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E começa agora mais um Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta terça-feira com a análise de Jorge Rodrigues, coordenador do Observatório de Risco Geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo. Bom dia, Jorge.
Bom dia.
Olá.
Bom dia, Maria Joana.
Jorge, começamos pela guerra da Ucrânia e sobre o que se passa no terreno. Depois da nova contraofensiva deste fim de semana em Kursk, Zelensky diz que em cinco meses já morreram quase 15 mil soldados russos e que esta região pode ser a chave nas negociações de paz. Que leitura devemos fazer? É ter moeda de troca no que respeita a ceder território ocupado?
Sim, em primeiro lugar, é essencial na mesa de negociações, mas antes de chegar à mesa de negociações, há também outro tipo de impacto noutras dimensões, integradas num conjunto de ações mais amplas, de ataque complexo, bem essenciais para a moral interna das tropas e do povo ucraniano, que basicamente estão envolvidas em tudo o que foi desenvolvido em território nacional russo. A partir do momento em que começaram a haver ações em território nacional russo, seja mais vistosas, mais impacto, mais percepção, como os ataques a Moscou diretamente, mas também às infraestruturas de energia, aos portos comerciais, ainda agora em Ust-Luga, portanto, no Leningrado, no Báltico, um porto comercial foi atacado, às bases militares. Criar algum tipo de instabilidade, dar uma percepção de insegurança ao povo russo, sentir que a guerra chega ao seu território, alguma fragilidade também de Putin. Depois, a escolha precisa de Kursk, que tem um impacto, eu diria até com um certo exagero, que é a Aljubarrota russa, que em 1943 uma grande batalha que foi determinante no combate contra os alemães, a maior batalha individual per se, portanto, carros de combate, foi com uma grande dimensão psicológica. Essa área mantém essa ligação a essa percepção de segurança, que agora se transformou numa percepção de insegurança, mas também de alguma forma no campo operacional. Há bases logísticas na região que são afetadas, há infraestruturas menos energéticas e depois há também a nível de defesa aérea, de mísseis de longo alcance que tiveram que ser retirados para outras posições. Foram as reservas que foram redirecionadas para aquela região e há, de facto, um problema também de recrutamento na Rússia. Portanto, toda a qualidade das forças teve que ser alterada, deixando de ter-se apenas forças de segurança normais. Há impactos psicológicos e operacionais, mas definitivamente o que está aqui em causa é verdadeiramente conseguir uma melhor posição na mesa de negociações, ainda para mais que Trump poderá chegar para impor, entre aspas, uma situação de negociação de paz. É importantíssimo conseguir uma boa posição que antecipe esse momento e que permita, de alguma forma, compensar o menor sucesso que está a acontecer em território ucraniano.
Entretanto, Zelensky revelou que pouco depois do início da guerra, o presidente bielorrusso lhe ligou a pedir desculpas e a dizer: "Foram lançados mísseis daqui, mas não fui eu, foi Putin". Claro que Lukashenko já vem negar que isto tenha acontecido. Ainda assim, Jorge Rodrigues, que impacto pode isto ter na relação entre o líder bielorrusso e Putin?
Há aqui uma indublável ligação entre os dois. O destino de um é o destino de outro. Aliás, há uma ligação que já vem do anterior, em que a ajuda de Putin para Lukashenko se manter no poder todos estes anos. Há uma ligação real entre os povos, de facto. Eu julgo que mais do que negar, ele apenas tentou tirar relevância ao facto. E por quê? Podemos identificar talvez três razões, eu diria: evitar ser igualado a Putin, preocupado na altura com a imagem regional e internacional, eventualmente até com problemas de justiça futuros à nível internacional. O impacto existe, isso não há dúvida, mas não me parece que seja elevado. A nível de perda de confiança, julgo que Putin não confia verdadeiramente em ninguém, portanto, só vem a alicerçar a sua situação, não é verdadeiramente por aí. Até porque estamos noutra fase do conflito, muito mais profunda, muito mais envolvidos. Haverá consequências diretas no terreno? Não. Psicológicas? Não. Operacionais? Não. Julgo que na relação entre os dois já teve melhores momentos no passado, já houve aqui algumas situações em que Lukashenko demonstrou ter um pouco de opinião própria, mesmo quando tenta servir de ponte. Eu julgo que houve ali momentos determinantes no meio do conflito, mas neste momento não é particularmente relevante o impacto que virá a ter no futuro.
Sobre o Médio Oriente, Antony Blinken diz estar confiante de que um acordo possa ser alcançado antes de Donald Trump tomar posse, portanto, no dia 20. Jorge, este é um desejo, uma vontade que contrasta com a opinião de que Netanyahu estará à espera da tomada de posse de Trump.
Eu acho que nem Blinken acredita verdadeiramente no que está a dizer. Porque já temos vindo a falar nisto. Há, de facto, uma evolução bastante grande neste momento dos acordos de paz ou no processo para tal. O nível dos responsáveis envolvidos é, de facto, mais elevado. Estamos a falar já dos dirigentes e nomeadamente Netanyahu a falar dos acordos de paz. Há prognósticos que estão alémA atingir que não havia discussão anterior, mas eu acho que ainda não estamos no momento de equilíbrio estratégico. Há algo que ainda tem que ser conseguido, há questões em aberto, como os reféns, como o cessar-fogo ser ou não temporário ou definitivo, o papel futuro do Hamas, que tem negociações com a autoridade palestiniana para fazer parte da direção política futura da região, o que não é definitivamente bem visto e não é aceito por Israel. Depois há os objetivos maximalistas de Israel, que para além de tudo isso envolve uma segurança alargada. Nós temos que ver que, apesar de tudo e não considerando outras envolventes, tem uma oportunidade para Israel. Os adversários estão fracos, Israel conquistou isso. E tem um objetivo de segurança definitivo. Isso envolve reconfigurar de alguma forma o Médio Oriente, transformá-lo para uma situação mais estável com aliados regionais, com uma maior ocupação de terreno que lhe permita, de alguma forma, ter uma proteção de buffer zones com as posições estratégicas ocupadas, ter maior território que lhe permita combater aquilo que verdadeiramente sempre foi a sua fragilidade, que é a falta de profundidade estratégica. Portanto, todas estas envolventes que nós também notamos do lado do Hamas, que vai tendo ainda algum tipo de retração em relação ao avanço direto para as negociações de paz, não auguram uma imediata solução.
