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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta segunda-feira. A análise é do Miguel Baumgartner, especialista em assuntos internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá, Marijoal, bom dia.

Olá, Miguel, bom dia. Começou hoje o terceiro de seis dias de luto nacional pelo funeral de Ali Khamenei, que já reuniu milhões de pessoas em Teerão a clamar por vingança contra os Estados Unidos e Israel. Durante as cerimônias, o clero iraniano fez ameaças diretas à vida de Donald Trump. Miguel, várias perguntas, mas a primeira: há condições reais pra um acordo de paz quando o regime iraniano jura abertamente a morte do presidente americano?

Bom dia novamente, Marijoal. Nós temos que dividir aqui duas coisas. Temos que dividir aquilo que é a tentativa política, efetivamente, de se conseguir um acordo com os Estados Unidos, que nós sabemos que o Irão não confia e que os Estados Unidos não confiam no Irão, e os dois têm objetivos completamente diferentes. Os Estados Unidos querem um acordo que os liberte do problema do Oriente Médio e que dê a Donald Trump uma ideia de ter vencido mais uma guerra, nesta sua ideia fantasiosa de já ter terminado com sete, oito ou nove guerras, já não sei o número certo, porque isto depois muda conforme o entendimento dele. E o Irão, efetivamente, de sair reforçado, de fazer um acordo com os Estados Unidos saindo reforçado e dando a imagem de ter vencido e ter obrigado os Estados Unidos a aceitar um acordo que seja favorável ao Irão e que permita ao Irão continuar com esta ideia crescente de que ganhou agora a hegemonia política e geopolítica na região. Obviamente, que toda a encenação religiosa e política que está a ser composta nas cerimônias fúnebres permitiria também, de alguma forma, ou está a permitir também, de alguma forma, que o próprio regime, internamente, tente, se me permites esta expressão, lamber as feridas impostas por aquilo que foi a guerra, pelas sanções econômicas brutais que está a sofrer ainda, e também daquilo que aconteceu em janeiro e em fevereiro, quando a população saiu à rua e cerca de 40 mil pessoas foram assassinadas. Este é um momento político e cênico, ao mesmo tempo, de dar a ideia de que a população está unida à volta deste regime e que este regime está vivo, forte e tem a consciência-

E longe de colapsar.

Longe de colapsar e que o inimigo de sempre, porque este regime, que é criado em 79, sempre teve por inimigo a vida ocidental, os países ocidentais, mas nomeadamente aquele que eles chamavam o grande Satã e o pequeno Satã, ou seja, os Estados Unidos e Israel. Que isto continua e este é o elo de ligação, esta é a cola que une a sociedade iraniana em torno deste regime. Era normal que nós víssemos, nestas cerimônias fúnebres, este ataque velado aos Estados Unidos e dizer efetivamente de que vão vingar a morte do seu líder. Não seria de esperar outra coisa. Eu digo que há aqui uma encenação política de reforçar a imagem efetivamente do próprio regime, mas o regime está longe de querer também fazer, para já, um acordo com os Estados Unidos. Há aqui um compasso de espera e há aqui um hiato temporal que nós temos que ter em atenção, porque neste momento temos um memorando de entendimento, ou seja, os dois lados aceitaram parar as hostilidades, aceitaram que temas é que poderiam discutir no futuro. Se me vais perguntar se nós vamos ter um acordo ao final dos 60 dias, não, não vamos. E inclusive poderemos ver depois das midterms, e há já efetivamente uma linha nos Estados Unidos que defende isso, de que se volta às hostilidades novamente após as eleições nos Estados Unidos.

Quanto à guerra na Ucrânia, Kiev atingiu o principal terminal de petróleo em São Petersburgo, a terra natal de Vladimir Putin. Zelensky diz que o alvo foi precisamente a infraestrutura que financia a máquina de guerra russa. Miguel, esta asfixia da infraestrutura energética russa é a verdadeira alavanca que Kiev tem para impedir que Trump e Putin imponham um acordo de paz injusto para a Ucrânia? Ainda este fim de semana, Putin voltou a dizer a Trump que quer ficar com todo o Donbass.

