o Hezbollah, não foram destruídos de morte por Israel, mas quase. Parece que então todas essas ameaças, esta posição de força de Trump, é incompreensível, porque está a tentar obter determinados resultados que supostamente já tinham sido, pelas ações do governo israelita e do governo americano no ano passado, já tinham conseguido ser atingidos. E isso é um grande problema de credibilidade que Trump irá ter, sendo certo que também, não esquecer, poderá ser uma maneira de causar uma espécie de proteção por parte do regime iraniano, que está a haver uma negociação e quando menos esperam, então os Estados Unidos e Trump irão atacar cirurgicamente, tal como fizeram na Venezuela. Foi um ataque que naquele momento, apesar da armada já estar montada há várias semanas ao pé da Venezuela, não se esperava que naquele momento uma operação com aquelas características ia acontecer. Também é numa altura em que, nesta última semana, vários líderes, nomeadamente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, começaram a ser menos intransigentes relativamente a uma operação contra o regime iraniano. Pelo que não sabemos se é Donald Trump a voltar atrás relativamente à sua palavra e à sua credibilidade, porque na equação dele vê que o potencial sacrifício, nomeadamente relativamente à perda de vidas de tropas americanas ou daquilo que seria um ataque nas bases americanas na região ou contra Israel, é algo que ele não pretende aceitar esse sacrifício e esse prejuízo, mas então não teria dito ou ameaçado o regime iraniano que se eles cruzassem aquelas linhas vermelhas que eu referi há pouco, que ele iria fazer, então não teria delimitado essas linhas vermelhas. Ou então, numa altura em que toda a gente está preparada para uma negociação, vai ser a altura então que ele faz um ataque surpresa. Teremos de saber agora nestas próximas semanas.

Exatamente, uma situação para continuarmos a acompanhar de perto. Muito obrigado, Ana Cavalieri, a especialista em assuntos internacionais esteve a fazer a análise no gabinete de guerra da Rádio Observador de hoje. Fica por aqui, está de regresso amanhã. Da minha parte, resta-me apenas agradecer-lhe, Ana Cavalieri, e até uma próxima oportunidade.