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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os conflitos no Médio Oriente e também na Ucrânia, os principais conflitos a marcar a atualidade mundial. Sou o Vasco Maldonado Correia, hoje contamos com a presença de João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Boa tarde, João, antes de mais, obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Olá Vasco, muito boa tarde e boa tarde também aos ouvintes da Rádio Observador.
Vamos começar pela guerra no Médio Oriente. Donald Trump acusou na rede Truth Social, o Irão de estar a fazer de tudo para aumentar o preço do petróleo antes das eleições intercalares, através do que chama de ataques falsos. Eu pergunto-lhe, João Albuquerque, se concorda com o presidente norte-americano, acha que de facto o Irão está a falsificar ataques ou isto é Donald Trump a ficar nervoso com as intercalares?
Eu diria que algo no meio deverá estar a verdade. Eu não tenho dúvidas de que será benéfico para o Irão continuar a provocar essa instabilidade, porque é isso que reforça a sua posição e de certa maneira demonstra que a estratégia que tem seguido continua a ser eficaz. Mas há aqui claramente vários indicadores nos tempos mais recentes, depois daquela declaração pouco credível de Donald Trump de que se estava a borrifar para as eleições intercalares, os sinais mais recentes têm sido de uma grande preocupação com aquilo que são as projeções que se vão conhecendo, que dão sinais muito claros de que os democratas poderão estar na iminência de recuperar as duas câmaras. Isso tem consequências, obviamente, políticas para o equilíbrio de forças entre o poder legislativo e o poder executivo. E portanto, há aqui uma preocupação de Donald Trump. Têm-se visto vários sinais de nervosismo. Podemos eventualmente falar disso mais à frente, mas eu diria que até a inversão da sua política em relação à Rússia vem também nessa sequência de tentativa de redução do preço dos combustíveis, porque é esse o principal indicador naquilo que são as declarações de intenção de voto dos americanos. Ou seja, esta crise económica que se faz sentir muito no aumento acentuado do preço dos combustíveis, é o principal fator de decisão no momento de escolha dos americanos e as culpas são atribuídas ao presidente americano, ao envolvimento que teve no Irão e que provocou esta crise. Portanto, há aqui, de certa maneira, não desconsiderando a possibilidade de constar do leque de operações estratégicas do Irão, usar algum tipo de artificialidade nos ataques ou na forma como projeta também a sua força, parece-me que é muito mais um indicador de desespero de Donald Trump e de tentativa de colocar culpas além e, de certa maneira, sacudir a água do capote naquilo que é claramente uma responsabilidade dos Estados Unidos, que se deixou enredar neste conflito para o qual continua a parecer não ter qualquer tipo de estratégia de saída.
Olhamos também para a guerra na Ucrânia, uma guerra que aparenta muitas vezes estar cada vez mais perto de passar fronteiras. A vice-secretária-geral da NATO afirmou que Portugal deve reforçar o investimento português em defesa e alertou que mesmo longe da Rússia, o país não está livre das ameaças de Moscovo, por exemplo, com ciberataques. Sem querer ser alarmista, este aviso, esta realidade que já foi falada várias vezes, parece-lhe cada vez mais possível ou até provável?
Talvez não numa dimensão de ataque físico, embora a Rússia tenha tentado, há não muito tempo, demonstrar que tem armamento suficiente para o envio de mísseis de longo alcance, que poderiam chegar à Península Ibérica e que poderiam atingir Espanha, pelo menos esses eram os dados que foram conhecidos há umas semanas. Mesmo colocando em cima da mesa essa possibilidade, não há dúvida de que a Rússia está há muito tempo, e a União Europeia tem tido especial atenção a estes fenómenos e tem tentado desenvolver estratégias precisamente de combate a isso, de interferência direta da Rússia nos processos democráticos e eleitorais na Europa. Isso é uma das formas mais utilizadas ou mais frequentemente utilizadas pela Rússia para provocar a instabilidade política e favorecer a subida ao poder, ou pelo menos fortalecer eleitoralmente alguns movimentos que lhe possam ser mais próximos. E nós vamos ter uns meses agora no próximo ciclo, que vão ser terríveis do ponto de vista eleitoral. Temos agora as eleições em Espanha já no próximo mês, mas teremos eleições em França, em Itália e na Polónia, portanto três países, juntando a Espanha, quatro de grande dimensão a nível europeu. E nós temos visto que além dessas ameaças híbridas de interferência direta na democracia e nas questões políticas internas, temos visto a Rússia, enfim, os líderes europeus têm sido muito cautelosos na atribuição de responsabilidades à Rússia, mas os indicadores apontam claramente para que haja uma intensificação da atividade russa no modelo híbrido de ataques que põem em causa o funcionamento de infraestruturas estratégicas de países europeus, que ameaçam ou invadem a soberania territorial de alguns desses países. E portanto, estes episódios são também uma estratégia de estabilização, mas são também uma demonstração efetiva daquilo que a Rússia quer demonstrar, que é a sua capacidade de intervenção e a sua capacidade de longo alcance para além das suas fronteiras. Eu diria que Portugal, obviamente, não é um alvo primordial deste ponto de vista, não só pela distância geográfica, mas também do ponto de vista estratégico haverá outros alvos mais importantes, mas não deixa de estar no horizonte inserido neste tipo de estratégia que eu referia, e Portugal pode estar perfeitamente envolvido neste tipo de estratégia russa.
