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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje o Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da SEDS Europa. Boa tarde, Vítor, bem-vindo mais uma vez ao Gabinete de Guerra. Começamos por esta troca de argumentos entre Estados Unidos e Rússia, que continuam a debater a cooperação em projetos para exploração de metais raros no território russo. No entanto, Trump mostra-se muito zangado com Putin e ameaça com mais tarifas. Estamos a assistir aqui a que tipo de jogo, a que tipo de tentativa de chegar a um consenso relativamente àquilo que é o conflito entre a Rússia e a Ucrânia? Como é que podemos explicar isto?

Antes de mais, obrigado à Rádio Observador pelo convite mais uma vez para o Gabinete de Guerra. Nós quando analisamos esta nova ordem mundial de aproximação da Rússia aos Estados Unidos, temos dificuldade em prever o que é realmente diplomacia para resolver os problemas da Ucrânia e o que é diplomacia da área econômica e da área empresarial. Portanto, as duas têm se confundido bastante, ao contrário do que acontecia provavelmente tão publicamente em outros tipos de acordos internacionais relativamente a conflitos. O que sabemos neste momento é que a Rússia e os Estados Unidos até já falam em projetos de cooperação, os dois em território russo para exploração de materiais raros. Isso é uma das notícias que têm sido veiculadas nos últimos dias. A Rússia ainda não avançou se isso é possível ou não, mas isso até foi proposto por Vladimir Putin e os Estados Unidos viram isso com bons olhos. Estão previstas novas negociações relativamente a esta questão nos próximos encontros que acontecerão na Arábia Saudita. Portanto, a partir do momento em que há as empresas americanas a explorar em território russo, estamos a falar em materiais raros que são necessários nomeadamente para os veículos elétricos, para os telefones, para os sistemas de mísseis e sistemas eletrônicos. Estamos a falar que os Estados Unidos e a Rússia passam a ser provavelmente os dois maiores parceiros mundiais em termos de dimensão. Portanto, isso altera completamente qualquer visão que tínhamos tido até agora dos últimos 50 anos, para não exagerar. Estamos perante uma nova ordem de acordos a nível mundial e a nível da estabilidade como a conhecemos hoje em dia.

O que é certo é que Vladimir Putin ontem disse que não viu com bons olhos as declarações de Vladimir Putin, que sugeriu que a Ucrânia tivesse um governo temporário. Hoje já surgiram algumas informações que dão conta de que afinal Zelensky poderá estar a preparar eleições para breve. Como é que também podemos olhar para esta questão, tendo em conta que a Ucrânia vive num estado de exceção neste momento, e será também uma tentativa da Ucrânia tentar agradar aqui a todas as partes e fazer algum caminho de aproximação também àquilo que têm sido algumas das reivindicações por parte da Rússia?

A questão neste momento é que, mesmo internamente para Trump, Trump demonstra algum desconforto com as declarações de Vladimir Putin relativamente à negociação que Putin queria para o governo ucraniano e que queria um governo de transição apoiado e negociado por vários organismos internacionais e por vários países a nível internacional. E Trump aí percebeu, e o ego de Trump aí funciona de forma "si generis", percebeu que Putin não estaria a sugerir isso, é ele que está na liderança das negociações e por isso é que Trump não gostou dessa questão. Sabia complicado para Trump gerir internamente um processo de saída da Ucrânia, como aconteceu, por exemplo, no Iraque, e que ele critica tanto internamente. Mesmo em termos na área republicana, era muito complicado ele gerir esse tipo de saída da Ucrânia. E o facto de haver uma ingerência russa dentro do território ucraniano nas eleições é um assunto complicado para Trump gerir internamente entre os Estados Unidos. Aquilo que se acredita, até por essa disponibilidade de Zelensky de ir a eleições, é que estará a haver alguma pressão, provavelmente dos Estados Unidos, e penso também da União Europeia, para que Zelensky se legitime nas urnas sem que haja interferência russa. Eu acho que é isso que a Ucrânia está a preparar, e é isso que Zelensky está a preparar, é de que forma é que pode ir a eleições sem que haja uma interferência russa no dia da votação.

E para isso seria importante o apoio tanto dos Estados Unidos como da Europa para essas eleições, para que decorram de forma transparente?

Claro que sim. Para já percebermos, por exemplo, como é que votariam as pessoas que estão em territórios ocupados. Votariam ou não votariam?

Isso já é uma questão por si só, não é? No fundo, se essas pessoas votassem, esses territórios estariam supostamente sendo ucranianos e não russos, enfim, depois houve o referendo e portanto tudo isso acaba por complicar aqui um bocadinho as contas.

