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E começamos pelo "não háta nem háta": o acordo de paz, as negociações entre Estados Unidos e Irão para pôr termo ao conflito que começou no final do passado mês de fevereiro. De hoje, a informação avançada por Ali Bagheri, o vice-secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, diz que o regime iraniano não chegou a qualquer acordo com os Estados Unidos sobre o Estreito de Ormuz. "Enquanto não chegarmos a acordo sobre todas as questões, consideramos que não chegamos a acordo sobre nada". É isso que diz este responsável pelo regime iraniano. Senhor Major-General João Vieira Borges, boa tarde, bem-vindo, obrigado pela sua disponibilidade. Já se vislumbra a assinatura de um acordo que, de uma vez por todas, possa pôr termo ao conflito e a este arrastar que se assemelha a uma novela em que o argumento nunca mais avança, nunca mais há novidades?

Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Estamos na fase do quase.

O que é que falta para isso?

Falta que as duas partes assumam que têm que ceder e, portanto, apresentam as suas perspectivas. O problema é que ninguém quer ceder. As duas partes querem assumir vitória e há questões fundamentais para cada uma delas que representam o estandarte da vitória. E portanto, no caso dos Estados Unidos, independentemente dos objetivos políticos terem sido diluídos, há uma questão que é fundamental, assumida entretanto por Trump, que tem a ver exactamente com a questão nuclear. O problema é que o Bagheri Kani também há pouco disse que a questão do urânio enriquecido estava fora das atuais negociações, ou seja, o memorando teria ali três ou quatro questões, e a questão mais importante para Trump, que é a questão do enriquecimento do urânio, seria remetida para mais tarde. Ora bem, isso para Trump é fundamental, porque isso é que representa a vitória, isso é que justificou a intervenção.

Estamos aqui na presença de posições inconciliáveis?

É inconciliável essa posição. Até porque a Guarda Revolucionária Islâmica, que é a voz de Khamenei, na semana passada disse que estava fora de questão o urânio enriquecido sair do país. E, portanto, não era questão. E Trump vem ontem, ou anteontem, na segunda-feira, aliás, vem dizer que não há acordo enquanto o urânio enriquecido não for destruído ou nos Estados Unidos ou no Irão com o apoio dos Estados Unidos e da Agência Internacional de Energia Atómica. Portanto, esta é uma questão que, tendo em conta que é inconciliável, vão remeter, ou pelo menos o Irão está a tentar remeter no memorando, para discussão daí a 30, 60 dias. E os Estados Unidos não querem remetê-la. E, portanto, já é mais fácil, digamos, o remeter politicamente para haver uma vitória da parte de Trump, porque ele vai sempre advogar uma vitória, da mesma maneira que o Irão. É descritível a frase hoje, por exemplo, da Guarda Revolucionária Islâmica, que diz também que é improvável uma nova guerra com os Estados Unidos, não porque os Estados Unidos não queiram, mas porque os Estados Unidos estão tão fracos que não são capazes de atacar o grande vitorioso, Irão. Portanto, esta é a linguagem também do Irão. Não é muito diferente da narrativa de Trump aqui para nós. E, portanto, cada um fala para o seu público. No caso do Irão, é a questão da sobrevivência do regime, nem é tanto do Estado, é do regime. E no caso dos Estados Unidos, é a sobrevivência também, em primeiro lugar, da sua posição, digamos, sobretudo pensando naquilo que vão ser as eleições intercalares.

Senhor Major-General, dizia no início que alguém vai ter que ceder. Quem é que está em melhores condições para fazer essas cedências?

Quem está é os Estados Unidos. Há aqui uma questão, eu tenho lido muito autores islâmicos, que é muito interessante. Vão mandando artigos para várias revistas e órgãos de comunicação social. Eu achei muito interessante, eu agora não tenho de cor, porque não fixei na altura, um desses artigos dizia que as garantias de segurança, se não me engano, foi na Al Jazeera. Se não me engano, não, tenho a certeza, foi na Al Jazeera que foi publicado. Dizia que a maior garantia de segurança, depois desta guerra, para o Irão, é efetivamente o controle do Estreito de Ormuz. Portanto, o mundo mudou completamente naquela região e há aqui situações como esta que podem levar também a alguma cedência da parte do Irão. Ou seja, a questão do estreito, a partir do momento em que em determinada altura que eles queiram, pode ser usada novamente, é logo uma garantia. Portanto, já foi testada, já é uma garantia. Os Estados Unidos podem ceder na questão das sanções. Os Estados Unidos podem ceder também nas questões dos 24 bilhões, se não me engane, em ativos iranianos congelados. Duas questões. Mas não podem ceder na questão do fechar ou das taxas no Estreito de Ormuz, não podem ceder na questão nuclear. Portanto, há aqui jogos, vamos ver. Depois, pelo meio, nós temos aqueles discursosDisruptivos de Trump, mas também temos da parte de Khamenei, como ontem, que era o feriado do sacrifício, e ontem, se não me engano, o que ele disse foi que para a comunidade islâmica, se não me engano, é "ummah" que se diz para a comunidade islâmica, o lema é: "Morte à América, morte a Israel". Portanto, o que justifica depois ainda mais a intervenção da parte de Israel ou a própria intervenção da parte dos Estados Unidos da América. É muito complexo estas narrativas extremadas que depois condiciona o processo diplomático, designadamente Marco Rubio, que tem um discurso completamente diferente da parte dos Estados Unidos e do outro lado o presidente Pezeshkian e um dos moderadores, que é o ministro dos negócios estrangeiros, nem tanto o presidente do Parlamento, que esse está mais ligado à parte dura da negociação da parte do Irão, que tem a ver com a guarda revolucionária islâmica.

