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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos alguns dos principais focos de tensão um pouco por todo o mundo. Hoje contamos com a análise de Rui Vilar, especialista em defesa. Seja muito bem-vindo. Obrigada por ter aceitado este nosso convite. Há pouco foi anunciado pela Casa Branca que a primeira ronda de negociação entre os Estados Unidos e o Irão vai acontecer no sábado. Jay D. Vance, Witkoff e Kushner vão liderar esta delegação americana em Islamabad. Pergunto-lhe o que é que pode sair desta primeira ronda de negociações.

Boa tarde, Laura, e boa tarde também a quem nos ouve. Primeiro acho que é importante ressalvar o facto de Jay D. Vance estar presente nesta primeira ronda de negociações, uma vez que as negociações tinham sido protagonizadas mais pelo genro de Donald Trump, Jared Kushner, e por Peter Hegseth. Termos a presença do vice-presidente dá um peso institucional muito grande a este tipo de negociação. Além disso, temos uma visão que me parece mais aberta a um acordo, até porque pelas informações que temos tido, Jay D. Vance não era muito favorável a esta ofensiva no Irão numa fase inicial e portanto vamos ter aqui outro tipo de postura por parte dos Estados Unidos com este player que vai entrar agora também nas negociações. Acho que isso é muito importante. Depois, parece-me que os Estados Unidos já mostraram alguma cedência pelo facto de aceitarem partir pelos 10 pontos que o Irão apresentou ontem. Portanto, há aqui uma cedência de parte a parte e é importante para que este tipo de negociações corram bem. Vamos ver primeiro se o estreito fica navegável ou não, isso é muito importante nestas próximas horas. E vamos ver também a postura do Irão, porque mesmo após o término do prazo dado por Donald Trump e depois de as duas partes chegarem a acordo, o Irão continuou a bombardear países vizinhos, nomeadamente os Emirados Árabes Unidos e o Qatar. Portanto, a postura dos países até esse dia também penso que será importante. Depois vamos ver o que é que as negociações podem trazer. O que me parece, na minha análise, é que os americanos, quer Jay D. Vance, quer Donald Trump, há vários dias, não só nos últimos dias, mas já na anterior semana, vinham dizendo que os objetivos americanos estavam praticamente atingidos no Irão. Isso também facilitará, certamente, a obtenção de um acordo. Parece-me que há aqui princípio para esse acordo, porque os Estados Unidos já incapacitaram o Irão do ponto de vista nuclear e fizeram-no andar para trás muitos e muitos anos. Atacaram com muita força o seu poderio militar e o arsenal militar, destruíram a Força Aérea, destruíram a Marinha, destruíram várias bases, destruíram muito do estoque de mísseis, destruíram também a capacidade de fabrico de mísseis por parte do Irão, inclusive bombardearam empresas privadas que trabalhavam para o regime no auxílio ao fabrico de mísseis. Portanto, os americanos conseguiram, de certa forma, ganhar muitos anos e incapacitando o Irão no seu poder militar para os próximos anos. Por outro lado, também incapacitaram o Irão do ponto de vista da liderança do regime. Importa recordar que foram eliminados praticamente todos os chefes militares, os chefes de informações e também a cúpula política. O Aiatolá Khamenei foi eliminado, foi logo no início da guerra, mas importa lembrar, e o atual líder supremo do Irão, o seu filho, está em parte incerta, não sabemos em que estado é que está, se está ferido ou não. Portanto, parece-me que há uma incapacidade muito grande por parte do regime. Por outro lado, Donald Trump tem sinalizado, através de várias declarações, que os atuais players que lideram o regime iraniano são pessoas diferentes, são pessoas que, e passo a citar, "com quem se pode falar", portanto, parece-me que há aqui uma abertura. Claro que o regime para fora, em termos de propaganda, passa sempre aquela ideia de resistência e de inflexibilidade, de que não negoceia com ninguém, mas várias fontes internas não oficiais do Irão também já vinham dizendo que o Irão está numa situação muito debilitada e estava desejoso para o acordo de cessar-fogo, porque está em bastantes dificuldades. Portanto, tudo isso me parece que poderá levar a que as negociações prossigam a bom ritmo, e também isso é o que todos esperamos, mas acima de tudo é muito importante para nós enquanto europeus, porque a Europa está a ser muito afetada pela interrupção da navegabilidade do Estreito de Ormuz. Portanto, esperemos que um acordo mais duradouro do que os 15 dias seja.