Imagine, por exemplo, os ucranianos que estão neste momento em territórios sob jurisdição russa, qual seria a liberdade ou não de eles poderem votar em Zelensky ou não? Fica a questão para reflexão. Como votariam, por exemplo, todos os deslocados de guerra que estão fora da Ucrânia, que não são um nem dois milhões, são muito mais, tanto na Europa como no Médio Oriente e como em outros países Portanto, são várias questões e organizar um processo eleitoral não é Zelensky apresentar-se contra outra pessoa apoiada pela Rússia e no dia seguinte haver um resultado que não seja isso. Penso eu, e aqui uma opinião muito própria, isso era a pior coisa que poderia acontecer à Ucrânia, depois de tudo, era ter umas eleições que não fossem legitimadas e que não fossem livres. Legitimadas, neste caso, estou a falar pelo lado dos Estados Unidos, da União Europeia, e reconhecidas até por parte de Vladimir Putin, mas já nem se pede isso. Agora, haver umas eleições que não fossem claras na Ucrânia, isso era o pior que poderia acontecer à Ucrânia neste momento, na minha opinião.

Vítor Gabriel Oliveira, há pouco já falava do papel dos Estados Unidos também em todas estas negociações com a Rússia e também com a Ucrânia. Hoje a chefe de diplomacia europeia, a Kaja Kallas, pediu aos Estados Unidos para colocarem mais pressão sobre a Rússia para Kiev aceitar um cessar-fogo na Ucrânia e assim terminar a guerra em Madrid, numa reunião que reúne vários países da União Europeia e não só, para chefes de diplomacia falarem relativamente a estas questões. É importante que haja também pressão da União Europeia sobre os Estados Unidos na forma como o país também vai gerindo todas estas conversações e toda esta diplomacia?

Eu acho que neste momento, sendo muito franco e pelo que tenho francamente ouvido na imprensa internacional, em canais abertos, e falado com muitas pessoas que estão ligadas a estes assuntos, não vejo que a União Europeia consiga fazer qualquer tipo de pressão sobre os Estados Unidos neste momento. Aliás, ainda lhe digo mais, a questão da Gronelândia, que me parece uma questão menor, mas para mim, na minha opinião, é uma questão por maior, para esta questão é muito importante. Por quê? Porque os Estados Unidos, neste momento, não querendo avançar aqui o número, mas serão dezenas de bases que têm na Europa, bases militares NATO, onde têm muitas tropas estacionadas e onde têm muito armamento de projeção estacionado. Portanto, os Estados Unidos só são uma grande potência porque têm uma capacidade de projeção de armamento a longa distância em todo o mundo. Ou seja, têm bases em todo o mundo, têm porta-aviões em todo o mundo, conseguem projetar a sua força muito longe do seu território. E por isso é que têm muitas tropas e muitas armas estacionadas, porque não é só ter as armas, é preciso colocá-las nos sítios onde se quer que elas funcionem. E os Estados Unidos têm muitas armas e muitas tropas estacionadas nas bases NATO na Europa. Aquilo que poderá acontecer no futuro, a curto e médio prazo, é que havendo este desligamento dos Estados Unidos da Europa poderá haver um recuo destas armas e destas tropas para outro local, que poderá ser os próprios Estados Unidos e poderá ser a própria Gronelândia. Só dizer que a Gronelândia é bastante importante no sistema de detecção de mísseis hipersônicos, o que garante, e Donald Trump disse isto esta semana, garante aos Estados Unidos uma proteção muito maior, com uma presença militar e de detecção deste tipo de armamento mais incisiva, e que era essencial para os Estados Unidos garantirem este território. Na minha opinião, os Estados Unidos querem garantir este território numa possível e futura possibilidade de reduzirem o contingente que têm na Europa. Portanto, na minha opinião, até por aí, a Europa neste momento não influencia absolutamente nada, está afastada das negociações. A única coisa que, na minha opinião, poderá ser uma vitória para a União Europeia é que há a porta aberta, existe a porta aberta para que a Ucrânia possa entrar na União Europeia. E essa para mim é realmente a única pequena vitória ou grande vitória, se queremos assim considerar para o povo ucraniano, que as regiões que não foram tomadas pela Rússia possam entrar na União Europeia em quatro, cinco, seis, sete anos. Isso será realmente a grande vitória, mas não penso que a União Europeia consiga fazer essa pressão sobre os Estados Unidos neste momento.

