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Hamas e Israel estão à beira de um acordo para um cessar-fogo em Gaza e para libertar reféns. A imprensa internacional começou a detalhar este entendimento ao início da tarde de hoje. Citaram fontes próximas do processo, mas a grande confirmação surgiu já durante a última hora por parte de Donald Trump. Duas publicações esta tarde na rede social Truth, o futuro presidente dos Estados Unidos da América escreveu primeiro: "Temos um acordo para os reféns no Médio Oriente, vão ser libertados em breve, obrigado". Frase curta, escrita toda em maiúsculas por Donald Trump. Mas há mais, Vanessa Cruz.

Sim, é uma publicação, entretanto, muito mais vasta, também de Donald Trump, a celebrar o acordo de cessar-fogo épico, é esta a expressão utilizada pelo presidente eleito dos Estados Unidos. Afirma que só foi possível devido à vitória que teve em novembro. O resultado das eleições norte-americanas, de acordo com Trump, sinalizou ao mundo inteiro que a nova administração dos Estados Unidos quer procurar a paz e negociar acordos para garantir a segurança de todos os americanos e dos aliados. O presidente eleito, que assume funções daqui a precisamente cinco dias, realça também os esforços do enviado especial ao Médio Oriente, que terá pressionado Benjamin Netanyahu a chegar a este acordo iminente agora com o Hamas.

O anúncio oficial por parte de Israel, o do Hamas, é esperado a qualquer momento. O gabinete Netanyahu vem, entretanto, refrear as expectativas. O acordo de cessar-fogo ainda não está finalizado. Diz o gabinete do primeiro-ministro de Israel que o acordo de cessar-fogo ainda não está 100% finalizado e que alguns detalhes continuam por resolver. A Sky News cita um comunicado em que Israel refere que o Hamas recuou num pedido de última hora para alterar a distribuição das forças no corredor da Filadélfia, mas que permaneciam várias cláusulas por resolver. O gabinete espera que os detalhes sejam finalizados esta noite, sendo que há uma conferência de imprensa em Doha, no Qatar, que pode acontecer a qualquer momento. O que é que está em cima da mesa? O que é que já se sabe deste cessar-fogo? Estamos perante um plano por fases. Para já, uma fase inicial avança a libertação faseada de reféns detidos pelo Hamas e com isso Israel inicia a retirada de tropas do território da Faixa de Gaza e permite-se a entrada de ajuda humanitária. É uma fase que tudo aponta vai durar seis semanas. O Hamas tem 33 reféns para libertar. Israel vai libertar 30 detidos palestinianos por cada refém libertado pelo Hamas.

Há também a questão da entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Vai ser também ela faseada, mas pelo menos 600 caminhões têm de entrar todos os dias no enclave. É o que estará previsto neste acordo. Desses 600 caminhões, 50 vão levar combustível, metade, ou seja, cerca de 300, estão reservados para ajuda dirigida ao norte da Faixa de Gaza.

São os termos da primeira fase do acordo entre Israel e o Hamas. Tudo aponta para uma duração de seis semanas. A segunda fase só começa a ser negociada ainda durante a primeira fase. Vamos fazer a análise. Estamos em emissão especial aqui na Rádio Observador. Neste momento, está já conosco Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Jorge, muito boa tarde. Qual a importância deste acordo e por que razão não foi possível chegar a um entendimento mais cedo?

Afinal, Miguel Cordeiro, está conosco, sim, Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa.

Estamos ainda com o Jorge, portanto, mantenha essa pergunta para o Jorge. Já vamos ao Vítor. Jorge, qual a importância deste acordo?

Boa tarde, Miguel. Boa tarde, Vanessa. Não poderíamos estar mais contentes. Finalmente, tivemos algo de concreto e algo que vínhamos esperando já há vários momentos ao longo destes meses, vinham apontando para uma certa aproximação em alguns pormenores, no entanto, nunca se conseguiu chegar a este passo. Felizmente, agora estamos numa nova fase. Não diria um cessar-fogo épico, mas diria realmente um cessar-fogo, não um acordo de paz, um cessar-fogo de boa referência. No entanto, temos aqui algumas limitações graves logo à partida. Portanto, há uma aprovação política que ainda aguarda aprovação, ou seja, uma retificação, tendo em conta alguns pormenores pelas partes. Há uma segunda questão que passa pela implementação propriamente dita, baseada na confiança, na vontade das partes e particularmente complexa, não na primeira fase, mas sim numa segunda e terceira fase, em que qualquer mal-entendido, e este é o terceiro ponto, mal-entendido, erros que podem ser inclusivamente a nível tático, podem colocar em causa a vontade de cumprir das partes. Temos também diversos atores externos que poderão ser desestabilizadores e, por fim, a própria entidade e a autoridade palestiniana reformada com que líder e se realmente terá capacidade para conseguir assumir a condução futura. Portanto, não é fácil a aplicação prática. Vai haver momentos de grande tensão, com certeza. A forma como vierem a ser ultrapassados é que irá determinar se realmente iremos ter uma situação de sucesso ou não.