Fazendo aqui até uma analogia do ponto que estávamos a falar anteriormente, eu diria que isto aqui é efetivamente o Estreito de Ormuz da Ucrânia. Ou seja, a Ucrânia percebeu-se que a sua guerra não passa só por defender os oblasts ou a linha dos oblasts ocupadas, não passa só por fazer uma guerra em profundidade, passa por atacar aquilo que é ainda o bem que a Rússia tem para se financiar e para, de alguma forma, financiar esta que é a sua economia de guerra, que é efetivamente a questão do petróleo e, portanto, das refinarias dos hidrocarbonetos. E esta é a guerra que a Ucrânia está a fazer, porque, tal como eu dizia, é o Estreito de Ormuz da Ucrânia. É aí que a Ucrânia pode, de alguma forma, também fazer a Rússia sentir necessidade de vir à mesa das negociações ou pelo menos começar também a criar internamente na Rússia o desconforto econômico que está a acontecer. Há muita gente que não quer admitir. A Rússia não está em colapso financeiro, ou seja, não vai entrar em bancarrota de um dia pro outro. Mas neste momento tem sérios problemas econômicos Tem um défice brutal, utiliza hoje mais de 50% do seu fundo soberano, que já foi utilizado para financiar aquilo que é esta máquina de guerra, tem uma inflação galopante. O próprio presidente do Banco Central reconhece a dificuldade do que é arranjar mão de obra. Sabemos também daquilo que é a questão de mortalidade e de baixas na frente de batalha russa. Portanto, tudo isto é um bolo que cria problemas internos a Vladimir Putin.

Mas Miguel, não devemos temer um intensificar dos ataques russos, por Putin se sentir humilhado perante estes ataques de Kiev?

Exatamente o que nós vamos assistir, e já estamos a começar a assistir neste verão, é uma escalada de Putin na tentativa de amedrontar, de alguma forma, a Ucrânia, de voltar a ganhar o momentum da guerra. Mas neste momento a Ucrânia tem uma coisa: a Ucrânia sabe, dois pontos e com isto termino, que tem condições militares de impor um empate à Rússia neste momento. E a Rússia não tem capacidade militar, a não ser que utilizasse, num momento de loucura, qualquer arma nuclear, mas não utilizando isso, o que não nos parece a 100% que isso possa acontecer, a Rússia, neste momento, não tem militarmente capacidade de derrotar a Ucrânia. E a Ucrânia sabe que uma das suas melhores opções para forçar um entendimento e uma reunião, que depois, de alguma forma, permita estarem numa posição de negociar ao mesmo nível, é enfraquecer toda a estrutura de financiamento da economia russa, que é efectivamente a questão dos hidrocarbonetos, é a questão do petróleo. E isto, obviamente, que vai obrigar a que Putin, de alguma forma, tenha que reapostar, até porque este grande ataque foi feito na sua terra natal, mas ele também sabe que quanto mais ataca em profundidade, mais também sofre este ataque em profundidade da Ucrânia. Agora vai ser um pouco este jogo do gato e do rato, se me permites, mas acima de tudo é saber até quando é que a Rússia tem condições de sustentar esta máquina de guerra a sofrer estes ataques e que na semana passada, por exemplo, fizeram com que Putin admitisse a primeira vez que está com dificuldades de combustíveis, da refinaria de combustíveis, onde tiveste filas de 36 horas para as pessoas poderem abastecer os seus carros. E, portanto, começa-se a sentir na Rússia aquele desgaste e aquela fadiga de guerra, que há uns anos e uns meses atrás nós assistíamos só na Ucrânia, começa a existir também dentro de portas e isto pode fazer com que Vladimir Putin intensifique os ataques. Dependerá muito do apoio de Donald Trump.

E esta noite assistimos a novos ataques a Kiev. Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana. Obrigada.

Obrigado, respondia. Igualmente