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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador é o programa em que analisamos alguns dos principais focos de tensão um pouco por todo o mundo. Hoje contamos com Madalena Meyer Resende, especialista em Relações Internacionais, a quem agradeço desde já. Boa noite, seja muito bem-vinda, Madalena. Vamos focar essencialmente no conflito mais quente, o conflito iraniano. Os Estados Unidos ameaçam sair da NATO. Donald Trump queixa-se da falta de apoio de alguns países, nomeadamente países europeus. Trump percebe que os Estados Unidos também ficariam a perder com uma eventual decisão destas? Perderia, por exemplo, as bases efetivas na Europa.
Absolutamente. Eu penso que estas ameaças do presidente Trump já são quase um gênero em si mesmo. Obviamente, este momento é um momento particularmente tenso para a administração americana, uma vez que, de facto, este fechamento do Estreito de Ormuz está a provocar consequências económicas, em primeiro lugar na Europa e na Ásia, mas obviamente que isto terá, e está a ter também, impacto na economia americana. Este posicionamento dos países europeus de recusarem ou declararem que esta guerra não é sua, é obviamente, e desde logo, uma mentira, uma vez que os Estados Unidos, de facto, não conseguem projetar poder em quase todo o lado, mas em particular no Médio Oriente, sem o apoio das bases europeias, que são mais de 40, 12 ou 13 das quais estão a ser ativamente usadas para esta guerra. Esta ameaça é uma ameaça que na administração americana, no grupo mais próximo do presidente, talvez tenha algum apoio, mas no establishment de segurança, obviamente que não tem apoio nenhum. E eu penso que os dois lados do Atlântico fariam melhor em serem mais cordatos um com o outro.
Mas será que a Europa leva a sério este tipo de ameaças, que já não é a primeira vez que acontecem? Até mesmo no mandato anterior de Donald Trump, já tinha feito uma ameaça semelhante.
Eu penso que os europeus levam a sério, desde o primeiro mandato de Trump, esta ameaça, uma vez que entre o primeiro e o segundo mandato, até mudaram os estatutos da NATO para blindarem, de certa maneira, a NATO de uma possível retirada do presidente norte-americano. E é claro que toda a perda de apoio que a Ucrânia teve dos Estados Unidos desde que Donald Trump regressou ao poder é considerado pelos europeus uma questão tão grave que até provocou esta verdadeira revolução na indústria de defesa europeia, em particular nos países do Norte da Europa e em particular na Alemanha, com uma verdadeira iniciativa de larga escala para retomar a indústria de defesa e poder, a prazo, substituir os Estados Unidos na defesa convencional da Europa. Portanto, esta retirada dos Estados Unidos, ou o abrandamento do apoio dos Estados Unidos à Europa é tomado muito a sério. Obviamente que isso é diferente de sair da NATO, mas de certa maneira é um passo nessa direção. Não acredito realmente que vá ser tomada, mas é sem dúvida uma questão central hoje em dia para a política europeia.
A pergunta é se, de acordo com aquilo que está a dizer, a Europa teria, nessa eventualidade, capacidade para se reorganizar a nível militar e até político, e se deve pensar, de facto, em ser mais autónoma relativamente aos Estados Unidos.
Sem dúvida que é isso que está em curso. Os europeus, a curto e médio prazo, digamos nos próximos 10 anos, não podem de todo ser autónomos dos Estados Unidos e têm que fazer, penso eu, todo o possível para que os Estados Unidos mantenham pelo menos um grau de apoio à Europa. Esta guerra no Irão é uma guerra em que se prova, mais uma vez, como já disse, a importância estratégica das bases europeias, mas sem dúvida que o que está em curso a médio prazo, ou seja, é a possibilidade de os europeus serem pelo menos parcialmente autónomos dos Estados Unidos, nomeadamente no que diz respeito à defesa convencional da Europa face à Rússia, uma vez que os Estados Unidos também avaliam, penso eu, com algum realismo, que a sua maior ameaça está na Ásia, está na China, e não possuem uma NATO, ou seja, não há uma NATO na China que os ajude a conter o perigo chinês. E por essa razão, sendo que os Estados Unidos não têm recursos ilimitados, estão a desviar o seu foco da defesa da Europa parcialmente para outros cenários, como é o cenário asiático.