E que atores mais desestabilizadores é que prevê que possam ser?

Vamos começar pelos grandes derrotados dessa situação estratégica, do tal ambiente estratégico que resultou dos últimos meses Falaremos do Irão, que verdadeiramente tem que recuperar com os seus proxies a capacidade que tinha no exterior, ainda para mais perdendo a sua ligação à Síria, que era importantíssima na forma como intervinha estrategicamente na região de Israel e da Cisjordânia e Gaza, mas também a Rússia. Este acordo Irão-Rússia, esta parceria estratégica representa exatamente o que aconteceu com a incapacidade russa naquele momento de reagir à situação na Síria e que obviamente vai procurar de alguma forma retomar a sua influência. Por fim, de uma maneira diferente, teremos a Turquia. A Turquia procura uma liderança do mundo islâmico, procura ser o maior influenciador, procura ser um líder. Está um pouco tocada pelo fato de não ser considerada como mediadora e, portanto, naturalmente vai tentar de alguma forma ganhar outro tipo de posição, outro tipo de influência para conseguir ser uma potência pan-regional.

Jorge Rodrigues, enquanto coordenador de risco geopolítico, talvez consiga nos ajudar a perceber também aquilo que será o futuro em Gaza, ainda está indefinido neste acordo. Sabemos que, para já, avança a libertação de reféns, a entrada de ajuda, também a saída das tropas, mas há muitas dúvidas sobre como vai ser governada a Faixa de Gaza. O que vai acontecer a este território? Quem vai ter poder neste território? Que poderes passa a ter Israel? Como fica a governação deste território? O que podemos dizer, nesta altura, daquilo que será o futuro da Faixa de Gaza?

Se chegarmos à terceira fase, e considerando que a segunda é a retirada total e a devolução do resto dos reféns e um cessar-fogo definitivo, a terceira será a reconstrução e o que se chama um nation building. Sob uma supervisão internacional, e aqui a ONU através da UNRWA será sempre determinante, mas naturalmente com uma disponibilidade do Egito e do Qatar, com outros atores que poderão ser muito relevantes, nomeadamente os países árabes da região, a Jordânia, etc. Em boa verdade, essa força multinacional de interposição, essa força que poderá ajudar, seja numa perspectiva de segurança, seja também o acompanhamento em outro plano em financiamento, apoio técnico, etc, a nível internacional. Portanto, haverá sempre uma supervisão internacional. Da parte da Autoridade Palestiniana, da parte da entidade palestiniana, o que se julga neste momento que será a decisão, será exatamente uma liderança de uma Autoridade Palestiniana reformada, mas envolvendo as diversas facções de Gaza. As referidas 14 facções do acordo de Pequim, que junta realmente a Cisjordânia com Gaza, poderá ser exatamente a solução. Se chegamos lá e se realmente dentro dos quatro grandes cenários nós tivermos essa disponibilidade, porque verdadeiramente e considerando as incertezas cruciais em que as partes vão cumprir e a comunidade internacional virá efetivar o seu apoio, verdadeiramente só um dos quatro cenários é que permitirá proceder com um sucesso, que é exatamente em que as vontades todas se alinham. Todos os outros, os outros três, com todos os caminhos e barreiras que têm pela frente, determinam o insucesso deste processo.

Jorge Rodrigues, muito obrigado por ter estado conosco. Sabemos que tem outros compromissos. Obrigado por ter estado conosco nesta edição especial de Gabinete de Guerra, oficial das Forças Armadas e também coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Continuamos nesta emissão especial com Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa, e também com Helena Ferro Gouveia, especialista em Relações Internacionais. Estamos a analisar este entendimento entre Israel e o Hamas, sendo que, Vanessa Cruz, é um entendimento que acontece também a cinco dias de uma nova administração norte-americana.

