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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira, com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Já vamos à Venezuela, mas primeiro à Ucrânia, que tem ficado esquecida depois do ataque a Caracas. Zelensky acredita que a guerra pode terminar nos próximos seis meses, durante a presidência cipriota do Conselho da União Europeia, e diz que as negociações com os parceiros europeus e com os Estados Unidos entraram numa nova fase, que descreveu como um novo marco. Bruno, a Rússia não tem dado sinais de querer a paz. O que leva Zelensky a dizer isto? É mais um desejo do que uma realidade?
Acho que, de facto, certezas não podemos ter, ninguém pode ter, mas a missão de Zelensky não é propriamente fazer análises. No fundo, é liderar o país e também alimentar algum horizonte de esperança num contexto de uma guerra muito prolongada e, portanto, em que é realmente muito difícil moralizar as pessoas para continuar a resistência. Acho que a grande vantagem de Zelensky é que a maioria dos ucranianos parece saber que realmente desistir de lutar com a Rússia de Putin seria, no fundo, aceitar uma subordinação ao Kremlin, portanto, o fim da liberdade da Ucrânia, quer em termos de política externa, quer em termos de política interna. Mas isso também, apesar de tudo, torna importante haver realmente aqui algum horizonte de esperança, como eu dizia, que passa também por esta ideia de que a Rússia também está muito desgastada por este conflito e que se se mantiver realmente um nível de apoio externo importante da parte do Ocidente, neste caso, sobretudo da Europa, como sabemos desde a eleição de Donald Trump, que apesar de tudo, isso poderá ser decisivo para levar a que a Ucrânia consiga terminar a guerra minimamente nos seus termos e não em termos impostos pela Rússia.
Entretanto, Donald Trump assinou uma declaração para retirar os Estados Unidos de 66 organizações internacionais, 35 não pertencem às Nações Unidas, mas as restantes fazem, sim, parte da ONU. Bruno, Washington não menciona quais são as organizações, mas que impacto é que isto pode ter?
No fundo, é confirmar realmente a ruptura radical que Donald Trump representa, mesmo em relação ao seu primeiro mandato. Agora, não é propriamente uma surpresa, neste sentido, que ele anunciou repetidamente a sua hostilidade a esse tipo de organizações que nós costumamos designar como multilaterais nas relações internacionais, ou seja, no fundo, organizações que têm um número muito amplo de países, que geralmente não discriminam esses países em função do seu poder. Muitas vezes, inclusive, à partida, no sistema das Nações Unidas, essas organizações incluem todos os países do mundo, todos os países soberanos. Qual é que é o impacto que isso pode ter? Pode ter um impacto, desde logo, no orçamento dessas organizações, porque apesar de os Estados Unidos muitas vezes serem críticos dessas organizações e vice-versa, de haver muitas vezes também críticas aos Estados Unidos nessas organizações, a verdade é que, historicamente, os Estados Unidos foram responsáveis pela criação de muitas dessas organizações desde 1945 e também pelo seu financiamento. Em muitos casos, era o principal financiador ou dos principais financiadores, portanto, aí pode ter um impacto significativo. Por outro lado, também pode ter um impacto negativo para a própria imagem, para o prestígio dos Estados Unidos e, eventualmente, destas organizações também. Portanto, claramente corresponde a uma crise grave da ordem global construída a partir do final da Segunda Guerra Mundial, em que os Estados Unidos tiveram um papel central. E agora temos este paradoxo, que é: são os próprios Estados Unidos, e não propriamente outras potências emergentes, que querem rever de forma radical essa ordem global.
Entretanto, Bruno, soubemos ontem pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de França que os líderes europeus se preparam para responder às ameaças de Donald Trump sobre a Venezuela, a Gronelândia. Disse que vão responder a qualquer forma de intimidação. Que tipo de resposta estará a falar? Um exército europeu, por exemplo, seria uma forma de fazer frente à atual ofensiva norte-americana, uma espécie de união de defesa.
Nós sabemos que, aparentemente, a França está a ter aqui um protagonismo grande. Sabemos que, por exemplo, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês falou com o seu homólogo americano diretamente para ele dar a garantia de que realmente isto é, aqui entre aspas, apenas retórica, portanto, que não será uma ameaça para se concretizar em relação à Gronelândia, em particular em relação à Dinamarca. Realmente é algo, mais uma vez, absolutamente radical e em ruptura com o que é habitual. Não estamos a falar apenas do Da letra e do espírito do Tratado de Washington que criou a NATO, ou seja, a essência de uma aliança como a NATO é que os países garantem a integridade territorial dos outros aliados. Obviamente, o que está implícito é: garantem não apenas porque vão tentar evitar ou vão ajudar a que inimigos externos ponham isso em causa, invadam, ataquem determinado país aliado, mas obviamente eles próprios não vão fazer isso. E isso não é uma coisa que venha da Carta das Nações Unidas de 1945, vem sempre na história humana. À partida, os aliados não atacam outros aliados. E portanto, há aqui esse papel diplomático. E depois, à partida, temos também notícias de que a França terá mesmo disponibilizado à Dinamarca a possibilidade de enviar tropas, de enviar meios para a própria Groenlândia, em coordenação com a Dinamarca, para, no fundo, dar aqui um sinal concreto de apoio e até dissuadir eventualmente ações norte-americanas. Aparentemente, a Dinamarca, para já, terá sinalizado que não achava que isso fosse necessário ou útil. Eu tenho dúvidas que isso não seja necessário ou não seja útil. Mas realmente, em relação à questão de outras medidas, a questão do exército europeu, o problema que se coloca é sempre, por um lado, a questão de que isso demora tempo, ou seja, no fundo, refazer as instituições demora tempo e um dos problemas que a Europa tem é que tem muitos meios no papel, mas depois tem dificuldade em usá-los de forma rápida, robusta e coordenada. Por um lado, há essa questão, por outro, há resistências institucionais, corporativas, embora é verdade que todas as sondagens mostram de forma crescente que a opinião pública europeia, ao contrário até do que se poderia esperar, parece ser favorável a isso. Geralmente, mais de 60%, em média, dos europeus, nas sondagens que temos, mostram que querem mais Europa da defesa. Eu diria que o que parece mais razoável é realmente garantir que se faça uma certa federalização nesse campo.
Já tinhas falado sobre defesa.
Exatamente. Ou seja, se calhar começando, primeiro que tudo, ao nível do próprio financiamento, depois ao nível deste esforço de rearmamento ser feito de uma forma muito mais coordenada. Estão-se a dar passos nesse sentido, mas realmente era fundamental que a Europa conseguisse ter aqui muito mais coesão para que realmente esta soma virtual, que faz com que a Europa, em conjunto, já gaste muito em defesa, mais de 300 mil milhões de euros ou dólares. Isso significa que só é basicamente ultrapassada pelos Estados Unidos, que está próxima do volume da China, que gasta mais do que a Rússia. Mas a questão é que essa soma, muitas vezes, é uma soma virtual e não uma soma real.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana, Bruno.
Obrigado.
Obrigada.
Igualmente, obrigado.