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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de tensão geopolítica. Na edição desta noite contamos com a análise de João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar pela Ucrânia, que terá ficado sem mísseis Patriot, que são mísseis interceptores, numa altura em que a Rússia está a intensificar os ataques contra o país e também que as relações entre Washington e Kiev estão sob alguma tensão. É uma notícia que está a ser avançada pela CNN. Que consequências é que isto pode ter no conflito, esta falta de mísseis Patriot?
Olá, Lara, muito boa noite e boa noite também aos ouvintes da Rádio Observador. Eu diria que esta falta de mísseis é apenas mais um sintoma, não é de todo o problema de fundo. O problema de fundo é, como referia, de facto, este afastamento, estes últimos dias que nós assistimos, de termos visto o presidente Donald Trump e a administração americana distanciarem-se do apoio à Ucrânia, do apoio a Kiev, numa altura em que a Rússia, também como dizia bem, intensificou e teve ainda há duas noites um dos maiores ataques desde o início da guerra na Ucrânia, e que parece, mais uma vez, que quando chegamos à hora H e vemos aquilo que é o verdadeiro pensamento da administração americana para resolver este conflito, ele acaba sempre por redundar na exigência de condições a Kiev, que são aquelas que se alinham mais ou que estão mais próximas daquilo que são as exigências do Kremlin e de Vladimir Putin. Portanto, é preocupante, obviamente, que nós tenhamos visto agora este afastamento e a incapacidade dos Estados Unidos de continuar este fornecimento do ponto de vista militar, como também vimos as dificuldades que o Zelensky referiu no acesso aos sistemas de satélite, que são fundamentais para as questões estratégicas de navegação e de acompanhamento técnico militar por via de satélite, que são utilizados através da empresa de Elon Musk. Temos visto, mais uma vez também, a fazer uso da narrativa de Vladimir Putin de pedir eleições na Ucrânia e a substituição de Zelensky, como se fosse Zelensky o empecilho ao estabelecimento de uma negociação e de uma relação, eventualmente de acordo, entre as duas partes. Ela é, de facto, sintomática de um quadro geral que é muito mais preocupante e muito mais amplo do que só esta falta específica de meios militares, e que eu acho que, obviamente, nós estamos a falar nesta altura no momento em que decorre o Conselho Europeu e que obviamente tem que estar na preocupação de todos os líderes europeus neste momento reunidos.
Vladimir Zelensky e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, estiveram esta tarde reunidos em Bruxelas para debater o aumento da protecção e da segurança da Ucrânia, bem como o cessar-fogo energético, para além também de terem discutido um novo pacote de defesa aérea. Com as relações cada vez mais tensas entre os Estados Unidos e a Ucrânia, como já falamos, está Zelensky a tentar reforçar a relação com os aliados?
Tem que fazer, obviamente. A questão que se coloca aqui é qual é que será a resposta dos líderes europeus e, de certa maneira, dos parceiros não europeus, juntando também o Canadá, a esta situação de dificuldade que a Ucrânia está a enfrentar neste momento, com potencial para que ela se possa agravar. Aqui, de facto, a Europa tem que ser muito célere a agir. Isto porque nós estamos numa situação que pode não só piorar para a Ucrânia, mas pode piorar também no seio da União Europeia. Eu chamava a atenção para uma entrevista, há poucas horas, do Economist, que está a sair agora por estes momentos, à líder do partido AFD, na Alemanha, do partido de extrema-direita alemão, Alice Weidel, que afirma categoricamente que, no caso de vencer as eleições, e isto não é um cenário assim tão abstrato, tão distante de poder efetivamente acontecer, ela refere que a sua política é a política da Alemanha primeiro, Germany first, e que vê com bons olhos e afirma apodiriticamente o cancelamento de apoio militar financeiro da Alemanha à Ucrânia, referindo que a Alemanha foi o país que jamais contribuiu e por isso não pode continuar a fazê-lo, estando muito endividado. Portanto, esta mudança de cenários não é só na Alemanha, temos também Marine Le Pen em França, temos outros movimentos dentro da Europa que se têm mobilizado agora, vimos o presidente búlgaro e o primeiro-ministro eslovaco também a darem o seu apoio à decisão da administração americana de voltar a comprar petróleo à Rússia. Portanto, se a Europa não for célere a agir enquanto pode, enquanto ainda tem aqui, de certa maneira, alguma margem e alguma bolsa de oxigênio político para poder tomar estas decisões, eu temo que a situação se agrave e que isto só permita à Rússia reforçar, por um lado, os ataques híbridos que tem vindo a desenvolver muito recentemente e, em segundo lugar, continuar a interferir diariamente, de uma forma sistemática, nos processos políticos e eleitorais europeus, condicionando as decisões europeias a seu favor.
