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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. O Parlamento da Hungria deu luz verde à adesão da Suécia à NATO. Era o último obstáculo para a entrada do país nórdico na Aliança Atlântica. Começo por si, Bruno Cardoso Reis, o que significa esta aprovação?

Boa tarde. Significa uma vitória importante para a Suécia. Significa também, mais uma vez, uma derrota estratégica para a Rússia, numa altura em que a narrativa do lado de Moscou é que as coisas estão a correr bem. Isto recorda-nos que isso está longe de ser o caso em relação aos aspectos fundamentais desta invasão. Ou seja, um dos grandes objetivos declarados da invasão era travar a chamada expansão da NATO, ou seja, aquilo que na verdade é um alargamento voluntário de Estados livres que querem reforçar a sua capacidade de defesa coletiva. O resultado dessa invasão foi que Estados historicamente neutros, no caso da Suécia, ainda mais do que da Finlândia, era assim. Ou seja, a Suécia não entra em guerra há 200 anos, desde as guerras napoleónicas, há mais de 200 anos. Realmente era um país que estava muito ligado a esse princípio da neutralidade, embora isso nunca tenha significado pacifismo ou desarmamento. Era uma neutralidade armada. Portanto, a Suécia tem um bom exército, uma boa marinha, uma boa Força Aérea, tem uma indústria militar bastante desenvolvida, por exemplo, produz caças, que são das capacidades militares mais avançadas, os chamados Gripen. E portanto, é realmente uma grande aquisição, diria eu, do ponto de vista do reforço das capacidades da NATO. Também do ponto de vista geoestratégico, ajuda a transformar ainda mais o Báltico num lago da NATO e ajuda muito também do ponto de vista do planeamento, no sentido de criar aqui um bloco coeso, que torna muito mais fácil o reforço, o apoio, quer dos Estados da Linha da Frente, quer da Finlândia, quer sobretudo dos países bálticos, que são no fundo os países mais vulneráveis a agressões russas que fazem parte já da NATO. E por último, eu diria também, é uma derrota da estratégia de chantagem de Orbán. Apesar de tudo, a Turquia ainda conseguiu extrair alguma coisa de todos estes adiamentos. Conseguiu extrair algumas concessões da Suécia quanto à questão das redes ligadas aos partidos curdos na Suécia, aos movimentos terroristas curdos na Suécia, e conseguiu também uma cedência no sentido de venda de F-16 à Turquia, por parte dos Estados Unidos, como moeda de troca para a adesão da Suécia. No caso da Hungria, a única coisa que Orbán conseguiu foi que o primeiro-ministro sueco fosse lá a Budapeste, no fundo para ele ter uma oportunidade de fazer alguma propaganda, mas em termos práticos, não se vê nenhum resultado destes adiamentos por parte da Hungria, mas felizmente que terminaram e que realmente a Suécia será um membro de pleno direito da Aliança Atlântica.

Tiago André Lopes, boa tarde mais uma vez. Com a ratificação à adesão da Suécia, ficam encerradas décadas de não alinhamento com a NATO. Que consequências podem surgir?

Depende agora do que isso implica, porque uma coisa é entrar para a organização, outra coisa depois é participar na sua plenitude na mesma. Apesar de isto ser uma vitória e acima de tudo, mais do que uma vitória, eu acho que é o fechar de uma janela que era diplomaticamente incômoda, porque este bloqueio permanente da Hungria, primeiro à Finlândia e à Suécia, mas depois acima de tudo à Suécia, que esperou cerca de um ano para conseguir materializar a sua vontade, era obviamente uma expressão. Não é a única, há outras, mas era uma das expressões de que a tal grande unidade homogênea do lado europeu nem sempre existe por causa destes atores mais erráticos e mais disruptivos, neste caso, a Hungria. Agora, não me parece que isto vá ter um efeito transformador na frente de batalha real. Portanto, é importante porque tranca a dimensão securitária europeia, porque obviamente facilita a partir de agora uma organização da segurança europeia, especialmente na zona Norte e na zona Báltica, mas não me parece que o impacto no conflito seja de fato efetivo, porque a Suécia já estava a ajudar material e militarmente, numa escala bastante aceitável, a Ucrânia. É, ao nível pelo menos das sondagens conhecidas, a opinião pública que mais continua a apoiar o esforço de manutenção da ajuda à Ucrânia é a da Suécia, de acordo com a sondagem do Statista, depois da Suécia, apenas a opinião pública portuguesa está tão galvanizada para este apoio. Portanto, nesse aspecto, sim, mas não vai ter esse efeito avançador. Apesar de ser uma derrota para a Rússia a longo prazo, não me parece, contudo, que seja algo que a Rússia contasse inverter. A Rússia percebe, a partir do momento que a Suécia faz a candidatura, que dificilmente teria passo atrás. Agora, a médio prazo, e esse acho que é um ponto importante para futuros governos suecos e finlandeses, a médio prazo e quando a guerra terminar, será que a vontade da Suécia e da Finlândia, que beneficiavam da neutralidade, se vai manter? Essa é uma questão importantíssima que nós não temos como responder para já.