Depois de ter sido alcançado o acordo de cessar-fogo, Donald Trump disse que os Estados Unidos conquistaram uma vitória total e completa sobre o Irão, 100%, não há dúvidas nenhumas, foram as palavras de Donald Trump. Estava precisamente a falar disto. Pergunto-lhe então se o presidente norte-americano acredita mesmo nisto ou se será também uma retórica para demonstrar a superioridade dos Estados Unidos, mesmo as coisas não tendo corrido como Trump inicialmente esperaria.

Eu acho sinceramente que sim, olhando para isto de forma pragmática, fria e do ponto de vista da análise estratégica e militar Repare, tudo aquilo que eu disse há pouco de destruição que os Estados Unidos conseguiram fazer ao regime iraniano é factual. E se quisermos um exemplo mais paradigmático ou que melhor ilustra, nós temos aos fins de semana Donald Trump a jogar tranquilamente golfe em Mar-a-Lago. E onde é que estão os líderes do Irão? Onde é que está o regime que foi praticamente todo eliminado, inclusivamente a cúpula do governo? Portanto, eu acho que claramente há uma diminuição muito grande por parte do regime iraniano e que os Estados Unidos têm efetivamente essa vitória. Porque eu também tenho dito aqui desde a primeira hora, o que me pareceu desde a primeira fase, foi que os americanos tinham como objetivo reduzir ou destruir quase na totalidade, quer o arsenal nuclear, o arsenal nuclear não, mas a produção nuclear de enriquecimento de urânio que o Irão estava a fazer, e também destruir grande parte da sua capacidade militar. Portanto, esses objetivos foram atingidos. Entretanto, tivemos agora esta telenovela destas ameaças de Donald Trump nos últimos dias, onde ameaçava a destruição total do Irão, que me pareceu com um único objetivo, a abertura do Estreito de Ormuz. E aí percebemos que os americanos era a peça que faltava e como não o conseguiam fazer com a sua força militar, ou seja, não conseguiriam retomar a navegabilidade só com a força do seu exército, precisaram de fazer aqui uma chantagem e uma ameaça mais forte, uma vez que o regime iraniano não estava a ceder nesse ponto, que era a abertura do Estreito, e fizeram uma ameaça mais forte e chegaram a acordo. Finalmente ontem chegaram a acordo. Donald Trump é um homem de negócios, um businessman, negocia dessa forma. Está muito pouco preocupado com a coerência ou com ficar bem para a opinião pública. Ele tem o objetivo e parecia-me que o objetivo dos últimos dois dias era claramente abrir o Estreito. Portanto, parece-me que os objetivos americanos estão atingidos. Nunca me pareceu, desde o início, se bem que houve ali uma fase que Donald Trump já falou na mudança do regime, mas nunca me pareceu que fosse o objetivo principal ou fosse um objetivo que poderia surgir decorrente da guerra, porque essas coisas são muito imprevisíveis, e de facto isso podia ocorrer, mas não me pareceu que fosse o objetivo americano principal. Portanto, parece-me que o objetivo americano principal foi atingido com sucesso.

Entretanto, esta tarde foi noticiado que o Estreito de Ormuz voltou a ser fechado pelos iranianos por causa de novos ataques de Israel ao Líbano, mas a Casa Branca já veio desmentir, diz que Donald Trump recebeu garantias de que o Estreito vai ser reaberto. Em quem é que podemos acreditar? Acredita que o Estreito vai mesmo ser completamente reaberto?

