Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, o programa em que damos destaque às principais questões geopolíticas mundiais. Hoje conto com a análise do especialista em Relações Internacionais, Orlando Salmões. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar por falar sobre a situação no Médio Oriente. A segunda ronda de negociações entre Estados Unidos da América e Irão poderá ser ainda esta semana, é o que dizem duas fontes à NBC News. Em cima da mesa está um encontro presencial entre as duas partes. Orlando Salmões, que expectativas podemos ter deste segundo encontro? E pergunto ainda se o bloqueio do Estreito de Ormuz não pode ser também um bloqueio nas negociações.

Boa tarde, muito obrigado pelo convite. É um gosto estar aqui de novo. Ora, eu creio que essa pergunta é absolutamente crucial. Já estarmos a olhar para a segunda ronda de negociações, porque a primeira parece que nos deixou com um certo sentido agridoce. Porque foram 21 horas que parece que deram origem a uma nova fase, ainda assim, porque finalmente, e ao mais alto nível, portanto, presidente do Parlamento no caso do Irão e vice-presidente dos Estados Unidos, estamos a falar já de pessoas com protagonismo muito elevado e que nos encheu de esperança, como deve encher sempre, que ainda assim os dois lados de uma contenda falam. Contudo, parece-me que tentou, se calhar, evitar os temas mais complicados e este tipo de encontros também podem ser demasiado formais ou Vance já estar mais preocupado, se calhar, com a sua posição futura até dentro do Partido Republicano, do que propriamente estar a tentar esgrimir argumentos, mostrar, no fundo, a sua força e parece-nos que pode ter ficado a seguir mais ou menos a linha recomendada por Trump, e assim também, no fundo, se distanciou, não teve que ficar com o ônus de um possível fracasso. Ele dá a entender que ficou tudo bem, mas nós notamos que não houve também grande progresso. Estarmos a dizer que apenas corre tudo bem, mas depois até quando agora foi publicamente à imprensa internacional que fala com J.D. Vance e ele diz que não tivemos muito focados em questões muito importantes, como a entrega do urânio enriquecido é muito importante e vimos logo aí a falta de flexibilidade do outro lado. A conversa continua. No fundo, mesmo não tendo nada a mostrar, parece que vangloria-se de ter estado muito bem. E entretanto o jornalista faz a pergunta crucial: "E o Estreito de Ormuz?" Ele parece que se lembra que esse tema também é importante. Diz: "Ah, sim, também falamos disso". Ou seja, nem sequer o Estreito de Ormuz parece ter estado muito em cima da mesa, pelo menos é a sensação que essa entrevista de J.D. Vance nos pode deixar perceber. Ora, se o Estreito de Ormuz continua na situação em que está fechado, agora supostamente pelos Estados Unidos, que não o conseguindo abrir, mantêm-no fechado, mas era como já estava. Portanto, também é um meio ganho em que, no fundo, estão a dizer que estão a tentar obter um resultado que já lá está. Se não conseguiram o urânio enriquecido, nem provavelmente aproximar-se de uma posição mais à luz do acordo anterior, com alguma possibilidade de algum enriquecimento, mas com verificação se forem ultrapassados os níveis do civil. Se também não há acordo, como vemos que não há, sobre o Líbano, porque na realidade a guerra entre o Hezbollah e Israel continuam, então qual é que é a base de entendimento de facto? Estamos aqui nos esforços de Islamabad, sempre muito bem-vindos, mas numa fase em que os Estados Unidos parecem estar um bocadinho a improvisar. Não há bem uma estratégia. Se esta decisão fosse boa, de tentar secar o Irão através do fecho, deveria ter sido de início. E já agora, podiam ter evitado libertar a frota fantasma, os tais mais ou menos 140 milhões de barris que estavam sancionados pelo Irão. Libertaram no sentido de melhorar um bocadinho o mercado através do incremento da oferta e agora pensam, ao contrário, em sancionar, porque no fundo este fecho é uma medida que pode ser considerada sancionatória ou que tenta reequilibrar a posição para com os outros Estados do Golfo, que também não conseguem, neste momento, ter uma posição de mercado, porque também não conseguem utilizar o Estreito de Ormuz. Portanto, estávamos numa situação em que só o Irão beneficiava. Parece isto tudo um bocadinho atabalhoado. Esperamos que o segundo encontro seja um bocadinho mais profícuo em resultados. Para já, parece-me que é mais uma questão de postura. Parece que querem ficar bem, mas não estão dispostos a fazer aquele trabalho mais duro, que é estarem atentos, a tomar notas, ver que posição é que o Irão tem e que possibilidades têm de os conseguirem, no fundo, de os ultrapassar naquilo que são as premissas das quais eles até agora não só não abdicam, como na realidade até parecem estar a sair daqui vencedores. Parecem ainda conseguir resistir mais.

É.

E se calhar o Irão consegue mesmo resistir mais. Porque os efeitos de uma crise económica num país como o Irão, onde as populações são mesmo muito resilientes, pode ser que não seja tão preocupante quanto no resto do mundo.