Neste Gabinete de Guerra falamos também sobre Alexei Navalny. Estaria prestes a ser libertado perto da data em que morreu na prisão, ao que avança a jornalista e aliada do ex-líder da oposição russo, Maria Pevchikh. A libertação aconteceria através de uma troca de prisioneiros. Navalny seria trocado por Vadim Krasikov, antigo funcionário do Serviço de Segurança de Moscou. Bruno Cardoso Reis, faz sentido que Navalny tenha sido morto, como diz sua aliada, perto de uma troca que resultaria, no fim, na sua libertação?

Realmente, à partida não faz muito sentido. Se isto era negociado pelo Estado russo, e nós sabemos que isso é algo que o Estado russo faz, e até o próprio Putin naquela pseudoentrevista com o pseudojornalista Tucker Carlson voltou a falar nesses termos, deixando claro que jornalistas e outros nacionais, nomeadamente norte-americanos, que estão no fundo presos com pretextos falaciosos, como uma espécie de reféns, poderiam ser libertados se este assassino a soldo, este Vadim Krasikov, que assassinou um elemento da oposição de Chechena, neste caso em 2019 na Alemanha e que está condenado à prisão perpétua, realmente fosse libertado. À partida não faria muito sentido. Isto pode significar que houve guerras de fações dentro do Estado russo, que uma facção mais dura percebeu que havia esse risco e não quis correr esse risco. E obviamente eu não tenho dados para saber se é realmente assim, ou seja, se essa hipótese estava a ser equacionada, se estava realmente a ser negociada, se havia um acordo, se não havia. Mas o que sabemos é que realmente este tipo de trocas, de pessoas que na verdade são reféns do Estado russo por elementos, nomeadamente dos serviços secretos russos, condenados por crimes, inclusive crimes de sangue, crimes violentos em países ocidentais, isso é algo que já aconteceu no passado. Há aqui o mínimo de credibilidade para esse tipo de afirmações, mas em termos concretos deste caso, obviamente não tenho informação que permita validar isso. Eu diria que pelo menos teríamos de aguardar para ver se da parte dos Estados Unidos ou da Alemanha há alguma confirmação de que isso era algo que estivesse realmente a acontecer, a ser preparado.

E Tiago André Lopes, a aliada de Navalny, que avança com esta informação, considera que Putin se quis livrar do opositor russo para que Navalny não servisse como moeda de troca. Considera que é um cenário plausível?

Eu estou um bocadinho como o professor Bruno Cardoso. É difícil confirmarmos isto. Nós não temos os dados todos e este é daqueles casos em que a especulação ajuda pouco. Parece que há aqui duas coisas que nós temos que equacionar. Por um lado, Navalny volta para a Rússia em 2021, depois de ter sido envenenado. Não sei se ele teria essa disposição para ser usado como moeda de troca para sair da Rússia, mesmo tendo em conta a precariedade da sua situação. Navalny estava numa cruzada, que era uma cruzada sistémica, e era uma cruzada que ele sabia, e várias vezes ele filmou e gravou e deu testemunho disso mesmo, que lhe podia custar a vida. Por isso é que ele quando ia a tribunal chegava a ironizar com os juízes. Na última vez que esteve em tribunal, antes da deslocação para a Sibéria, ele chegou a dizer ao juiz que "dê-me o número da sua conta, porque a minha conta está dilapidada". Ele sabia que o sistema poderia vir a fazer aquilo que fez, que era engoli-lo de forma ou mais direta ou mais indireta. Eu acho que essa questão da moeda de troca é um cenário provável. Não sei se é assim tão realista só por esta dimensão, porque eu não sei se o próprio Navalny aceitaria essa troca, porque a troca obviamente também tem essa dimensão, e não sei se teria esse valor como moeda de troca real quer para os Estados Unidos, quer para a Alemanha, porque Navalny apesar de simbólico, tanto os Estados Unidos como a Alemanha têm a noção que o grau de reconhecibilidade e de elegibilidade de Navalny era nesta fase bastante baixo e acho menos plausível. Que é importante nós percebermos o que é que está a acontecer e que, volto a dizer, não é um cenário que se possa descartar à partida facilmente, isso não é, e que há aqui uma série de coisas que não estão bem explicadas, inclusive toda esta novela em torno da questão da autópsia, da devolução do seu corpo, até a indignidade com que está a ser tratado na morte, o que obviamente pode em nada surpreender, mas até choca bastante o modo como estão a tratar esta dimensão da morte de Navalny, apenas reforça a tal dimensão mais autoritária, mais rígida, que o Estado russo nos últimos meses parece estar a desenvolver.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observadores. Vai pro ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Inês Batista. Até amanhã.