E por isso vou chamar Helena Ferro Gouveia à conversa, especialista em Relações Internacionais, como dizias. Qual é a importância, Helena, e obrigada por estar também conosco, deste acordo para o novo executivo norte-americano? Acaba por ser aqui Donald Trump o grande vencedor deste processo ou a administração Joe Biden ainda pode também aqui reclamar alguns louros?

Muito boa tarde. Boa tarde a todos que estão aí no estúdio e também aos ouvintes da Rádio Observador. Parece-me que há aqui uma repartição de louros entre as duas administrações norte-americanas. Nós não nos podemos esquecer de todos os esforços que foram envidados por Antony Blinken, que fez uma diplomacia de vai e vem aos vários países do Médio Oriente, tentando chegar a um entendimento e a um fim deste conflito na Faixa de Gaza. E vimos Donald Trump, que exerceu uma pressão muito grande sobre o executivo de Benjamin Netanyahu, no sentido de ele aceitar este acordo. E exerceu também pressão sobre o Qatar, tinha a capacidade de exercer aqui esta pressão. Parece-me que este acordo, e atenção, nós ainda estamos a falar de um acordo que vai passar ainda por três fases, ele tem que ser aprovado no gabinete de segurança nacional israelita, tem que ser aprovado no gabinete do Netanyahu, e depois temos aqui dois dias que têm que ser deixados para caso haja alguém que queira apresentar ao Supremo Tribunal Israelita, um processo contra este acordo, ainda há aqui um prazo que medeia o acordo estar de facto formalizado, mas tudo indica que assim será, vemos pelas reações também israelitas. Agora parece-me que sem dúvida para Donald Trump é uma das melhores formas de começar aqui o exercício do seu novo mandato como presidente dos Estados Unidos da América, com uma vitória diplomática e sobretudo num terreno que é tão complexo e tão conflituoso como é o Médio Oriente. Mas nós sabemos também da anterior administração norte-americana, de Donald Trump, que Trump sempre teve um interesse nesta região e sempre tentou gizar aqui uma pacificação da região. Aliás, os Acordos de Abraham podem ser atribuídos e esta tentativa de reatar as relações de Israel, de estabelecer relações diplomáticas entre Israel e a Arábia Saudita, se devem a uma anterior administração Trump. E sempre houve um interesse aqui, porque ele percebe que o Médio Oriente estabilizado acaba por jogar a favor daquilo que são os interesses nacionais norte-americanos e, sobretudo, porque há aqui um inimigo Sistémico norte-americano, que é o Irão, que está no chamado eixo dos crines, da China, da Rússia, o Irão e da Coreia do Norte, e que são um eixo que tem vindo a pôr em causa aquilo que é toda esta arquitetura mundial onde os Estados Unidos têm um lugar dominante. Estas coisas andam inter-relacionadas.

Irão que está à beira também de assinar um pacto estratégico com a Rússia ainda nos próximos dias. Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa, obrigado por estar também conosco. É Donald Trump o grande vencedor deste processo? Até porque esta tarde, na rede social Truth, a rede social de Donald Trump, escreveu o próximo presidente dos Estados Unidos da América, que este acordo de cessar-fogo é épico e que só aconteceu devido à vitória histórica que teve em novembro, que essa vitória sinalizou ao mundo inteiro que a administração de Trump procuraria a paz, negociaria acordos para garantir a segurança de todos os americanos e de todos os aliados. É Trump o vencedor?

Antes de mais, obrigado à Rádio Observador pelo convite e aos ouvintes também uma boa noite. Para já é um dia histórico. Ainda estamos à espera das declarações em Doha, no Catar, de percebermos todos os detalhes deste acordo de paz. Parece-me que quem analisa racionalmente esta situação, é claro, uma vitória também para a administração Biden, mas neste momento, e Trump sabe fazer isso tão bem, aquilo que transparece é mesmo aquilo que acabou de dizer agora, que é uma grande vitória para Donald Trump. Ainda mais porque, só recordar que Trump teve um enviado no Médio Oriente neste fim de semana, no fim de semana passado, Steve Witkoff, enviado de Donald Trump, que ao mesmo tempo que as negociações decorriam em Doha, no Catar, com as delegações dos países árabes e também dos Estados Unidos, Steve Witkoff fazia pressão sobre Benjamin Netanyahu para que Benjamin Netanyahu aceitasse as condições do acordo. Trump sabe o que fez, está a capitalizar isso. Disse que ia ter um acordo de paz antes de ser empossado. Isso realmente aconteceu. E ele vai capitalizar isso mais do que-

À partida, irá capitalizar. Vítor Gabriel Oliveira e Helena Ferro Gouveia, peço desculpa por vos interromper e peço que continuem conosco, mas está nesta altura a falar o primeiro-ministro do Catar, Miguel Cordeiro.

