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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360, a análise é do coronel José Ducar. Um bom dia, bem-vindo, coronel.

Bom dia.

Bom dia. Depois dos Estados Unidos terem montado durante semanas um cerco político, diplomático e militar, deram início na manhã deste sábado à Operação Fúria Épica. O objetivo, segundo Trump, é destruir os pilares do regime e dar à população condições para tomar o poder. Coronel, o líder supremo e outros altos cargos morreram, mas Trump diz que enquanto o Irão retaliar, não vai parar e que os Estados Unidos estão preparados para uma guerra que dure entre quatro a cinco semanas ou mais, o tempo que for preciso. Acredita que o Irão se renda? Como vê os próximos dias, coronel?

O Irão, se for racional, daqui a pouco tempo estará, obviamente, a tentar negociar e a tentar preservar algumas das capacidades que ainda tem, mísseis, que ainda tem alguns, bastantes, aliás, e os seus proxies, que como se vê, estão a começar a reagir, não de uma forma muito dinâmica, mas estão a começar a obedecer as ordens outra vez do Irão. Portanto, o Irão, se for racional, irá evidentemente negociar quando ainda tiver capacidade. Se não o fizer, do outro lado também não se pode parar. O Irão está a demonstrar com este tipo de reações quase histéricas, no fundo, e com o objetivo apenas de aterrorizar os países à volta, que não é um ator fiável e portanto mantê-lo ali naquelas condições é um perigo constante, é uma espada de Dâmocles permanentemente sobre os países da região. E como se vê, não só, também sobre países que já da Europa e chega cá também, o Irão é muito capaz de fazer isso tudo e por isso está-se a chegar à conclusão que se não negociar, mas negociar não será uma negociação como aquela que estava a acontecer, que é no fundo sentar-se à mesa e discutir coisas. É uma negociação em que o Irão terá que abdicar de muita coisa. E eu não creio que neste momento, quem está a confrontar o Irão esteja preparado para uma negociação em que o Irão mantenha estas capacidades.

E a morte de Khamenei pode mudar o Irão? O regime pode colapsar ou vai resistir?

Eu acho que muita gente considera que o líder religioso é uma espécie de pedra filosofal do regime. Não é. O Aiatolá é um legitimador. Na verdade, quem manda, de facto, é um órgão muito obscuro que reúne antigos comandantes da Guarda Revolucionária e atuais comandantes. E esse órgão informal é, de facto, quem dirige o país. Aliás, muitos dos assessores do Aiatolá, inclusivamente agora este senhor, o Larijani, que agora aparece a ameaçar, também são todos ex-generais da Guarda Revolucionária. Portanto, é este núcleo que manda no Irão. O Aiatolá é um legitimador apenas, porque o regime é islâmico, tem que ter um Aiatolá no topo formal da hierarquia, mas de facto não irá mudar, eles põem lá outro. Não será por aí que o regime irá cair. O regime irá cair quando as fissuras na Guarda Revolucionária e quando começarem a sentir que o poder que têm pela frente não irá desistir, irá persistir. E aí ao longo do tempo-

Mas o comandante da Guarda Revolucionária foi morto também, entretanto.

Esta é que é a questão, é que esse órgão é um conselho de ex-comandantes da Guarda Revolucionária. O comandante da Guarda Revolucionária também é escolhido por eles. Há ali um órgão obscuro, que já foi identificado, que são ex-comandantes, pessoas que lá estiveram e que tiveram em muitos ministérios depois, são esses que de facto mandam no país. As coisas que aparecem a público, o comandante que é nomeado, é nomeado por eles, no fundo, é indicado por eles.

Como dizia o coronel, o Irão tem atacado vários países onde os Estados Unidos têm bases militares, Qatar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Kuwait, Iraque, Jordânia. Devemos esperar a retaliação destes países? São países que podem, de alguma forma, aliar-se a Israel e aos Estados Unidos?

A retaliação destes países só se for com a aviação, mas não farão mais do que está a ser feito, não têm mais capacidades do que está a ser feito. Estes países, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos, é um país com alguma força militar forte, mas não têm mísseis. Ninguém tem mísseis balísticos, terão alguns mísseis de cruzeiro, mas não muitos também. Não têm mísseis balísticos. Aliás, nem a Europa tem. É uma arma que os países abdicaram dela, porque é uma arma apenas de destruição, é uma arma que não é tão precisa como os mísseis de cruzeiro, portanto, é uma arma que quando é lançada pode destruir vastas áreas. Não destrói, por exemplo, Israel, porque tem uns níveis de defesa muito densos, mas sobre qualquer outro país, como se vê, por exemplo, pode lançar sobre bases que não têm estas capacidades ou esta densidade de defesa, causam problemas. Mas estes países não têm esse tipo de mísseis. A reação deles poderia ser com aviação, mas isso teriam que coordenar com quem controla neste momento o espaço aéreo da zona, que são os americanos, e não fariam nada diferente do que estão a fazer.

Falou há pouco dos proxies. O Hezbollah juntou-se ao Irão, lançou ataques contra Israel, que já retaliou sobre o Líbano. Coronel, este é o primeiro ataque do Hezbollah a Israel desde novembro de 2024, uma vez que o grupo não se juntou ao Irão durante o conflito de junho do ano passado. Isto pode ser ocasional? Temos aqui mais uma frente de batalha e ainda faltam os Houthis.

