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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Olá Francisco, bom dia, bem-vindo.

Muito bom dia.

Bom dia. Temos que começar pela viagem surpresa do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscovo. A última vez que um director da Agência Central de Inteligência visitou o Kremlin foi em novembro de 2021 para avisar Putin sobre a invasão. Francisco, não houve nenhum elemento da administração de Trump em Kiev no dia dos 35 anos da independência do país. E agora isto, o que é que a Casa Branca anda a fazer? Que jogos de bastidores são estes?

Essa viagem em 21 foi muito significativa, porque os Estados Unidos tinham informações de que a Rússia se preparava para fazer aquilo que acabou por fazer em fevereiro de 2022 e foram avisar os russos que não deviam fazer isso e que haveria respostas e, portanto, para repensarem muito bem aquilo que iriam fazer. E a verdade é que a Rússia invadiu na mesma. E, portanto, esta viagem de Ratcliffe está envolvida em enorme especulação, por que é que terá feito isto? Será que está relacionado com os rumores de que poderá haver uma grande mobilização na Rússia, ou então de que a Rússia poderá iniciar ações híbridas sobre países NATO? Enfim, que se tem falado bastante nos últimos meses, ações de sabotagem, ciberataques, um eventual ataque terrestre a uma pequena cidade estoniana, por exemplo, Narva. Está aqui muitos homenzinhos verdes a surgir nas fronteiras europeias. Há aqui muita especulação, mas claro, a CIA terá informações muito claras sobre alguma coisa que estará a ser preparada no Kremlin, porque em 2021 tinha exatamente os planos de guerra russos. E por isso há aqui imensa especulação sobre isso, sobre o que poderá estar por trás desta viagem, mas foi uma viagem curta.

Será que vamos saber?

Cerca de quatro horas. Ou então poderá estar relacionado com eventuais negociações de paz. É claro que a não ida de Whitcoff e Kushner à Ucrânia, como se especulou, e aparentemente não terão ido por razões de segurança, o que é bastante ridículo, porque tendo em conta que estava lá o primeiro-ministro britânico, mas é significativo de que alguma coisa vai acontecer nos próximos meses, porque estamos novamente aqui num impasse na guerra. Ou então poderá estar relacionado com estes ataques na retaguarda, que temos tido cada vez mais graves, mais civis a morrer, e tentar impedir uma escalada do conflito. Portanto, há aqui várias possibilidades.

Francisco, esta viagem foi acompanhada do pedido explícito de Washington a Kiev para não bombardear a capital russa durante a estadia do diretor da CIA. Isto é o cúmulo, mas significa também que apesar da retórica pública de autonomia de Kiev, Washington continua a ter uma palavra sobre onde e quando é que a Ucrânia pode disparar ou é só especulação?

Vamos lá ver. Há aqui colaboração entre Washington e Kiev em troca de informação. Portanto, muitos destes alvos, enfim, eu estou a especular, mas a informação que existe vai no sentido de continuar a haver muito envio de informação, porque Washington tem a maior rede de satélite mundial e, portanto, estes ataques que a Ucrânia faz na retaguarda russa, especialmente a milhares de quilómetros da sua fronteira, precisam deste tipo de informações. Essa informação aparentemente é dada pelos Estados Unidos e também pelos parceiros europeus, por exemplo, pela França. E, portanto, há aqui ainda uma colaboração grande entre Washington e Kiev. O que já não há é o apoio financeiro, nem o apoio militar. Portanto, a Ucrânia tem agora um plano de compra de armamento. Os Estados Unidos continuam a vender armamento, embora não o armamento que a Ucrânia gostasse de comprar. Já falamos sobre isto. Neste momento não existem mísseis intercetores, até porque foram gastos na guerra na Ucrânia. E por isso, quando existem este tipo de pedidos, Kiev acaba por aceder aos mesmos. Agora, não são os Estados Unidos que escolhem os alvos, mas há aqui muita partilha de informações e algumas limitações que, entretanto, aparentemente foram sendo levantadas. Houve uma altura em que os Estados Unidos limitavam os ataques ucranianos sobre refinarias, mas hoje em dia vemos que a Ucrânia ataca sem qualquer tipo de restrições. Portanto, houve aqui claramente uma grande colaboração nos últimos anos, apesar da tensão política que muitas vezes existe entre Zelensky e Trump.

Entretanto, o antigo ministro ucraniano da Defesa, Mikhail Fedorov, disse publicamente numa entrevista que a Ucrânia está a perder terreno lentamente e defende reformas urgentes na estratégia militar e tecnológica. Francisco, quando uma figura do próprio círculo de defesa faz este diagnóstico, devemos encarar como um alerta realista para forçar uma mudança profunda na condução da guerra ou é apenas o reflexo do acentuar das fraturas políticas no topo do poder em Kiev?