E nesse sentido, acha que faria sentido um investimento ainda maior em defesa em Portugal?
Essa é a segunda parte. Eu acho que nessa parte também não podemos ser ingênuos, no sentido em que há, obviamente, uma estratégia concertada por parte da liderança da NATO de forçar os países europeus a reforçarem o seu investimento em segurança e defesa. Eu tenho sido bastante apologista da ideia de que, mais do que uma discussão sobre as verbas, é preciso que a Europa e que os países europeus desenvolvam duas estratégias. A primeira, como é que se desenvolvem autonomamente dos Estados Unidos, num cenário cada vez mais afirmativo em que os Estados Unidos já não são um aliado estratégico, já não são um parceiro fiável como foram até há muito pouco tempo. E por outro lado, de certa maneira, como é que os países europeus vão transformar o investimento que eventualmente podem estar dispostos a fazer numa lógica de cooperação integrada entre os 27 Estados-membros, que permitam evitar redundâncias, investimentos desnecessários e duplicados, e por outro lado, coordenar o esforço de reação dos diferentes Estados numa só forma e numa só estratégia. Eu acho que esse é o caminho que a Europa precisa de fazer, muito mais do que se calhar falar única e exclusivamente de números e de reforço de investimento em termos de milhões de euros.
Afastando-nos da nossa realidade nacional, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy diz que Donald Trump devia negociar e falar com o Putin da mesma forma que negoceia e fala com a Ucrânia e com ele próprio. Ele fala aqui numa diferença de tratamento, diz que Trump devia aplicar a mesma retórica a Putin. Sabemos, de resto, que a relação entre Zelenskyy e Trump é instável, no mínimo, já conheceu vários solavancos, por assim dizer. Acha que há aqui, de facto, uma diferença de tratamento, há filhos e enteados para Trump, no que toca a Putin e Zelenskyy?
Eu acho que já estamos aqui a sair só do campo da opinião, porque aquilo que nós temos visto com provas factuais, com declarações reais de vários intervenientes, eu acho que é absolutamente evidente que quando o enviado americano por Donald Trump à Rússia, o Steve Witkoff, chama humanista a Vladimir Putin, se refere a ele como humanista por conta da libertação do prisioneiro americano, isto tem uma agenda por trás, isto tem uma visão ideológica por trás, uma visão política daquilo que o Witkoff e Trump entendem ser o comportamento político de Vladimir Putin. E portanto, ao legitimarem as ações de Vladimir Putin através deste tipo de classificações, de humanista, de democrático, e colocando pressão sobre Zelenskyy, que são nada mais nada menos do que a reprodução daquilo que são as linhas de retórica russa desde o início da invasão, estão obviamente muito mais a pender para um lado do que para o outro. Isso acontece quando o Donald Trump reproduz exatamente aquilo que Vladimir Putin diz há vários anos, dizendo que Zelenskyy já não é um líder legítimo porque as eleições estão suspensas por conta da invasão, que a Ucrânia é um empecilho ao alcance de negociações e a um acordo mais duradouro. E portanto, assume aqui a mesma visão que Vladimir Putin tenta utilizar para defender e justificar a operação que iniciou em 2022. Não há muitas dúvidas de que os Estados Unidos têm, sobretudo nestes últimos tempos, não podemos estar constantemente a ignorar ou a considerar como episódios ou passes em falso, quando essas declarações são sucessivas e sistemáticas. E portanto, os Estados Unidos têm, nos últimos tempos, reforçado esta ideia de que deixaram ser um mediador imparcial e assumem, como forma de resolução deste conflito potencialmente viável, as dores daquilo que é o agressor. E eu acho que isso é obviamente uma visão que a Europa tem que rejeitar, porque a Europa tem que continuar os seus esforços de apoio incondicional à Ucrânia e de impedir a todo o custo um triunfo da Rússia no rescaldo desta invasão.
Por fim, e apelando, João Albuquerque, à sua capacidade de síntese, a Ucrânia ficou com um acesso mais baixo, nesta altura, ao Starlink, uma decisão de Elon Musk, isto de acordo com a Reuters, depois de ter publicado Elon Musk na rede social X que a Ucrânia estava a passar os limites com os ataques às refinarias russas. Agora, J.D. Vance veio também defender essa posição, diz que de resto não é desejável que uma empresa privada esteja envolvida entre dois governos. Concorda com esta visão?
Eu acho que aqui há duas coisas que ficam muito evidentes. Primeiro, que de facto a Ucrânia tem que diversificar a sua dependência, e eu acho que nesse aspecto a Europa tem que desempenhar, não pode ficar à espera, tem que efetivamente oferecer soluções alternativas para que a Ucrânia possa delas depender e não haja estas oscilações. E em segundo lugar, eu já refiro como Zelenskyy, quer dizer, não há possibilidade desta guerra acabar e deste conflito acabar se não for através da capitulação da Rússia, e para isso já tem que haver um reforço muito significativo da capacidade da Ucrânia continuar a resistir, e para isso precisa de apoio militar externo e precisa de contar ainda mais com a União Europeia e com os seus aliados, incluindo aqui o Reino Unido e o Canadá.
Obrigado, João Albuquerque. Fica por aqui o Gabinete de Guerra. Muito obrigado mais uma vez por ter aceitado o nosso convite.
Obrigado, uma boa tarde.