Sim, ao nível das informações que vêm deste conflito, como é natural, são muito mais confiáveis, até porque são bastante mais escrutinadas, as informações que vêm por parte dos Estados Unidos. Sabemos que o regime iraniano é exímio em propaganda e em lançar mentiras para a opinião pública. Aliás, basta ver que afinal o regime iraniano que tanto negou as negociações, elas foram evidentes, não é? E aconteceram, e tanto aconteceram que chegaram a um acordo ontem à noite. Portanto, parece-me que quero acreditar nas informações reveladas pelo lado americano de que tem essa garantia, até porque hoje o secretário de Estado da Defesa já de manhã disse que os americanos, em conjunto com o Irão, iriam garantir a navegabilidade do Estreito. Portanto, não será uma operação só iraniana, mas também com a monitorização americana. Portanto, acho que sim, até porque, como lhe disse, o regime iraniano não ganha nada com a continuidade do conflito. Está muito diminuído. Agora, de facto, é um regime instável e está agora aqui a jogar com a questão também de Israel continuar a operação no Líbano, mas o que soubemos foi que o acordo foi entre os Estados Unidos e o Irão. E os Estados Unidos não estão presentes no Líbano, estavam só na ofensiva militar no Irão. E portanto, acho que é isso que deve estar agora neste momento em cima da mesa, principalmente por causa da navegabilidade de Ormuz. Agora, também é uma declaração, mais uma, evidente, de apoio do regime iraniano a um grupo que eu considero terrorista, que é o Hezbollah, um grupo que o Irão financia, promove, usa como resistência, e que ataca outros países. E portanto, é mais um daqueles aliados iranianos que eu acho que toda a gente devia censurar, porque não é compaginável com os nossos valores. Agora, é a assunção por parte do Irão de que afinal financia e apoia grupos terroristas. E é mais uma demonstração da incoerência do regime iraniano.

Há pouco o primeiro-ministro israelita deu uma conferência de imprensa onde admitiu que Israel ainda tem objetivos para concretizar no Irão. Diz que vai alcançá-los através da força ou pela via diplomática. Benjamin Netanyahu disse mesmo, e vou citar: "Estamos prontos para a guerra contra o Irão a qualquer momento, o nosso dedo está no gatilho". Esta ameaça descredibiliza já, de certa forma, o acordo de cessar-fogo? Mostra que Israel não tem grande vontade de resolver as coisas de forma pacífica?

Eu acho que isso funciona mais como estratégia de dissuasão. Ou seja, basicamente como esta ofensiva no Irão foi protagonizada por dois países, pelos Estados Unidos e por Israel, mas o acordo foi celebrado entre os americanos e os iranianos, com a concordância de Israel, é certo, mas no fundo, os Estados Unidos estão a entrar numa negociação que começará dentro de poucos dias, mas continuam com um aliado a dizer que está com o dedo no gatilho, ou seja, estamos prontos para voltar a atacar a qualquer momento. E isso certamente será usado como estratégia de negociação e de diminuição do Irão nas negociações. Eu acho que faz parte destas estratégias de negociação. E aliás, Donald Trump é exímio nisso. Normalmente usa sempre duas vias de negociação. Se repararmos em vários, ainda recentemente tivemos o caso da Venezuela, onde Trump, por um lado, promove Nelson Rodríguez, por outro recebe Corina Machado, mostrando também que tem ali uma alternativa. Donald Trump faz sempre isso. Como eu digo, é um businessman. Vivemos numa nova era, numa nova era de equilíbrios de poder, numa nova era com players e líderes que nós não estávamos habituados a ver, principalmente no mundo ocidental, com este tipo de abordagem, mas parece-me que é claramente uma estratégia de negociação por parte dos Estados Unidos e de Israel.

Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Rui Vilar, especialista em defesa. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Obrigado. Boa tarde.

O Gabinete de Guerra regressa amanhã.