Eu acho que é mais a segunda hipótese. É claro que Fedorov sai no contexto de um conflito com o chefe de Estado-Maior, justamente sobre a forma como fazer a guerra, como encarar o conflito. Ele é um civil e, portanto, havia aqui um grande dissenso com os militares. E Zelensky acabou por gerir mal essa crise, porque primeiro demitiu a ele, depois por pressão popular, demite o chefe do Estado-Maior e, portanto, Zelensky ficou aqui um pouquinho entre a espada e a parede. Fedorov, entretanto, queria voltar ao Ministério da Defesa, mas entretanto Zelensky escolheu outra pessoa. Ele ficou por ficar de fora e tem aproveitado o mediatismo político que tem, midiático na Ucrânia, para pedir eleições, que é algo que é muito difícil de organizar neste momento, embora obviamente seja algo que preocupe a sua não existência, e, por outro lado, fazer críticas à forma como a Ucrânia está a organizar a sua defesa. Mas ele diz também que acha que a Ucrânia vai ganhar. É só uma questão de usar as suas ideias, as suas propostas. Ele, de facto, é alguém muito disruptivo. Foi ele que conseguiu que Alan Musk cortasse o acesso à Starlink aos russos, e depois teve muito impacto também no campo de batalha. Ele, de facto, destacou-se Enquanto ministro de Defesa, embora só tenha lá estado seis meses. Ele tinha propostas muito arrojadas e muito arriscadas. Inclusivamente, ele teve a ideia de antecipar parte das remunerações que os soldados ucranianos iriam ter agora na segunda parte do ano para apostar na compra de armamento e agora, neste momento, há um grande buraco orçamental. Eu compreendo os dois lados neste caso. No contexto de um conflito, é evidente que Fedorov até pode ter razão, mas se não tiver, as consequências serão muito mais complicadas. Ele acabou por ser um pouco mais conservador naquele momento concreto e isso acaba por se compreender.

Sobre o conflito Estados Unidos e Irão, Donald Trump garantiu que a Marinha americana já desminou completamente o Estreito de Ormuz e avisou Teerão de que qualquer navio que tente colocar novas minas será imediatamente destruído. Ao mesmo tempo, temos a iniciativa conjunta de Omã e Irão para criar um corredor de navegação temporário e efetuar a sua própria desminagem. Francisco, a pressa de Trump em declarar esta espécie de vitória é uma estratégia para ver se consegue impedir que os países do Golfo assumam a gestão do estreito à revelia de Washington?

Parece ser muito isso, de facto, porque vimos notícias na Axios, que é uma espécie de canal oficioso da Casa Branca, dizendo que os Estados Unidos tinham conseguido que não sei quantos navios petroleiros tivessem passado pelo estreito à revelia do Irão, embora isto depois não tenha qualquer tipo de confirmação. Agora vêm dizer que não existem qualquer tipo de minas. Mas quem ouvisse a administração americana pensaria que aquilo estava aberto e não haveria ali problema nenhum. Eu creio que claramente há muita pressão militar americana, mas o Irão continua a conseguir limitar muito a passagem no estreito e quer impor agora um regime de passagem que terá acordado com Omã. É preciso que os Estados Unidos também aceitem isto. O contexto desta semana são as medidas de sanções económicas, máxima pressão, o Dia D, que depois se percebeu que tem muito pouco de Dia D, nada de particularmente novo, até porque não parece que os Estados Unidos queiram enfrentar a China por causa do Estreito de Ormuz. Mas em todo o caso, há aqui claramente uma tentativa sempre de Donald Trump de ocupar o espaço mediático com notícias positivas. Conseguiram desminar o estreito, o que significa que o estreito estará aberto, os navios podem ligar os motores, passar. Aliás, ele disse isto logo em abril e depois em junho, que não havia problema nenhum. Aliás, só não percebe que aqueles não passam porque são medricas. Nós ouvimos esta conversa desde o início do ano, entretanto o tempo vai passando.

Mas Francisco, que mais pode Donald Trump fazer para declarar vitória antes das eleições intercalares?

É isto, é continuar a declarar a vitória todas as semanas ou de 15 em 15 dias, depois recuar, depois voltar a declarar a vitória, para ir tentando. Isto faz muito parte da estratégia de Trump desde o início, na sua vida profissional e também política, que é nunca assumir qualquer tipo de recuo ou derrota, e assumir vitórias umas atrás das outras, ainda que elas não tenham qualquer correspondência com a realidade. E tentar que as pessoas comecem a convencer-se que se calhar aquilo que ele está a dizer até pode ser verdade, quando na verdade, provavelmente não é.

Mas acredita que estas declarações de zona limpa em relação ao Estreito de Ormuz chegam para convencer as seguradoras e os petroleiros a voltar a navegar?

Esse é que é o ponto crítico. Essa é que é a questão crítica. Será que as seguradoras e os armadores vão dizer aos navios que neste momento estarão noutras regiões para se dirigirem para o Golfo porque o estreito está aberto. Alguém acredita nisto? A resposta é que ninguém acredita nisto neste momento, porque o Irão continua lá, continuam a existir ataques sobre navios petroleiros. Esta questão de haver minas ou não, é o que os Estados Unidos estão a dizer. Eu duvido que tenham tido capacidade para fazer isto, até porque havia informações que tinham muito poucos navios com capacidade para fazer isto. Eram os europeus, aliás, que tinham mais navios. Mas lá está, isto é uma questão sobre a qual eu não tenho qualquer tipo de informação e os armadores terão alguns e as seguradoras, mas provavelmente não é informação suficiente para arriscar. Tudo depende. Se a seguradora cobrar um prêmio estapafúrdio, se calhar arrisca. Mas quem é que vai pagar esse prêmio? Tudo depende da gestão de risco.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia.

Bom dia.

Obrigada, Francisco.