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Gabriela de Guerra na Rádio Observador, segunda edição do dia com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Sugeria talvez que começássemos pela intervenção de Donald Trump esta madrugada, durante o discurso à nação, em que afirmou que a China levou a cabo a maior violação de dados eleitorais da história. Surpreendente, de alguma forma, esta referência de Donald Trump nesta ocasião, tendo em conta as conclusões que há às alegações feitas pelo atual presidente dos Estados Unidos de adulteração dos resultados eleitorais das eleições.

Para ser claro, eu até acho que há argumentos razoáveis para dizer que se podia aumentar as garantias, por exemplo, em termos de identidade, na votação nos Estados Unidos. As pessoas às vezes na Europa e em Portugal não têm noção, mas os americanos não têm bilhete de identidade, não têm cartão de cidadão e portanto, isso cria um problema. Geralmente utiliza-se a carta de condução, nem toda a gente tem, ou o cartão de segurança social, mas esse não tem fotografia. Essa questão, por exemplo, é uma questão real e parece-me que poderia haver, em uma situação política mais normal, poderia tentar-se encontrar aqui um consenso amplo, que fosse aceito por todos, no sentido de melhorar o sistema. Agora, o que realmente nós vemos aqui é esta guerrilha em que os dois lados desconfiam, com alguma base, provavelmente, que o outro lado quer alterar as regras para favorecer os seus próprios resultados. E sobretudo, no caso de Donald Trump, temos esta obsessão com a ideia de que ele ganhou as eleições em 2020, e não o Joe Biden. Não há nenhum dado que aponte nesse sentido. Todas as tentativas de Donald Trump e dos seus apoiantes de demonstrar que houve algum tipo de fraude foram julgadas em tribunal em dezenas de casos, muitas vezes por juízes republicanos indicados por presidentes republicanos ou até pelo próprio Donald Trump, chegaram sempre à conclusão que não havia nenhuma base para dizer isso. O que nós voltamos a ver foi Trump regressar a esse terreno. Eu até acredito que a China, como parte das suas ações constantes de ciber, procure explorar, perceber se há vulnerabilidades do lado norte-americano nesse sentido. Não me espantaria que a China procurasse, de alguma forma, influenciar alguma coisa as eleições americanas ou a opinião pública americana, embora todos os sinais sejam de que é a Rússia que é muito mais proativa nisso. Também é verdade, diga-se, eu tendo a achar que se exagerou o impacto das ações russas, por exemplo, nas eleições de 2016, que são o grande irritante de Donald Trump, que os russos teriam procurado ajudar Donald Trump nessa altura, como agora também nas últimas eleições em 2024. Eu acho que isso pode ter marginalmente algum efeito, mas basicamente é por razões internas que essas coisas se decidem. Acho que aí os democratas por vezes vão demasiado longe. Agora, tudo isto é uma distração, muitas vezes não corresponde a factos, mina a imagem e a credibilidade dos Estados Unidos e do próprio presidente dos Estados Unidos, pelo menos entre as pessoas mais razoáveis. E realmente, o que é extraordinário é que os Estados Unidos estão envolvidos numa guerra que tem um enorme impacto muito negativo, por exemplo, a nível económico em termos globais, a questão do Irão, e isso mal foi referido por Donald Trump, que ao mesmo tempo também não adiantou nada. Apesar de tudo, havia aqui algum receio de que ele pudesse vir a anunciar, por exemplo, algum tipo de iniciativa para o governo federal tomar conta das eleições, o que seria ilegal à luz da Constituição americana, porque essa atribui a cada um dos 50 estados a responsabilidade de organizar eleições. Mas ele também não avançou nesse sentido. Portanto, parece-me que é sobretudo retórica política e com muito pouco impacto, mas torna-se particularmente paradoxal e difícil de perceber num contexto em que realmente o que seria expectável era que o presidente tivesse a dar prioridade a esta questão do conflito armado contra o Irão.