Sr. Major-General, sugeria que voltássemos o nosso olhar para o leste da Europa e para essa ameaça que paira de um ataque em larga escala por parte da Rússia à capital ucraniana Kiev, com esses avisos para que diplomatas e cidadãos estrangeiros que estejam em Kiev para que abandonem o território. Devemos temer? Vem, de facto, um ataque em larga escala?

Não, não devemos temer. Isto é um atestado de fraqueza da Rússia. Ou seja, a partir do momento em que não consegue no teatro de operações vencer, a partir do momento em que a ofensiva de primavera borragou completamente, a partir do momento em que a Ucrânia, tal como esta noite, continua a atacar consideravelmente objetivos russos, designadamente esta noite foi uma base de caças, foi uma fábrica de reparação de aeronaves, foi um quartel-general da Força Aérea, a única solução que têm é atacar a capital, é atacar a população, é pressionar a população ucraniana, é pressionar a comunidade internacional, em particular aquelas que têm maior ligação à Ucrânia e por isso têm embaixadas no Irão. E digamos que é também uma afronta. Isto foi uma afronta aos Estados Unidos, completamente. Como é que é possível os Estados Unidos estarem a funcionar como negociadores e não como moderadores, na minha perspectiva, mas na perspectiva russa como moderadores, e americana, e ser capaz o ministro dos negócios estrangeiros dizer ao seu par americano: "Olhe, nós vamos destruir, terem lá a embaixada". "Mas nós estamos num processo de paz e vocês querem destruir". No fundo, foi isso que disse Marco Rubio. Portanto, é esta a minha posição. É um sinal de grande fraqueza da parte da Rússia, fraqueza militar, senão outras.

Sr. Major-General, mas com capacidade para levar por diante esse ataque massivo à capital Kiev?

É isso que têm feito desde há quatro anos e meio. Em especial no último ano. O último ano tem sido um ano diferente dos outros, na medida em que têm atacado sistematicamente Kiev. Já que ele falou em sistemático e depois o porta-voz andou a discutir o conceito de sistemático e contínuo, seja lá o que for, eles têm essa capacidade, claro que têm, mas a Ucrânia também tem uma capacidade de defesa antiaérea e defesa antimíssil balístico. E também tem depois a capacidade de responder a outras cidades russas, de responder, inclusivamente, à própria capital, Moscou, como já vimos. Portanto, é o escalar da guerra e aqui a solução, porque capacidade têm os dois, a solução era os Estados Unidos, em vez de andar a fazer discursos redondos, era criticar, tal como a comunidade internacional, exatamente estas palavras inaceitáveis de Lavrov, porque são perfeitamente inaceitáveis no século XXI.

Face a essa situação reveladora de fraqueza, estas ameaças de ataques massivos a Kiev, não está a Rússia ainda em condições e com vontade de partir para a mesa de negociações e alcançar um acordo de paz?

Sim, isso é uma interpretação neste momento. Nas últimas duas, três semanas, o discurso, a narrativa pública, quer do lado ocidental, mas também próximo até de Putin, foi de que efetivamente a Rússia estava incapaz, em termos militares, de responder à Ucrânia. Portanto, tem sido um momento muito complicado para a Rússia, tem sido apagado, em certa medida, pela guerra do Irão com os Estados Unidos e, portanto, a resposta foi esta, porque tem esta capacidade e até tem capacidade nuclear, se o entender, mas essa, felizmente, ainda não fica só entre aspas. Mas é tentar ganhar maior liberdade de ação através desta pressão, que obviamente é capaz. Agora, é evidente que ainda hoje esta situação de ataques da Ucrânia também leva a ganhos para todo o processo negocial. No fundo, eu concordo com o Miguel Vieira, no fundo aquilo que estão a fazer agora, de maneira clara, é exatamente o que disse. Ou seja, é tentar ganhar posição porque a paz está mais perto. Eu concordo consigo. As duas partes: uma, em termos militares, nos ataques em profundidade, com efeitos enormes, e outro, já que não tem outra solução, é atacar a capital. Eu acho que tem muito a ver com isso. Espero que tenha. Seria bom sinal.

A ver vamos se confirma esse desejo. Major-General João Firha Borges, muito obrigado pela sua presença na edição desta quarta-feira de Gabinete de Guerra.

Muito obrigado.