E é precisamente por essa segunda ronda de negociações que está no horizonte que gostaria de lhe perguntar se há alguma das partes, Estados Unidos ou Irão, que esteja em posição privilegiada por ter a entrada para estas negociações ou se os Estados Unidos, por terem o estreito bloqueado, podem aqui, de certa forma, não estar em pé de igualdade com o Irão.

Nós conhecíamos as diferenças nas capacidades no acesso à tecnologia. Os Estados Unidos, de facto, conseguiram não só delapidar a liderança e até os que lhes seguiram, como conseguiram destruir as defesas do Irão e até mesmo grande parte da sua frota, grande parte da sua capacidade aérea, que também já não era brilhante. Agora, a capacidade de resistência do Irão pode mesmo ser muito maior. O Irão volta-se para o Mar Cáspio, pode ter possibilidade de, mesmo sem o Mar Cáspio, pelo Turcomenistão, conseguir fazer chegar as matérias-primas, os hidrocarbonetos a muitas partes do mundo, conseguir continuar a canalizá-las, nomeadamente para a China. E uma população muitas vezes afetada e limitada nas suas possibilidades económicas não é aquela que pugna por uma grande alteração de regime. Nós podemos estar a partir de uma premissa errada de pensar que as pessoas vão se manifestar para tentar derrubar esta sua liderança e este regime, se sentirem diminuída na sua capacidade e, portanto, se forem efetivamente prejudicados economicamente. Nem sempre é verdade. Muitas vezes as pessoas agarram-se ao que têm e às vezes é precisamente no alívio, naquilo que começaria por um alívio de sanções, numa possibilidade de alguma prosperidade, que as pessoas passam a ter mais expectativas e a exigir mais ao governo. E é isso que pode dar origem a uma sublevação, a mais manifestações. As manifestações são muitas vezes movimentos de esperança numa vida melhor, precisamente porque as expectativas estão a subir. Ora, no Irão, desta feita, tão agrilhado como está, sem possibilidades de prosperar, a capacidade de resistência de um regime opressor, de características muito centralizado, opaco, em que até temos dificuldade em perceber quem é que manda efetivamente. Sabemos que a liderança mais até militar pode estar descentralizada e por isso é que a guerra continuou, apesar dos duros golpes infligidos pelos Estados Unidos. Ora, são os Estados Unidos que podem sofrer mais e no curto prazo. É que a democracia tem em si menos resiliência. E os Estados Unidos, como Estado muito mais democrático e com uma sociedade civil vibrante, tem muito mais pontos não só de escrutínio do poder, como tem mais válvulas de escape de as pessoas poderem se manifestar contra os preços altos. E sabemos que as pessoas votam muito com as questões económicas e com a carteira, como muitas vezes é dito. E, portanto, os Estados Unidos que também acabam por ser afetados, ainda que indiretamente, e por muito que sejam exportadores de petróleo, a verdade é que as pessoas, por via dos aumentos dos preços, podem também sofrer. E aí têm muito mais veículos de vocalizar o seu descontentamento perante Trump e perante um Trump que começa cada vez mais errático e já muito imprevisível como é, a tentar colher alguns louros, quando na realidade não está a conseguir resolver muito bem nenhum destes problemas que vai lançando, nomeadamente no Médio Oriente. E isto até se nota na precipitação que tem tido relativamente à forma como atua esta tensão totalmente desmesurada com o Vaticano, que não se percebe e do qual os Estados Unidos não têm mesmo nada a ganhar, porque, na realidade, o que o presidente Trump gostaria ter era esse é um elã tão favorável com que o Papa é visto, criador de pontes, é mesmo visto como sendo peacemaker, alguém que faz a paz, até pela sua maneira de estar. Trump queria, se calhar, ter algum.

Que era um dos desejos de Donald Trump.

É um grande desejo de Donald Trump. Aí é que está. Por isso é que eu acho que ele pode estar até um pouco perturbado. Como é que alguém que não tem o poder da força consegue granjear tanta simpatia das pessoas como ao Papa, e ele, que tem toda a força para poder tentar alterar o regime no Irão, tentar destruir as suas capacidades nucleares. Se calhar, o mundo ocidental, todos nós desejávamos, porque sabíamos que o Irão não admite sequer a existência de Israel e poderia se voltar para todo o mundo com a sua agressividade, que aliás, alimentava também o esforço de guerra na Rússia contra a Ucrânia. Mas estamos perante um Trump que nem percebe porque é que essa simpatia emerge na figura do Papa e não consigo próprio, que está a tentar fazer paz, mas de forma muito atabalhoada com uma equipa que também tem a sua própria agenda. Todos têm. E aqui deixaram ser o Irão a escolher o seu interlocutor em J.D. Vance, que também temos visto onde J.D. Vance toca, nem sempre as coisas correm bem. Vimos isso agora também na Hungria. Foi visto como interferência, de facto, e é alguém que não tem assim tanta experiência política. É certo que ganhou as eleições para senador no Ohio e que podiam ter sido, e foram bastante disputadas. Temos uns 200 mil votos, mais ou menos de diferença, mas que ainda assim ele conseguiu ganhar, mas que depois disso foi demasiado inflacionada a sua capacidade política. Ora, não sei se com Marco Rubio os resultados seriam diferentes, mas se calhar tem uma equipa um bocadinho mais atenta e formada com outro tipo de preparação para deslindar este aparelho, que foi muito bem equipado e cheio de pessoas, consta que o Irão apareceu com 71 pessoas. Todas muito preparadas a tomar notas nas suas várias vocações e que no fundo não deixam passar nenhum pormenor que seja desfavorável a si.