Estamos a acompanhar pela Al Jazeera. Está a falar em árabe, escutamos aqui uma dobragem em direto em inglês, pela televisão Al Jazeera. A ajuda humanitária vai chegar com intensidade a toda a Faixa de Gaza. Hospitais, centros de dia vão ser reabilitados. O Hamas vai nesta primeira fase libertar 33 reféns e Israel vai libertar vários prisioneiros. Os detalhes da segunda e terceira fase vão ser divulgados durante a primeira fase, quando já estiver implementada. Continuaremos a acompanhar este processo e medir este processo durante todas as três fases. Catar vai continuar a trabalhar para restabelecer a paz na região. Queremos que todos honrem este processo em todas as fases. É importante entregar essa ajuda humanitária e libertar todas as pessoas que vivem na Faixa de Gaza. Trabalhamos para ajudar todos os palestinianos que estão a lidar com esta situação de conflito. E continua a destacar aqui o primeiro-ministro do Catar este acordo que temos vindo a detalhar também ao longo desta tarde. São registos que vamos continuar a detalhar ao longo desta tarde informativa. Continuamos com a análise, Vanessa Cruz, mas a detalhar o primeiro-ministro do Catar, que foi alcançado este acordo, e a confirmar também aquilo que vínhamos dizendo ao longo desta tarde, a segunda e a terceira fase só vão ser detalhadas mais à frente, quando começar a ser implementada esta primeira fase do cessar-fogo.

E com esta garantia de que a ajuda humanitária vai chegar, sim, à Faixa de Gaza, o Hamas vai libertar os tais 33 reféns de que vínhamos falando, Israel vai libertar também vários prisioneiros. Volto a chamar agora Helena Ferro Gouveia, que está conosco neste gabinete de guerra especial. O Catar aqui, o primeiro-ministro do Catar, Mohammed Al Thani, a garantir, Helena, que o processo vai ser honrado em todas as fases ou pelo menos o Catar vai ajudar nessa mediação. Será também aqui um vitorioso deste processo?

O Catar funcionou aqui, de facto, como mediador e tem um leverage importante sobre o Hamas. Era no Catar que se encontravam os líderes do Hamas e há muito tempo. Portanto, se há alguém que conhece bem e que de alguma forma também facilitou a implementação do Hamas na Faixa de Gaza, é o Catar, mas sim, do ponto de vista negocial, sai aqui também vitorioso. Esta primeira fase é uma primeira fase delicada. Naturalmente que hoje é um dia histórico e é um dia de esperança. É um dia de esperança para os palestinianos, porque vão poder Voltar às suas regiões, às suas casas, vão poder receber ajuda humanitária. Tem aqui uma perspectiva de reconstrução da Faixa de Gaza e por isso um dia histórico, acabando aqui as operações militares. É um dia histórico para as famílias dos reféns que aguardam há mais de 450 dias pelas suas famílias, pelos seus entes queridos, pelos seus filhos, pelos seus netos, pelos seus maridos, pelas suas mulheres. Há um momento de grande comoção em Tel Aviv. Simultaneamente, há aqui muito receio, porque das 98 pessoas que ainda se encontram em Gaza, há um número muito elevado de reféns que estarão mortos e há um não saber se isto vai ser uma lotaria, porque ao libertarem-se 33 reféns, que ainda não sabemos se estão todos vivos, numa primeira fase, a pergunta que se coloca é o que acontece aos outros. E há aqui famílias que acusam o Executivo de Benjamin Netanyahu de estar a fazer uma espécie de lista de Schindler com os reféns, salvando uns, não salvando outros, ao mesmo tempo que há famílias e que há muitos israelitas que estão felizes por ver os seus voltar a casa. Estas seis semanas de primeira fase de implementação do acordo serão decisivas e vamos ver se ambas as partes cumprem aquilo que foi acordado. E depois há aqui muitas questões que se colocam, porque no fundo, o que se está a fazer aqui é recompensar a tomada de reféns, porque cada refém israelita equivale a 30, 40 prisioneiros palestinianos. E isto está a ser observado por muitos grupos terroristas como uma forma de exercer pressão sobre outros governos. E se durante muito tempo havia a lógica de não se negoceia com terroristas, no fundo, o que se fez aqui foi, de facto, negociar com terroristas, valorizando aquilo que é a vida dos reféns e dos cidadãos israelitas, mas abre-se aqui um precedente que veremos se a prazo não poderá ser perigoso.