Pelas características deste ataque, foram alguns rockets, dá a impressão que é como um cão que ladra quando o dono lhe manda, mas não parece aqui haver a intenção de morder. Agora, claro que Israel vai aproveitar para destruir uma série de alvos do Hezbollah. O Hezbollah ainda pode, apesar de ter reduzido muito as suas equipas e a sua capacidade de coordenação, ainda tem milhares de mísseis, milhares de rockets e tem cerca umas centenas de mísseis de precisão. E esses mísseis é que são o grande problema. Estes rockets, lança-os, Israel intercepta a maior parte deles, outros caem em áreas abertas Não são uma ameaça no sentido militar. Claro que causam saturação, obrigam a desviar recursos e colocam pressão. Israel vai retaliar, mas o Hezbollah está a correr o risco que é, neste momento, pode lançar o Líbano numa guerra. E no fim, demonstra que o acordo que fez de se desarmar não está a ser cumprido, nunca tencionou cumpri-lo. E portanto, isto coloca questões de que negociar com estes actores não leva a nada substancial. Aliás, quando os Estados Unidos interromperam a guerra entre o Irão e Israel, Israel na altura não gostou, porque estava a meio caminho de um objetivo e os Estados Unidos intervieram e obrigaram Israel a recuar. Inclusive, houve aquele episódio de aviões que foram mandados para trás, porque Israel não conseguiu fazer uma última retaliação sobre o regime. E portanto, o que se vê é que estas coisas quando deixadas a meio, são o prenúncio do próximo flare up, e é o que está a acontecer. Neste momento, já toda a gente percebeu que não se pode deixar isto a meio. O Irão vai ter que ser esmagado, no sentido de deixar de ter essas capacidades de projetar sobre os vizinhos toda esta disrupção e toda esta violência.

Sobre a utilização da Base das Lajes nos Açores, com base no protocolo existente, os Estados Unidos não precisam da nossa autorização para usar a base, para abastecer, mas isto acontece numa altura em que os Estados Unidos estão em guerra. Não sendo um conflito que envolva a NATO, não nos torna coniventes? Portugal pode tornar-se um alvo?

O acordo de Portugal com os Estados Unidos não é um acordo da NATO, é um acordo com os Estados Unidos, é um acordo bilateral. Neste momento, poderíamos dizer: os Estados Unidos estão a utilizar esta base para reabastecer. Não há aqui nada de especial, não estão a lançar ataques a partir da base. Isso é uma questão do governo português interpretar os interesses de Portugal. O interesse de Portugal é o quê?

Está a abastecer aviões que estão a entrar num conflito.

Sim, mas o conflito também é do nosso interesse. Nós temos o interesse sempre permanente, desde há muitos anos, que é a aliança com a potência marítima. Isso é uma questão geopolítica. Portugal não pode estar contra a potência marítima, porque cada vez que isso aconteceu, Portugal correu o risco de ser aniquilado por forças continentais. Portugal tem esta aliança e é do interesse português mantê-la. Agora, uma base que está alugada para efeitos que estão nos protocolos, e desde que não se fuja aos protocolos, continua a ser perfeitamente lícita, perfeitamente legal e é perfeitamente moral e legítimo nesta situação, que Portugal deixe correr o acordo como ele está. Os Estados Unidos estacionam lá reabastecedores, reabastecem as aeronaves, se calhar nem é ali, deve ser mais para o norte. E é isso, não há aqui nada de especial, não há nenhuma polémica que eu compreenda.

Coronel, o certo é que a Ucrânia, por exemplo, volta a passar para segundo plano. Será que a única coisa positiva, se é que se pode falar em coisas positivas, possa ser a interrupção do envio de equipamento militar do Irão para a Rússia?

Neste momento, a Rússia já não está a precisar muito do Irão. O Irão tem estado mais ocupado em refazer o seu arsenal do que em abastecer a Rússia com mísseis e drones. Até porque neste momento a Rússia já melhorou aqueles drones que o Irão cedeu, os Shaheds, a Rússia já os melhorou, agora chamam mísseis Geran, já lhe deu características muito mais modernas, muito mais inovadoras. Não acho que não passa por aí. A Rússia neste momento está com uma capacidade de produção de drones bastante grande. O Irão já fez o seu papel, que foi dar-lhe um impulso tecnológico, que a Rússia não tinha muita expertize nessa matéria e neste momento tem e já os desenvolveu. E neste momento o Irão não é um fornecedor líquido de drones, porque de facto a Rússia consegue produzir bastantes neste momento.

Então e a China? A China que não se mete em guerras alheias, porque prioriza sempre os seus próprios benefícios. O que é que devemos esperar?

A China está obviamente a fornecer informação ao Irão, porque o Irão não tem capacidade, por exemplo, para adquirir alvos para lá do horizonte. Tirando com drones, mas drones não são detectados. Os navios, etc. O Irão quando lança para lá um míssil, é porque o viu, é porque sabe que está naquela zona. E como é que sabe que está naquela zona? É porque alguém lhe forneceu a informação, via satélite. E só a China ou a Rússia podem fazer isso ali naquela zona. Portanto, está a ter, certamente, uma ajuda tecnológica, mas a China tem um problema aqui: é que a interrupção, ou pelo menos a disrupção, de algum modo, dos fluxos petrolíferos por Golfo, pelo Estreito de Ormuz, é um grande problema para a China. À China não convém muito que este conflito se prolongue muito tempo. Mais tarde ou mais cedo, vai ter que intervir, ou pelo menos ser mais ativa. Vai ter muito impacto, sim, porque o petróleo não flui. E a China depende, 80% do petróleo do Irão é vendido para a China. É muita coisa.

Coronel José do Carmo, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.

Obrigado.

Obrigada.