Orlando Sá Moês, temos ainda dois minutos para falar do rescaldo das eleições na Hungria. Após a saída de Viktor Orbán, Volodymyr Zelensky vai reparar o oleoduto que fornece petróleo à Hungria. Promessa feita hoje que deverá ser cumprida até ao final do mês. Orlando Sá Moês, isto é o presidente ucraniano a abrir a porta ao desbloqueio dos fundos europeus que têm sido tema devido à oposição húngara?

É uma oportunidade de se refazerem as relações, que têm normalmente tudo a ganhar quando são profícuas e todos os países deviam ser mais amigos uns dos outros. A verdade é que a Hungria não foi logo ao início, porque mesmo este partido, o Fidesz, esta segunda vez que se prolongou muito do tempo em que o Orbán foi primeiro-ministro, ele já tinha sido, ele deixou-se de facto enraizar, modificou a Constituição, tentou despoletar alguns dos mecanismos de Estado de forma a centralizar mais poder em si e sempre numa perspetiva de muito antagonismo perante aquilo que eram as estratégias de cooperação de toda a União Europeia. Essa vertente final foi um pouco exagerada. Sabemos que a Hungria e o povo húngaro podem ter até alguma relutância na sua posição perante a Ucrânia, até há razões históricas para isso, mas de um modo geral, esta possibilidade de um novo interlocutor e que, em princípio, pode alinhar mais grosso modo com o chamado PPE europeu e, portanto, ainda assim, sendo alguém que acabou por ter uma votação que vai praticamente de centro-direita até à esquerda. Repare-se que o próprio partido DK acabou por não ficar representado, portanto foi uma grande maioria, o que lhe dá muita legitimidade. Pode vir a ter nuances na sua forma de estar, também pode espelhar aquilo que são essas diferenças que o povo húngaro tem para com o apoio que foi mais generalizado à Ucrânia, mas ainda assim é uma grande oportunidade que a Ucrânia tem e não deve ser só a Ucrânia, deve ser toda a Europa a tentar ouvir melhor o que a Hungria pretende. Sabemos que foi, de facto, uma pedra no sapato da Comunidade Europeia, porque muitas vezes não só utilizou o veto, mas tentou bloquear e algumas propostas também não foram mais longe precisamente porque sabia que a Hungria poderia vir a ser oposição. Não quer dizer que Péter Márki-Zay, vindo da mesma família política, em última instância, que o próprio anterior primeiro-ministro Orbán, que ele não se incline a algum ideário semelhante. Portanto, não podemos exagerar na mudança, mas pelo menos esta forma como o Orbán paralisava a União Europeia pode ser que seja mais suavizada. Vamos ver se está em aberto e dá novas perspetivas à Ucrânia, que sim, para já parece ganhar nesta frente porque podemos a partir daqui ensaiar novos acordos, uma forma de estar entre os 27 que aponte para um sentido de maior alargamento de algumas das políticas à Ucrânia e quem sabe vir até a perfilhar o tal caminho para vir a ser membro pleno. Agora, ainda estamos muito no início, sabemos também que outros países podem até vir a ter eleições em sentido contrário. Mas também sabemos que muito deste esforço, desta forma de estar mais nacionalista perante uma derrota deste género, também pode ficar mesmo ferida, porque são grupos que prosperam na ideia de que tudo que vem é sempre melhor do que o momento anterior e não lidam muito bem com a derrota.

Orbán.

Ainda assim. Diga.

Para terminar, Orlando Samões, chegámos mesmo-

Só mesmo para terminar. Ainda assim, há que elogiar que ao contrário de outras direitas radicais, nomeadamente no continente americano, por vezes com Trump ou com Bolsonaro, aqui tivemos um Orbán a admitir rapidamente a derrota e isso demarca que ainda assim aqui na Europa, por vezes, conseguimos as transições de poder pacíficas e damos com isso uma lição ao mundo, mesmo perante interlocutores políticos que por vezes são vistos estando na mesma política que outros no mundo que não tiveram essa atitude.

Chegámos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o "Gabinete de Guerra", hoje com o especialista em Relações Internacionais, Orlando Samões. Muito obrigado pela análise a estas questões geopolíticas. Até uma próxima oportunidade.