Entretanto, o presidente turco diz que está pronto para intervir militarmente na Síria em caso de risco de fragmentação, relembrando que a Turquia tem capacidade para o fazer. Jorge Rodrigues, por que todos os caminhos que levam à Síria parecem passar por Ancara?
Eu diria que é vingança de Erdogan, com um bocado de exagero, mas verdadeiramente Erdogan sempre quis ser um ator regional relevante e de alguma forma ser considerado e ser envolvido em tudo que se passa na região. É uma potência pan-regional, isso é definitivo, e que acaba por tentar liderar dentro daquela competição de líder islâmico muçulmano, na competição com a Arábia Saudita, com Irão e com outros atores, maioritariamente com eles. Erdogan gostaria de ter realmente um papel de alguma forma de neo-otomanismo, diríamos. Estamos a falar, para todo efeito, da segunda maiores Forças Armadas da NATO, portanto, não é despiciendo. Por outro lado, uma indústria de defesa pujante, trouxe verdadeiramente os drones para o teatro de operações gerais, com intervenções em vários países. O intervencionismo regional, já longe vão os tempos de Atatürk, de paz em casa, paz no mundo. Portanto, temos aqui um papel totalmente diferente da Turquia. A Turquia, que foi desconsiderada por Assad, que foi desconsiderada no momento do conflito sírio no seu início, de alguma forma está a fazer a sua vingança. Apoia e tem capacidade de influenciar o HTS, controla o SNA, que está num conflito direto a ganhar posições aos curdos do SDF, apoiados por Estados Unidos. Tem capacidade efetiva de influenciar, de destabilizar ou tentar estabilizar no terreno. Portanto, o Ocidente procura de alguma forma usar a Turquia como ponto entre dois mundos. Curiosamente, o título de um livro meu de há 20 anos atrás e que, portanto, agora se torna nova realidade, que a Turquia pode ser realmente essa ponte e pode ter a capacidade. Serve um pouco como uma resolução derivada dos seus problemas que a Europa, Bruxelas já usou em momentos como no momento dos refugiados, etc. É um protagonismo que Erdogan sempre procura e que agora é uma oportunidade. Como ideia final, no entanto, há demasiados atores internos e externos, não será fácil a um país como a Turquia, per si, resolver todos os problemas. De qualquer maneira, será sempre um bom ponto de entrada, tal a capacidade de contactar com vários atores na Síria, naturalmente.
Sim. E ainda sobre a Síria, Jorge, desde ganhar um aliado até enfraquecer a Rússia, a Ucrânia tem interesse em apoiar o grupo HTS, isto numa altura em que sabe que o novo regime sírio tem tentado estabelecer boas relações com quase todos os países.
Ora bem, isto tem aqui dois vetores de análise. Um primeiro é relativamente à Ucrânia e ao esforço que procura ter atores que poderão servir de alguma forma para limitar a influência russa. Portanto, a Rússia, neste sentido, e ainda dentro deste vetor, demonstra um momento de fraqueza pela sua incapacidade de defender alguns aliados antigos como é a Síria. Isso transporta-nos um pouco também para o que se vai passar na Europa, que até está mais ligado a outro conflito, que é a reunião do grupo Ramstein, em que há verdadeiramente algum tipo de movimentações para dentro da arquitetura de paz da Europa, preparada para, como Durão Barroso dizia, que não haveria uma solução definitiva para a guerra. Portanto, preparar para a guerra futura, de alguma forma, uma arquitetura de segurança alargada que envolve também o Médio Oriente e portanto, é este vetor de ligação entre os dois conflitos. Mas, por outro lado, e é talvez aí diretamente mais o que concerne à pergunta, que é a inteligência da liderança do HTS. De alguma forma, percebeu que a sua origem islamista salafista assustava o Ocidente e que tinha que demonstrar algum tipo de pacificação para conseguir que a sua imagem seja aceita. Isso começou até num simples facto, o vestuário, a maneira como cumprimenta, a maneira como se senta, etc. Teve agora algo muito limitado que foi o não ter cumprimentado a ministra germânica. Mas a verdade é que tanto internamente em que procura evitar fazer perseguições diretas a adversários, apesar de ter já havido algum tipo de caso, nomeadamente em relação à comunidade alauita, aos conflitos com o SOR no sul, como a nível externo procura de alguma forma desenvolver uma política de boas relações com todos e não uma política de isolamento. Parece-nos, no entanto, ser apenas uma imagem, uma imagem para conquistar alguma forma uma solidificação inicial do poder. Receio que se possa vir a seguir no futuro, tendo em conta que as origens estão lá dentro do grupo, há elementos muito extremistas e a verdade é que os moderados não estão definitivamente do lado do HTS. Portanto, não prevejo que a longo prazo mantenha essa imagem, mas demonstra, de facto, diria até alguma profundidade estratégica na maneira como se está a tentar posicionar para, de alguma forma conquistar o poder, solidificar o poder num país que está completamente espartilhado como é a Síria.
Jorge Rodrigues, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia, Jorge.
Bom dia, Maria João. Até breve.
Muito obrigada.