Vítor Gabriel Oliveira, vamos também olhar um pouco para o conflito no Médio Oriente, nomeadamente esta troca de ameaças entre Estados Unidos e Irão, com Donald Trump a ameaçar o Irão com bombardeamentos se não assinar o acordo sobre o programa nuclear. Foi também nessa entrevista este fim de semana. Já o Irão rebate e assegura que se isso acontecer, os Estados Unidos vão receber um duro golpe. Como é que também podemos olhar para esta troca de argumentos entre o Irão e os Estados Unidos?

Antes de mais, dizer que Israel é fundamental para os Estados Unidos no Médio Oriente. Portanto, Israel é basicamente os olhos e os ouvidos dos Estados Unidos no Médio Oriente. Não só a intelligence de Israel, que trabalha em conjunto com a intelligence dos Estados Unidos, portanto, as duas em conjunto conseguem realmente prestar informação, que é muito importante naquela região, informação aculturada. Portanto, o que eu quero dizer com isto? Quero dizer que é importante ter parceiros culturalmente integrados nas regiões onde estão. Não é só Israel na região, há outros parceiros dos Estados Unidos, e que permitem aos Estados Unidos uma influência multilateral. Depois, percebermos que os Estados Unidos mantêm essa influência, basta como eu dizia há pouco, porque durante todo este conflito no Médio Oriente mantiveram cerca de dois a três porta-aviões naquela região. Alguns dos ataques mais importantes perpetuados por o Irão contra Israel, por exemplo, foram evitados pelo sistema de proteção do Iron Dome de Israel, mas também foram evitados, em grande percentagem Pelos caças que foram projetados por esses porta-aviões e que permitiram que as mísseis não atingissem Israel. Depois dizer que esta região é também muito importante para os Estados Unidos, porque o Canal do Suez é o veículo principal onde passa grande parte das commodities que vão para os Estados Unidos, nomeadamente petróleo, commodities na área industriais e outro tipo de commodities que os Estados Unidos precisam para manter a sua economia forte. Portanto, quiser também aqui dar mais uma nota, os Estados Unidos já deslocaram, como é público, semana passada, bombardeiros para uma base que têm no Índico, como eu dizia há pouco. Ou seja, Estados Unidos conseguem ter esta força a nível mundial, têm todas estas bases, têm toda esta capacidade de colocar em qualquer parte do mundo uma grande projeção. Portanto, este é um ponto fundamental para os Estados Unidos garantirem a segurança da passagem do Canal de Suez por uma questão económica, principalmente, e os houthis não diria que são uma ameaça, mas são o grande calcanhar de Aquiles para Donald Trump naquela região e Donald Trump não gosta de ser afrontado desta maneira.

E nesse sentido, devemos levar a sério esta ameaça de Donald Trump de atacar o Irão caso não haja esse cumprimento da questão nuclear iraniana. Tendo em conta tudo aquilo que temos ouvido e todas as declarações que temos ouvido por parte do presidente norte-americano, que nem sempre sabemos bem qual é a consequência prática dessas declarações.

Eu penso que Donald Trump pensará sempre duas a três vezes, se não forem mais, em atacar o Irão, porque isso irá desencadear mais ataques na região e até a interesses dos Estados Unidos na região e portanto haverá sempre alguma contenção. Donald Trump levará, na minha opinião, um possível ataque iniciado pela sua parte até ao limite. Agora, irá provocar o Irão até ao limite também, para ver se é o Irão que proativamente desencadeia um ataque ou indiretamente continua a apoiar forças que estarão a ameaçar interesses dos Estados Unidos. E nesse ponto, se Donald Trump considerar que isso está a acontecer de forma veemente ou que o programa nuclear está a ser acelerado por alguma questão, ou que está a haver alguma ação de provocação ao próprio Donald Trump e aos Estados Unidos, aí acredito que possa haver ações militares cirúrgicas, não alargadas, mas cirúrgicas, porque também não me parece que Donald Trump queira um conflito alargado com o Irão naquela região. Sabemos que Donald Trump está neste momento a governar muito mais para dentro e a falar muito mais de medidas protecionistas. Uma potência como é o Irão naquela região iria levar Donald Trump a ter mais desgaste de esforço de guerra para movimentar muito mais recursos para aquela região, que neste momento penso que não é aquilo que o Donald Trump mais quer.

Vítor Gabriel Oliveira, muito obrigado por ter estado em mais um "Gabinete de Guerra". Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da CES Europa. O "Gabinete de Guerra" está de regresso amanhã.

Obrigado.