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Está a começar o Gabinete de Guerra das Manhãs 360 com o historiador Bruno Cardoso Reis. Viva, Bruno, bom dia.
Olá, bom dia.
Bruno, vamos começar pela visita do primeiro-ministro Netanyahu em Washington. Do que é que resulta desta visita do chefe de governo de Israel?
Até ver, não resulta grande coisa. Aparentemente, há aqui uma reafirmação da proximidade entre os Estados Unidos e Israel. Não houve propriamente pressões públicas do presidente norte-americano, Donald Trump, nada parecido à chamada F-bomb. Portanto, aquela explosão de impaciência do Donald Trump com Israel a respeito do conflito com o Irão, que rapidamente levou a um cessar-fogo. Aqui temos a indicação de que as negociações continuam no Qatar, mas não há resultados, pelo menos não há resultados decisivos. E isso reflete a dificuldade que temos comentado aqui várias vezes, que é a posição dos dois lados continua a parecer bastante incompatível. De um lado, temos o Hamas a insistir no fim do conflito armado em troca dos reféns, que é o único trunfo que ainda tem, e do lado de Israel continua-se a insistir que isso não é aceitável e que terá de haver aqui um fim definitivo do Hamas em Gaza. Ora, aceitar um cessar-fogo com o Hamas, que implicaria a retirada das tropas israelitas, não parece muito compatível com isso. O mais preocupante, eu diria, é que parece continuar a haver aqui referências a esta ideia de uma saída dos palestinianos de Gaza em número significativo, referências do Donald Trump a que haveria acordo dos países da região nesse sentido. Ora, nada disso parece corresponder à realidade e realmente a avançar, sobretudo no contexto atual, em que basicamente Gaza está completamente destruída, etc, corresponderia aqui a uma pressão sobre a população civil para haver um processo de limpeza étnica, que é um velho objetivo de uma parte da extrema-direita israelita, mas que até aqui não era o objetivo declarado do Estado de Israel. Portanto, desse ponto de vista, acho que há aqui alguns sinais preocupantes, no sentido que nem há cessar-fogo e aquilo que parece falar-se mais, parecia apontar para esse risco, realmente um processo de limpeza étnica dos palestinianos.
Numa zona cinzenta do direito internacional, ou não, Bruno?
À partida, eu diria que há muitas zonas cinzentas. E esta insistência, por exemplo, na questão do genocídio, em que muita gente insistia, aliás, já antes do 7 de outubro, continuam a insistir depois do 7 de outubro, agora dizem que agora é que é realmente. Muitas vezes parece-me que na política internacional se abusa desse tipo de conceitos, que devia ser reservado para situações extremas, limites. Não estou a dizer que seja apenas aplicável num caso exatamente igual ao do extermínio em massa dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial pelos nazismo, mas tem de implicar aqui um nível de violência e de eliminação do grupo significativo. No caso dos palestinianos, por exemplo, em Gaza, basta dizer que a população aumentou muito significativamente sob a ocupação israelita, portanto isso dificilmente parece compatível com a ideia de genocídio. Agora, no caso da limpeza étnica, realmente aí já parece mais claro que se está a falar de algo semelhante a isso, porque não há nenhum sinal de que haja vontade disso por parte dos países vizinhos e a haver a aceitação de uma saída por parte de muitos palestinianos, seria certamente porque lhe foram criadas condições impossíveis para continuar a viver em Gaza e isso realmente seria, do meu ponto de vista, manifestamente uma violação da lei internacional.
À margem deste encontro entre Netanyahu e Donald Trump, o presidente americano anunciou que os Estados Unidos vão enviar mais armas defensivas para a Ucrânia, isto uma semana depois de a Casa Branca ter suspendido a entrega de armamento a Kiev. Isto não é contraditório, Bruno? Há alguma contradição aqui?
Parece haver uma contradição, mas neste caso positiva, ou seja, acho que Donald Trump tomou a decisão certa. Provavelmente, é mais um sinal de que há muitos elementos na administração, há elementos trumpistas, se quisermos, bastante piores do que provavelmente Donald Trump, que tem este lado um pouco incoerente, mas isso às vezes é melhor do que uma coerência no sentido errado. E aqui realmente ele parece ter sido sensível à pressão dos aliados europeus e da própria Ucrânia. E provavelmente também esta ideia, este receio, que eu acho que é fundado, que realmente se houvesse um colapso súbito da ajuda militar norte-americana, que muito dificilmente podia ser completamente substituída. Falamos muitas vezes, por exemplo, da questão dos Patriot, é um sistema americano, as munições são americanas, não seria possível substituir esse sistema, que está a ter uma importância crescente porque há um intensificar, uma escalada desta guerra aérea contra a população ucraniana por parte da Rússia. E realmente isso podia levar a um colapso da moral, da vontade de resistência ucraniana, eventualmente um colapso, pelo menos parcial, da resistência em certas zonas e portanto isso seria obviamente atribuído, em primeiro lugar, a esta iniciativa norte-americana. Ou seja, se no caso de Joe Biden, por exemplo, aquela retirada caótica do Afeganistão acabou por ter um impacto muito negativo na opinião pública americana, na percepção da competência do presidente americano, no seu prestígio internacional. Há quem diga, e eu penso que esse argumento não é completamente disparatado, que isso pode ter ajudado Putin a decidir algo que ele já queria há muito tempo, que era avançar para uma invasão da Ucrânia em grande escala. Realmente, se isso acontecesse na Ucrânia, isso seria sacado certamente a Donald Trump. Portanto, parece-me que é uma evolução no sentido positivo. Eu percebo que há limitações na capacidade de produção norte-americana de armamento, sobretudo extremamente mais sofisticado. Eu percebo que é importante ter reservas e que há outros conflitos em outros locais do mundo. Agora, não faz sentido num conflito armado em curso, num país invadido, ao qual os Estados Unidos deu uma garantia de segurança, o famoso Memorando de Budapeste, em 1994, em troca do seu arsenal nuclear ser enviado para a Rússia, em nome, lá está, da tentativa também de acomodar o estatuto da Rússia, que agora, quando esse conflito está em curso, de facto, se privilegiasse reconstituir reservas ou a eventualidade desses sistemas virem a ser precisos noutros sítios, em vez de se continuar a ajudar, pelo menos, de alguma forma, não estou a dizer que seja com um abastecimento ilimitado, isso obviamente não existe, mas que se corte completamente esse abastecimento de armamento aqui indispensável à Ucrânia, isso realmente não me parecia compreensível e, portanto, felizmente que isso foi revisto.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigado pela tua análise no Gabinete de Guerra de hoje.
Obrigado, bom trabalho.
Bom trabalho.