Sendo que tudo isto durou um ano e meio e uma grande perseguição de Israel a todas as altas figuras do Hamas e também depois do Hezbollah. Houve também aqui um grande esforço do Hamas a manter toda essa situação durante todo este período.

Precisamente. Por um lado, uma enorme esperança e uma enorme alegria, um alívio do sofrimento, quer de palestinianos, quer das famílias israelitas e também das famílias. Fala-se muito pouco, mas esta é a guerra mais longa de Israel e é uma guerra que custou muitas baixas. Estamos a falar sobretudo de jovens que abandonaram as suas universidades para ir servir nas IDF, para combater em Gaza e também para combater no Líbano, ou nas outras frentes, e que têm havido aqui um número muito pesado de baixas e tudo isso tem impacto num país relativamente pequeno como Israel, com uma população semelhante à nossa. E este é um momento de alegria, de esperança, mas simultaneamente de alguma apreensão e de algum receio. Veremos como é que estas seis semanas correm e se elas correrem bem, poderemos ter aqui a prazo uma perspectiva também para uma reconstrução em Gaza e um caminho para uma solução política, para um conflito que dura há décadas e décadas, e que tem sido pago a um preço muito elevado de ambos os lados.

Vitor Gabriel Oliveira, já falámos muito aqui do Qatar e também dos Estados Unidos da América. Que papel é que pode ter a Europa em todo este processo? Que papel é que a Europa pode agora também ter nesta nova fase para a Faixa de Gaza? É na ajuda humanitária que a Europa pode dar o principal contributo?

Sim, eu penso que sim. A Europa tem que primeiro dar esse contributo, dar esse primeiro passo com a questão da ajuda humanitária, mas também penso que em termos de estratégia de negociação para a Ucrânia, a Europa pode começar a tirar ilações daquilo que é que poderá acontecer nas negociações, prevê-se durante 2025, para a Ucrânia. Ou seja, é importante que a Europa comece a perceber como é que o Donald Trump e os enviados do Donald Trump se comportam no terreno, nas negociações e como é que forçam os seus aliados a negociar da forma que eles pretendem. E pegando um pouco nas palavras também da Helena, este acordo é de salutar, mas só de referirmos que, na realidade, o Hamas conseguiu um dos seus principais objetivos, que era libertar prisioneiros palestinianos. Os números ainda não são completamente claros nas fontes internacionais, mas falamos aqui de muito mais libertação de prisioneiros palestinianos do que libertação em termos de equitatividade para com os prisioneiros israelitas e para com os reféns israelitas. E isto não deixa de ser uma derrota para Benjamin Netanyahu, porque sempre disse que isso não aconteceria. E vamos avaliar o que é que depois os partidos que o suportam no poder vão fazer a seguir a estas seis semanas. E também, outra das questões que Benjamin Netanyahu falou bastante no último ano e meio foi que iria acabar com o Hamas e isto prova que o Hamas não acabou, está sentado à mesa das negociações em Doha e vai continuar na Faixa de Gaza, porque Benjamin Netanyahu irá assinar um acordo que diz que as tropas israelitas, a seguir à conclusão destas seis semanas, sairão da Faixa de Gaza.

Há certamente, de facto, muitos desafios ainda pela frente, mas esta notícia, pelo menos agora confirmada também pelo primeiro-ministro do Qatar, cessar-fogo na Faixa de Gaza. Vamos naturalmente continuar a acompanhar aqui na Rádio Observador e também em observador.pt. Agradecemos aos dois, Vitor Gabriel Oliveira e Helena Ferro Gouveia, por terem estado nesta edição especial de Gabinete de Guerra.