E sendo que esta última madrugada foi outra vez marcada por ataques dos Estados Unidos a alvos iranianos, o Irão respondeu atacando interesses norte-americanos, por exemplo, bases instaladas em vários países do Golfo. Em que ponto é que estamos deste conflito? No início, falava-se que isto eram apenas umas escaramuças, mas que havia vontade das duas partes de regressar à mesa das negociações, tinham interesse nisso. O que te parece, Bruno? De facto, os dois países privilegiam a diplomacia ou entrámos agora aqui numa escalada armada?

O que é dramático, o que é preocupante neste conflito é o enorme impacto que tem na economia global, o facto de esse impacto ainda poder ser mais agravado se, como é possível, houver aqui um alargamento do conflito, uma escalada horizontal, um alargamento da guerra até ao Estreito de Aden, até ao Bab-el-Mandeb, até à zona do Iêmen e dos Huthis, porque aí estamos a falar mais ou menos de 30% Do comércio de contentores a nível global, grande parte do comércio entre Ásia e Europa, não só o mercado energético, mas outros setores que têm sido até aqui afetados mais indiretamente. E realmente o que é preocupante, o que é dramático, é que não se vê boas soluções, nem diplomáticas, nem soluções fáceis, nem diplomáticas, nem políticas, nem militares. Parece-me que neste momento falar de cessar-fogo já não faz realmente muito sentido. Apesar de tudo o que tínhamos tido era, de vez em quando, algum tipo de ação militar de um lado ou do outro, mas aqui o que estamos a assistir já são vários dias seguidos, seis dias, sete dias de ações militares dos dois lados e há aqui um risco sério de haver realmente um intensificar do conflito, uma nova escalada, alguma destas ações armadas eventualmente ter um impacto maior do que aquele que estava calculado e quase que obrigar ainda a um intensificar do esforço militar. Agora, o problema é que também não se percebe muito bem como é que este tipo de ações militares vão mudar as coisas. O grande problema, que é a questão da segurança da navegação no Estreito de Ormuz, não se resolve, não tem sido resolvido com estas ações militares, pelo contrário, no fundo a perceção de insegurança ainda aumenta mais, e realmente pensar que com o mesmo tipo de ações se vai ter um resultado diferente não é muito racional.

Sendo que, Bruno, as negociações não estão a decorrer de todo, não há sequer reuniões técnicas entre as delegações dos Estados Unidos e Irão nesta altura, ou há?

Isso é sempre difícil de saber com certeza, porque exatamente o que é uma negociação e mesmo que as equipes não estejam lá com os mediadores, estão em contato com os mediadores pelas vias que nós todos também usamos, de redes encriptadas ou do que seja. O próprio Donald Trump foi dizendo: "Até já chegou a haver um acordo, mas depois o Irão voltou atrás durante estes dias". Mas obviamente também sabemos que temos este problema de base, que é Donald Trump passa o tempo a anunciar que ganhou a guerra e passa também o tempo a negociar que ganhou a paz e que há um novo acordo. E depois nem uma coisa nem outra se confirmam, se concretizam. E, por outro lado, o Irão também muitas vezes desmente por sistema que está a negociar ou que há alguma coisa em cima da mesa até ter a certeza que há alguma coisa apresentável. E também me parece evidente, no caso do Irão, que há tensões internas, que há divisões entre diferentes fações. Desse ponto de vista, o funeral de Ali Khamenei parece ter dado ainda mais força à fação mais radical, mais agressiva, mais hostil a algum tipo de compromisso com os Estados Unidos.

Bruno Cartaxo Reis, obrigado pela tua análise, pela tua ajuda neste Gabinete de Guerra, segunda edição de Gabinete de Guerra desta sexta-feira. Amanhã, Cinco Continentes, programa também da autoria do Bruno Cartaxo Reis, para ouvir durante este fim de semana. Bruno, bom fim de semana.

Obrigado.