E já que fala de recursos, é certo que Donald Trump tem objetivos claros, nomeadamente no setor energético, mas não estará a isolar, pelo menos no que diz respeito à economia, cada vez mais os Estados Unidos? Os Estados Unidos podem vir a perder com isto a longo prazo?
Eu penso que esta guerra do Irão é uma guerra que tem objetivos estratégicos de um amplo enfraquecimento estrutural do regime iraniano e não me parece que tenha efeito, nem imediato, nem a médio prazo, o isolamento económico. Obviamente que temos a questão das guerras tarifárias e tudo isso, que são obviamente um enfraquecimento do posicionamento dos Estados Unidos na economia mundial. Mas penso que esta fase demonstra que nem o Partido Republicano e o seu próprio presidente agora são isolacionistas e querem olhar só para os Estados Unidos e para a sua economia como um objetivo tão importante que oblitera todos os outros. E, portanto, acho que esta intervenção demonstra que é um Estados Unidos, pelo menos por agora, que se mantém intervencionista, nomeadamente em travar o programa nuclear e degradar as redes terroristas iranianas, e que este é um objetivo que está em cima da mesa já há várias décadas, mas que demonstra que Washington mantém o seu posicionamento estratégico no mundo e não o vejo como uma estratégia económica de forma muito clara.
Donald Trump já estabeleceu vários prazos para o final deste conflito. Falou ainda ontem ou há dois dias, salvo erro, em duas semanas para o término deste conflito, independentemente de haver acordo ou não com o Irão. Esta noite, mais precisamente às 2:00 da manhã, aqui em Portugal, vai haver um novo discurso do presidente norte-americano. De acordo com a sua experiência, que expectativas é que podemos ter para o que Donald Trump pode dizer?
Bem, a primeira expectativa é que ele não é fácil de prever. Acho que essa é a primeira expectativa, portanto não me arrisco muito, mas eu penso que apesar de todas as declarações a dizerem tudo e o seu contrário, que Donald Trump costuma fazer a toda hora, a médio prazo nesta guerra, os objetivos foram mais ou menos bem definidos e desde o princípio que se falava de duas a seis semanas. Obviamente que esta questão do encerramento do estreito de Ormuz, os Estados Unidos não podem deixar o estreito fechado e simplesmente acabar com os bombardeamentos. Penso que as negociações sobre o estreito de Ormuz e o seu futuro são parte constitutiva do fim desta guerra. E portanto, penso que os Estados Unidos não irão acabar a guerra antes de esta questão estar resolvida, sendo que o deslocamento de forças militares para a região demonstra também um compromisso por parte de Washington de resolver, seja diplomaticamente, seja eventualmente com uma intervenção militar limitada nas ilhas do estreito de Ormuz para restabelecer o tráfego energético, que os Estados Unidos já asseguram, digamos assim, desde a administração Carter. E, portanto, sem conseguir prever muito bem o que é que o presidente irá dizer, diria que uma continuação da guerra, pelo menos durante mais algumas semanas, estará em cima da mesa.
E acredita nos sinais que o Irão tem dado relativamente a uma eventual trégua? Ainda ontem o presidente iraniano falou com António Costa, afirmou que está disponível para uma trégua. Estes sinais que vamos recebendo do Irão são credíveis ou também, como dizia há pouco, Donald Trump que diz tudo e o seu contrário, é também esta a narrativa do Irão?
Não, eu penso que esta guerra, obviamente com a dizimação de uma parte da elite iraniana, e através da sua substituição, provocou uma grande cisão também dentro do próprio governo e das várias fações do governo iraniano.
Há muita falta de consenso, é verdade.
Exatamente. E, portanto, é difícil de dizer exatamente o que esta oferta quer dizer. Eu acho que o que quer dizer é que há uma parte da elite iraniana que estaria disposta a negociar e que está a negociar, de certa maneira, com os Estados Unidos e com os parceiros do Golfo, e que estaria mais aberta a uma possível solução diplomática para acabar a guerra, eventualmente um cessar-fogo, mas não sabemos exatamente se eles estão em comando ou não. Portanto, é assim que eu leio estas declarações e a falta da sua tradução, de facto, em soluções diplomáticas, pelo menos por enquanto.
Muito obrigada, Madalena, por ter estado conosco esta noite no Gabinete de Guerra.
Obrigada eu.
Foi um gosto falar consigo. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.