O serviço de internet por Starlink já está totalmente reposto na Ucrânia, uma informação avançada pelo Ministério da Defesa. Ontem, Elon Musk disse que a responsabilidade na falha de partilha de informações com a Ucrânia é dos Estados Unidos. Afinal, o que é que aconteceu aqui?
Será difícil fazer essa análise, no sentido em que não tenho acesso privilegiado às decisões da Casa Branca ou àquilo que aconteceu efectivamente.
Mas acha que teve interferência dos Estados Unidos?
Eu acho que ela se conjuga, como eu dizia inicialmente, neste trazer novamente à política americana e às decisões americanas, uma visão que se alinha com aquilo que são os objectivos de Vladimir Putin, com a ideia, e isto também era uma coisa que a líder da extrema-direita alemã referia, de que a Ucrânia não pode vencer esta guerra. Como a Ucrânia não pode vencer esta guerra, estamos numa situação de prolongamento e de exaustão, num momento em que estamos quase a chegar aos cinco anos da invasão russa. Portanto, como a Ucrânia não consegue ganhar a guerra, a Rússia não recua, a solução que parecem alguns querer apresentar é a capitulação da Ucrânia, seja ela parcial ou total. E eu acho que é isto que deve mobilizar os líderes europeus a rejeitar de uma forma total esta visão, porque a capitulação da Ucrânia não é só submeter o povo ucraniano a uma humilhação e potencialmente a serem alvo de ainda maiores atrocidades do que aquelas que já sofreram, é também ceder à Rússia um território que é fulcral para a sua capacidade ofensiva ao próprio território europeu. Eu acho que é isso que está em cima da mesa que os líderes europeus não podem aceitar, independentemente daquilo que tenham sido os meandros das decisões que levaram a esta momentânea disrupção dos Estados Unidos.
Vamos olhar também para o conflito no Médio Oriente. Os Estados Unidos podem vir a utilizar no Irão aquela que é apelidada como a mãe de todas as bombas. Trata-se da maior bomba que os Estados Unidos têm no arsenal, tirando as bombas nucleares. Donald Trump já usou este tipo de bomba no Afeganistão. Acha provável que Washington venha mesmo a usar esta bomba contra o Irão? E se o fizesse, que consequências é que poderia haver?
Do ponto de vista das relações internacionais, é mais uma vez, mais um prego no caixão do direito internacional, da ordem internacional. De certa maneira, aquilo que nós temos vindo a assistir paulatinamente é esta falência, este falhanço da ordem multipolar e da capacidade de se resolverem os conflitos entre as nações, através de um diálogo e da diplomacia. Do ponto de vista prático e político, isto significa para os Estados Unidos a compreensão e a admissão daquilo que é o falhanço da sua estratégia militar no Irão. Os Estados Unidos entraram e partiram para uma guerra que à partida não tinham condições para vencer, sobretudo porque não entenderam aquilo que era a capacidade de resistência do Irão e o nível de preparação que o Irão tinha ao longo de vários anos, sobretudo desde a primeira administração Trump, quando se enterrou o acordo que existia anteriormente. Portanto, o recurso, desta forma quase em último desespero, é de facto a evidência de que os Estados Unidos, só através de um acontecimento do ponto de vista militar, que pode conduzir a uma dimensão trágica do ponto de vista humano, é que os Estados Unidos seriam capazes de pôr fim a este conflito. Isto é cada vez mais difícil de antever se será ou não assim, porque a situação política nos Estados Unidos é hoje muito volátil e todos os indicadores apontam para que haja uma grande catástrofe republicana nas próximas eleições, que ocorrem sensivelmente daqui a um mês. Portanto, este aumento do desespero político pode, infelizmente, levar a este aumento do desespero militar e as consequências disso serão trágicas, mais uma vez, não só do ponto de vista quase filosófico e humanitário, mas também para aquilo que nós temos visto ao longo de várias décadas, que é a perpetuação destes conflitos no tempo. São gerações que são afetadas, que acabam por se transformar em bolsas de resistência naturais, diria até, que acabam por perpetuar o conflito ao longo do tempo e entrar num ciclo que se torna impossível de resolver, porque gera unicamente mais violência.
João Albuquerque, muito obrigada pela sua análise.
Clara, foi um prazer. Muito obrigado, um abraço.
O Gabinete de Guerra fica por aqui. Está de regresso amanhã.